Pessoas de vida fácil

Algumas pessoas olham para minha vida e comentam, sempre em tom estranhamente negativo:

“Arrá! Sem filhos é muito fácil viver assim, né?! NÉ?!”

E eu respondo, simplesmente:

“Sim. É por isso que fiz a escolha de não ter filhos.”

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Eu estou muito tranquilo com minha escolha de não ter filhos e espero que as pessoas que escolheram ter filhos também estejam muito tranquilas com a escolha que fizeram.

A luta pelo direito ao aborto é para que nunca mais ninguém seja obrigada a ter um filho que não queria. Continue lendo “Pessoas de vida fácil”

Enciclopédias

Terminar um relacionamento significa jogar fora uma enorme, laboriosamente compilada enciclopédia.

quedamosnos en el presente fiquemos no presente

Na página 2834, está a receita do ovo mexido ideal, do jeito que ela gosta: com manteiga, no fogo alto, quebra os ovos inteiros, só mexe quando a gema começa a endurecer.

Na página 3987, está o jeito ideal de lidar com o pai dela, do jeito que ele gosta: não pode falar de religião (ele se irrita), não pode oferecer ajuda (ele se sente diminuído), tem que apertar forte a mão (para ele respeitar sua hombridade).

De repente, puff. A enciclopédia vai pro lixo e bate uma sensação grande de trabalho desperdiçado.

Dá uma certa vontade de revendê-la ao próximo, mas certos conhecimentos são importantes de serem construídos por conta própria.

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Começar um relacionamento significa compilar uma nova enciclopédia, deliciosamente misteriosa, que não sabemos onde vai dar, que não sabemos quantas páginas terá, com todas as possibilidades ainda em aberto.

Na página 1, está a informação de que ela nunca come de pé.

Na página 2, que nasceu no Hospital Samaritano.

Na página 3, que adora saltos altos mas detesta sapatilhas.

A página 4 ainda está sendo preenchida.

Para o que estamos nos preparando?

Qual será nosso destino?

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O capitão Sully, que pousou com seu avião no Rio Hudson:

“Por 42 anos, desde que comecei a voar, venho fazendo pequenos e regulares depósitos no banco da experiência, da educação e do treinamento. E, nesse dia, o saldo era suficiente para eu fazer um saque enorme.”

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José Hernandez, autor do poema gauchesco Martin Fierro, obra máxima da literatura argentina, viveu por anos em uma pequena aldeia onde todos se conheciam e, segundo conta Jorge Luis Borges, não deixou nenhuma anedota, era só um pacato senhorzinho:

“Não fez nada de memorável, com exceção de algo que ignorava. Sem nem saber, havia dedicado toda sua vida a se preparar para escrever o ‘Martin Fierro’.”

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A novela A fera na selva, de Henry James, conta a história de um rapaz que acredita que está destinado a grandes coisas nessa vida.

Ele conhece uma moça que gosta dele, de quem ele gosta, mas evita formar um relacionamento… por acreditar que precisa estar livre para a grande coisa que fatalmente lhe acontecerá. A moça continua por perto, dedicada a ele mas lhe dando seu espaço, até que, décadas depois, morre.

E o rapaz percebe que talvez a grande coisa a que estava destinado era uma vida compartilhada com essa mulher, um destino que ele simplesmente, vaidosamente jogou fora.

Um dia tranquilo

Em poucos minutos, embarco pro Recife.

Hoje, está um dia especialmente agitado, cheio de bombas estourando no último minuto, vários problemas para resolver.

Então, em pleno tumulto, de repente, eu páro e penso: toda pessoa que morreu em acidente aéreo estava assim, ansiosa, correndo, resolvendo mil coisas.

E aí eu páro e sento e respiro. Como uma ameixa com calma, apreciando cada mordida. Dou um cheiro bem gostoso na Capitu e deixo ela lamber minha orelha. Escrevo esse textículo e jogo ao mundo, como quem lança um bilhete em uma garrafa.

Não porque eu acho que eu vá morrer nesse voo. (As chances disso acontecer são diminutas.) Mas porque, de fato, posso morrer a qualquer momento, inclusive nesse voo. E, se não for nesse voo, será atropelado por um caminhão que talvez ainda nem foi fabricado, ou traído por meu coração, esse que está aqui batendo agora, e que um dia pode decidir que não quer mais brincar.

E, no dia em que isso acontecer, quero que tenha sido um dia que passei tranquilo, onde comi uma fruta com gosto, apertei a Capitu como se não houvesse amanhã, escrevi um texto que, quem sabe, ajudou outras pessoas.

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Depois de amanhã, começa a Imersão do Nordeste. Vejo vocês lá. Se sobrevivermos.

“Seja você mesma!”

Nossa essência, nossa personalidade, nossa sexualidade, são construídas por nossas ações: interagimos com o mundo através dos nossos atos.

Ninguém está lá muita interessada no que pensamos, no que sentimos, em nossa essência, em toda essa linda complexitude reluzindo dentro de nós.

O que importa é o que fazemos.

Não temos escolha de ser quem somos, mas temos escolha de agir como agimos.

Por isso, poucos conselhos são mais canalhas do que “seja você mesma”.

A maioria dos problemas do mundo veio de pessoas que estavam simplesmente “sendo elas mesmas”.

Mais importante do que sermos nós mesmas é sermos quem queremos ser.

Todas as forças do universo nos impelem a nos conformar, a aceitar as regras do mundo, a ceder, nos moldar.

Ser a pessoa que queremos ser é uma luta diária, surda, interna, contra nossos próprios preconceitos, nossas mesquinharias, nossos egoísmos.

Ser quem queremos ser é o mínimo que devemos a nós mesmas.

Se não somos nem isso, então não somos nada.

Decidir ser uma pessoa mais empática, mais atenciosa, mais cuidadosa, entretanto, é fácil.

Ser de fato essa pessoa, todos os dias, sistematicamente, é muito mais difícil.

Empregadas na piscina

A cena mais política e mais subversiva, mais bonita e mais inspiradora, mais inédita e mais surpreendente, da última imersão aconteceu depois do encerramento.

Ontem, fim de tarde. Acabou o evento, as participantes se beijaram e se abraçaram, e, assim, meio chacoalhadas e um pouco abobadas, foram todas embora.

E, então, a equipe da ecovila começou a cair na piscina.

A Geise e a Alda, que limparam. A Cris, que cozinhou. O David, que serviu. A Adriana, que coordenou.

Depois de todo um fim-de-semana servindo e atendendo aquele grupo de trinta pessoas vindas de dez estados brasileiros diferentes…

…agora estavam relaxando, ouvindo música, comendo e bebendo, nadando, rindo, aproveitando a vista do pôr-do-sol do deck da piscina.

E comecei a chorar, e chorei muito, de pura alegria.

Talvez elas não tenham entendido meu choro. Talvez tenham achado que estava chorando de felicidade por meu evento ter sido lindo. Não quis explicar. Tive medo de soar elitista, condescendente.

Sim, meu evento foi lindo.

Mas eu estava chorando mesmo pelo simples fato de elas estarem na piscina.

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