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4ª aula: Cristãos evangelhos grande conversa

Evangelho de Marcos

Um texto em ponto de fuga, apontando para um Apocalipse que está além do fim do livro, mas determina todo seu conteúdo. (Guia de Leitura para o curso Introdução à Grande Conversa)

Marcos é o primeiro evangelho, o evangelho que inventa os evangelhos. O mais brusco, o mais rápido, o mais curto. O evangelho dos mártires. Que começa com Jesus começa morrendo simbolicamente e termina com Jesus morrendo concretamente. Que é todo determinado por um evento que está além do seu final, mas que pauta cada uma de suas histórias, de suas imagens: o Fim dos Tempos.

Rápida cronologia do Novo Testamento

A primeira coisa a ter em mente lendo o Evangelho de Marcos é que ele foi o primeiro Evangelho (ele inventa o gênero) mas não foi o primeiro documento cristão: as cartas paulinas foram escritas provavelmente vinte anos antes. A ordem dos livros na Bíblia nos confunde, dá a entender que Paulo estava escrevendo suas cartas em um mundo onde já havia os quatro evangelhos. Mas é exatamente o oposto.

Na década de 30, Jesus morre na cruz e sua mensagem começa a se espalhar oralmente pelo Mediterrâneo. Mais ou menos na mesma década, Paulo tem sua conversão na estrada para Damasco e se torna missionário. Na década de 40, Paulo, já um dos líderes da jovem comunidade cristã, escreve a carta mais antiga que temos, a primeira aos tessalonicenses; a maioria é da década de 50 e ele provavelmente morre na década de 60.

Quando acontece o incêndio de Roma, em 64, o imperador Nero coloca a culpa nesses novos cristãos que vinha aparecendo por ali. Tradicionalmente, Pedro é martirizado em Roma durante essa perseguição. Dois anos depois, em 66, eclode a Guerra Judaica, onde os judeus da Palestina se levantam contra o Império. O conflito termina em 73 com a derrota total dos judeus e com a catastrófica destruição do Templo de Jerusalém, que era o centro do Judaísmo.

A destruição do Tempo, em 70, é um elemento central da datação dos textos antigos, em especial do Evangelho de Marcos. Quem acha que ele é da década de 60 acha isso porque sente que vários elementos do texto indicam que o Templo ainda não tinha sido destruído. Já a maioria dos estudiosos acha que o texto é do começo da década de 70, logo após a destruição do Templo, pois veem diversos indícios que sugerem que Marcos sabia desse fato. Os debates continuam.

De qualquer modo, por volta dessa época, existiam apenas as cartas paulinas, e não temos como saber o quanto circulavam, onde eram lidas, praticamente nada. Nesse contexto é escrito o Evangelho de Marcos. Muitos estudiosos apontam, aliás, que é o Evangelho que tem mais em comum com as cartas paulinas.

Ao longo das décadas seguintes, 70 e 80, outros dois evangelhos são escritos, o de Mateus e um mais longo, o de Lucas (que, junto com os Atos dos Apóstolos, formava um livro só), que claramente utilizaram Marcos como fonte principal, mas, dependendo de seus interesses específicos, se sentiram livres para mudar aqui ou ali, comprimir ou expandir a narrativa, cortar fatos ou acrescentar informações de outras fontes que não conhecemos. Aliás, se fizeram isso, então certamente não consideravam o Evangelho de Marcos como um texto sagrado. Eram rivais, e não colegas. (Gabel e Wheeler, Bíblia como literatura, 171)

Finalmente, no final do primeiro século, é escrito o Evangelho de João, o mais diferente, o mais independente. Também dessa época é o Apocalipse de João de Patmo que, com certeza, não era o mesmo João evangelista — os estilos são radicalmente diferentes.

Quem era Marcos

Não sabemos quem é Marcos. O seu grego é simplório e cheio de latinismos, o que indica talvez um gentio cuja primeira língua era o latim. A tradição da Igreja atribui esse evangelho a um tal João Marcos, citado nos Atos dos Apóstolos, tradutor de Paulo, que o acompanhou até Roma e talvez morreu lá, mas não há nada que corrobore, nem nenhuma afirmativa textual de autoria, data, lugar. (Ao contrário, por exemplo, do Apocalipse, que afirma ser de autoria de João de Patmos.) Além disso, Marcus era literalmente o nome mais comum em todo império romano.

