alex castro

História de um celular

Um monge zen estava acompanhando uma pessoa enferma.

Em um dado momento, a pessoa ficou agitada, apreensiva, nervosa.

O monge lhe deu a mão e disse:

“Pode ficar tranquila. Está tudo seguindo seu curso. Não há nada a temer. Você só está morrendo.”

* * *

Essa história me inspira, acalenta, conforta.

Quinta feira, 8 de novembro de 2018, perdi meu pai. » leia o texto completo «

Liberdade no vazio

Dentre as muitas armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos e escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas, poucas podem ser mais unânimes (especialmente no Ocidente) do que a ilusão de que, dentro de cada uma de nós, existiria uma essência maior do que a soma de nossas partes: o Eu.

Nossa prática zen não consiste em “abandonar o Eu” — porque o Eu não existe e não temos como abandonar algo que não existe — mas sim em desapegar dessa ilusão que criamos para buscar o prazer e evitar a dor, dessa ilusão que nos venderam para poderem vender a ela automóveis e pasta de dente.

Não é que eu, aqui, pessoa concreta, de carne e osso, falando essas palavras nesse exato minuto, e você, ouvindo essas palavras nesse exato minuto, não tenhamos existência física, concreta, real.

(Afinal, eu sinto, eu sei que estou aqui e você sente, você sabe que está aí.)

Mas essa entidade que chamo de Eu — que me parece tão maior e mais transcendental do que apenas a mera soma de “meus” membros, “meu” corpo, “minha” consciência, “meu” nome — é apenas um conceito que não possui existência permanente e autônoma, uma coleção de características contingentes e fortuitas sem nenhum tipo de essência intrínseca.

Nossa consciência é formada por um contínuo de experiências ao qual damos um nome. Por razões práticas, faz sentido distinguir uma pessoa da outra – sou o João da Silva porque não sou nem o Chico Buarque nem a Joana d’Arc.

Da mesma maneira, distinguimos um rio do outro: o Rio Amazonas e o Rio Paraíba do Sul são dois rios diferentes porque nascem em pontos diferentes, correm por trajetos diferentes, contêm águas de composições químicas diferentes, deságuam em pontos diferentes.

Entretanto, por mais reais e concretos que sejam esses caudalosos rios, eles não possuem qualquer essência: como até os gregos antigos sabiam, não se banha duas vezes no mesmo rio. Suas águas literalmente nunca são as mesmas.

Tudo é contingente: somos pessoas únicas não porque temos uma pretensa essência metafísica (o Eu!) qualitativamente diferente da essência metafísica das outras entidades que não-são-o-meu-Eu, mas sim porque surgimos a partir de condições únicas e de circunstâncias irrepetíveis.

Se conseguimos desapegar de nosso Eu, se conseguimos nos libertar da obrigação absorvente de cuidar e proteger essa frágil entidade dentro de nós (“será que construí o suficiente em vinte e cinco anos de vida?”, “será que as pessoas gostam mesmo de mim?”, etc etc), então, poderemos finalmente levantar os olhos, perceber as pessoas à nossa volta e nos dar conta de que elas também estão sofrendo.

Desapegar do nosso Eu não nos impede de militar em causas sociais ou de lutar para transformar a realidade.

Pelo contrário, ao eliminar a importância excessiva que damos a nós mesmas em relação às outras pessoas, o nosso potencial de engajamento político é finalmente desbloqueado, realizado, magnificado.

Se o nosso Eu tivesse uma essência, então nossa natureza nunca poderia mudar: o fato de o nosso Eu ser vazio de existência intrínseca é justamente o que nos permite a liberdade de nos reconstruir, recriar, reinventar.

» leia o texto completo «

Patriotismo vs nacionalismo, ou vice-versa

Poucas operações retóricas são mais arbitrárias do que tentar diferenciar “patriotismo” de “nacionalismo”…

como se fossem diferenciáveis…

como se um fosse positivo e o outro negativo. » leia o texto completo «

Um retiro em um hospital espanhol

Passei a última semana em um quarto de hospital em Madri, cuidando do meu pai. Com exceção de uma breve ida ao Museu del Prado para ver as Pinturas Negras de Goya, fiquei todo o tempo no hospital. » leia o texto completo «

Serão os negros criminosos?

Os negros não são a maioria dos criminosos, mas a maioria dos presos por crimes.

