Introdução à Grande Conversa

Um passeio pela história do ocidente através da literatura

O curso

10 aulas, quintas-feiras, 19h, de três em três semanas, entre julho de 2020 e janeiro de 2021.

Resumo

Um panorama amplo da História do Ocidente, a partir de suas grandes obras literárias, da Antiguidade ao século XX, seguindo dois eixos:

  • Uma discussão literária sobre uma grande obra canônica do período, escolhida principalmente por sua importância e qualidade estéticas, mas também por ser representativa dos estilos e prioridades, idéias e ansiedades de sua época;
  • Uma explanação histórica sobre o período, com foco nas continuidades culturais e nexos causais entre as épocas abordadas, formando assim uma grande narrativa sequencial da Grande Conversa do Ocidente.

A Grande Conversa

Ao longo dos séculos e dos milênios, sempre que uma pessoa artista ou pensadora, filósofa ou cientista, cria uma nova obra intelectual, ela está ativamente dialogando com todas as suas predecessoras, seja somando ou reagindo, se opondo ou se juntando. Esse diálogo é o que chamamos de a Grande Conversa. Estudá-la não significa concordar com os valores ultrapassados que a moldaram, mas sim adquirir as ferramentas para moldarmos a Grande Conversa do futuro de acordo com nossos próprios valores, em nossos próprios termos.

Premissas

  • Mesmo as pessoas mais cultas se sentem ocasionalmente intimidadas diante das grandes obras literárias canônicas e precisam de ajuda profissional para lê-las.
  • Além disso, apesar de muitas vezes conhecerem bem essa ou aquela época histórica, sua visão global é fragmentada e não conseguem enxergar como as épocas se seguem e se encaixam, como uma obra dialoga com outra na Grande Conversa.

Objetivos

Ajudar as pessoas alunas a:

  • Ler e extrair o máximo benefício estético das grandes obras literárias e, no processo,
  • Formar e visualizar um panorama coerente da narrativa histórica ocidental, a Grande Conversa.

Formato

Uma aula de literatura é essencialmente democrática e dialógica. A pessoa instrutora não é a dona-do-saber distribuindo conhecimento às discípulas inferiores, mas uma facilitadora de um compartilhamento de vivências de leitura entre pessoas iguais. Além disso, cumpre as seguintes tarefas:

  • Contextualizar a obra em sua época e cultura, iluminando tudo que já estaria iluminado para as leitoras contemporâneas, mas não para nós;
  • Ensinar um certo tipo de raciocínio literário: como abordar e interrogar a obra, como formular hipóteses e ler entrelinhas, etc;
  • Corrigir as hipóteses mais absurdas das participantes: em geral, ou por anacronismo ou ignorância cultural (ver primeiro ítem acima), ou por falta de base textual (ver segundo ítem acima).
  • Apresentar a fortuna crítica da obra, ou seja, outras leituras e interpretações que recebeu ao longo dos séculos, e situá-la na Grande Conversa, apontando quem a influenciou e por quem foi influenciada.

As aulas acontecem às quintas-feiras, de três em três semanas, a partir das 19h. A etapa expositiva dura cerca de duas horas. Depois disso, abrimos para perguntas e comentários, e continuamos enquanto houver participantes interessadas em conversar informalmente sobre as obras.

Ao longo do mês, enquanto lemos, temos um grupo de discussão no Whatsapp para compartilhar comentários, sugerir temas, fazer perguntas, resolver dúvidas. A aula expositiva é em larga medida pautada pela conversa nesse grupo.

O material didático do curso é publicado diariamente no site do autor, e pode ser livremente acessado ou pela tag geral do curso, Grande Conversa, ou pelas tags das aulas individuais: 1ª aula, Bíblia Hebráica; 2ª aula, Gregos; 4ª aula: Cristãos. (Novas tags serão acrescentadas aqui a medida em que forem criadas.)

Funcionamento

As aulas acontecem online, através do aplicativo Zoom. O link do encontro será enviado às pessoas alunas uma hora antes da aula. A gravação em vídeo das aulas ficará disponível, em um grupo fechado do Facebook só para alunas, até 31 de janeiro de 2021.

 A cada aula, leremos uma ou duas obras literárias do período, sempre em domínio público, disponíveis em boas traduções para o português e em catálogo editorial.

Para participar ou acompanhar as aulas, não é necessário a leitura prévia de todas as obras. (Um dos objetivos das aulas é justamente estimular essa leitura.)

“Textos principais” são os que as pessoas alunas devem tentar ler. “Textos secundários” os que devem ler se já tiverem lido os primeiros ou estiverem excepcionalmente empolgadas. “Textos de apoio” são para quem quiser se aprofundar nesse ou naquele aspecto dessa ou daquela obra. (Esses últimos não necessariamente em domínio público, em português ou em catálogo.) Os textos estão sempre ordenados em ordem de importância.

Entre uma aula e outra, o instrutor disponibilizará instruções para o encontro seguinte, com o eixo temático da aula, as prioridades de leitura, os capítulos mais importantes para quem não conseguir ler tudo, alguns links para o que estiver disponível na internet.

Instrutor

Alex Castro tem sete livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles A autobiografia do poeta-escravo (Hedra, 2015) e Atenção. (Rocco, 2019).

Valor

Curso completo (10 aulas):

  • R$699 (O vídeo das aulas anteriores estará disponível para quem entrar após o início do curso.)

Exterior:

Certificado:

  • O diploma de conclusão é único, pintado a mão por mim, e sem valor algum.

Gratuidade:

  • Foram concedidas 50 gratuidades e estão encerradas.

Reembolso:

Compre

Curso completo (10 aulas): $699

Todas as compras são feitas pelo PagSeguro, que faz parcelamento, aceita todos os cartões, transferência bancária e até boleto. Pessoas no exterior compram via PayPal ou Amazon gift card (email: lll.alexcastro@gmail). O link do encontro será enviado por email, então, garanta que seu email de cadastro no PagSeguro/PayPal está atualizado. O vídeo das aulas anteriores estará disponível para quem entrar após o início do curso.

