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A escravidão, esquecida: Mariana, de Machado de Assis

A história da escravizada “Mariana”, escrita e prontamente esquecida por Machado de Assis, faz paralelo com a própria escravidão no Brasil, esquecida assim que abolida.

A escravizada Mariana, protagonista do conto homônimo de Machado de Assis, criada no auge da campanha abolicionista, prontamente esquecida por seu criador e somente recuperada em meados do século XX, poderia formar um paralelo revelador com a própria escravidão, tema de debates polêmicos em sua época, prontamente esquecida por seus defensores e opositores assim que abolida e somente recuperada em sua importância histórica no século seguinte.

A Ausência da Escravidão na Literatura Brasileira

O Brasil foi a última nação independente ocidental a abolir a escravidão, em 1888. Por toda sua história colonial e nacional, a escravidão definiu o caráter da cultura, da economia e da civilização brasileira de modo geral. Ao longo do século XIX, o debate sobre a escravidão dominou a vida política e cultural do país. No Parlamento, nos editoriais, nas ruas, discutia-se tanto a necessidade econômica da escravidão quanto suas justificativas morais. Surpreendentemente, o debate não se refletiu na literatura. Se entendermos “romance sobre a escravidão” como um romance que apresente a escravidão como seu tema principal, em primeiro plano, seja para atacá-la ou defendê-la, então fica claro que a literatura brasileira canônica do século XIX não conta com nenhum exemplar desse gênero. Para fins de comparação, outras duas nações escravistas contemporâneas envolvidas em debate semelhante produziram romances memoráveis sobre a escravidão, como A Cabana do Pai Tomás, Huckleberry Finn e a noveleta Benito Cereno, nos Estados Unidos, e Sab e Cecília Valdés, em Cuba. No Brasil, entretanto, apesar de algumas peças de teatro e poesias, nenhum romance canônico explorou os dramas humanos intrínsecos à escravidão. Apesar de a escravidão ser quase onipresente, especialmente na capital do Império, a maior produtora de cultura do país, os escravizados são quase invisíveis na literatura canônica brasileira do século XIX.

No ensaio “Coisas indizíveis não-ditas”, disponível no livro A fonte da autoestima, a romancista Toni Morrison, ganhadora do Nobel de Literatura e autora de Amada, ataca a ausência da escravidão da literatura norte-americana. Suas observações se aplicam perfeitamente também à literatura brasileira, onde a ausência da escravidão é ainda mais dramática. O invisível não está necessariamente ausente, escreve Morrison; uma lacuna pode estar vazia mas não é um vácuo. Certas ausências são tão enfatizadas, tão ornamentadas, tão planejadas, que chamam a atenção. A grande pergunta não é nem porque o negro está ausente da literatura mas, muito mais interessante, que malabarismos intelectual tiveram que ser feitos para excluir da literatura uma instituição (a escravidão) e um ator (o negro) tão fundamentais para a sociedade onde essa literatura foi produzida. Como foi realizado esse desaparecimento intencional? Como ele afetou o resultado final? Em meados do século XIX, no auge da escravidão e do debate abolicionista, escreve Morrison, autores norte-americanos (e brasileiros) escolheram produzir romances românticos. Onde, nesses livros, está a sombra dessa presença da qual o texto fugiu? Qual é o efeito dessa fuga? Será o texto sabotado por suas próprias proclamações de universalidade? Não existirão presenças-fantasma nesses textos, distorcendo suas intenções e fazendo-os funcionar de maneira diferente? Por fim, Morrison conclui:

“Nota-se uma ausência enorme, artificial e imposta, nos primórdios da literatura americana, e eu defendo que essa ausência é instrutiva. Só aparentemente o cânone da literatura americana é “natural” e “inevitavelmente” “branco”. Na verdade, ele o é cuidadosamente.” (11-15)

Estudos recentes sobre literatura e nacionalismo, como Comunidades imaginadas, de Benedict Anderson, e Ficções de fundação, de Doris Sommers, ajudam a explicar essa ausência. Especialmente na América Latina, a literatura foi uma importante ferramenta de auto-afirmação da identidade nacional. Tentando construir uma nova mitologia para seus nascentes estados nacionais, os autores do século XIX produziram um novo tipo de romance. Românticos, açucarados e simplistas, esses romances apresentavam uma versão idealizada da vida local e se alinhavam aos interesses ideológicos das elites nacionais que se consolidavam no pós-independência. Sommers chama essas obras de ficções de fundação.

Georg Lukacs, em seu A Teoria do Romance, postula que uma das características definidoras do romance, em oposição ao épico, é abordar a ruptura essencial entre o ser e a realidade, onde o eu estaria necessariamente em conflito com seu mundo. Na Ilíada, por exemplo, Aquiles enfrenta inúmeros perigos mas, ao contrário de um personagem de um romance moderno, jamais lhe ocorreria questionar sua missão. Pois é justamente esse “herói conformista” o protagonista de boa parte das ficções de fundação, de O Último dos Moicanos até O Guarani. Não é coincidência a atmosfera épica de muitos desses romances. Lukacs também alerta que o romance é o único gênero que contém uma caricatura de si mesmo: o romance de entretenimento, que se parece com ele na forma até quase se confundir, mas cuja essência não está ligada a nada e não tem significado algum. (76) Por um lado, a maioria das ficções de fundação foi escrita como literatura de aventura ou romântica, histórias folhetinestas e escapistas vendidas como entretenimento. Por outro lado, entretanto, não podemos afirmar, como diz Lukacs, que sua essência não estava ligada a nada e que não tinham significado algum. Pelo contrário, sua essência estava essencialmente ligada ao projeto de construção nacional sendo realizado pelas elites locais e, dentro disso, possuíam um complexo significado simbólico, social e político. Não por acaso, essas ficções nacionais épicas foram muitas vezes entronizadas nos cânones literários nacionais completamente à revelia de seu limitado valor artístico.