* * *

Em discussões sobre racismo, de vez em quando me desafiam:

“Alex, não é um fato inquestionável que a maioria dos criminosos são negros?”

Não, não é. Nem perto disso. » leia o texto completo «

O Brasil, enlouquecido

Em qual momento você percebeu que o Brasil tinha enlouquecido?

Para mim, foi 16 de março de 2016.

Eu estava em Matanzas, Cuba, lançando um livro na Feira Internacional do Livro, e o Moro liberou os áudios de gravações ilegais entre um ex-presidente e a atual presidente.

Já havia uma crise política em andamento, naturalmente. Mas era uma crise política feijão com arroz, parecia a velha crise politica de sempre.

Então, isso!

(Naturalmente, o fato político relevante não foi o ato individual do Moro — juiz doido sempre existiu — mas metade do Brasil aplaudir e ele não ter sido imediatamente preso e execrado.)

Talvez, pra mim, tenha sido mais impactante por estar sozinho no exterior, único brasileiro entre centenas de editores, escritores, intelectuais, que vinham todos me perguntar:

“¿Que pasa en Brasil, Alejandro?”

E respondi que não sabia.

Que claramente tudo tinha mudado.

Que as regras antigas não se aplicavam mais.

Que, de agora em diante, tudo era possível.

Desde então, confesso, nada mais realmente me surpreendeu.

Enterrei ali meu estoque de surpresas.

E você? Quando foi? » leia o texto completo «

Elogio ao Henfil

Quando eu tinha seis anos de idade, Henfil publicou essa capa na sua revista Fradim, confessando abertando seu tesão por pés femininos. (E publicando cartas das leitoras que lhe enviavam fotos dos pés.)

Não vou nem dizer que abriu caminhos ou horizontes para mim, porque, nessa época, eu ainda era muito pequeno.

Mas, quando fui crescendo, e descobrindo quem eu era, o que eu queria, o que eu gostava, foi extremamente importante para minha autoestima e para minha sanidade que esse caminho já estivesse aberto, que já fosse uma coisa no ramo do possível.

Obrigado, Henfil.

* * *

Meu depoimento:

Elogio aos pés
papodehomem.com.br/elogio-aos-pes

Porque escrever sobre “Prisões”

Só faz sentido escrever sobre Prisões porque as pessoas estão presas.

Um comentário que recebi hoje:

“Alex, tem um aspecto que sempre vejo você desconsiderando nas suas análises, que é o complexo e o medo da rejeição. Não é próprio da sua experiência, não é da sua personalidade, mas é um fator com um peso gigante na vida das pessoas mais inseguras. Eu diria que metade dos adolescentes sofrem primordialmente por isso (eu) enquanto a outra metade se sente no topo do mundo nesta fase (você?). Junto com o aspecto identitário que você descreveu, tem a dor de ser rejeitado pelo parceiro e pelo empregador, de não ser bom o suficiente pra ser amado/aceito/apreciado.”

Se todas as pessoas fossem bem-resolvidas como você acha que eu sou, meus textos perderiam totalmente a razão de ser.

Se eu achasse que todas as pessoas eram bem-resolvidas como você acha que eu sou, eu definitivamente estaria escrevendo outras coisas.

Afinal, pessoas livres, bem-resolvidas, no topo do mundo, etc, não estão procurando textos sobre a Prisão Trabalho, a Prisão Monogamia, etc.

Eu só escrevo sobre Prisões porque

1) eu SEI que a maioria das pessoas é aprisionada por inseguranças galopantes e

2) estou tentando ajudá-las.

Sem qualquer uma dessas duas condições, ou seja, se eu não soubesse como as pessoas são inseguras ou se eu não quisesse ajudá-las, os textos das Prisões simplesmente não fariam sentido e eu teria passado os meus últimos anos fazendo alguma outra coisa.

» leia o texto completo «

As virtudes de não-lutar

Estamos no século III antes da Era Comum. Roma, então somente uma cidade-estado na península itálica, estava em guerra com outra cidade-estado, Cartago (perto da atual Túnis), pelo controle do Mediterrâneo.

Aníbal Barca, um dos grandes generais de todos os tempos, desembarcou um exército de mercenários e elefantes na Espanha, cruzou os Alpes enfrentando mil perigos e penetrou na Itália pelo norte, surpreendendo Roma e suas aliadas.