Leituras principais

Quase todos os links de livros direcionam para a Amazon Brasil. Se você clicar e comprar, ganho uma comissão, e te agradeço muito.

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1. Israelitas: monoteísmo & justiça social na Bíblia

(Quinta, 2 de julho de 2020)

Estudar a Bíblia como literatura exige um equilíbrio impossível entre duas atitudes opostas e excludentes: em primeiro lugar, é preciso esquecer que a Bíblia é a Bíblia, é preciso esquecer pastores mal-intencionados e catequismos mal-ensinados, e tentar chegar ao texto como chegamos em qualquer texto, lendo-o por si só. Por outro lado, o motivo principal de lermos a Bíblia é justamente por ela ser uma das pedras fundacionais da nossa cultura, que reverbera ao longo dos séculos, dando origem, entre outras coisas, aos pastores mal-intencionados e catequismos mal-ensinados. No fio dessa navalha, dançaremos.

Gênese é o cerne mitológico da Bíblia, fonte de um sem-fim de imagens e alegorias, lendas e maravilhas, desde Adão e Eva até a Arca de Noé, da Torre de Babel à José e seus irmãos. Samuel é um dos mais ricos livros históricos, onde habitam personagens inesquecíveis como Davi e Saul, Jônatas e Joabe, Betsabá e Urias. Jó, talvez o ponto alto da literatura bíblica, interpela corajosamente o problema do Mal. Eclesiastes, pequena jóia sapiencial, pode ser considerado o texto fundador do Existencialismo. Por fim, em Jeremias, encontramos alguns dos mais antigos gritos por justiça social da história humana.

Nos textos de apoio, três dos maiores ensaístas de todos os tempos: Erich Auerbach compara os estilos literários do Gênese e da Odisséia (na prática, dos gregos e dos hebreus); Sigmund Freud especula sobre a verdadeira identidade de Moisés; e René Girard argumenta que Jó, anti-Édipo, mudou a História ao recusar o papel de bode-expiatório.

Textos principais:

— Gênese

— Samuel

— Jó

— Eclesiastes

— Jeremias

Textos secundários:

— Êxodo

— Juízes

— Reis

— Jonas

— Isaías.

Edições:

Recomendo Bíblia do Peregrino ou Bíblia de Jerusalém, ambas da ed. Paulus. Também gosto: Pastoral (a mais marxista), Nova Tradução na Linguagem de Hoje – NTLH (linguagem acessível, mas sem notas) e Ave-Maria. Para quem lê inglês, recomendo muito a belíssima tradução da King James Bible, mas não faz sentido lê-la em retradução para o português. Evitem Bíblias que não sejam de estudo, que não tenham notas. Para quem gosta de ouvir, tem a Bíblia narrada por Cid Moreira (NTLH): o tom é meio dramático demais, e não gosto muito da música. (Um texto específico sobre diferentes traduções da Bíblia.)

Textos de apoio:

O Gênese e a Odisséia:

“A cicatriz de Ulisses” em Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach (Perspectiva, 1998)

Jó:

A Rota Antiga dos Homens Perversos, de René Girard (Paulus, 2009.)

Jeremias e os profetas:

Introdução ao profetismo bíblico, de José Luis Sicre Díaz (Vozes, 2016.)

Freud, ensaísta da Religião e do Mito:

“Moisés e o monoteísmo”, em Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos (1937-1939), de Sigmund Freud (trad. Paulo César de Souza, Cia das Letras, 2018.)

“O futuro de uma ilusão” em Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos (1926‑1929) (2014)

“Totem e tabu”, em Totem e tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912-1914) (2012.)

Bíblia como literatura:

Guia literário da Bíblia, de Robert Alter e Frank Kermode (Unesp, 2001.)

Gênio, capítulo “O Javista”, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

— A Bíblia como literatura, de John B. Gabel e Charles B. Wheeler (Edições Loyola, 1993)

Historicidade da Bíblia:

— História política de Israel, desde as origens até Alexandre Magno, de Henri Cazelles (Paulus, 2008.)

Introdução socioliterária à Bíblia Hebráica, de Norman Gottwald (Paulus, 2011)

A Bíblia, uma biografia, de Karen Armstrong (Zahar, 2007)

Bíblia, verdade e ficção, de Robin Lane Fox (Cia das Letras, 1993)

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2. Gregos: vingança & justiça na Ilíada e na Oréstia

(Quinta, 23 de julho de 2020)

 A Ilíada (ao lado da Bíblia) é nosso texto literário fundacional, fonte de todas nossas narrativas sobre violência, das peças de Shakespeare aos thrillers de Hollywood. Nesse “poema da força”, nas palavras de Simone Weil, não existe lei codificada ou instituições impessoais, apenas ciclos infindáveis de violência e de vingança, entremeados por breves e caprichosos momentos de misericórdia.

 Na Orestéia, de Ésquilo (a única trilogia completa de tragédias gregas que chegou até nós), o ciclo de violência continua: Agamêmnon volta para casa, ao fim da Guerra de Tróia, e é assassinado pela esposa, em vingança por ter sacrificado a filha de ambos no começo da Guerra. Ao final da Orestéia, entretanto, tudo mudou: o tribunal do júri já foi inventado e Atenas deu o primeiro passo em direção a, bem, a nós. Ler a Ilíada e a Orestéia na sequência é testemunhar o auge do ciclo da violência e, também, nossa primeira tentativa de superá-lo.

Nas leituras secundárias, Édipo Rei e Antígona, de Sófocles, são as duas tragédias mais perfeitas, e As bacantes, de Eurídipes, a mais perturbadora: afinal, provoca E. R. Dodds, será que os gregos eram tão frios e racionais assim?

Textos principais:

Ilíada, de Homero (Trad: Frederico Lourenço, Cia das Letras, 2013)

Orestéia, de Ésquilo (Trad. Trad: Mário Gama Kury, Zahar, 1991)

Textos secundários:

Bacantes, de Eurípedes (Trad. Trajano Vieira, Perspectiva, 2010; Trad: Mário Gama Kury, Zahar, 1993)

Édipo Rei, de Sófocles (Trad. Trajano Vieira, Mário Gama Kury)

Antígona, de Sófocles (Trad. Trajano Vieira, Mário Gama Kury)

Troilo e Criseida, de Shakespeare (Trad. Carlos Alberto Nunes.)

