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aula 10: burgueses grande conversa tchecov

Anton Tchecov

Reler Tchecov, pra mim, é um contínuo processo de re-embasbacamento.

Conheci Tchecov aos 25 anos. Pensei: esse homem é o maior artista literário de todos os tempos.

Mas eu era jovem, tinha lido pouco, não sabia de nada. Décadas se passaram. Meus gostos mudaram. Continuei lendo alucinadamente.

Nenhuma das centenas de pessoas que li desde então nem mesmo ameaçou a liderança isolada de Tchecov como meu artista literário preferido.

Esse texto é para tentar explicar o porquê.

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aula 10: burgueses grande conversa

Europa, entre o otimismo e o racismo

A Primeira Guerra Mundial efetivamente encerra o século XIX, ao matar, destruir, enterrar o otimismo e confiança no progresso que caracterizaram a Europa nesse período e que, hoje, nos parece tão estrangeiro, tão impossivelmente distante. O mundo do pós-guerra, mais cínico, mais desconfiado, mais machucado, mais violento, já é o nosso mundo, a nossa perspectiva, um jeito de pensar que já conseguimos mais reconhecer como nosso. Por isso, ao começar efetivamente a nossa época, também termina o nosso curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura.

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aula 09: nações grande conversa

Estados Unidos, nação abstrata

Os Estados Unidos, enquanto país, tem uma relação única com seus próprios ideais fundacionais.

Talvez a coisa mais dificil de entender sobre os EUA é que eles são, verdadeiramente, um caso único de nação fundada em torno de um ideal abstrato universalista que as suas habitantes ainda levam muito a sério.

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aula 09: nações canção de mim mesmo grande conversa

Canção de mim mesmo, de Walt Whitman

Uma vez, me perguntaram quais eram meus três poetas favoritos. A resposta: Whitman, Whitman, Whitman.

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aula 09: nações aula 10: burgueses borges martín fierro raça

O herói negro do Martín Fierro

A história das leituras de Martín Fierro, de José Hernández, é a própria história da literatura argentina, em eterna tensão entre civilização e barbárie.

A abordagem borgiana do já polêmico Martín Fierro não poderia deixar de ser também polêmica. Seus contos hernandianos (“Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)” e “El Fin”) e gauchescos (“La Otra Muerte”, “El Sur”, etc) são vistos tanto como traições ao gênero gauchesco e ataques ao Martín Fierro, quanto como homenagens a essa tradição literária nacionalista. De qualquer modo, todos concordam que Borges corrige e reescreve o Martín Fierro. Mas como? Qual é o eixo dessa reescritura?

O ponto central do debate é um julgamento moral sobre as escolhas, atitudes e ações do personagem Martín Fierro. Será ele um herói forte e virtuoso ou um desertor brigão e hipócrita? Devem os argentinos tomar o Martín Fierro como ideal heróico? Merece Martín Fierro ser um modelo a ser seguido?

Nesse julgamento moral do gaúcho, o principal argumento da acusação são as atitudes de Martín Fierro em relação a dois negros. Em La Ida, enquanto está bêbado, ele puxa uma briga com um negro, o mata na frente de sua mulher e ainda a humilha. Em La Vuelta, o irmão do Negro desafia Martín Fierro para uma payada: o gaúcho aceita mas acaba fugindo do duelo que se seguiria.

Por que Hernández utiliza dois negros para ilustrar as duas ações mais baixas do seu personagem? Como esses dois negros, em especial o segundo, são mostrados pelo autor em comparação com o protagonista? Qual é a atitude de Martín Fierro em relação aos dois negros? Dentro do plano da obra, qual o significado dessas baixezas por parte do protagonista? Ou seja, por que Hernández faz seu protagonista cometer tamanhas atrocidades?

Na esteira dessas perguntas, analisaremos também o conto “El Fin”, de Jorge Luis Borges. Por que Borges escolhe justamente essa relação entre Fierro e o Moreno para glossar? De que modo a interação entre ambos personagens é diferente em Borges e em Hernández? Afinal, Martín Fierro é ou não um herói do povo argentino? Estudaremos a figura do negro em Martín Fierro, avaliaremos como essas personagens são tratadas na obra ensaística borgiana sobre o poema e, por fim, consideraremos a recriação que Borges executa do Moreno em seu conto “El Fin”.

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aula 09: nações grande conversa martín fierro

Martín Fierro, de José Hernandez

José Hernandez, autor do poema gauchesco Martin Fierro, obra máxima da literatura argentina, viveu por anos em uma pequena aldeia onde todos se conheciam e, segundo conta Jorge Luis Borges, não deixou nenhuma anedota, era só um pacato senhorzinho:

“Não fez nada de memorável, com exceção de algo que ignorava. Sem nem saber, havia dedicado toda sua vida a se preparar para escrever o Martin Fierro.”

