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aula 08: revoluções leituras miseráveis

Teoria dos grandes romances

Os Miseráveis é um dos romances mais longos de todos os tempos. E, em minha opinião, o melhor.

Naturalmente, vários outros romances têm qualidades técnicas e literárias equivalentes. Os meus finalistas seriam Guerra e Paz (Tolstoi, 1867, russo), Moby Dick (Melville, 1850, inglês), Cem anos de solidão (Garcia Márquez, 1967, espanhol), Manuscrito encontrado em Saragoça (Potocki, 1814, francês): todos possuem um interesse profundo, sincero, empático por cada personagem, até os menores — que, na prática, não são menores, pois explodem na página com profundidade e concretude inesquecíveis.

Mas, se o que me faz amar Homero é sua dureza, o que me faz amar Hugo (e colocar Os Miseráveis um nariz à frente de todos os outros romances que já li) é o seu olhar amoroso.

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Leituras 2020, comentadas

Não por acaso, o primeiro ano da grande pandemia também foi o ano em que mais li. Abaixo, alguns comentários sobre as minhas leituras em 2020. Antes, alguns avisos. Para quem tiver pressa, a lista está no fim do texto.

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aula 06: navegações grande conversa shakespeare tempestade

A tempestade, de Shakespeare

A Tempestade (nem tragédia, nem comédia, mas um “romance”, termo vago que caracteriza as últimas peças de Shakespeare) é uma obra onírica e indistinta, esfumaçada e sonolenta, de enredo solto e elíptico, onde ninguém morre nem se machuca.

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aula 10: burgueses grande conversa leituras

Como consumir arte narrativa

Cada obra de arte só pode ser julgada e fruida em relação a si mesma, suas premissas, seus objetivos.

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Dez romances preferidos

Perguntaram a vários escritores. Aqui vão os meus.

Todo grande romance é cósmico: ele parte da especificidade das situações cotidianas e, a partir delas, abraça a totalidade da existência.

Primeiro, cinco romances simplesmente perfeitos, que nunca poderiam deixar de estar nessa minha lista:

E outros cinco quase tão perfeitos quanto:

Quais são os seus?

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aula 02: gregos aula 06: navegações grande conversa ilíada lusíadas shakespeare

Tersites, um criador de caso da Ilíada a Shakespeare

Tersites é tudo que os herois homéricos não são, que ninguém mais é, que até então não existia. Tersites é uma figura que acaba de surgir na história humana: agitador popular e revolucionário marxista, um revoltado e um silenciado, o primeiro anarquista e o primeiro protestante. Um criador de caso que não sabe o seu lugar, um homem do povo que diz que o rei está nu. Um teórico da conspiração, um herói da classe trabalhadora. Tersites é aquilo que somente então se torna concebível.

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Atos humanos, de Han Kang

Human acts, romance da sul-coreana Han Kang, me deixou absolutamente destruído, derrubado. Eu, que durmo cedo, só fui desabar às sete da manhã, na lona. Poucas vezes apanhei tanto de um romance em toda a minha vida.

Que livro. Que mulher. Que artista.

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José J. Veiga, criador de cruéis cachorros

José J. Veiga (1915–99) é um de nossos grandes autores esquecidos, um alegórico de mão cheia, talvez único verdadeiro praticante de realismo mágico no Brasil.

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Tomás de Aquino, autor da Suma Teológica

Tomás de Aquino, frade e teólogo, mais tarde santo, foi um dos homens mais lógicos e mais racionais de todos os tempos. Ninguém me ensinou, tanto quanto ele, sobre os limites duros da lógica e sobre os pontos cegos da racionalidade.

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Na estrada, de Jack Kerouac: a história de um não

O livro Na Estrada (1957), de Jack Kerouac, é um dos clássicos mais deslidos de todos os tempos.

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Para quê serve a História?

O objetivo de qualquer processo filosófico é sempre des-naturalizar o que nos parecia mais natural.

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Como organizo meus livros

Ontem, fiz minha primeira live no Instagram apresentando as estantes aqui de casa.

(Se ainda não me segue por lá, aproveita: @outrofobia)

Mas me dei conta de que não expliquei a organização das estantes.

Em resumo:

Ficção de um lado, não-ficção do outro.