Edições:

Minha tradução preferida da Ilíada para o português é a de Frederico Lourenço. Também são ótimas as de Trajano Vieira (cuja edição pela 34 traz um importante ensaio de Simone Weil) e Christan Werner. Não recomendo as de Carlos Alberto Nunes e Odorico Mendes: são antiquadas e duras. Quem gostar de poesia e quiser uma aventura, recomendo enfrentar a de Haroldo de Campos. Em inglês, a de Alexander Pope (antiga, do século 18) talvez seja minha tradução preferida de qualquer coisa para qualquer idioma, e a Stanley Lombardo é a mais energética, poderosa, fluente, contemporânea. Para as tragédias, as melhores traduções são as de Trajano Vieira, apesar de ocasionalmente difíceis, mas ele não traduziu muitas: Agamemnon, Bacantes, Édipo, Antígone. As de Mario Gama Kury são boas e acessíveis: ele era um grande mestre, sabia tudo e traduziu todas, e estão todas em catálogo e em ebook. Não conheço as de Jaa Torrano mas só ouço elogios. Em inglês, minha Orestéia preferida absoluta é a Ted Hughes (vulgo Mr. Plath), com a de Robert Fagles em segundo. De modo geral, as traduções de tragédias de Fagles (de preferência) e também de Phillip Vellacott são sempre boas e competentes, com várias lançadas pela Penguin e fáceis de encontrar.

Textos de apoio:

Cultura e loucura na Grécia Antiga:

Os gregos e o irracional de E. R. Dodds (Escuta, 2002)

Mito e religião:

Os gregos acreditavam em seus mitos?, ensaio sobre a imaginação constituinte, de Paul Veyne (Unesp, 2014)

Homero e seu estilo:

“A cicatriz de Ulisses” em Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach (Perspectiva, 1998)

“A Ilíada ou o poema da força”, de Simone Weil (em Ilíada, trad. Trajano Vieira, 34, 2020; ou A Condição Operaria e Outros Estudos sobre a Opressão, Paz e Terra, 2008.)

“Homero” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

Odisséia, de Homero (Trad: Frederico Lourenço, Cia das Letras, 2011)

Contexto histórico de Homero:

— O mundo de Ulisses, de Moses Finley (Presença)

Tragédia grega:

A tragédia grega, um estudo literário, de H. D. F. Kitto (Ed. Armenio Amado)

— A companion to Greek tragedy, de John Ferguson

A tragédia grega, de Jacqueline de Romilly (Edições 70)

A tragédia grega, de Albin Lesky (Perspectiva)

Mito e tragédia na Grécia Antiga, de Jean Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet (Perspectiva)

As bacantes:

— The eating of the Gods, an interpretation of Greek tragedy, de Jan Kott

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3. Romanos: seu declínio & sua queda

(Quinta, 13 de agosto de 2020)

 São raros os livros de História das décadas passadas, ou mesmo dos séculos passados, que ainda se lêem como livros de História: Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon é um dos poucos e, sem dúvida, o melhor. Nunca mais ninguém teve a temeridade de empreender uma análise histórica com tamanha envergadura tanto no tempo quanto no espaço: do reinado de Marco Aurélio, no ano 100, até a queda de Constantinopla, em 1453, cobrindo toda a gigantesca área do Império Romano. A força literária de Declínio e queda está na união entre a história mais interessante de todos os tempos (como pôde a instituição humana mais sólida que jamais existiu se esfacelar tão completamente?) e um dos melhores e mais talentosos narradores também de todos os tempos. Poucas leituras são mais instrutivas, mais deleitosas, mais polêmicas: sua tese central, de que foi o Cristianismo que apodreceu o Império Romano por dentro, ainda gera controvérsias exaltadas até hoje. Como escreveu Jorge Luis Borges, antes líamos Declínio e Queda para nos informar sobre Roma. Hoje, além disso, lemos para conhecer as opiniões de um fascinante cavalheiro inglês do século XVIII, mestre contador de histórias, sobre Roma.

 Nas leituras secundárias, dois breves textos de Sêneca, exemplificando as melhores qualidades estóicas romanas, cuja decadência é justamente o assunto de Gibbon, e também Da natureza, um poema epicurista-materialista sem paralelo na literatura humana. Será a redescoberta desse poema um dos mais importantes catalizadores do Renascimento, como narrado em A virada, de Stephen Greenblatt.

Texto principal:

Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon (Cia das Letras, 2005)

Edições:

Que eu saiba, é a única tradução para o português, em versão resumida. Em inglês, existem muitas edições e o texto está em domínio público, no Projeto Gutenberg.

Textos secundários:

Sobre a brevidade da vida (L&PM, 2009) ou A brevidade da vida (Lafonte, 2019) ou Sobre a brevidade da vida (Penguin/Cia das Letras, 2017) de Sêneca

Da vida feliz (Martins Fontes, 2009), ou “Da felicidade”, em Da tranquilidade da alma (L&PM, 2009), ou “A vida feliz” em A Vida Feliz, A Tranquilidade da Alma (Lafonte, 2020) de Sêneca

— Da natureza (Coleção Os Pensadores) ou Da natureza das coisas (Relógio d’água, 2015) de Lucrécio

Textos de apoio:

Literatura:

Asno de ouro, de Apuleio (Trad: Ruth Guimarães, 34, 2019.)

Satíricon, de Petrônio (Trad. Alessandro Zir, L&PM, 2016.)

Lucrécio:

A virada, o nascimento do mundo moderno, de Stephen Greenblatt (Cia das Letras, 2012.)

