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aula 02: escravistas & escravizados castro alves grande conversa brasileira

Castro Alves

Para muitas gerações de brasileiros, Castro Alves é o “poeta dos escravos”. Seu poema “O Navio-Negreiro” é um dos mais citados e antologizados de nossa literatura. Na tradição literária brasileira, praticamente livre de pessoas protagonistas negras, onde as pessoas escravizadas são em geral retratadas somente em papéis coadjuvantes e chapados, sem profundidade e sem humanidade, Castro Alves apresenta-se como uma conspícua exceção. Apesar de alguns excessos juvenis (tinha apenas vinte e quatro anos ao morrer), o poeta consegue unir o lírico ao social e cria uma poesia ao mesmo tempo romântica e politicamente contundente: pela primeira vez no Brasil, as pessoas escravizadas são vistas como indivíduos, com problemas existenciais e vidas privadas intensas, capazes de amar e de odiar, de perdoar e de se vingar.

Castro Alves entrou muito cedo no cânone literário e nunca deixou de ser polêmico. Algumas críticas literárias o acusam de só lutar contra a escravidão quando ela já estava quase derrotada, um poeta reacionário canonizado justamente por saber o ponto exato até onde poderia ir antes de ofender as sensibilidades burguesas de suas pessoas leitoras escravocratas. Outras, o celebram por ser abolicionista antes que o abolicionismo virasse moda, quando ainda não era uma posição política conveniente para jovens responsáveis. Algumas, o elogiam por mostrar, pela primeira vez na literatura brasileira, a humanidade da pessoa escravizada; outras, o censuram por nunca adotar a perspectiva negra e escrever sempre do ponto de vista do homem branco, relegando a pessoa negra a uma eterna posição de alteridade.

No texto abaixo, apresentaremos a vida e obra do poeta, destacaremos os aspectos mais transgressores (e também os mais conservadores) de sua poesia abolicionista, situaremos sua obra dentro do contexto da luta internacional pela abolição da escravatura, chamaremos a atenção para a oralidade de sua poesia e faremos um breve resumo das controvérsias em torno de seu status canônico.

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aula 02: escravistas & escravizados casa-grande & senzala grande conversa brasileira

Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre

O período entre a abolição da escravatura (1888) e o lançamento de Casa Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, é marcado por uma quase completa ausência da escravidão do discurso intelectual brasileiro, um processo consciente de rasura por parte da elite brasileira no qual a escravidão, como categoria explicativa de Brasil, é substituída por raça e mestiçagem. O discurso racista-cientificista que impera nessa época (exemplificado em obras como Os sertões, que leremos na quinta aula) nega a contribuição africana ao Brasil e afirma, pelo contrário, que a própria existência das pessoas negras seria um problema nacional, a ser corrigido por imigração e branqueamento. Como veremos nas leituras da sexta aula, a negritude era constantemente associada à degeneração, alcoolismo, incapacidade mental e imoralidade. E não pelo fato de as pessoas negras terem sido exploradas por 350 anos e, então, libertadas sem nenhuma ajuda financeira ou plano de inserção social, mas por pretensa inferioridade étnica.

É nesse cenário intelectual que Casa Grande & Senzala explode como uma verdadeira bomba. Poucos livros foram tão influentes, tão impactantes, tão polêmicos. Ele pode e deve ser criticado, mas sua maior contribuição foi justamente ter recolocado a escravidão no centro do pensamento nacional: depois de Casa Grande & Senzala, nunca mais será possível entender o Brasil que não a partir do fato central de termos sido a maior civilização escravista do mundo moderno.

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aula 02: escravistas & escravizados casa-grande & senzala grande conversa brasileira raízes do brasil

Democracia racial e homem cordial, dois meta-mitos

Dois espectros rondam as ciências sociais brasileiras: a “democracia racial” e o “homem cordial”. Quem os critica se refere a eles, sempre desdenhosamente, como “mitos”: “o mito da democracia racial”, “o mito do homem cordial”. Mas, na verdade, são meta-mitos, ou seja, é um mito que sejam mitos, são mitos que jamais foram mitos. No texto abaixo, tentarei desmascarar não o “mito da democracia racial” mas sim o “mito do mito da democracia racial”; não o “mito do homem cordial”, mas sim o “mito do mito do homem cordial”.

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aula 01: indianistas & inconfidentes cecilia meireles gonçalves dias grande conversa brasileira

Medievais, Indianistas, Inconfidentes

Nossa época herdou o desprezo renascentista pela Idade Média, mas a verdade é que ela ainda está por toda parte, influenciando tanto os enredos quanto a linguagem das obras narrativas que consumimos. Foi o romantismo, enquanto movimento literário, a partir de O corcunda de Notre-Dame (1831), de Victor Hugo, que começa um projeto de revalorização do medieval. Em Portugal, esse movimento gerou obras como Eurico, o Presbítero (1844), de Alexandre Herculano.

No Brasil, sem uma tradição medieval para chamar de nossa, tivemos que improvisar: projetamos valores medievais nos povos originários (O Guarani, de José de Alencar; “I-Juca-Pirama“, de Gonçalves Dias), recriamos a Idade Média mesmo assim (Sextilhas de Frei Antão, de Gonçalves Dias), narramos em estilo medieval uma história iluminista (Romanceiro da Inconfidência, de Cecilia Meireles).

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aula 01: indianistas & inconfidentes grande conversa brasileira

Indianistas & inconfidentes

Em abril, começa o meu novo curso A Grande Conversa Brasileira, a ideia de Brasil na literatura. Nossa primeira aula, no dia 1º de abril, às 19h, será sobre indianistas & inconfidentes e vamos conversar sobre José de Alencar, Gonçalves Dias e Cecília Meireles.

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grande conversa brasileira

A Grande Conversa Brasileira, novo curso

A ideia de Brasil na literatura. (compre agora.)

(O curso anterior está aqui: Introdução à Grande Conversa.)

Ilustração por Olivia Maia
Ilustração por Olívia Maia, cartaz por William Alves.