O que é raça?

“Alex, você se acha branco? Negro? Qual é a sua raça?”

Respondo que não me acho nada.

Na maior parte do Brasil, acham que sou branco. No sul, acham que sou negro, mulato. Nos Estados Unidos, acham que sou latino ou hispânico. Na Europa, acham que sou árabe.

Então, o que eu sou depende de onde estou e de quem vê.

O que importa é que, no Sudeste do Brasil, sou tratado como pessoa branca e, por isso, desfruto dos privilégios outorgados às pessoas brancas. Nos Estados Unidos, sou tratado como pessoa latina/hispânica e, por isso, compartilho do tratamento preconceituoso que essa cultura dispensa às pessoas latinas/hispânicas, etc.

E eu, o que eu sou?

Dado que raça, biologicamente falando, de fato, no gene, no DNA, não existe…

Dado que raça é um fenômeno totalmente político, cultural, social, econômico…

Então, eu sou rigorosamente tão branco quanto sou negro, tão hispânico quanto sou árabe.

Não existe isso de “ser uma pessoa branca”, mas existe, e é bem real, ser tratada, vista, percebida e, principalmente, valorizada como pessoa branca.

“Ser uma pessoa branca” é uma ilusão biológica. “Ser tratada como uma pessoa branca” é uma realidade social, politica, econômica.

Então, a resposta é que eu não me acho nada.

Na cidade onde nasci, cresci e moro, no Rio de Janeiro, sou percebido como branco e desfruto dos privilégios de branco.

Então, na prática, para todos os fins e efeitos, sou branco.

Mas se você me pergunta se eu me acho branco, a minha única resposta precisa e sincera é que não me acho nada.

O discurso essencialista (“sou X”) muitas vezes é somente uma tática conservadora para desviar a discussão da realidade como ela é: o que importa é como somos tratadas, tanto na entrevista de emprego quanto na blitz policial, nessa nossa sociedade tão incrivelmente racista.

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A fragilidade do corpo negro

Resenha de Entre o mundo e eu de Ta-Nehisi Coates para a Folha de S. Paulo, publicada no dia 2 de janeiro de 2016. Abaixo, a versão integral.

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Entre o mundo e eu, uma carta do jornalista norte-americano Ta-Nehisi Coates (pronúncia aproximada: tanarrássi) para seu filho de quinze anos, é um livro sobre o corpo. Mais especificamente, sobre o corpo negro.
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das duas, uma

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ou você admite que meritocracia é uma farsa e que vivemos em um país racista;

ou você admite que sinceramente, de verdade, do fundo do seu coração, você acha que as pessoas negras gostam mais de ser assassinadas do que de cursar faculdade.

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imagem: “quadro negro” (2015), de estevão haeser.

racismo reverso

uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio.

uma camisa “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.

existe uma enorme diferença.

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a partir de agora, quando alguém vier me falar de racismo reverso, vou mostrar esse vídeo. tem legendas em português.