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Agostinho e Auerbach: da Antiguidade ao Medieval

O Cristianismo surge em uma província do Império Romano, entre judeus helenizados, e seus textos fundacionais são escritos em grego: praticamente um amálgama do mundo antigo sobre o qual, em breve, passará como um trator. Nada preparou a elite intelectual da Antiguidade para os Evangelhos.

Nas palavras de Erich Auerbach, eles eram muito sérios para ser Comédia, muito contemporâneos e cotidianos para ser Tragédia, muito politicamente insignificantes para ser História, mas pulsavam com um imediatismo arrebatador para o qual não havia nem paralelo nem precedente: o que está em jogo, sempre, em cada Evangelho, é simplesmente tudo, a imortalidade da alma individual da leitora e a eternidade do Reino de Deus. Incapazes de se encaixarem na literatura da Antiguidade, os Evangelhos a implodiram.

Agostinho de Hipona, professor de retórica, a princípio desprezava os Evangelhos justamente por sua “baixeza estilística”: a conversão religiosa que narra nas Confissões também é uma conversão estilística, uma descoberta do “sublime na baixeza”. Inventor da autobiografia e primeiro indivíduo da história cujo retrato completo chega até nós, Agostinho afirmava não haver sentido em “abandonar as armas da eloquência aos representantes da mentira”. Assim, combinando seu arsenal retórico grego-romano com os novos valores e prioridades cristãs, ele efetivamente enterra o mundo pagão e inaugura a civilização ocidental como a conhecemos.

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Evangelho de Marcos

Marcos é o primeiro evangelho, o evangelho que inventa os evangelhos. O mais brusco, o mais rápido, o mais curto. O evangelho dos mártires. Que começa com Jesus começa morrendo simbolicamente e termina com Jesus morrendo concretamente. Que é todo determinado por um evento que está além do seu final, mas que pauta cada uma de suas histórias, de suas imagens: o Fim dos Tempos.

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Agostinho de Hipona

Mestre em retórica clássica e imerso na atmosfera intelectual do mundo greco-romano, mas também um dos primeiros Doutores do Cristianismo, dotado de uma fé intensa e atormentada, Agostinho de Hipona encarna, em si mesmo, como nenhum outro, a ponte que liga a Antiguidade ao mundo medieval. É um dos autores mais importantes da minha vida.

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“Heresias” cristãs

As ditas “heresias cristãs” só são heresias do ponto de vista do cristianismo hegemônico ortodoxo que as derrotou. Durante séculos, porém, foram religiões viçosas e vigorosas, tão reais quanto quaisquer outras.

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Misticismo: o que é, como praticar

O misticismo é uma comunhão direta com a totalidade da vida, um acesso direto à transcendência cósmica sem a mediação de textos, palavras, ensinamentos. Por isso, justamente por não depender da mediação de palavras, a experiência mística não é transmissível por palavras: ela só pode ser vivenciada, nunca explicada.

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O conceito cristão de família

No dia de Natal, celebra-se o nascimento convencionado de Jesus: é um dia de as pessoas aturarem famílias abusivas e violentas das quais, provavelmente, já teriam se libertado há muito tempo se não fosse o doentio fetiche pró-família de nossa cultura.

Ironicamente, dos grandes pensadores e líderes espirituais da Humanidade, poucos atacaram o conceito de família tão ferozmente quanto o próprio Jesus.

Pois, na verdade, ele defendia um novo conceito de família, mais amplo e mais belo.

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Paulo versus Jesus

De todos os autores do Novo Testamento, Paulo é o único que conhecemos com certeza. Algumas das cartas atribuídas a ele são apócrifas, mas existe um cerne que seguramente foi escrito por ele, o apóstolo Paulo de Tarso, ali, no meio da ação, no calor do momento, na vida prática das primeiras comunidades cristãs.

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O Apocalipse como gênero literário

O Apocalipse não é apenas um livro, ele é todo um gênero literário.

O livro que fecha a Bíblia cristã, o Apocalipse de João de Patmos, é um apocalipse entre centenas de outros: sua distinção maior é a de ter sido canonizado.

O gênero apocalíptico floresceu no Oriente Médio, nos séculos I e II AEC, e aparece nas literaturas judaica, cristã, gnóstica, grega, persa e latina. A palavra “apocalipse” quer dizer “revelação” em grego, e essa é a essência de um apocalipse: não o fim do mundo, como geralmente se pensa, mas uma revelação do futuro glorioso que aguarda os escolhidos do Senhor.

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Rápida história do Cristianismo

Depois da morte de Jesus, sua mensagem radical começa a se espalhar como fogo na palha nas comunidades pobres da Palestina e do Oriente Médio. Os primeiros cristãos acreditavam piamente que veriam o fim dos tempos ainda em suas vidas, então, não havia preocupação de escrever nada, de construir nada. A prioridade era viver bem, reformar os costumes, deixar de pecar, garantir lugar no céu. Eram comunidades apocalípticas e milenaristas.

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O bode expiatório de René Girard: Édipo, Jó, Jesus

O francês René Girard (1923-2015), partindo da crítica literária e transitando por áreas tão diversas quanto a psicologia e a religião, a antropologia e a filosofia, foi o último pensador a tentar uma grande teoria explicativa da humanidade. Como toda grande teoria explicativa generalista, ela é polêmica e combativa, soa óbvia e tautológica quando resumida, é vulnerável a críticas por especialistas de todos os lados, não consegue explicar tudo com a amplitude que talvez seu autor desejasse, mas é rica o suficiente para nos permitir enxergar os mesmos fatos, os mesmos fenômenos, a mesma realidade de maneiras diferentes, subversivas, inovadoras.

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O monge é uma farpa na carne da História

Os monges foram os primeiros revolucionários e os monastérios, as primeiras utopias.

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Os Padres do Deserto

Foram talvez os últimos cristãos verdadeiros, os últimos iconoclastas que escolheram seguir os ensinamentos da pessoa Jesus em detrimento das ordens da instituição criada por Paulo.

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Noite escura, de João da Cruz

Meditamos não para fugir da realidade ou para nos isolar do mundo, mas por perceber que a vida não-contemplativa, a vida do ego, a vida do consumo, a vida do apego, é fundamentalmente irreal. Meditar é a nossa maneira de mergulharmos plenamente na realidade ilimitada.

Mas nem sempre a espiritualidade, a contemplação, a meditação trazem a paz: essa não-paz é o que João da Cruz chama de “noite escura”.

noite escura da alma joao da cruz