Outra tradição tardia fez dele santo, apesar de não se saber nada de sua vida, nem mesmo se existiu, apenas pela força de seu evangelho. (Aconteceu o mesmo com os outros evangelistas.) Ao longo desse texto, quando falar Marcos, assim como quando dizia Homero, estou somente me referindo à pessoa que escreveu esse texto, ou talvez que somente tenha lhe dado forma final, tenha tido ela o nome que teve.

Mas também é importante ter em mente que, em larga medida, essa é uma obra coletiva, registrando toda uma tradição oral de décadas de histórias e ensinamentos sobre Jesus, seguramente considerada consenso social por um quantidade razoável de pessoas autoidentificadas como cristãs, que certamente teriam reagido negativamente se sentissem que esse texto não representava ou se desviava significativamente de sua experiência vivida com o evangelho, ou seja, com a boa nova de Jesus e não com o gênero literário, que ainda estava sendo inventado. Ou seja, importante sempre lembrar que Marcos não escrevia num vácuo: ele não tinha liberdade significativa de “inventar” um Jesus que nunca tinha existido, ou de fazer esse seu Jesus falar coisas que conflitassem com o Jesus que já era patrimônio dessa comunidade.

(Gabel e Wheeler, Bíblia como literatura, 170)

O que é um Evangelho

O primeiro a usar essa palavra é Paulo, na primeira carta aos coríntios, em um contexto no qual, vamos lembrar, não havia nenhum evangelho escrito:

“Não vos escrevo tais coisas para vos envergonhar, mas para vos admoestar como a filhos bem-amados. Com efeito, ainda que tivésseis dez mil pedagogos em Cristo, não teríeis muitos pais, pois fui eu quem pelo Evangelho vos gerou em Cristo Jesus. Exorto-vos, portanto: sede meus imitadores.” (4, 15)

A palavra evangelho quer dizer “boa nova”. Ou seja, Paulo se fez apóstolo ao ouvir, na verdade, ao tomar contato, com a boa nova de Jesus Cristo, sua vinda, sua mensagem.

Na época de Paulo, não havia “evangelhos” escritos, nem qualquer indicação, em suas cartas, que ele julgasse necessário ou útil um registro escrito do ministério de Jesus. Aliás, Paulo parece sempre totalmente desinteressado a respeito da vida e dos ensinamentos de Jesus. (Mais sobre isso abaixo.)

Quando Marcos escreve seu evangelho, seu objetivo é (presumivelmente pela primeira vez) colocar por escrito essa “boa nova” que já circulava oralmente há algumas décadas – seu texto, mais que os outros evangelhos, ainda é muito marcado pela oralidade.

Mas o que é um evangelho, esse gênero literário inventado por Marcos?

Claramente não são memórias, pois o autor nunca fala de si. Também não é uma biografia, no estilo das Vidas de Plutarco, contando os fatos da vida de homens famosos. Os evangelhos não parecem ter muito interesse em uma narrativa tradicional da vida de Jesus: não dá para reconstruirmos uma seqüência mínima da vida de Jesus pelos evangelhos.

A palavra chave está no próprio nome: boa nova. Jesus havia trazido uma boa nova. Qual boa nova? Como trouxe? Por que era boa? Os evangelhos são textos escritos propositalmente para responder essas perguntas bem específicas: é isso que os une.

O que os separa, naturalmente, é o estilo e a intenção de cada evangelista ao responder essa importante pergunta. Para alguns evangelistas, Jesus é antes de mais nada um professor, que traz ensinamentos. Ou um profeta, exortando uma mudança de vida antes do fim dos tempos.

Não Marcos. Para ele, Jesus é um taumaturgo curador de doenças, um fazedor de milagres que ajuda a consolar o sofrimento dos mais pobres, um expulsador de demônios sempre em batalha contra o Mal, o misterioso Filho de Deus que nasceu somente para morrer por nós.