Naturalmente, qualquer crítica à realidade, qualquer debate sobre projetos alternativos de construção nacional, está proeminente e necessariamente ausente das ficções de fundação. Como afirma Sommer, uma das principais características desse tipo de romance é seu projeto pacificador: (12)

“A coerência [dos romances fundacionais] deriva do  projeto comum de construir reconciliações e amálgamas de grupos nacionais, representados nas obras como amantes, destinados a desejar um ao outro. Isso produz uma forma narrativa surpreendentemente consistente que parece ser adequada a uma série de posições políticas; que são guiadas pela lógica do amor.” (40)

Não se quer dizer, naturalmente, que não tenham existido romances contemporâneos com uma visão mais crítica da realidade. Somente que, como esse tipo de debate não interessava ao projeto pacificador da elite cultural, tais romances não entraram no cânone e tenderam ao esquecimento gradual. Úrsula, por exemplo, romance de Maria Firmino dos Reis, apesar de não ser um romance sobre a escravidão, mostra escravizados com mais humanidade e autonomia do que qualquer romance canônico contemporâneo: depois de mais de um século de completo esquecimento, só nos últimos anos o livro vem sendo reabilitado, lido e estudado.

No Brasil particularmente, os escritores fundacionais escolheram idealizar o índio como o paradigma do perfeito brasileiro. O branco ainda era por demais associado ao português, em oposição a quem a jovem nação recém-independente queria se definir. O negro, considerado inferior e onipresente, era fundamental à vida cotidiana e, talvez por isso, não se prestava a uma idealização épica: sua figura era por demais doméstica. Sobrava o índio, que havia sido convenientemente exterminado, era invisível na cultura brasileira e totalmente ausente da rotina diária da capital. Por não existir um índio cotidiano para comparação, o índio idealizado seria até mais verossímil. Começa a ficar mais claro, portanto, por que a ficção de um país que se definia escravista simplesmente jamais enfrenta abertamente a escravidão.

Como afirma Roberto Reis, em seu estudo sobre o discurso do romance brasileiro do século XIX, The Pearl Necklace (1998), escolher o escravizado como figura central da literatura já significaria colocar em discussão as próprias fundações da sociedade escravista. Não por acaso, continua Reis, outros temas potencialmente polêmicos e inímicos ao projeto de pacificação nacional também foram cuidadosamente evitados: violência, trabalho, pobreza. Mesmo quando representavam figuras subalternas, como o índio, esses romances o faziam somente para silenciá-los e moldá-los de acordo com os valores da classe senhorial branca — que eram, afinal, os autores e leitores destas obras. (50-51). E conclui Reis:

“O romance do século XIX oferece um autorretrato da sociedade onde foi escrito e lido, reproduzindo, na representação literária, as barreiras hierárquicas que caracterizavam a realidade social. Não gerou nenhuma forma de transgressão.” (52)

A questão do trabalho nunca está completamente dissociada da escravidão. Em Faces da Personagem Escrava (2001), Marília Conforto aponta que essa literatura mostra sobretudo um mundo iluminado por saraus, teatros e namoros, onde o trabalho produtivo praticamente inexistia. (27) Ou melhor, existia, mas era realizado por escravizados e homens pobres livres, personagens que o romance canônico brasileiro preferiu não mostrar. Na estrutura narrativa, o escravizado era apenas figurante, contribuindo na aproximação romântica dos protagonistas brancos, servindo alimentos e bebidas, até mesmo servindo de válvula de escape para os dissabores amorosos do senhor: “ajudava a compor o ambiente onde se desenrolava a ação, ao lado de móveis, roupas, carruagens e utensílios.” (46)

Nem mesmo nos poucos romances canônicos que mostram a vida das camadas mais pobres, como Memórias de Um Sargento de Mílicias, o escravizado existe literariamente: “É como se naquele momento não existisse trabalho escravo.” (52) Não por acaso, o escravizado só é mostrado ou mencionado quando está realizando algum serviço, e depois some da trama. Só interessa seu status de ferramenta, não sua humanidade: quando não está servindo os brancos é como se não mais existisse. (56) Para Conforto, ao negar a contribuição africana na construção da identidade nacional, a literatura nada mais fez do que conceder a essas populações o mesmo status que possuíam no mundo real, ou seja, meros instrumentos de trabalho: “o que surpreende o leitor contemporâneo é que, mesmo sendo de fundamental importância para a economia brasileira desde o período colonial, em nível literário a personagem escrava teve um outro tratamento.” (105)

Como afirma Morrison, o que chama a atenção é justamente a ausência daquele elemento que deveria estar presente. Chama especialmente atenção, portanto, que o maior escritor canônico brasileiro, Machado de Assis, tenha tão raramente abordado o tema da escravidão, ou mesmo incluído personagens negros e mulatos em suas obras. Nos romances, não há um único protagonista de cor: os poucos negros e mulatos são sempre pequenos coadjuvantes. Somente três de seus contos podem ser considerados como sendo “sobre escravidão”, de acordo com a definição acima, por abordarem temas específicos e intrínsecos à escravidão: “Pai Contra Mãe“, “O Caso da Vara” e “Mariana“. Entretanto, nestes três contos escritos por um autor mulato, o ponto de vista que impera é o do protagonista branco: os negros e escravizados são sempre vistos como o outro, a vítima, o fugitivo, a escravizada. Nos dois primeiros, a narrativa centra-se tanto nos dilemas dos protagonistas brancos que os personagens negros mal são mostrados: não passam de pano de fundo. São contos sobre a escravidão, não sobre escravizados. O terceiro, porém, “Mariana“, apesar de também visto sob o ponto de vista dos brancos, traz a personagem negra mais bem construída, completa e complexa da obra de Machado de Assis, e talvez de toda a literatura brasileira do século XIX. A trajetória do conto “Mariana” pode nos ajudar a entender melhor a própria trajetória da idéia de escravidão na cultura brasileira.