Durante dezoito longos anos, Aníbal perambulou pela península, vencendo todas as batalhas que travou.

Roma sofreu derrotas achapantes, que teriam derrubado qualquer cidade mais fraca, e que são estudadas até hoje em academias militares pelo mundo, como as de Lago Trasimeno e Canas.

Ainda assim, não caiu.

Por quê? » leia o texto completo «

Elogio às forças armadas

A esquerda precisa urgentemente reatar relações afetivas, intelectuais, estratégicas com as forças armadas.

Defesa, teoria militar, geopolítica, nada disso é “coisa de direita”. Aliás, todas as revoluções populares que tivemos foram ganhas e, depois, mantidas por forças armadas coesas, unidas, eficientes.

(Os escravos do Haiti conquistaram sua independência das armas; Cuba manteve a sua da mesma maneira. Os exemplos são inúmeros.)

As forças armadas não têm lado: elas são do lado de quem estiver lá, ocupando suas patentes, estudando suas questões, articulando suas prioridades.

Se a esquerda hostiliza as forças armadas desde a redemocratização, é natural que elas sejam majoritariamente ocupadas por pessoas de direita. » leia o texto completo «

O que significa nossa bandeira

Uma amiga norte-americana, uns dez anos atrás:

“Alex, sabe qual a coisa que mais amo no Brasil? Na Europa, em qualquer país, se você encontra uma grupo de pessoas enroladas na bandeira nacional, já sabe que não é coisa boa. Nos EUA, as casas com a bandeira hasteada na fachada são sempre de republicanos que apoiam todas as nossas guerras e invasões. No Brasil, não. Aqui, as pessoas vestem a bandeira do Brasil, colocam a bandeira nas havaianas e nas camisetas, vão à praia com a canga da bandeira, e isso não é ameaçador, não é agressivo, não é violento. Aqui a bandeira ainda é linda, positiva, inspiradora.”

» leia o texto completo «

Levamos uma surra achapante

Eric Hobsbawm afirmava ter dedicado toda sua vida a um projeto que considerava fracassado, mas que nada aguçava tanto a mente do historiador quanto a derrota: afinal, quem consegue ser reflexivo enquanto está ganhando? Quem consegue aprender com suas vitórias?

A palavra “autocrítica” tem o sufixo “auto” porque é uma crítica que uma pessoa ou grupo faz a si mesma. Pedir ou exigir “auto”crítica a outrem é uma forma disfarçada e hipócrita de criticar.

Não posso fazer autocrítica do PT pois não sou nem nunca fui petista, nem pensaria jamais em exigir isso do partido e de suas pessoas apoiadoras: elas que decidam o que querem fazer de si mesmas e de seu projeto político.

Mas sou de esquerda e, já faz anos, escrevo publicamente como homem de esquerda: publiquei até um livro chamado “Outrofobia: textos militantes” e mantive um blog de mesmo nome na Revista Fórum.

Primeiro, é preciso encarar a realidade, sem dourar pílulas: nós, as pessoas que nos consideramos de esquerda, sofremos uma derrota achapante e literalmente traumática (tenho várias amigas sinceramente traumatizadas, chorando, deprimidas), a maior na minha geração.

Política não é a arte de ser o mais certo e puro e lacrador do partido derrotado, mas de chegar ao poder, por meios democráticos, para assim implementar nosso projeto de governo legitimado pelo voto popular.

Nisso, falhamos miseravelmente. Isso é fato. As urnas comprovam.

Como falhamos? Por que falhamos? Como devemos fazer de agora em diante?

Não sei. Realmente, não sei.

Mas sei que essa é a grande questão que vou estar me colocando, de mim para mim mesmo, nos próximos meses e anos.

Não sei como agirei daqui pra frente, mas com certeza mudarei o meu jeito de fazer/pensar/articular política.

Porque, claramente, não deu certo.

A maré da história

Em alguns anos ou décadas, talvez tenhamos uma nova perspectiva sobre a eleição de ontem.

Talvez a gente se perdoe.

Talvez a gente perceba que não dava para ter vencido.

Talvez a gente seja como o exército polonês em 1939, discutindo se deveríamos ter mandado a cavalaria pela esquerda ou pela direita, como se isso fosse fazer alguma diferença.