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aula 01: indianistas & inconfidentes cecilia meireles gonçalves dias grande conversa brasileira

Medievais, Indianistas, Inconfidentes

Nossa época herdou o desprezo renascentista pela Idade Média, mas a verdade é que ela ainda está por toda parte, influenciando tanto os enredos quanto a linguagem das obras narrativas que consumimos. Foi o romantismo, enquanto movimento literário, a partir de O corcunda de Notre-Dame (1831), de Victor Hugo, que começa um projeto de revalorização do medieval. Em Portugal, esse movimento gerou obras como Eurico, o Presbítero (1844), de Alexandre Herculano.

No Brasil, sem uma tradição medieval para chamar de nossa, tivemos que improvisar: projetamos valores medievais nos povos originários (O Guarani, de José de Alencar; “I-Juca-Pirama“, de Gonçalves Dias), recriamos a Idade Média mesmo assim (Sextilhas de Frei Antão, de Gonçalves Dias), narramos em estilo medieval uma história iluminista (Romanceiro da Inconfidência, de Cecilia Meireles).

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mentiras reunidas

Às vezes, morro, conto

O conto “Às vezes, morro” faz parte do meu livro Mentiras reunidas, já em pré-venda. Abaixo, o conto completo.

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aula 09: nações grande conversa

O nacionalismo, esse jovem

Sentimos o nacionalismo como algo tão forte e tão sólido que nem parece que foi inventado menos de duzentos anos atrás. Curiosamente, uma de suas características definidoras é justamente se fazer de eterno.

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mentiras reunidas

Porque mentir

Meu novo livro, Mentiras Reunidas, está em pré-venda. Durante esse mês de divulgação e lançamento, muita gente me pergunta:

Mas por que mentir? Por que tanta mentira?

Abaixo, a resposta, do prefácio do livro.

Mentiras Reunidas, capa aberta.
Mentiras Reunidas, capa aberta. Clique para ver em tamanho maior.
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aula 08: revoluções miseráveis

Os miseráveis, de Victor Hugo

A religião, a sociedade, a natureza seriam, segundo Hugo, as três lutas, as três guerras, as três soluções, as três necessidades, as três fatalidades do homem. Para denunciar a religião, escreveu O corcunda de Notre-Dame; a sociedade, Os Miseráveis, e a natureza, Os trabalhadores do mar.

O texto acima é uma paráfrase da nota introdutória a esse último romance. Em outra nota introdutória, dessa vez a Os Miseráveis, Hugo afirma:

“Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século — a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância — não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.”

E um outro trechinho de Os Miseráveis:

“Respeitamos o passado aqui e ali e, se ele concordar em permanecer morto, podemos até preservá-lo, mas se insistir em continuar vivo, vamos atacá-lo e matá-lo.”

Diante de notas programáticas tão brilhantes, tão concisas, tão contundentes, como não querer mergulhar na obra desse homem?

Mas, afinal, é um livro de direita ou de esquerda? Não pode ser um livro de esquerda, pois cuidadosamente evita todas as oportunidades de enfatizar a luta de classes, ou mesmo de condenar o empreendedorismo, a indústria, os ricos, a riqueza. Apesar disso, foi um best-seller durante toda a existência da União Soviética, rivalizando somente com Puchkin. O livro parece ter sido criado para ser igualmente irritante para ambos os lados. De que outra maneira poderia construir a conciliação que tanto busca?

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aula 08: revoluções leituras miseráveis

Teoria dos grandes romances

Os Miseráveis é um dos romances mais longos de todos os tempos. E, em minha opinião, o melhor.

Naturalmente, vários outros romances têm qualidades técnicas e literárias equivalentes. Os meus finalistas seriam Guerra e Paz (Tolstoi, 1867, russo), Moby Dick (Melville, 1850, inglês), Cem anos de solidão (Garcia Márquez, 1967, espanhol), Manuscrito encontrado em Saragoça (Potocki, 1814, francês): todos possuem um interesse profundo, sincero, empático por cada personagem, até os menores — que, na prática, não são menores, pois explodem na página com profundidade e concretude inesquecíveis.

Mas, se o que me faz amar Homero é sua dureza, o que me faz amar Hugo (e colocar Os Miseráveis um nariz à frente de todos os outros romances que já li) é o seu olhar amoroso.

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aula 08: revoluções

A Revolução Francesa

Um dia, em uma pequena ilha do Caribe, as pessoas escravizadas ouviram que seus senhores, do outro lado do mar, tinham proclamado que todos os homens tinham direito à liberdade, à igualdade, à fraternidade. Quando descobriram, no navio seguinte, que isso não se aplicava a eles, já era tarde: se rebelaram, tomaram controle de suas vidas e o mundo nunca mais foi o mesmo. A segunda independência das Américas determinou todo o curso do século XIX: tudo o que se fez ou deixou de se fazer no continente foi sempre em função de ou repetir o Haiti ou impedir que o Haiti se repetisse. O livro Os jacobinos negros, escrito por um intelectual marxista de Trinidad e Tobago, coloca a Revolução Haitiana no contexto da Francesa, um exemplo de todas as suas potencialidades e limites, todas as suas virtudes e paradoxos.