(Pode ser mais legal ler o conto “Mariana” agora e, depois, continuar lendo meu texto. É só clicar no link.)

“Mariana”: Os Limites da Escravidão

O conto “Mariana” é publicado em janeiro de 1871, no Jornal das Famílias. No ano anterior, o governo imperial decreta a abolição unilateral da escravidão — mas não no Brasil, e sim no Paraguai, ocupado por tropas brasileiras desde sua derrota na Guerra da Tríplice Aliança. Em meados de 1871, na Bahia, morre Castro Alves, aos 24 anos de idade, três anos depois de ser saudado (e praticamente canonizado) por Machado de Assis e José de Alencar como a nova grande promessa da literatura brasileira. Castro Alves foi o primeiro autor brasileiro a retratar o negro como um ser humano capaz de amores e dores existenciais, não mais somente um entregador de bilhetes amorosos entre moços e sinhás. Ao mesmo tempo, o assunto mais apaixonante da política brasileira no final de 1870 e primeira metade de 1871 foi a Lei do Ventre Livre, que acaba sendo aprovada, mas não sem antes galvanizar, nos editoriais e nas esquinas da cidade, as posições de abolicionistas e escravocratas. De acordo com Emilia Viotti da Costa, os debates sobre a Lei do Ventre Livre foram o batismo de fogo de toda uma geração de políticos: subitamente, ser abolicionista tornou-se não apenas politicamente viável (ao invés de suicídio político) mas também, especialmente para os mais jovens, desejável e respeitável. Nas palavras de Costa, estava na moda ser abolicionista (49).

Se a Lei do Ventre Livre (e, consequentemente, a própria natureza da escravidão) foi o assunto mais polêmico de 1871, os leitores do Jornal das Famílias só souberam disso por outros periódicos: longe de ser uma revista polêmica ou política, podemos afirmar, sem medo do trocadilho, que era profundamente voltado para o social — entendido como “a alta sociedade da corte” e não “as condições sociais do povo”. O Jornal das Famílias era uma revista de cerca de 32 páginas, impressa em Paris, ricamente ilustrada, de circulação mensal e voltada prioritariamente ao público feminino de alta renda que podia pagar o alto preço de sua assinatura. Como se pode imaginar, a linha editorial do Jornal das Famílias não era informar as senhoras da Corte sobre as grandes questões políticas da sua época, mas publicar folhetins açucarados e histórias moralizantes, receitas e modelagens para costura, artigos sobre artesanato, moda e economia doméstica. Mello enfatiza o aspecto não-informacional da revista, ao ressaltar uma série de acontecimentos históricos nunca mencionados no Jornal das Famílias.

Machado de Assis começa a publicar na revista em seu segundo ano, 1864, quando ele contava 25 anos e ainda não era um escritor conhecido, e vai se tornar o colaborador mais prolífico da revista, com mais de 70 textos publicados, entre contos, crônicas e poesias. Apesar do Jornal das Famílias ter sido fundamental para o desenvolvimento literário de Machado de Assis, podemos especular que não era para ler seus contos que as leitoras compravam a revista: compravam, provavelmente, para ler sobre moda, costura e economia domésticas, ou mesmo para ler os folhetins franceses. Os contos de Machado de Assis, apesar de ótimos, vinham como um agradável bônus (Pinheiro, Mello).

“Mariana” começa com o narrador, Macedo, voltando ao Rio de Janeiro depois de uma ausência de quinze anos. Já nos primeiros parágrafos, ele se estabelece como um personagem fútil e leviano: enquanto seus amigos envelheceram, amadureceram, subiram profissionalmente na vida, Macedo continua absolutamente igual, como se quinze anos não tivessem lhe afetado em nada, sem ter conhecido o “lado feio da vida”. Ao descrever as mudanças ocorridas na cidade durante esse tempo, só menciona superficialidades: hotéis da moda, boutiques, etc. Já ficamos sabendo que, quaisquer que sejam os fatos que se seguirão, vão ser narrados por um personagem cujas prioridades são fúteis. Em breve, os amigos estão trocando histórias de suas vidas e um deles, Coutinho, toma para si a voz narrativa da história e conta porque acabou não casando com a prima que namorava:

“— Antes e depois amei e fui amado muitas vezes; mas nem depois nem antes, e por nenhuma mulher fui amado jamais como fui… / — Por tua prima? perguntei eu. / — Não; por uma cria de casa. / Olhamos todos espantados um para outro. Ignorávamos esta circunstância, e estávamos a cem léguas de semelhante conclusão. Coutinho não parece atender ao nosso espanto; sacudia distraidamente a cinza do charuto e parecia absorto na recordação que o seu espírito evocava.” (Ao longo das próximas citações, os grifos serão sempre meus)

Pela narração acima, não se sabe o que é mais escandaloso aos amigos: se uma escravizada ousar amar seu senhor ou se o senhor agir como se isso não fosse uma profunda subversão hierárquica. Coutinho, entretanto, não é nenhum anarquista: ao descrever a escravizada que o amou, enfatiza repetidamente que Mariana, apesar de todas as vantagens de criação que teve, sabe o seu lugar:

“Não se sentava à mesa, nem vinha à sala em ocasião de visitas, eis a diferença; no mais era como se fosse pessoa livre, e até minhas irmãs tinham certa afeição fraternal. Mariana possuía a inteligência da sua situação, e não abusava dos cuidados com que era tratada. Compreendia bem que, na situação em que se achava, só lhe restava pagar com muito reconhecimento a bondade de sua senhora.”