“Lucrécio” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

Gibbon:

“Edward Gibbon: Páginas de história e de autobiografia” em Prólogos com um prólogo de prólogos, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2010)

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4. Cristãos: evangelhos & confissões

(Quinta, 3 de setembro de 2020)

O Cristianismo surge em uma província do Império Romano, entre judeus helenizados e seus textos fundacionais são escritos em grego: praticamente um amálgama do mundo antigo sobre o qual, em breve, passará como um trator. Nada preparou a elite intelectual da Antiguidade para os Evangelhos. Nas palavras de Erich Auerbach, eles eram muito sérios para ser Comédia, muito contemporâneos e cotidianos para ser Tragédia, muito politicamente insignificantes para ser História, mas pulsavam com um imediatismo arrebatador para o qual não havia nem paralelo nem precedente: o que está em jogo, sempre, em cada Evangelho, é simplesmente tudo, a imortalidade da alma individual da leitora e a eternidade do Reino de Deus. Incapazes de se encaixarem na literatura da Antiguidade, os Evangelhos a implodiram.

Lidos lado a lado, o Evangelho de Marcos, que inaugura o gênero literário evangélico, e o de Tiago, um apócrifo respeitado pela tradição católica mas não incluído no Novo Testamento, iluminam e exemplificam o processo de canonização bíblica: afinal, o que faz um evangelho ser inspirado por Deus? O Apocalipse, único representante bíblico de um gênero literário popular na época, fornece uma das chaves mais importantes para entendermos os Evangelhos: no ambiente milenarista da Palestina do século I, nenhuma das atitudes de Jesus e seus discípulos faz sentido se não soubermos que todos esperavam que o fim do mundo acontecesse ainda naquela geração.

Agostinho de Hipona, professor de retórica, a princípio desprezava os Evangelhos justamente por sua “baixeza estilística”: a conversão religiosa que narra nas Confissões também é uma conversão estilística, uma descoberta do “sublime na baixeza”. Inventor da autobiografia e primeiro indivíduo da história cujo retrato completo chega até nós, Agostinho afirmava não haver sentido em “abandonar as armas da eloquência aos representantes da mentira”. Assim, combinando seu arsenal retórico grego-romano com os novos valores e prioridades cristãs, ele efetivamente enterra o mundo pagão e inaugura a civilização ocidental como a conhecemos.

Textos principais:

— Evangelho de Marcos

— Evangelho (apócrifo) de Tiago

— Apocalipse

Confissões, Agostinho de Hipona (Trad. Lorenzo Mammì, Cia das Letras, 2017.)

Edições:

As Confissões estão disponíveis em muitas traduç]ões, a maioria dura e antiquada: a recente de Lorenzo Mammi é de longe a mais fluida. Infelizmente, não existe uma edição brasileira realmente boa dos apócrifos da Bíblia. As seguintes edições contém com certeza o Evangelho apócrifo de Tiago: Apocrifos, Os Proscritos da Bíblia, vol.1, Mercuryo; Evangelhos apócrifos, Edições Loyola; Apócrifos e Pseudo-epígrafos da Bíblia, vol 1, Cristã Novo Século; Os Evangelhos Apócrifos, Ísis.)

Textos secundários:

— Evangelho de Lucas

— Atos dos Apóstolos

Textos de apoio:

Comparação entre o estilo literário dos Evangelhos e o clássico:

“Fortunata” em Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach (Perspectiva, 1998)

“Sacrae scripturae sermo humilis” e “Sermo humilis” em Ensaios de literatura ocidental, Filologia e crítica, de Erich Auerbach (34, 2007)

O mundo clássico e o mundo cristão:

Eu via Satanás cair como um relâmpago, de René Girard (Paz e Terra, 2012.)

Evangelhos apócrifos:

Evangelhos perdidos, as batalhas pela Escritura e os Cristianismos que não chegamos a conhecer, de Bart Ehrman, Record, 2008.

“Evangelhos apócrifos” em Biblioteca pessoal, de Jorge Luis Borges (Quetzal, 2014)

História do Cristianismo primitivo:

— The early Church, de Henry Chadwick (Penguin, 1993.)

Historicidade de Jesus:

Bíblia, verdade e ficção, de Robin Lane Fox (Cia das Letras, 1993)

Jesus – um retrato do homem, de A. N. Wilson (Ediouro, 2000)

— Procurais o Jesus histórico?, de Rochus Zuurmond (Edições Loyola, 1998.)

A Bíblia, uma biografia, de Karen Armstrong (Zahar, 2007)

Agostinho:

“Santo Agostinho” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

Santo Agostinho, uma biografia, de Peter Brown (Record, 2005)

A cidade de Deus, de Agostinho de Hipona (várias edições)

Paulo:

— “São Paulo” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

Uma crítica:

O anticristo, de Friedrich Nietzsche (Trad. Paulo César de Souza, Cia das Letras, 2016)

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5. Idade média: peste & amores em Boccaccio

(Quinta, 24 de setembro de 2020)

Em plena pandemia, um grupo de pessoas foge da cidade grande e se isola no campo, onde vencem o tédio compartilhando histórias. Poderia ser a nossa vida em 2020, mas é o Decameron, de Boccaccio. Nenhuma outra obra da literatura universal acontece sob a sombra de tanta tragédia e, ao mesmo tempo, celebra a vida com tanto vigor e alegria. Certamente, a leitura mais agradável e acessível de nosso curso.

O tema principal é o amor e o sexo em todas as suas vertentes: as personagens articulam a teoria do amor romântico e cortesão (como em nossas ideias préconcebidas da Idade Média) mas, na prática, agem com cinismo e inteligência para atingir seus objetivos sexuais. Essa ambivalência moral corre ao longo do livro como uma fissura geológica, jogando a narrativa contra si mesma e gerando discussões acaloradas há 700 anos. Boccaccio quebra paradigmas: escreve em prosa, na língua vernácula que se falava nas ruas, sobre as pessoas do povo, aldeões e burgueses. Como tantas obras revolucionárias, o Decameron hoje nos parece familiar porque a nossa literatura foi praticamente inventada por ele.

No texto secundário, Stephen Greenblatt defende que a redescoberta do manuscrito de Na natureza, de Lucrécio, marca um momento de “virada” na história do Ocidente, causando o Renascimento dos valores estéticos da Antiguidade e dando origem aos tempos modernos.

Texto principal:

Decameron, de Giovanni Boccaccio (Trad: Ivone C. Benedetti, L&PM, 2013.)