Essa mesma Revolução Francesa, à qual os haitianos primeiro tentam aderir e da qual depois precisam se defender, logo é traída, cooptada por um caudilho e derrotada definitivamente. Nesse momento, começa a ação de Os Miseráveis, que vai de Waterloo até a eclosão da primeira das muitas Revoluções urbanas e populares que abalariam a França e toda Europa ao longo do século XIX. Seu tema principal, nas palavras do autor, é “a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância”.

Nenhum clássico é tão acessível, envolvente, revoltante, generoso. Ao longo de infinitas opressões, a narrativa nunca é dura ou distante, fria ou condescendente. Em um século onde o cinismo já é quase obrigatório, Os Miseráveis nunca cede, nem uma única vez, em seu projeto de denunciar a estrutura, não as pessoas: ataca a maldade, mas sem malvados; critica a opressão, mas sem opressores. O Inspetor Javert, implacável perseguidor do herói Jean Valjean, é o mais duro de todos os homens, mas Hugo nos transmite sua dureza sem nunca ser duro com ele: Hugo ama Javert tanto quanto ama Valjean, tanto quanto ama cada uma de suas centenas de personagens. Dotado de transbordante empatia, Hugo entende porque são como são e as absolve a todas, sem nunca perdoar a sociedade que as criou, as deformou, as oprimiu.

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aula 01: indianistas & inconfidentes grande conversa brasileira

Indianistas & inconfidentes

Em abril, começa o meu novo curso A Grande Conversa Brasileira, a ideia de Brasil na literatura. Nossa primeira aula, no dia 1º de abril, às 19h, será sobre indianistas & inconfidentes e vamos conversar sobre José de Alencar, Gonçalves Dias e Cecília Meireles.

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aula 07: reforma paraíso perdido

Paraíso Perdido, de John Milton

Paraíso Perdido é a história de uma revolta: Satã se levanta contra a tirania de Deus, tenta derrubá-lo, perde e é lançado aos abismos do inferno, depois de cair por nove dias e nove noites. Ainda revoltado, decide arruinar a Criação e oferece o fruto proibido a Eva.

O poema, que começa com a queda de Satã do Céu e termina com a Queda de toda a humanidade, no momento em que Adão e Eva são expulsos do Éden, poderia ser uma simples história carola, um fanfic da Bíblia, se não fosse contada pelo mais radical dos poetas.

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aula 07: reforma paraíso perdido

Reforma Protestante e Revolução Inglesa

A Revolução Francesa eclipsou a radicalidade da Revolução Inglesa, mas, um século antes, os ingleses já tinham feito o impensável: derrubaram e executaram seu rei e proclamaram uma República. John Milton, poeta radical, defensor da liberdade, apologista do divórcio, se tornou o principal propagandista no novo regime, encarregado de defendê-lo intelectualmente perante uma Europa de reis e rainhas horrorizados. A república teve duração efêmera, o filho do rei executado logo voltou ao trono e comandou um sangrento expurgo. Milton, velho e cego, escapou por pouco de uma execução humilhante, mas viu todos os seus sonhos, ambições e projetos serem destruídos. Nesse momento, escreve Paraíso Perdido.

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livros mentiras reunidas

Como nos velhos tempos, conto

“Como nos velhos tempos” é um dos contos inéditos do meu novo livro Mentiras reunidas. Abaixo, o comecinho.

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livros mentiras reunidas

Mentiras reunidas, meu novo livro, em pré-venda

Já começou a pré-venda do meu novo livro Mentiras reunidas, em versão capa dura, com bookbag, dedicatórias apócrifas e marcadores, e mais cinco contos exclusivos.

Mentiras Reunidas, capa aberta.
Mentiras Reunidas, capa aberta. Clique para ver em tamanho maior.
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grande conversa brasileira

A Grande Conversa Brasileira, novo curso

A ideia de Brasil na literatura. (compre agora.)

(O curso anterior está aqui: Introdução à Grande Conversa.)

Ilustração por Olivia Maia
Ilustração por Olívia Maia, cartaz por William Alves.
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aula 09: nações canção de mim mesmo grande conversa

Qual Whitman ler

A “Canção de mim mesmo”, de Walt Whitman, é o grande poema nacional dos Estados Unidos e uma das maiores celebrações do indivíduo de todos os tempos. Ela será uma das leituras da nona aula, Nações, de nosso curso Introdução à Grande Conversa. Mas existem várias versões desse poema. Qual ler?