Por ter “inteligência de sua situação”, ou seja, saber o papel que lhe cabe e não desejar mais que isso, Mariana era amada como se fosse da família: “acostumado a ver Mariana bem tratada, parecia-me ver nela uma pessoa de família“. Como veremos mais adiante, o amor que a família dedicava à Mariana era condicional à sua completa submissão às regras constituídas.

Mesmo os elogios de Coutinho deixam claro que não se está elogiando uma moça branca, a começar por sua dupla insistência no “fogo” de Mariana, talvez simbolizando a sexualidade incontrolável da negra, sempre tão atraente e ameaçadora no imaginário dos brancos:

“O desenvolvimento do seu espírito não prejudicava o desenvolvimento de seus encantos. Mariana aos 18 anos era o tipo mais completo da sua raça. Sentia-se-lhe o fogo através da tez morena do rosto, fogo inquieto e vivaz que lhe rompia dos olhos negros e rasgados. Tinha os cabelos naturalmente encaracolados e curtos. Talhe esbelto e elegante, colo voluptuoso, pé pequeno e mãos de senhora.”

Não deixa de ser curioso que o último elemento físico elogiado por Coutinho sejam as “mãos de senhora” de Mariana: caso estivesse efetivamente descrevendo uma senhora de sociedade, Coutinho provavelmente elogiaria seus dotes morais, suas virtudes, sua castidade. Ao elogiar uma negra escravizada, entretanto, os patriarcas poderiam se dar a liberdades que não se dariam com mulheres brancas.

Finalmente, Coutinho fica noivo de sua prima Amélia e começa a passar mais tempo na casa dela. Até que, uma noite, Mariana vai procurá-lo aos prantos na porta de seu quarto. A primeira hipótese que ocorre à Coutinho para explicar aquelas lágrimas é uma que, ao mesmo tempo que confirma seu poder patriarcal, também presume uma bondade intrínseca de sua família no uso desse poder:

“Supus que houvesse cometido alguma falta e recorresse a mim para protegê-la junto de minha mãe. Nesse caso a falta devia ser grande, porque minha mãe era a bondade em pessoa, e tudo perdoava às suas amadas crias.”

Quando Mariana se recusa a explicar suas lágrimas e foge, Coutinho logo esquece a questão. Lágrimas de escravizada (mesmo se for uma “amada cria”) não são assunto para permanecer na mente de um sinhozinho por muito tempo. Mais tarde, quando fala do assunto com sua irmã, Coutinho logo descarta as lágrimas da escravizada como sendo fruto de algum namoro com “um copeiro ou cocheiro”. Mariana, entretanto, continua tristíssima e Coutinho pergunta se foi algum namorico — o diminutivo indica que paixão de escravizada não poderia mesmo ser séria — reitera que ela é querida por todos na família e que ninguém fará objeções à sua felicidade com o homem que escolher. O diálogo é revelador do complicado jogo hierárquico que regia as relações senhor-escravizado:

“— Não se trata de amores, que eu não posso ter amores. Sou uma simples escrava. / — Escrava, é verdade, mas escrava quase senhora. És tratada aqui como filha da casa. Esqueces esses benefícios? / — Não os esqueço; mas tenho grande pena em havê-los recebido. / — Que dizes, insolente? / — Insolente? disse Mariana com altivez. Perdão! continuou ela voltando à sua humildade natural e ajoelhando-se a meus pés; perdão, se disse aquilo; não foi por querer; eu sei o que sou; mas, se nhonhô soubesse a razão, estou certa que me perdoaria.”

Mariana responde dizendo que sabe o seu lugar, é simples escravizada, sem direito de amar. Essa afirmação, entretanto, fere o orgulho de patriarca bondoso de Coutinho e ele faz questão de enfatizar que ela é muito mais do que simples escravizada: é quase senhora, é quase filha. Na verdade, Coutinho está defendendo a si mesmo: “Imagine se eu trataria uma escrava como escrava! Sou muito melhor que isso! Minhas escravas são tratadas como filhas!” Apesar de Mariana saber a verdade, ela se deixa levar momentaneamente por essas afirmações de bondade e ousa lamentar o tratamento preferencial que apenas a colocou mais próxima de tudo aquilo que não pode ter. Nesse momento, a máscara cai: o senhor não tolera que a escravizada, que está do outro lado do chicote, não acredite na mentira que ele conta para si mesmo. Para a elite, não basta controlar todos os aspectos da vida do escravizado, da sexualidade à alimentação; não basta roubar sua força de trabalho por toda sua vida; não basta sua obediência completa e irrestrita: é fundamental também sua devoção ideológica. Para que o sistema funcione, o escravizado precisa acreditar que vive no melhor dos mundos, que seu dono é bondoso, que a escravidão brasileira é a mais doce e humana que já existiu, que está melhor escravizado cristão do que livre na África. A explosão de Coutinho surpreende mais a ele, que se ilude ao se considerar um bondoso senhor de escravizados, do que a ela, que demonstra ter a exata noção da subversividade impossível do seu amor. Após o rompante, ele volta atrás rapidamente:

Não sou mau; compreendi que alguma grande preocupação teria feito com que Mariana esquecesse por instantes a sua condição e o respeito que nos devia, a todos. / — Está bem, disse eu, levanta-te e vai-te embora; mas não tornes a dizer coisas dessas que me obrigas a contar tudo à senhora velha.”

