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Tomás de Aquino, autor da Suma Teológica

Tomás de Aquino, frade e teólogo, mais tarde santo, foi um dos homens mais lógicos e mais racionais de todos os tempos. Ninguém me ensinou, tanto quanto ele, sobre os limites duros da lógica e sobre os pontos cegos da racionalidade.

Tomás de Aquino, frade e teólogo, mais tarde santo, foi um dos homens mais lógicos e mais racionais de todos os tempos. Ninguém me ensinou, tanto quanto ele, sobre os limites duros da lógica e sobre os pontos cegos da racionalidade.

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Sua Suma teológica, escrita entre 1265 e 1273, é uma vasta e gigantesca obra-prima onde analisa, de forma lógica e racional, as grandes questões da humanidade — que, para ele, eram as grandes questões da Teologia cristã.

Quase ninguém mais deve ler a Suma teológica de cabo a rabo — são nove volumes, três mil capítulos, um milhão e meio de palavras — mas li o suficiente para mudar a minha vida para sempre.

A edição da minha casa tinha um bom índice onomástico e, desde criança, sempre que estava pensando ou pesquisando, ponderando ou escrevendo sobre algum grande tema da humanidade — bondade ou dever, liberdade ou felicidade — eu dava uma olhada no que o velho Tomás tinha a compartilhar comigo.

(Quando eu era moleque, minha casa não tinha muitos livros, mas apenas algumas enciclopédias e a coleção Great books of the Western World, que vinha com a Enciclopédia Britânica. Escrevi mais sobre essa coleção aqui.)

Tomás de Aquino estabelece as premissas, antecipa as objeções e, em seguida, avança como um tanque Panzer em uma blitzkrieg da Wehrmacht, esmagando cada objeção possível e imaginária, um argumento levando ao outro, sem apelação e sem descanso, lógico e metódico, avassalador e irreprimível, inevitável e imbatível.

Ninguém jamais construiu ou construirá um argumento lógico como Tomás de Aquino. Em suas mãos, a lógica e a racionalidade se transformam em uma forma de arte sublime. Deveria ser estudado em cursos de Direito, somente pela construção do argumento.

(Na verdade, o mesmo pode ser dito de todos os bons filósofos escolásticos, como Ockham ou Scotus, mas nada que eles produziram é tão descomunal quanto a Suma teológica de Aquino.)

Como disse a filósofa Aline Ramos:

“O que dá raiva tanto em Aristóteles quanto em Tomás é que a gente tem a intuição de que eles estão errados (porque eles dizem coisas absolutamente contrárias a muita coisa que é considerada “senso comum” hoje em dia), mas é muito difícil refutá-los com diligência. Porque a estrutura lógica dos argumentos é muito sólida. Há mais beleza em um argumento que em toda a arte.”

Porque, sim, apesar de tudo, Tomás era um homem do seu tempo (século XIII) e do seu meio (frade e doutor em Teologia).

Fundamentalmente, na prática, toda essa sua genialidade, toda sua verve, todos os seus poderes retóricos e argumentativos, estão sempre a serviço de discutir quantos anjos dançam na ponta de alfinete.

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Tomás de Aquino me ensinou lições importantes que eu, operário da palavra, uso todos os dias.

Primeiro, que o papel aceita qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. (Obrigado ao bom Deus por essa graça.)

Segundo, que a lógica e a racionalidade, por si só, não têm valor intrínseco algum: são ferramentas que podem ser usadas para alcançar qualquer objetivo.

Quando a pessoa parte de premissas erradas, o argumento pode até ser desenvolvido de maneira genial e fascinante, mas não há como se chegar a lugar algum. (Ninguém jamais foi do erro à lugar algum com a beleza e com a verve, com a competência e com a destreza, de Tomás de Aquino.)

Um amigo leu a primeira versão desse texto e rebateu:

“Ora, 90% da racionalidade é investigar as premissas. Se Tomás de Aquino não fez isso, então, falhou e não é tão racional assim.”

A questão talvez seja essa.

As premissas das quais Tomás de Aquino partiu eram as únicas premissas que existiam, as únicas que estavam dadas, as únicas premissas que eram possíveis. Literalmente, não havia um contradiscurso.

Mas estou aqui, escrevendo um texto sobre um homem que morreu exatos 700 anos antes de eu nascer, justamente porque ele pegou as mesmas premissas de todo mundo e fez com elas o que ninguém mais, nem antes nem depois, foi capaz de fazer.

O que Tomás de Aquino mais me ensina é humildade intelectual.

Porque ele era mais inteligente e mais articulado do que qualquer pessoa que conheci em meus cinquenta anos de vida.

E, mesmo tendo toda essa artilharia cerebral a sua disposição, ainda assim estava limitado pelas premissas que lhe eram disponíveis e pela doxa de seu tempo.

Como todas nós.

Se Tomás de Aquino podia estar errado em quase tudo, imagina então você.

Imagina então eu.

Vitral representando Tomás de Aquino na Catedral de São Romualdo de Malinas, em Mechelen, na Bélgica. Clique para ver em tamanho maior.

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Outro Tomás que me ajudou a dissolver a arrogância das minhas certezas foi o Kuhn. Tomás de Aquino é muito distante de nós, e sua obra é muito longa, mas A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), de Thomas Kuhn, tem o tamanho de um livro normal e nos vira ao avesso do mesmo jeito. Está em catálogo e é fácil de encontrar. Recomendo.

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Tomás de Aquino, autor da Suma Teológica é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 26 de maio de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/tomas-de-aquino-suma-teologica // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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