Um conto folclórico que exige atenção

O Evangelho de Marcos é um conto folclórico. Jesus, herói típico desse tipo de história, é errante, rebelde, anticonvencional. Por onde passa, questiona a ordem estabelecida, consola e ajuda os pobres (e sofre pelo amor bruto das multidões que lhe seguem), critica e faz pouco dos ricos (e sofre sua reação, seu castigo, sua perseguição). Ele é um dos pequenos, anda entre os impuros, senta-se para comer com eles, mas também é um dos grandes, é filho do Homem, promete o Reino do Pai.

Aliás, por falar em multidões, em Marcos, elas sempre estão seguindo Jesus, ameaçando esmagá-lo (3,9) ou despertando sua compaixão (6,34), aclamando-o ao entrar em Jerusalém (11,9) ou, por fim, escolhendo Barrabás e condenando Jesus à morte (15,11). (Drury, Guia Literário da Bíblia, 144)

A multidão, em Marcos, claramente não é confiável e está buscando por um bode expiatório. Esse será um dos ganchos para a análise de René Girard, em O bode expiatório.

Mesmo em um texto tão claramente focado na luta cósmica do Bem contra o Mal, em um texto com tantos demônios e anjos, milagres e exorcismos, ainda assim a narrativa está sempre ancorada nas pessoas, nas pequenas pessoas, nas pobres, nas humildes: mulheres, crianças, loucos, doentes, leprosos, pescadores, coletores de impostos, pecados, impuros. Tudo que é oficial, institucional é criticado, desprezado, caçoado, de sumos sacerdotes a procuradores romanos, incluindo até mesmo os apóstolos. Não há uma linha que não seja transgressora e subversiva da ordem religiosa e secular.

Além disso, em Marcos, tudo é rápido, abrupto. As pessoas correm, surgem, gritam. “Imediatamente” é o advérbio mais usado.

Mais importante, como todo conto folclórico, Marcos exige nossa total atenção. Contos folclóricos não foram feitos para serem lidos com leitura rápida e silenciosa, nem para serem ouvidos enquanto lavamos a louça: são feitos para serem ouvidos em roda, com contato visual, na cadência da fala, onde cada palavra, cada gesto, cada inflexão importa. É um livro que não requer nenhum conhecimento, a não ser da Bíblia (especialmente Isaías) mas que pede e exige nossa total atenção. Uma história aparentemente simples, quase simplória, com estilo austero e mensagem revolucionária, onde o que está em jogo é simplesmente tudo, os segredos mais sombrios, importantes e decisivos da História humana.

Como sempre, reitero meu conselho: leiam em voz alta.

(Drury, Guia Literário da Bíblia, 433-5, 440, 448)

Oralidade vs escrita

Marcos talvez seja a última grande obra literária eminentemente oral que leremos no curso. Do Decameron em diante, mesmo as obras que se pretendem orais, como o próprio Decameron, na verdade são e serão sempre produtos de uma cultura letrada, do texto escrito.

E, por outro lado, Marcos, escrevendo a boa-nova da vinda do Messias que confirmava as profecias da Bíblia Hebráica (ainda não havia Novo Testamento: a única Bíblia que Marcos dispunha era a Bíblia Hebraica), não pode deixar de usar essa mesma Bíblia Hebraica para confirmar essa confirmação.

Apesar de ser um texto claramente muito marcado pelo registro oral, claramente uma tentativa de escrever e cristalizar narrativas que já circulavam oralmente há décadas, o Evangelho de Marcos é um texto escrito com muita pesquisa: somente os últimos cinco capítulos de Marcos contém 57 citações diretas e 160 alusões à Bíblia Hebraica.

É um texto oral, simples? É um texto escrito, estudado? Talvez, como a Ilíada, seja ambos. Pode ser uma tradição oral que surgiu a partir de leituras da Bíblia Hebraica, em uma comunidade fluente nessas referências. Pode ser uma tradição oral popular que um estudioso da Bíblia Hebraica, quando sentou para registrá-la, foi procurando correspondentes bíblicos para as histórias, parábolas, referências.