De acordo com Althusser, ideologia é a relação imaginária dos indivíduos com as condições reais de sua existência. Apesar de não corresponder à realidade, a ideologia cria uma ilusão que possibilita uma determinada apreensão da realidade. Coutinho, para poder funcionar em uma sociedade desigual e escravista como a brasileira, precisa da ilusão de ser um bondoso escravocrata e, para mantê-la, decide ajudar Mariana. A manutenção de sua auto-imagem é tão importante que ele está prepará-lo para ir à extremos para defendê-la, incluindo até libertar Mariana, abdicando assim de seu mando sobre ela e do usufruto de sua força de trabalho:

“Parecia-me evidente que ela sentia alguma coisa por alguém, e, ao mesmo tempo que o sentia, certa elevação e nobreza. Tais sentimentos contrastavam com a fatalidade da sua condição social. Que seria uma paixão daquela pobre escrava educada com mimos de senhora? Refleti longamente nisto tudo, e concebi um projeto romântico: obter a confissão franca de Mariana, e, no caso em que se tratasse de um amor que a pudesse tornar feliz, pedir a minha mãe a liberdade da escrava.”

Apesar do amor incontrolável que sente, Mariana parece mesmo saber o seu lugar; diante das “românticas” investidas do patrão, ela se recusa a revelar o nome do moço que ama: “é um amor impossível,” diz. Coutinho ri e pergunta se ela sabe o que é um amor impossível; para ele, naturalmente, amores impossíveis são para brancos, jamais escravizados. Mariana responde que sabe e a questão fica por isso mesmo. A irmã de Coutinho, entretanto, desconfia da verdade: acha que o amado de Mariana é ele mesmo. Ele reage com “um riso de mofa e incredulidade“: “— Estás louca, Josefa. Pois ela atrever-se-ia!… / — Parece que se atreveu.” Ainda há pouco, Coutinho, o bom escravocrata, estava disposto até a libertar Mariana. A verdadeira face da ideologia escravista se revela na sua reação à mera possibilidade de que a escravizada poderia lhe amar: riso, mofa, incredulidade, loucura e atrevimento — tudo isso em apenas duas linhas de texto. Esse amor que não sabe o seu lugar aparentemente é mais subversivo, mais inaceitável do que a própria liberdade de Mariana. A medida que se aproxima a data do casamento de Coutinho e Amélia, Mariana vai ficando progressivamente doente até que, às portas da morte, é salva apenas por uma ordem expressa de Coutinho para que vivesse. A escravizada melhora e Coutinho se pergunta: “Acaso contaria ela que eu desistisse do casamento projetado e do amor que tinha à prima, para satisfazer os seus amores impossíveis? Não sei.” Contudo, “apesar de não compartir de modo nenhum os sentimentos de Mariana”, Coutinho passa a se interessar mais pela moça:

Qualquer que seja a condição de uma mulher, há sempre dentro de nós um fundo de vaidade que se lisonjeia com a afeição que ela nos vote. Além disto, surgiu em meu espírito uma idéia, que a razão pode condenar, mas que nossos costumes aceitam perfeitamente. Mariana encarregara-se de provar que estava acima das veleidades.”

Aos olhos de Coutinho, aquele “namorico” transforma Mariana de cria da casa e irmã de criação em objeto sexual. Ele racionaliza: se todos podem, se nossos costumes aceitam, se ela mesma o deseja, por que não? Por trás da máscara do senhor bondoso, pode-se ver mais uma vez a verdadeira face do sistema escravista: mesmo classificando o “namorico” de Mariana de “amor impossível”, mesmo sabendo que jamais poderá sacramentar aquele amor com o casamento, mesmo estando de casamento marcado com outra mulher, Coutinho não está acima de se aproveitar sexualmente dos sentimentos da moça que, poucas linhas atrás, ele dizia que era quase da família.

Mariana, entretanto, prova estar acima dessas veleidades e foge. Sem empatia alguma com a dor de uma menina apaixonada que vê casar o homem que nunca poderá ter, a família fica “triste e indignada” com a “ingratidão da escrava”: Coutinho propõe que, uma vez recapturada, Mariana seja colocada na “situação verdadeira do cativeiro”. Ou seja, já que os benefícios de sua criação fizeram com que tivesse o atrevimento de ter amores impossíveis e dramas existenciais, a solução será mostrar a Mariana como são tratados os verdadeiros escravizados. Teoricamente, quem corta cana nos campos o dia inteiro não tem tempo nem disposição para esses passatempos de branco. Finalmente, Coutinho encontra Mariana do lado de fora da casa de sua noiva, onde presumivelmente ela andava a sua espreita. Primeiro, Coutinho faz questão de lembrá-la de sua condição de escravizada:

“Por que saíste de casa, onde eras tão bem tratada, e donde não tinhas o direito de sair, porque és cativa?”