Edições:

Recomendo a tradução de Ivone C. Benedetti. Mauricio Santana Dias traduziu dez histórias para a finada Cosac. A tradução mais fácil de encontrar é a de Raul Pollilo: leiam só se não acharem a Benedetti. (A de Torrieri Guimarães parece ser plágio de Pollilo.)

Texto secundário:

A virada, o nascimento do mundo moderno, de Stephen Greenblatt (Cia das Letras, 2012.)

Textos de apoio:

Boccaccio:

“Frate Alberto” em Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach (Perspectiva, 1998)

História:

História medieval, de Marcelo Candido da Silva (Contexto, 2019)

Civilização do Ocidente Medieval, de Jacques Le Goff (Vozes, 2018.)

— Outono da Idade Média, de Johan Huizinga (Cosac, 2010)

Chaucer:

Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer (Trad: José Francisco Botelho, Cia das Letras, 2013.)

“Geoffrey Chaucer” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

— “Chaucer” em O Cânone Ocidental, de Harold Bloom (Objetiva, 2014)

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6. Grandes navegações: Camões & Gil Vicente

(Quinta, 15 de outubro de 2020)

Em 1502, apenas dois anos após a chegada de Cabral do Brasil, Gil Vicente encena sua primeira peça na Corte Portuguesa: hoje considerado “pai do teatro ibérico”, seus autos e farsas ajudaram a apoiar, possibilitar e glorificar a expansão marítima portuguesa. Ainda no mesmo século, em Os Lusíadas, Camões cria uma das obras literárias mais emblemáticas do Renascimento, unindo os deuses da mitologia grega e estilo épico da Eneida com os valores da cristandade e a exaltação dos feitos bélicos de seu pequeno reino.

Mas toda obra-prima é mais inteligente que sua autora: apesar de Vicente e Camões escreverem para exaltar Portugal, as fraturas expostas desse projeto imperialista são visíveis por toda parte de seus textos. Em O Auto da Índia, no auge da celebração nacional pelas grandes navegações, uma jovem aproveita a ausência do esposo, que buscava a glória no Além-Mar, para traí-lo com dois amantes. Já em Os Lusíadas, enquanto Vasco da Gama está embarcando em sua mui-heroica frota para as Índias, um velho aparece no Restelo (o bairro de onde saíam as naus) e faz um apaixonado discurso contra aquela aventura: as melhores vidas do reino estavam se perdendo no mar, por pura ganância, enquanto passava-se fome por não haver camponeses para lavrar a terra. O Velho do Restelo desmonta o poema por dentro, sabota seu chauvinismo conservador e nos permite reinterpretar a obra inteira em uma nova chave: é a chaga exposta que o texto não pôde ou não quis esconder. Parte da grandeza de Os Lusíadas está na coragem, ou na temeridade, de dar voz ao Velho do Restelo. Mais tarde, José Saramago colocou o Velho do Restelo em Cabo Canaveral, conversando com os astronautas que subiam para a Lua.

Nos textos secundários, a Peregrinação expõe o lado obscuro desse projeto imperialista, narrando vinte anos de desventuras de um pobre pícaro português, civil e não afiliado ao estado nacional, usando sua lábia e sua inteligência para tentar sobreviver na Ásia enquanto Portugal erguia, mantinha e perdia seu império. “Fui treze vezes cativo e dezassete vendido”, conta Fernão Mendes Pinto, também conhecido por “Fernão, Mentes? Minto”. Por fim, as cartas de Hernan Cortez, lidas ao lado na análise de Todorov, ajudam a iluminar o confronto de mentalidades que permitiu a conquista do México, e das Américas, pelos europeus.

Textos principais:

Os Lusíadas, de Luiz de Camões (várias edições: recomendo ed. Jane Tutikian, L&PM, 2008.)

— Auto da Índia, de Gil Vicente (várias edições; recomendo Autos, org. Cleonice Berardinelli, Casa da Palavra, 2012.)

Texto secundário:

— Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (Fundação Darcy Ribeiro/UNB: volume I e volume II.)

Edições:

Todos os textos foram escritos em português antigo, com muitas palavras fora de uso. Então, é importante escolher edições com português modernizado e boas notas. Dentro disso, existem várias: recomendo as de Jane Tutikian para Os Lusíadas e de Cleonice Berardinelli para os Autos de Gil Vicente. Para ler gratuitamente na internet, o Instituto Camões disponibiliza uma excelente versão, anotada e com fortuna crítica, de Os Lusíadas. Não existe uma boa edição da Peregrinação, em catálogo no Brasil (só por isso o texto está como leitura secundária!): recomendo a edição, em dois volumes, disponibilizada gratuitamente na internet pela Fundação Darcy Ribeiro, como parte da Biblioteca Básica Brasileira: volume I e volume II.)

Textos de apoio:

Uma visão contemporânea:

“Fala do velho do restelo ao astronauta”, de José Saramago

Grandes navegações portuguesas:

As naus, de Antonio Lobo Antunes

Brasil e visão do paraíso:

Cronistas do descobrimento, editada por Antonio Carlos Olivieri e Marco Antonio Villa (Ática, 2010.)

Conquista do México:

Conquista do México ou O fim de Montezuma, de Hernan Cortez (L&PM, várias edições)

Conquista da América: a questão do outro, de Tzvetan Todorov (Martins Fontes, 2019)

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7. Renascimento: Paraíso Perdido e a Revolução

(Quinta, 5 de novembro de 2020)

Paraíso Perdido é a história de uma revolta: Satã se levanta contra a tirania de Deus, tenta derrubá-lo, perde e é lançado aos abismos do inferno, depois de cair por nove dias e nove noites. Ainda revoltado, decide arruinar a Criação e oferece o fruto proibido a Eva. O poema, que começa com a queda de Satã do Céu e termina com a Queda de toda a humanidade, no momento em que Adão e Eva são expulsos do Éden, poderia ser uma simples história carola, um fanfic da Bíblia, se não fosse contada pelo mais radical dos poetas.