Marcos é certamente herdeiro de décadas de sabedoria oral, em um mundo onde a palavra escrita não tinha o prestígio que tem hoje. Naturalmente, por outro lado, se Marcos não visse vantagens na escrita, não teria escrito seu evangelho. Mas não deixa de registrar o pouco prestígio da escrita:

“Estavam espantados com o seu ensinamento, pois Ele os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (1, 22)

Na verdade, Marcos provavelmente significou um ponto de inferência no jovem cristianismo, o primeiro momento em que a tradição oral foi desafiada pela escrita, uma mudança crítica na forma através da qual o jovem cristianismo seria ensinado e transmitido.

(Kermode 407-11, Drury, 435-8, Guia Literário da Bíblia.)

Marcos e Isaías

A premissa de Marcos parece ser que a Bíblia Hebraica, corretamente interpretada, confirmaria a tradição oral que circulava sobre Jesus e a boa-nova.

Mais tarde, certamente, quando os patriarcas cristãos chamaram de “Novo testamento” esses textos sobre as boas-novas de Jesus, tachando assim a Bíblia Hebraica de “Velho testamento”, foi um ato imperialista, ao mesmo tempo de apropriação e de afastamento, ao mesmo tempo dizendo “isso é meu, vim pra confirmar” e também “isso não é mais meu, eu transcendi, eu ultrapassei”.

Mas, por outro lado, o fato é que tudo em Marcos é marcado pela Bíblia Hebraica, especialmente pelo Deutero-Isaías, a ponto de ser quase incompreensível por conta própria. Muito do que parece estranho ou surpreendente se explica quando sabemos que Marcos estava acompanhando de perto as profecias da Bíblia Hebraica e colocando seu personagem Jesus para cumpri-las, quebrá-las, afirmá-las, negá-las. Nesse sentido, o Novo Testamento, os evangelhos, as cartas de Paulo, o Apocalipse, não poderiam mesmo se afirmar outra coisa que não a continuação da Bíblia Hebraica, pois não fazem sentido sem ela.

 (Kermode, Guia Literário da Bíblia, 407-11)

Identidade e ideologia, transgressão e impureza

Marcos é o primeiro evangelho. Poderíamos dizer que é o primeiro texto cristão que nasce enquanto texto. (As cartas paulinas eram exatamente isso, somente cartas.) Esse primeiro texto cristão tem como autor um (provável) judeu, escrevendo para judeus, sobre um novo movimento surgido entre os judeus e liderado por um rabi judeu, baseado em leituras profundas do livro sagrado dos judeus. Torna-se urgente responder: por que então esse grupo não é judeu? O que diferencia todo esse movimento, toda essa comunidade de qualquer outro grupo, movimento, dentro do judaísmo?

Uma das principais diferenças enfatizadas por Marcos, em seu esforço de criar uma identidade cristã, está no caráter do Messias. Citando o Dêutero-Isaías (caps.40-55), Marcos abandona a ideia de um Messias soldado, poderoso, conquistador, e cria uma ideia nova: de um Messias de poder religioso mas não secular, de um Messias cujo poder está em curar os pobres, consolar os aflitos e extirpar demônios, mas não em conquistar, matar, mandar. Um Messias que não exerce seus poder como os ricos e os poderosos, um Messias que se identifica em oposição aos ricos e aos poderosos — que naquele contexto eram as autoridades judaicas e romanas.

Essa aliás é uma das principais perguntas e inquietações que o Evangelho de Marcos busca responder: se Jesus era mesmo o Messias, como pode ter morrido uma morte tão ignóbil, impotente? E Marcos responde, em primeiro lugar historicamente, mostrando como Jesus se insere na luta por poder entre romanos e judeus, e, teologicamente, mostrando como as profecias da Bíblia Hebraica, em especial de Isaías, previam e exigiam o sofrimento do Messias em prol de todos nós. (Nineham, Mark, 31)

Para marcar diferença com os romanos, e especificamente, com os ricos, a tensão entre ricos e poderosos nunca está longe da superfície do texto. Em Marcos, Jesus é o libertador messiânico das massas pobres e oprimidas. A ressurreição de Jesus dá esperança subversiva àqueles corpos acostumados à opressão política. A ressurreição é a promessa apocalíptica de que o sangue dos mártires não será em vão, que a dor do mundo será curada. Marcos é um manifesto para um apostolado radical, uma narrativa ideológica que leva a uma nova ordem socioeconômica marcada pela mais radical não-violência. (Por outro lado, os apóstolos acompanhando Jesus em Getsemani estavam armados, e Pedro corta fora a orelha de alguém!) O sofrimento de Jesus na cruz é justamente o sofrimento que liberta os mais fracos e os mais oprimidos de sua opressão. É uma esperança de redenção.