Quando Mariana responde que fugiu porque sofria, a resposta de Coutinho é emblemática da ideologia escravista:

“Sofrias muito! Tratavam-te mal? Bem sei o que é; são os resultados da educação que minha mãe te deu. Já te supões senhora e livre. Pois enganas-te; hás de voltar já, e já, para casa. Sofrerás as conseqüências da tua ingratidão.”

Ao escravizado bestializado e animalizado só se permitiam as dores físicas: para um branco, imaginar que o sofrimento de Mariana pudesse ser psíquico seria tão impensável quanto projetar dilemas existenciais em uma besta de carga. Se o escravizado não era maltratado fisicamente, então não havia motivo para sofrer: puro corpo, o escravizado não teria alma ou mente para se atormentar. Dentro dessa ideologia, Mariana sofria não por razões próprias, válidas e existenciais, mas por ter sido erroneamente educada como branca: tal qual um papagaio que repete o que não compreende, Mariana apenas macaquearia as dores dos brancos. A solução, como foi dito antes, seria fazê-la provar a “situação verdadeira do cativeiro”. O elemento mais pernicioso da ideologia escravista, naturalmente, é convencer o próprio escravizado, contra toda a evidência, de sua própria desumanidade. Quando Coutinho ameaça chamar soldados para arrastar Mariana pra casa, ela responde:

“Nhonhô fará isso? … Não quero obrigá-lo a incomodar os soldados; iremos juntos, ou irei só. O que eu queria, é que nhonhô não fosse tão cruel… porque enfim eu não tenho culpa se… Paciência! vamos… eu vou. … Que importa que faça? Eu estou disposta a tudo… Ninguém tem que ver com as minhas desgraças… Estou pronta; podemos ir.”

No fundo de seu desespero, Mariana está convicta de que não vale nem o trabalho dos soldados em reprimi-la. Até então, o amor de Mariana por Coutinho era apenas uma hipótese, mas uma pergunta mal formulada traz à tona o segredo:

“— Saibamos outra coisa, disse eu, alguém te seduziu para fugir? / Esta pergunta era astuciosa; eu desejava apenas desviar do espírito da rapariga qualquer suspeita de que eu soubesse dos seus amores por mim. Foi desastrada a astúcia. O único efeito da pergunta foi indigná-la. / — Se alguém me seduziu? perguntou ela; não, ninguém; fugi porque eu o amo, e não posso ser amada, e sou uma infeliz escrava. Aqui está porque eu fugi. Podemos ir; já disse tudo. Estou pronta a carregar com as conseqüências disto. / Não pude arrancar mais nada à rapariga.”

De volta à casa, depois de levar um pito de sua senhora, Mariana continua triste. Coutinho, por seu lado, está cada vez mais interessado “na pobre rapariga”, “o que era natural, sendo eu a causa indireta daquela dor profunda”. Tanta atenção começa a causar ciúmes em sua noiva: Amélia, durante uma visita à casa da família, advoga a “necessidade de tratar severamente as escravas” e acaba sendo respondida com aspereza pela mãe e irmãs de Coutinho. Ele, que antes não demonstrara empatia alguma pela dor de Mariana (seu interesse parece motivado somente por sua enorme vaidade masculina), agora demonstra também não ter empatia pela situação difícil em que seu interesse pela escravizada coloca sua noiva. Se antes Coutinho reage com riso e mofa à sugestão do amor de Mariana, os ciúmes de Amélia agora são chamados de levianos e indignos:

“Extremamente leviana, Amélia não soube conservar a necessária dignidade quando foi à minha casa. … Não havia pior posição para uma senhora.”

Percebendo a hostilidade de Amélia, Mariana tenta conquistá-la e recebe somente mais hostilidade:

“Amélia recebia todas essas demonstrações com visível sobranceria em vez de as receber com fria dignidade.”

Por fim, Coutinho decide falar com Amélia:

Chamei a sua atenção para esta situação absurda e ridícula. Disse-lhe que, sem o querer, estava a humilhar-se diante de uma escrava. Amélia não compreendeu o sentimento que me ditou estas palavras, nem a procedência das minhas palavras. Viu naquilo uma defesa de Mariana; respondeu-me com algumas palavras duras e retirou-se para os aposentos de minhas irmãs onde chorou à vontade.”

Para Coutinho, o amor de Mariana é impossível, louco e atrevido. Mesmo assim, esse amor tanto atiça sua vaidade masculina que Coutinho hostiliza e aliena sua futura esposa para defendê-lo. Pouco mais tarde, quatro dias antes do casamento, em meio às festas de natal, Mariana some de novo e Coutinho larga tudo para ir procurá-la. Amélia sai da festa furiosa, achando que ele “estava dando maior atenção do que devia a uma escrava.” Coutinho, como se para confirmar, admite:

Confesso que naquele momento o que me preocupava mais era Mariana; não porque eu correspondesse aos seus sentimentos por mim, mas porque eu sentia sérios remorsos de ser causa de um crime. … Minha vaidade não era tamanha que me abafasse os sentimentos de piedade cristã. Neste estado, as invectivas da minha noiva não me fizeram grande impressão, e não foi por causa delas que eu passei a noite em claro.

Quanto mais ele afirma não corresponder ao amor de Mariana, quanto mais ele afirma não agir por vaidade, quanto mais essas duas hipóteses se fazem mais críveis aos leitores. Não é à toa que Amélia cancela o matrimônio, pois Coutinho já provara não ser ela a prioridade de seus pensamentos:

“O interesse com que eu procurei a rapariga, e a dor que a sua morte me causou, transtornaram a tal ponto os sentimentos da minha noiva, que ela rompeu o casamento dizendo ao pai que havia mudado de resolução.”