A Revolução Francesa eclipsou a radicalidade da Revolução Inglesa, mas, um século antes, os ingleses já tinham feito o impensável: derrubaram e executaram seu rei e proclamaram uma República. John Milton, poeta radical, defensor da liberdade, apologista do divórcio, se tornou o principal propagandista no novo regime, encarregado de defendê-lo intelectualmente perante uma Europa de reis e rainhas horrorizados. A república teve duração efêmera, o filho do rei executado logo voltou ao trono e comandou um sangrento expurgo. Milton, velho e cego, escapou por pouco de uma execução humilhante, mas viu todos os seus sonhos, ambições e projetos serem destruídos. Nesse momento, escreve Paraíso Perdido.

O diabo deve tudo a Milton, escreveu Shelley. Escrito ostensivamente para exaltar Deus, Paraíso Perdido nos legou o maior rebelde da literatura, um personagem de infinito carisma. A Bíblia nunca nos informa as razões de Satã, mas Milton, sim. Em sua boca, estão articuladas todas as grandes questões políticas de sua época, e da nossa: quanta obediência devemos ao poder constituído? Quais são as obrigações do poder em relação aos seus dominados? É mais digna uma vida de revolta sem fim comparada à paz de uma submissão bovina? Ou, como bem coloca Satã, será melhor reinar no inferno do que obedecer no céu? Nas palavras de Barbara Lewalski, Paraíso Perdido é um radical projeto pedagógico para nos educar sobre as virtudes, valores e atitudes que fazem um povo ser digno da liberdade. Na insuportável tensão interna do poema, oscilando entre a religiosidade sincera de Milton e os seus ideais políticos revolucionários, estão resumidas as grandes questões religiosas e políticas que animaram a Reforma e a Contra-Reforma, as guerras religiosas na Europa, e todas as futuras revoluções cidadãs que abalariam a Europa, da Francesa à Russa.

Texto principal:

Paraíso Perdido, de John Milton (Trad. Daniel Jonas, 34, 2015.)

Edições:

Essa edição com tradução bilíngue de Daniel Jonas, boas notas e posfácio de Harold Bloom, é imbatível.

Textos de apoio:

Milton:

— The Life of John Milton, A Critical Biography, de Barbara Lewalski (Blackwell, 2000)

“John Milton” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

“Milton” em O Cânone Ocidental, de Harold Bloom (Objetiva, 2014)

“Milton no Jardim do Éden” em Conhecimento proibido, de Roger Shattuck (Cia das Letras, 1998.)

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8. Revoluções: políticas & industriais & científicas

(Quinta, 26 de novembro de 2020)

Um dia, em uma pequena ilha do Caribe, as pessoas escravizadas ouviram que seus senhores, do outro lado do mar, tinham proclamado que todos os homens tinham direito à liberdade, à igualdade, à fraternidade. Quando descobriram, no navio seguinte, que isso não se aplicava a eles, já era tarde: se rebelaram, tomaram controle de suas vidas e o mundo nunca mais foi o mesmo. A segunda independência das Américas determinou todo o curso do século XIX: tudo o que se fez ou deixou de se fazer no continente foi sempre em função de ou repetir o Haiti ou impedir que o Haiti se repetisse. O livro Os jacobinos negros, escrito por um intelectual marxista de Trinidad e Tobago, coloca a Revolução Haitiana no contexto da Francesa, um exemplo de todas as suas potencialidades e limites, todas as suas virtudes e paradoxos.

Essa mesma Revolução Francesa, à qual os haitianos primeiro tentam aderir e da qual depois precisam se defender, logo é traída, cooptada por um caudilho e derrotada definitivamente. Nesse momento, começa a ação de Os miseráveis, que vai de Waterloo até a eclosão da primeira das muitas Revoluções urbanas e populares que abalariam a França e toda Europa ao longo do século XIX. Seu tema principal, nas palavras do autor, é “a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância”.

Escrito para ser publicado em jornais diários e consumido por leitores médios, nenhum clássico é tão acessível, envolvente, revoltante, generoso. Ao longo de infinitas opressões, a narrativa nunca é dura ou distante, fria ou condescendente. Em um século onde o cinismo já é quase obrigatório, Os miseráveis nunca cede, nem uma única vez, em seu projeto de denunciar a estrutura, não as pessoas: ataca a maldade, mas sem malvados; critica a opressão, mas sem opressores. O Inspetor Javert, implacável perseguidor do herói Jean Valjean, é o mais duro de todos os homens, mas Hugo nos transmite sua dureza sem nunca ser duro com ele: Hugo ama Javert tanto quanto ama Valjean, tanto quanto ama cada uma de suas centenas de personagens. Dotado de transbordante empatia, Hugo entende porque são como são e as absolve a todas, sem nunca perdoar a sociedade que as criou, as deformou, as oprimiu.

Nas leituras secundárias, Frankenstein, de Mary Shelley, aborda a outra das grandes revoluções do período, a Científica, em um grande romance sobre, entre outros temas, masculinidade tóxica. Por fim, nas leituras de apoio, poucas obras de história contextualizam tão bem essa “era das revoluções” quanto o livro homônimo de Eric Hobsbawm.

Textos principais:

Os miseráveis, de Victor Hugo (Companhia das Letras/Penguin, 2017.)

Os jacobinos negros: Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos, de C. R. L. James (Boitempo, 2000.)

Edições:

Os jacobinos negros só tem uma tradução para o português. Os miseráveis teve muitas espúrias e incompletas. Recomendo a de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, atualmente em catálogo pela Companhia das Letras/Penguin, mas que já passou por várias editoras, inclusive Cosac Naify.

Textos secundários:

— Frankenstein, de Mary Shelley (Penguin, 2015; Zahar, 2017.)

— Manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels (Boitempo, 1998; Penguin, 2012.)

Textos de apoio:

História geral:

A era das revoluções: 1789-1848, de Eric J. Hobsbawm (Paz e Terra, 2012)

A era do capital: 1848 – 1875, de Eric J. Hobsbawm (Paz e Terra, 2012)

A era dos impérios: 1875 – 1914, de Eric J. Hobsbawm (Paz e Terra, 2012)

Revolução científica:

“Fausto e Frankenstein” em Conhecimento proibido, de Roger Shattuck (Cia das Letras, 1998.)