Para marcar sua diferença com o judaísmo, uma religião preocupada com a pureza, o Jesus de Marcos faz questão de sempre martelar sua associação com todos os tipos de impurezas. Depois de passar pelo deserto, conceito impuro por definição, ele começa seu ministério pela Galiléia, terra considerada impura, entre pescadores, que quase sempre estão sujos e fedendo aos peixes que pescam e vendem, membros de um grupo economicamente marginalizado. Além disso, ele também socializa com todo tipo de pessoas impuras, publicanos, pecadores, soldados, chegando até a entrar em suas casas e comer com eles – o que, aos olhos dos judeus, era escandaloso.

Nenhuma condição era tão marcada pela impureza quanto a lepra, considerada até mesmo castigo divino. Ao tocar o leproso, Jesus simboliza sua solidariedade com todo o tipo de pessoas impuras e parece questionar o próprio conceito de pureza. Depois disso, o evangelho enfatiza que Jesus também se torna ao mesmo tempo intocável (não pode mais entrar em cidade) e desejado (pois vinha gente de toda parte procurá-lo):

“Ele [o leproso curado], porém, assim que partiu, começou a proclamar ainda mais e a divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar publicamente numa cidade: permanecia fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo.” (1, 44)

O Jesus de Marcos é sempre transgressor, sempre desafia a autoridade constituída, mas nunca tanto quanto na questão da pureza. Já no começo do livro, no primeiro capítulo, uma interação dá o tom: Jesus, na casa institucional legitimadora dos judeus, ou seja, na sinagoga, ministra um novo tipo de ensinamento (que ele teoricamente não teria direito institucional, não teria legitimidade de ensinar) e, no meio desse processo, dentro da sinagoga, encontra um ser impuro e o expulsa. A oposição pureza-impureza é aqui invertida: o espaço da pureza, a sinagoga, encravado no espaço da impureza, a Galiléia, na verdade é um espaço da impureza, com espírito impuro e tudo, encravado no espaço da pureza onde o Messias começa seu apostolado.

A diferença de Jesus para os outros exorcistas e milagreiros é que, ao menos em Marcos, todos os exorcismos e milagres de Jesus sempre questionam e deslegitimam as autoridades constituídas. Não há salvação possível no estilo de vida definido pela identidade legitimadora. Permanecer nele é escolher ficar fora do novo reino de Deus que está sendo proclamado, é rejeitar a nova identidade emancipadora que Jesus está anunciando.

Ao sentar-se a mesa com pecadores e publicanos, Jesus está rompendo com as fronteiras do nós contra eles e transformando o Outro, demonizado e sem acesso a Deus, no Nós em comunhão com o Messias e com acesso ao Reino divino. Ao antigo Nós, aos poderes constituídos e legitimados testemunhando a cena, só resta reconhecerem-se pecadores, abrirem mão da lógica da pureza/impureza, e aceitar a oferta messiânica de Jesus.

Da mesma maneira, quando Jesus e seus seguidores são vistos arrancando espigas no sábado, eles usam a própria Bíblia Hebraica (o Livro de Samuel, que lemos na primeira aula) para deslegitimar a própria Bíblia:

Aconteceu que, ao passar num sábado pelas plantações, seus discípulos começaram a abrir caminhos arrancando as espigas Os fariseus disseram-lhe: “Vê! Como fazem eles o que não é permitido fazer no sábado?” Ele respondeu: “Nunca lestes o que fez Davi e seus companheiros quando necessitavam e tiveram fome, e como entrou na casa de Deus, no tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu dos pães da proposição, que só sacerdotes podem comer, e os deu também aos companheiros?” Então lhes dizia: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; de modo que o Filho do Homem é senhor até do sábado”. (2,23-8)

Na verdade, Jesus vira a Bíblia ao avesso, lembrando que o sábado é que fora feito para benefício do homem e não o homem que deveria servir o sábado. O sistema de débito se transforma em sistema de dádiva: a Lei é interpretada a partir da misericórdia divina e não mais da seriedade divina. A lei de Deus serve como guia da justiça libertadora e não como identidade legitimadora.