Talvez a gente perceba que estávamos na contramão de uma nova onda da História.

Mas talvez a gente também perceba que é da natureza das ondas ir e vir, que quando a onda da História está contra nós, a maior vitória é simplesmente resistir e sobreviver até maré mudar.

Porque a maré da História sempre muda. » leia o texto completo «

O voto das pessoas pobres

Faz algum tempo, escrevi que brincadeira só é brincadeira se a outra pessoa tem total liberdade de me mandar a merda, ir embora ou responder na mesma moeda.

Brincadeira de cima pra baixo tem outro nome: humilhação.

Penso muito nisso quando me pego tentando mudar o voto da empregada ou do faxineiro, da garçonete ou do taxista.

Ser de esquerda é ter consciência de classe. Ser de esquerda é ser sensível aos horrores da sociedade de castas onde nos calhou viver.

A moça quer apenas servir o meu café e garantir sua gorjeta, esperar o fim do seu turno e descansar em sua cama.

Eu aqui, do alto do meu privilégio, querer lhe ensinar qual é o voto correto me parece desrespeitoso e arrogante, invasivo e imperialista.

Então, em minha vida, também adotei essa regra: só tento mudar o voto de quem pode, livremente, me mandar à merda.

» leia o texto completo «

Não é uma foto, é um espelho

Alemanha nazista, verão de 1939 ou 1940. Um casal apaixonado, nas areias de uma praia, completamente absortos um no outro, concentrados em seu amor, entregues ao seu futuro cheio de possibilidades.

» leia o texto completo «

Guia pessoal para conversas políticas

Antes de conversar sobre política com qualquer pessoa, tento sempre lembrar que: » leia o texto completo «

O Brasil terá o presidente que merece

O Brasil terá o presidente que merece.

Só depende de nós fazer desse fato autoevidente uma esperança ou uma maldição. » leia o texto completo «

Melhora interior vs melhora exterior

Não acredito em “melhora interior” se ela não se manifesta em uma melhora “exterior”, ou seja, em uma melhora da maneira como tratamos as outras pessoas e interagimos com o mundo.

Se existe essa “melhora exterior”, então, ela é sinal de que existe uma “melhora interior”.

Se não existe essa “melhora exterior”, então, tanto faz o que está dentro de nós: claramente não está funcionando.

Meu próximo livro, “Atenção.”, a ser lançado pela Rocco em 2019, é exatamente sobre isso.

Duas histórias do Leme

Que tipo de pessoas somos se certas tragédias nem ao menos estragam nosso apetite?

* * *

O Leme é um sub-bairro de Copacabana, um canto pacífico e fora de mão onde convivem os ricos da praia, os pobres do morro e todas as outras classes sociais entre elas. Um resumo do Rio de Janeiro.

» leia o texto completo «

Geléia de Jabuticaba

Café da manhã de pousada em Paraty. Mãe, filha, avó:

A filha trazia a proverbial cara-de-cú da adolescente forçada a viajar com a família.

A mãe, profissional liberada e empoderada, ocupada e sem tempo a perder, parecia ansiosa para sair dali e ticar boxes no seu roteiro já pré-planificado de Paraty: Praça da Matriz e Praia do Pontal, Igreja de Santa Rita e Cais do Porto, etc e etc.

Mas a avó estava simplesmente maravilhada demais com aquele simples café-da-manhã. Tudo era lindo, incrível, delicioso:

“Tem omelete! Feita na hora! Quentinha!”

“Mãe, a senhora ainda nem começou a comer. Desse jeito a gente vai ficar aqui até o meio-dia, vamos perder Paraty!”

Em resposta, a avó pegou um pote da mesa, leu o rótulo e riu sozinha, feliz como uma menina:

“Olha só, geléia de jabuticaba caseira. Que incrível! Quanto tempo que não vejo isso.”

Entre a filha impaciente e a neta entediada, me senti na obrigação de tomar partido.

Fiz contato visual com a senhorinha e disse:

“Tá tudo tão lindo, né?”

* * *

Esse texto é dedicado à minha mãe, que faz aniversário amanhã e que também anda pela vida se maravilhando com cada pote de geléia. Obrigado, mãe.

* * *

O próximo encontro As Prisões: Exercícios de Atenção será o meu CENTÉSIMO evento, e acontece no fim-de-semana de 21 a 23 de setembro. Saiba mais.