Revolução industrial:

— A formação da classe trabalhadora inglesa, de E. P. Thompson

Victor Hugo:

“Victor Hugo” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

— A tentação do impossível, Victor Hugo e Os Miseráveis, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara, 2013)

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9. Nações & fronteiras: a poesia americana

(Quinta, 17 de dezembro de 2020)

 A fratura “civilização versus barbárie” está no centro do processo de formação dos estados nacionais americanos. Para a elite branca que guiava a política e escrevia a História, criar uma nação significava basicamente tirar do caminho o Outro, sejam eles pessoas de descendência africana ou originária. Uma vez morto ou destruído, afastado ou neutralizado, esse Outro então podia ser convertido em um seguro e conveniente símbolo nacional, erigido pelos brancos de cá para diferenciá-los dos brancos de lá. No Brasil, por exemplo, a “literatura indianista”, de José de Alencar e Gonçalves Dias, surge apenas quando os povos originários deixaram de ser ameaça. Na Argentina, a literatura gauchesca segue o mesmo caminho: Martín Fierro, o poema nacional por excelência, conta a história de um gaúcho que poderia ser um vaqueiro no Brasil ou um cowboy nos Estados Unidos — somente quando eles já deixaram de ser um foco de instabilidade social nos pampas e não ameaçam mais a hegemonia de Buenos Aires.

É um poema repleto de injustiças e opressões, muitas sofridas, mas também muitas perpetradas pelo protagonista homônimo, um branco pobre à margem do Estado, desertor indesejável e briguento cuja única utilidade política é como bucha de canhão para matar pessoas negras e indígenas ainda mais indesejáveis. Testemunha ocular e incômoda da violência do “processo civilizatório”, o gaúcho Martín Fierro foi silenciado e desfigurado por sua canonização em herói literário-nacional. Mas o poema, fortíssimo e vigoroso documento, ainda pulsa e sangra, desmentindo quase que por conta própria o mito fundador argentino, aliás, o mito fundador de todos nós. Enquanto policiais militares empobrecidos continuarem invadindo favelas para executar outras pessoas mais pobres ainda, o Martín Fierro continuará relevante: é o grande poema americano, o que nos canta, o que nos define, o que nos acusa.

Jorge Luis Borges, maior escritor argentino, apesar de apaixonado pelo poema, lamentava a idealização do personagem: sem ela, diz ele, “outra teria sido nossa história, e melhor.” Nos textos secundários, estão quatro contos onde Borges reescreve e reinterpreta o Martín Fierro e a literatura gauchesca; o Facundo, seu equivalente em prosa e que Borges desejava ter sido canonizado em seu lugar (também foi, aliás); e a “Canção de mim mesmo”, de Walt Whitman, o grande poema nacional dos Estados Unidos e uma das maiores celebrações do indivíduo de todos os tempos.

Texto principal:

Martín Fierro, de José Hernández (Trad: Ciro Correia França, Travessa dos Editores, 2013; Trad: Colmar Duarte, Editora Movimento, 2019)

Edições:

O Martín Fierro já foi traduzido para o português diversas vezes. Atualmente, existem duas excelentes traduções em catálogo no Brasil, que podem ser compradas diretamente das editoras: a de Colmar Duarte, pela Editora Movimento, uma boa tradução, em edição crítica bilíngue e ilustrada, com notas explicativas e prefácio escrito por acadêmica renomada (compre aqui por R$50); e a tradução de Ciro Correia França, pela Travessa dos Editores, também bilíngue, também ilustrada, sem conteúdo crítico, mas uma tradução que considero mais potente e um objeto-livro capa dura simplesmente belíssimo (compre aqui por R$95). Recomendo ambas, tenho mais afeto pela segunda. Para quem se aventurar no original, o livro é escrito no portunhol de fronteira, já misturado com o nosso português sulista, e, por isso, de certo modo, é mais fácil de ser lido por um gaúcho de Santana do Livramento do que por um espanhol de Barcelona. Esse ebook gratuito tem fortuna crítica e glossário.

Textos secundários:

“O fim” em Ficções, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2007)

“Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)” em O Aleph, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2008)

— “Canção de mim mesmo”, em Folhas de Relva, de Walt Whitman (várias edições)

Textos de apoio:

Martín Fierro:

“O herói negro do Martín Fierro: civilização x barbárie em Borges e Hernández”, de Alexandre Silva, aliás, Alex Castro (2008) (PDF)

— “Martín Fierro” em O Martín Fierro, Para as seis cordas & Evaristo Carriego, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2010)

“José Hernández: Martín Fierro” em Prólogos com um prólogo de prólogos, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2010)

Literatura gauchesca:

“O sul”, em Ficções, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2007)

“A outra morte” em O Aleph, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2008)

— La cautiva, de Esteban Echeverría

“O Gaúcho” e “O Matreiro” em Prólogos com um prólogo de prólogos, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2010)

Caudilhismo:

— Facundo, de Domingos Sarmiento (várias traduções)

— “Domingo Sarmiento: Facundo” e “Domingo Sarmiento: Lembranças de província” em Prólogos com um prólogo de prólogos, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2010)

Nacionalismo e literatura:

Nações e nacionalismo desde 1780, de Eric J. Hobsbawm (Paz e Terra, 2012)

— Comunidades imaginadas, de Benedict Anderson (Trad: Denise Bottmann, Cia das Letras, 2008.)

— Ficções de Fundação: os Romances Nacionais da América Latina, de Doris Sommer (UFMG, 2004.)

— Nostromo, de Joseph Conrad (Trad. José Paulo Paes, Cia das Letras, 2007.)

Guerras do Prata:

— Maldita guerra, de Francisco Doratioto (Cia das Letras, 2002.)

Cuba:

— Cuba Espanha Cuba: uma História Comum, Manuel Moreno Fraginals (Edusp, 2005.)

Whitman:

— “Walt Whitman: Folhas de Relva” em Prólogos com um prólogo de prólogos, de Jorge Luis Borges (Cia das Letras, 2010)

“Walt Whitman” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

“Whitman” em O Cânone Ocidental, de Harold Bloom (Objetiva, 2014)

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10. Burgueses & Intelectuais: o conto realista

(Quinta, 7 de janeiro de 2021.)