Não-ficção por assunto e, dentro, por sobrenome de pessoa autora.

Ficção por língua original e, dentro, por sobrenome de pessoa autora.

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Primeiras impressões de Paraíso Perdido, de John Milton

Estou completamente embasbacado e impressionado, fascinado e apaixonado.

É como se fosse uma nova Bíblia, melhorada e modernizada, aprofundada e embelezada, onde as questões e discussões latentes no Gênese, em Jó, no Apocalipse, são finalmente desenvolvidas e elaboradas com toda a arte retórica e a beleza vocabular que só um poeta no auge dos seus poderes é capaz.

Paraíso Perdido tem tudo que eu buscava na Bíblia e não encontrava. De certo modo, é melhor, ou pelo menos, é o complemento ao meu livro preferido. Não teria como gostar mais.

(Meus livros preferidos são, nessa ordem, Bíblia, Declínio e Queda do Império Romano, Ilíada. Paraíso Perdido está arriscando entrar na lista.)

As questões levantadas já eram relevantes na época de Milton (que se engajou em uma revolução recém-derrotada e perdeu tudo, menos a vida) e são ainda mais na nossa:

Oquanto de obediência devemos ao poder constituído?

Quais são as obrigações do poder em relação aos seus dominados?

É mais digna uma vida de revolta sem fim comparada à paz de uma submissão bovina?

Ou, como bem coloca Satã, será melhor reinar no inferno do que obedecer no céu?

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Romeu e Julieta, de Shakespeare

Romeu e Julieta, de William Shakespeare, talvez seja a melhor, a mais perfeita, a mais acessível tragédia do autor. Sob qualquer critério, um dos ápices da literatura ocidental. Para apreciá-la, porém, nosso maior inimigo é sua própria fama, seu lugar central na nossa cultura, e todas as noções pré-concebidas – “uma história água-com-açúcar”, “os protagonistas são bobinhos”, etc e etc – que trazemos para a experiência.

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Peter Handke

Deus!, como eu queria gostar de literatura contemporânea!

Infelizmente, obras sobre personagens tediosos e vazios quase sempre também são obras tediosas e vazias.

Lord Byron está morto há 200 anos, mas nunca escreveu uma frase que não fosse, no mínimo, interessante. É uma das poucas obrigações da literatura.

Acabei de ler quatro romances de Peter Handke, ganhador do Nobel de Literatura de 2019, e só o que pensava era que teria sido melhor, mais útil, mais prazeroso, reler Byron.

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Houellebecq

O romancista francês Michel Houellebecq (uélbéq), com toda sua raiva, ressentimento, misantropia, reacionarismo, é, com certeza, em parte por tudo isso, mas também por seu inegável gênio literário, o escritor vivo mais importante do mundo, aquele que mais capturou o zeitgeist, aquele que tem que ler lido pra se entender 2020.

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Górki

Dos grandes russos, Górki é, ao mesmo tempo, o menor e o maior, o mais falho e o mais necessário.

Nunca perfeito, todos os seus defeitos emanam das suas grandes qualidades, do seu humanismo, da sua empatia, da sua expansividade.

“Gorky Visiting Red Army Men” por Victor Ryzhikh

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Queen Mab, de Shelley

A poesia é a casa da subversão e do radicalismo.

“Queen Mab’s cave” (1846), de Joseph Mallord William Turner

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Herta Muller

Herta Müller, ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, cresceu triplamente marginalizada:

Em primeiro lugar, era romena e viveu no país durante a fase mais repressiva da ditadura de Nicolae Ceaușescu.

Em segundo, era parte de uma minoria alemã dentro da Romênia, marginalizada por ser um lembrete vivo da aliança do país com Hitler. (O pai de Müller, e muitos de seus personagens, são ex-oficiais da SS.)

Em terceiro, por ser mulher.

As três marginalizações são, em larga medida, o tema de sua obra.

O homem é um grande faisão no mundo, escrito em 1986 e publicado no Brasil pela Cia das Letras em 2013, é a história de um moleiro que quer emigrar com a família para o ocidente e só consegue porque sua filha se deita com alguns figurões do partido.

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Wislawa Szymborska

Estou absolutamente apaixonado pela poetisa polonesa Wisława Szymborska (Visuáva Chamborska), ganhadora do Nobel de Literatura de 1996.