A segunda fuga de Mariana causa cólera e fúria na família:

“Da primeira vez houve alguma mágoa e saudade, de mistura com a indignação. Desta vez houve indignação apenas. Que sentimento devia inspirar a todos a insistência dessa rapariga em fugir de uma casa onde era tratada como filha?”

A ficção da escravizada tratada como filha é necessária para a manutenção da auto-imagem dos escravistas, que não tolerariam se pensar como algo menos que bondosos e paternais senhores: os escravizados, naturalmente, não poderiam acreditar nesse discurso, que entrava em contradição com sua rotina diária de humilhação e exploração. Quando Coutinho encontra Mariana em um hotel da cidade, ela avança para abraçá-lo mas ele se mantém firme em seu dever disciplinador:

“Queria conciliar os meus sentimentos com os meus deveres, e não fazer com que a mulher não se esquecesse de que era escrava. Mariana parecia disposta a sofrer tudo dos outros, contanto que obtivesse a minha compaixão. Compaixão tinha-lhe eu; mas não lho manifestava”.

Em uma frase confusa pelo excesso de negativas, Coutinho afirma que queria não fazer com que ela não esquecesse que era escravizada, ou seja, queria que Mariana esquecesse que era escravizada. Entretanto, não é isso que ele faz, lembrando-a sempre de sua situação de cativa fugitiva e capturada, enfatizando seu papel de autoridade patriarcal, tentando ser ao mesmo tempo carinhoso e severo, “sem esquecer nunca a reserva que me impunha a minha posição.” Mas Mariana, que pretendia matar-se somente no dia do casamento, antecipa seus planos, toma veneno e morre na frente de seu amado. Suas últimas palavras são literalmente para desculpá-lo, ou seja, tirar dele a culpa por esse ato radical:

“Nhonhô não tem culpa — a culpa é da natureza. Só o que eu lhe peço é que não me tenha raiva, e que se lembre algumas vezes de mim…”

Ao chegar em casa e relatar a tragédia à sua mãe, Coutinho acrescenta: “alcancei que minha mãe perdoasse à infeliz.” Ou seja, uma pobre adolescente, iniciando sua vida sensual e afetiva, se apaixona pelo homem de idade próxima a sua com quem mais teve contato, e, por causa de barreiras sociais, econômicas, raciais e hierárquicas, acaba sendo levada ao suicídio. O pior da ideologia escravista é prender tanto senhores quanto escravizados no mesmo discurso: Mariana toma toda a culpa para si e inocenta os brancos; Coutinho, magnânimo, parece não discordar. Talvez o ponto mais cruel da história seja o fato que, depois de tudo o que acontece, a mãe de Coutinho ainda precisa ser convencida de que Mariana merece perdão.

A essa altura, o leitor já terá praticamente esquecido estar numa história dentro da história. Na verdade, o narrador original é Macedo, recém-chegado ao Rio de Janeiro depois de quinze anos de ausência: Coutinho é apenas um dos amigos que ele encontra pra almoçar. A história termina como num banho de água fria: logo após Coutinho descrever em tom comovente a enormidade do amor de Mariana, Macedo retoma a voz narrativa e fecha o conto em três rápidas e fúteis linhas:

“Creio que posso dizer ainda hoje que de todas as mulheres de quem tenho sido amado, nenhuma me amou mais do que aquela. Sem alimentar-se de nenhuma esperança, entregou-se alegremente ao fogo do martírio; amor obscuro, silencioso, desesperado, inspirando o riso ou a indignação, mas, no fundo, amor imenso e profundo, sincero e inalterável”.

Coutinho concluiu assim a sua narração, que foi ouvida com tristeza por todos nós. Mas daí a pouco saíamos pela rua do Ouvidor fora, examinando os pés das damas que desciam dos carros, e fazendo a esse respeito mil reflexões mais ou menos engraçadas e oportunas. Duas horas de conversa tinha-nos restituído a mocidade.

Durante toda sua história, Coutinho mostrou-se vaidoso e leviano, mas a voz narrativa de Macedo, completamente fútil, faz o primeiro parecer profundo na comparação. Na verdade, a leviandade de Macedo funciona como um diluidor da seriedade do drama de Mariana. Como bem define Sidney Chalhoub, em Machado de Assis, Historiador (2003):

“O crime da escravidão provocara cinco minutos de “remorsos” aos quarentões bem-pensantes que, remoçados, voltam logo ao papel de predadores sociais e sexuais.” (136)

O conto executa um movimento de aproximação e afastamento: de início, um cenário fútil carioca; logo depois uma história de sacrifício e morte; pra terminar, um novo interlúdio fútil, como se para mostrar que nada disso foi realmente importante. O que importa são os novos hotéis da cidade e os pezinhos da Rua do Ouvidor: os amores e o sacrifício de uma escravizada, pelo contrário, são coisas que se contam e se esquecem em duas horas. Não apenas eles, entretanto: após a abolição, toda a sociedade brasileira realizou um esforço concentrado e proposital para esquecer a nódoa da escravatura.