Tchecov nasceu em família pobre, longe dos círculos de poder. Tornou-se médico e, ao contrário de tantos escritores-médicos, nunca deixou de praticar a medicina – para ele, era uma vocação e um serviço. Ainda jovem, descobriu-se tuberculoso, em uma época em que a doença era uma condenação à morte, e passou toda a vida adulta sob o peso dessa sentença. Escrevia contos para complementar sua renda e chegou a ser celebrado como dramaturgo. Morreu aos 44 anos, em um sanatório da Alemanha no auge do verão, e voltou para a Rússia em uma carruagem refrigerada para o transporte de ostras. (Tudo que ele escreveu me faz pensar que daria um sorriso ao saber disso.) Em minha humilde opinião pessoal, é o maior artista da literatura de todos os tempos, em qualquer época, em qualquer idioma, distante léguas de qualquer segundo lugar. Com Tchecov, a literatura realista europeia sobre os pequenos problemas da classe média chega ao seu apogeu estilístico. Suas histórias são como pré-histórias: elas terminam antes do ponto onde outros escritores escolheriam começar; ele está sempre escrevendo sobre lacunas e entrelinhas, sobre o que não está lá e sobre o que ainda não aconteceu;. Seu tema principal é a inação patológica e a ambição desperdiçada, as vidas paradas e os amores fracassados. Em seus contos e peças, nada efetivamente acontece, e a tragédia é essa: nada acontece, nunca. O que poderia ser mais dramático? O que poderia ser mais humano? Ele não ensina e não pontifica, não se compromete e não abraça ideologias. Saber a posição de Tchecov sobre suas próprias histórias seria impossível: sua principal característica é a reticência; como Victor Hugo, nossa única certeza é seu profundo amor por todas as personagens.

Jorge Luis Borges, portenho de família rica, passou a vida entre livros. Os poucos empregos que teve foram em revistas literárias, na Biblioteca Nacional, ou palestrando sobre literatura. Em uma biografia sem grandes acontecimentos, escreveu poesias competentes, ensaios brilhantes, contos perfeitos. Não escreveu romances. Ou talvez tenha escrito vários. Cada conto de Borges é um mini romance, comprimido ao máximo, sem qualquer gordura: sua obra contística bastaria para alimentar a obra novelesca de dezenas de autores menores. De certa maneira, é o mais frio dos autores: em seus contos, não há quase nenhum drama humano, amores ou paixões. Suas grandes contribuições são as aventuras do intelecto: em “Funes, o memorioso”, conhecemos o homem incapaz de esquecer e, por isso, de pensar; em “Pierre Menard, autor do Quixote”, o projeto de reescrever o Quixote nos dias de hoje, palavra por palavra, nas mesmas palavras; em “Tlön, Uqbar, Orbis, Tertius”, uma civilização inteira baseada na ojeriza à cópula e aos espelhos, pois multiplicam os homens. Sobre José Hernandez, autor do Martín Fierro, que viveu por anos em uma pequena aldeia onde todos se conheciam e não deixou nenhuma anedota, Borges comentou: “Não fez nada de memorável, com exceção de algo que ignorava. Sem nem saber, havia dedicado toda sua vida a se preparar para escrever o Martin Fierro.” De certo modo, Borges também.

Textos principais:

Qualquer uma das seguintes antologias de Jorge Luis Borges:

Ficções (Cia das Letras, 2007)

O Aleph (Cia das Letras, 2008)

Qualquer uma das seguintes antologias de Anton Tchekov:

Contos (Coleção Clássicos de Ouro, Trad: Tatiana Belinky, Nova Fronteira, 2018.)

O beijo (Trad: Boris Schnaiderman, 34, 2006.)

A dama do cachorrinho (Trad: Boris Schnaiderman, 34, 1999.)

Textos de apoio:

Tchecov:

— Understanding Chekhov, A critical study of Chekhov’s Prose and Drama, de Donald Rayfield (Univ Wisconsin Press, 1999)

“Anton Tchekhov” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

Borges:

“Borges” em O Cânone Ocidental, de Harold Bloom (Objetiva, 2014)

“Jorge Luis Borges” em Gênio, de Harold Bloom (Objetiva, 2016)

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Curso completo (10 aulas): $699

Todas as compras são feitas pelo PagSeguro, que faz parcelamento, aceita todos os cartões, transferência bancária e até boleto. Pessoas no exterior compram via PayPal ou Amazon gift card (email: lll.alexcastro@gmail). O link do encontro será enviado por email, então, garanta que seu email de cadastro no PagSeguro/PayPal está atualizado. O vídeo das aulas anteriores estará disponível para quem entrar após o início do curso.

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Linguagem não-sexista

Em meus textos, para chamar atenção para o sexismo de nossa língua, inverto a norma e uso o feminino como gênero neutro. Não porque troquei um sexismo por outro, mas porque o gênero da palavra “pessoa” é feminino.

Trocar:

“Meus alunos não calam a boca.”

Por:

“Minhas alunas não calam a boca.”

Só mantém o sexismo da língua. Pior: sugere que são apenas as minhas alunas mulheres que não calam a boca.

Por isso, hoje, digo:

“Minhas pessoas alunas não calam a boca.”

Essa tem sido, pra mim, a maneira não-sexista de escrever.

Mais detalhes aqui: Mini manual pessoal para uso não-sexista da língua.

5 respostas em “Introdução à Grande Conversa”

Eu já estava lendo a Bíblia do Peregrino ao lado da Bíblia pastoral em ritmo confortável, aproveitando as notas, por indicação de um texto do Alex Capstro acerca das diferentes traduções da Bíblia. Já estava pensando em sugerir um curso literário sobre a Bíblia. Leu meus pensamentos.

Que viagem! Estou me preparando para ver se faço inteira ou pego o Expresso em alguma estação. Deixo uma sugestão, como serão encontros densos, que a gravação pudesse ficar até pelo menos domingo à
meia-noite para podermos
ouvir enquanto fôssemos lendo e refletindo.

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