Afinal, se todas as pessoas são iguais, se são todas pecadoras, também são todas puras e impuras ao mesmo tempo, e essa distinção perde o sentido.

Em Marcos, o sagrado definitivamente mudou de lugar: saiu da esfera dos espaços constituídos religiosos, aliados ao poder secular, saiu da esfera dos ricos e dos poderosos, e ganhou as ruas e as casas, os espaços públicos e pessoais.

(Zabatiero e Leonel, “Construindo a identidade messiânica de Jesus”, em Bíblia, Literatura e Linguagem; “Marcos e o materialismo: leituras em tensão”, em A Bíblia pós-moderna; Drury, Guia Literário da Bíblia, 445)

A estupidez dos apóstolos

Poucas coisas chamam tanto atenção em Marcos quanto a estupidez dos apóstolos. Eles nunca entendem nada, tudo tem que ser explicado e reexplicado e, no fim, até o primeiro entre eles, Pedro, nega Jesus por três vezes. Em todo o texto, somente os demônios parecem inequivocamente reconhecer Jesus por quem é. Na verdade, dentro da própria lógica interna do texto, a obtusidade dos apóstolos talvez seja seu fator mais implausível, mais que os exorcismos e milagres: afinal, se ninguém, nem mesmo os apóstolos, entenderam Jesus, como suas palavras chegaram até nós? Como foi criada e mantida a tradição oral que desemboca nesse texto?

Assim como Watson e Sherlock Holmes, a estupidez do ajudante faz com que admiremos ainda mais o herói, ao mesmo tempo em que nos sentimos mais inteligentes: eles estavam tão perto e não viram, mas eu, eu aqui de longe, eu enxergo, eu entendo! Ver a incompreensão dos apóstolos em pontos fáceis de mal-compreender evita a incompreensão dos leitores/ouvintes e guia seu entendimento para cá ou para lá. Na prática, é uma ferramenta pedagógica inserida no próprio texto, já tão obscuro.

Os outros evangelistas, ao mesmo tempo em que deixam entrever que havia sim uma tradição de burrice dos apóstolos, lidaram com o assunto de maneira diferente: Mateus enfatiza que eles têm pouca fé, mas, no fim, entendem Jesus; Lucas, que podem até ter errado, mas acertaram no final e se tornaram os futuros líderes da Igreja. Já Marcos, caracteristicamente, não tem respeito algum nem por líderes nem por futuros líderes: os apóstolos são tão burros que nos perguntamos o que estavam fazendo ali, como conseguiram passar adiante uma mensagem que entenderam tão pouco.

De modo bem real, como em qualquer texto, mas especialmente em textos misteriosos e enigmáticos com protagonistas idiotas, ler Marcos é fundamentalmente uma aula sobre ler Marcos. O texto vai nos preparando para a própria tarefa de decifrá-lo. Afinal, sim, a burrice dos apóstolos faz sim o leitor se sentir inteligente. Por outro lado, o próprio fato de o texto ser considerado enigmático e misterioso é uma admissão que talvez não tenhamos entendido tudo que poderíamos ter entendido. Se os apóstolos não veem e não entendem… quem é esse sujeito que vê e que entende? Seremos nós? (“Leitura das narrativas de alimentação em Marcos”, em A Bíblia pós-moderna, 32)

Além de sua mensagem subversiva e transgressora, o que está em jogo aqui também é a mensagem sobrenatural e messiânica de Marcos: a compreensão não é intelectual, não é desse mundo. Marcos está tentando mostrar que a verdadeira compreensão é sobrenatural. Ela está localizada no espaço da morte, da crucificação, ali na borda do mundo, lá no limite das coisas. As pessoas podem ser ricas e poderosas e inteligentes, ou pobres e cheias de fé e seguidoras de Jesus, mas se não derem o salto de fé, se não saírem desse mundo, não compreenderão. Os inimigos, porém, eles sabem: a verdade é proclamada pelo espírito impuro (1, 24), suspeitada por um inimigo hostil, o sacerdote (14, 61), e confirmada pelo centurião, também inimigo, quando diz:

O centurião, que se achava bem defronte dEle, vendo que havia expirado desse modo, disse: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!” (15, 39)

O evangelho começa, já no primeiro versículo, proclamando a natureza divina de Jesus e termina com o centurião, inimigo figadal, confirmando-a. Ou seja, não há dúvidas possíveis de quem é realmente Jesus. Entre esses dois pólos de certeza, Marcos pode se dar ao luxo de ser tão confuso e tão abrupto quanto quiser em sua narração. É dessa compreensão segura, no começo e no fim, e da incompreensão do meio, que o Evangelho de Marcos tira sua enorme força. Essa é a contradição que energiza o texto.

(Drury, Guia Literário da Bíblia, 436-7)

Diferenças entre os evangelhos

Marcos, sempre conciso e misterioso, um pouco brusco e algo rude, recebe, nas mãos de Mateus e Lucas, uma certa expansividade narrativa. Talvez até os outros evangelistas fossem mais letrados, melhores escritores, mais eficientes em cumprir seus objetivos, mas é difícil evitar pensar que Marcos era um artista mais consumado, mais dramático, mais ousado.

Lucas e Mateus provavelmente escreveram com Marcos em sua frente, mas só Marcos traz a frase (que me dá calafrios até hoje): “Meu nome é Legião, porque somos muitos” (5,9), assim como o comando para que a moça ressuscite “Talita cumi” (“Levanta-te e anda!”, 5,41), duas das frases mais diretas, mais memoráveis dos evangelhos. Marcos também é o único que menciona o detalhe trivial, e que por isso mesmo dá verossimilhança ao texto, que o pai da menina gastara tudo em médicos (5,25).

(Kermode, Guia Literário da Bíblia, 410)

Marcos e Paulo: paixão e milenarismo

O batismo é o ritual de morrer para poder viver novamente. Assim, Marcos, ao escolher começar seu Evangelho não pelo nascimento, mas pelo batismo de Jesus, está escolhendo começar com sua morte simbólica o relato que terminará com sua morte real. Morte e morte, no começo e no fim. Aliás, “fim” talvez seja o tema principal do Evangelho de Marcos, o fim de Jesus (tudo acontece em função de sua morte final, já antecipada em seu batismo inicial) mas também o fim do mundo, indicado no mini-apocalipse do capítulo 13. (Drury, Guia Literário da Bíblia, 441)

O gênero literário apocalíptico floresceu entre os judeus por duzentos anos. (Falo mais sobre isso aqui.) O primeiro livro considerado apocalíptico é o Livro de Daniel, datado de cerca do século II aEC. Finalmente, nesse ambiente cada vez mais politicamente exaltado e milenarizado, uma parcela extremada dos judeus decide levar as promessas apocalípticas a sério: somente quando o povo judeu fosse levado ao seu limite é que as forças de Deus interviriam ao seu favor e acabariam com os tempos. E é isso que fazem, ao declarar guerra ao Império Romano. Alguns líderes judaicos previram que essa guerra poderia acabar com o judaísmo e decidem se manter oficialmente fora da luta. Quando tudo termina, o templo é destruído e a autonomia política regional, perdida, uma das conseqüências é uma fortíssima rejeição da literatura apocalíptica, considerada culpada por insuflar os zelotes e causar a tragédia. Também “fecham” a Bíblia Hebraica e decidem não incluir nenhum livro escrito depois da volta do Exílio, por volta do século V aEC. Assim, excelentes livros patrióticos são descanonizados, como os livros dos Macabeus e, por outro lado, livros apocalípticos como Daniel, escrito no século IIaEC só escapam porque então se pensava que era contemporâneo do Exílio. Já os cristão estão mais do que dispostos a assumir o manto milenarista e prontamente adaptam as expectativas milenaristas judaicas para o ambiente cristão do primeiro século. No cristianismo, ao contrario do judaísmo, o pensamento milenarista está no centro nevrálgico da nova religião. (Gabel e Wheeler, “A literatura apocalíptica” em Bíblia como literatura, 130-3)

Depois das cartas paulinas, o Evangelho de Marcos é o texto mais antigo do Novo Testamento e muitos estudiosos viram as muitas semelhanças entre ambos. A maior semelhança entre Paulo e Marcos é a centralidade que ambos dão à Paixão de Cristo e o pouco, ou nenhum interesse, que dão às palavras e ensinamentos em si de Jesus.