O Esquecimento de “Mariana” e da Escravidão

Assim como Coutinho e Macedo, que rapidamente esquecem o sacrifício total da pobre Mariana-escravizada para ver pezinhos na Rua do Ouvidor, Machado de Assis também rapidamente esquece a Mariana-conto. Sua antologia seguinte, Histórias da Meia-Noite, de 1873, apresenta uma seleção de contos bastante fraca, nenhum dos quais superior à “Mariana”. De todos os seus contos produzidos nos anos anterior, Machado decidiu não incluir “Mariana” na antologia por escolha própria. Na verdade, pior que somente esquecê-la, ou não selecioná-la para publicação, Machado substituiu-a. Em Várias Histórias, antologia lançada em 1896, um novo conto também chamado “Mariana” vêm substituir aquele no cânone machadiano, dessa vez contando a história de uma Mariana branca. Depois de jogados fora os exemplares do Jornal das Famílias de janeiro de 1871, “Mariana” para todos os fins e efeitos desapareceu, sendo recuperada apenas por José Galante de Souza, em 1954, e posteriormente incluída na antologia Contos Avulsos, editada por Raimundo Magalhães Júnior em 1956. (Hoje, recomendo lê-la na antologia de Eduardo Assis Duarte, Machado de Assis Afrodescendente.)

Escrito em meio ao maior debate sobre a escravidão que o país já tinha visto, publicado em uma revista de variedades femininas e temas leves, lido por um público teoricamente desinteressado por política e então esquecido por mais de 80 anos, o conto “Mariana” aparentemente causou pouco impacto. Estaria Machado de Assis tentando conscientizar suas levianas leitoras sobre os dilemas da escravidão usando uma mensagem e um meio que lhes fossem compreensíveis? Teria sido por isso que nunca republicou o conto, por considerá-lo didático, melodramático, abaixo de si? Seria a “mensagem inescapável” do conto, como considera Chalhoub, “a necessidade de o poder público submeter o poder privado dos senhores ao domínio da lei”? (2003, 137) Não temos como saber com certeza as intenções de Machado, mas ele não estava sozinho na tendência de não valorizar, ou não recuperar, textos sobre a escravidão escritos contemporaneamente à ela.

Valentim Magalhães, um dos literatos mais influentes de finais do século XIX, editor de A Semana e futuro patrono da Academia Brasileira de Letras, publica em 1885 um livro de contos intitulado Vinte Contos. Uma das melhores e mais controversas histórias do livro é “Praça de Escravos”, onde Magalhães pinta um quadro ao mesmo tempo realista, engraçado e monstruoso de como funcionava o antigo mercado de escravizados do Valongo. Em 1895, porém, a segunda edição do livro já não apresenta esse conto. Diz a introdução:

“Julgou este [autor], e com ele concordamos [os editores], excluir dessa edição o conto Praça de Escravos, que tão profunda impressão produzira, e substituí-lo por outro, por entendê-lo inteiramente descabido na época atual, em que nem quase memória felizmente resta daquelas cenas atrozes e vergonhosas” (VIII)

Somente sete anos após a abolição da escravatura, o processo consciente do seu esquecimento parece estar encaminhado entre a intelligentsia brasileira. Em seu ensaio “Intellectuals and the Forgetting of Slavery in Brazil” (1996), Dain Borges argumenta que o período entre a abolição da escravidão (1888) e o lançamento de Casa Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, é marcado por uma quase completa ausência da escravidão do discurso intelectual brasileiro (37). Nos primeiros anos da República, Rui Barbosa, então Ministro da Fazenda, queima grandes quantidades de documentos relativos à escravidão, promovendo até mesmo um Auto-da-Fé no quinto aniversário da Lei Áurea, onde dois vagões de documentos foram queimados em praça pública ao som da banda da polícia de Salvador. (41) As razões alegadas por Rui eram duas: em primeiro lugar, evitar futuras demandas de indenização por parte de senhores de escravizados e, também, evitar que os arquivos fossem usados para “envergonhar certos brasileiros com a nódoa da escravidão”. (41) Um editorial de 1890 comentando a queima dos documentos se refere à história da escravidão como “misérias inenaerráveis daqueles tempos de barbarismo”, ou seja, meros dois anos antes. (42) Durante a República, não se fala mais de escravidão, mas sim de raça: o discurso racista-cientificista de Nina Rodrigues e Euclides da Cunha, entre outros, legitima negar a contribuição africana ao Brasil. Do seu ponto de vista, a própria existência dos afro-brasileiros é o problema nacional: eles seriam a “antítese do progresso” (51) e o país deveria se livrar de sua influência degradante o mais rápido possível. (44) Enquanto as discussões sobre o problema escravo antes de 1888 falavam em liberdade e disciplina, no século XX elas giram em torno de degeneração, alcoolismo, incapacidade mental e imoralidade. (45) Os afro-brasileiros seriam pobres, doentes e incultos não por terem sido explorados por 350 anos e, então, libertados sem nenhuma ajuda financeira ou plano de inserção social: para os intelectuais brasileiros, “doutores de uma nação doente”, a explicação era apenas uma: inferioridade racial. (51)

A protagonista Mariana, criada no auge da campanha abolicionista, prontamente esquecida por seu criador e somente recuperada em meados do século XX, poderia formar um paralelo revelador com a própria escravidão, tema de debates polêmicos em sua época, prontamente esquecida por seus defensores e opositores assim que abolida e somente recuperada em sua importância histórica no século seguinte.

Bibliografia

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a segunda aula, Escravistas & escravizados, do meu curso A Grande Conversa, a ideia de Brasil na literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 1º de abril de 2021 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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A escravidão, esquecida: Mariana, de Machado de Assis é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 20 de abril de 2021, disponível na URL: alexcastro.com.br/mariana-machado-de-assis-escravidao // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: NewsletterInstagramFacebookTwitterGoodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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