Todas as vezes em que Paulo cita Jesus é para falar de sua morte e ressurreição, nunca mencionando nada que ele fez em vida, nenhum ato, ensinamento, palavra, nada. Já Marcos usa, para efeito dramático, algumas palavras em si de Jesus (“Talita cumi”, 5,41; “Eloi, Eloi, lemá sabachtháni”, 15,33) mas parece não dar muita importância aos ensinamentos de Jesus, especialmente em comparação aos seus milagres e exorcismos. Em 1,21-28, na sinagoga de Cafernaum, Marcos diz que Jesus estava lá ensinando, que espantou a todos com seus ensinamentos, mas não parece achar relevante dizer o que ele estava ensinando. O que Marcos escolhe contar (o que dá uma pista de suas prioridades como narrador) é que Jesus foi reconhecido por um espírito impuro e que, na seqüência, o exorcizou. (Nineham, Mark, 74)

Para Marcos e Paulo (e também para Agostinho), a morte e ressurreição de Jesus é o ponto decisivo da história humana, o momento em que Deus toca a história dos homens e muda tudo. Como disse Agostinho:

“Cristo morreu somente uma vez por nossos pecados. Agora que ressuscitou, não morrerá mais.” (Cidade de Deus, XII, 13, 2)

Agora, a historia humana ruma para o reino prometido por Jesus, que está para chegar a qualquer momento. Tanto Marcos quanto Paulo operam fortemente sob a premissa milenarista que o fim do mundo acontecerá a qualquer momento, então, há pressa! Pressa, aliás, visível no Evangelho de Marcos, onde tudo é rápido e apressado. Não só apressado: bruto, dramático, abrupto. Para Marcos, Jesus nasceu para ser crucificado: é esse único evento que fornece a chave de toda a sua vida e, mais importante, de toda a história humana, que caminha a passos largos para seu fim.

O verdadeiro e necessário final de Marcos está fora do texto: não é nem a ressurreição de Jesus, que não é nem mesmo mostrada, mas o apocalipse. Tudo acontece em função desses dois eventos finais. O encerramento do livro é brusco porque não é o final, e quer se fazer entender como um não-final, apontando para o final verdadeiro fora do livro. É um livro em ponto de fuga, apontando para um final que não está lá.

O apocalíptico capítulo 13 indica o que acontecerá no pós-livro: a primeira fase seria a traição, a prisão, tortura, morte prometida aos apóstolos (Marcos enfatiza tanto isso que também é conhecido como o “Evangelho dos mártires”); e a segunda fase, a destruição do templo, o horror da guerra, as mortes e os refugiados. Acredita-se que Marcos tenha sido escrito logo após a destruição do templo, então, autor e leitores/ouvintes tinham passado pelas primeiras duas fases prometidas pelo livro. Faltava somente a última, e esse será o tema do livro que fecha a Bíblia, o Apocalipse.

(Drury, Guia Literário da Bíblia, 439-42)

(Referências: Karen Armstrong, Bíblia, uma biografia; John Drury, “Marcos”; Frank Kermode, “Novo Testamento: Introdução”; em Guia Literário da Bíblia; D. E. Nineham, The Gospel of Saint Mark, The Pelican New Testament Commentary; René Girard, O bode expiatório; “Leitura das narrativas de alimentação em Marcos”, em A Bíblia pós-moderna, Bíblia e cultura coletiva; Julio Paulo Tavares Zabatiero e João Leonel, “Construindo a identidade messiânica de Jesus”, em Bíblia, Literatura e Linguagem; John Gabel e Charles Wheeler, Bíblia como literatura.)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a quarta aula, Cristãos, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Evangelho de Marcos é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 10 de setembro de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/evangelho-de-marcos // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para a Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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