Categorias
1ª aula: Bíblia Hebraica 2ª aula: Gregos grande conversa

Ler em voz alta

Como ler a Bíblia e outros textos antigos? Sempre em voz alta. (Um guia de leitura para a primeira aula do curso “Introdução à Grande Conversa”.)

Um velho truque de romancistas e poetas: ler em voz alta revela a força e a potência de qualquer texto. E, quando o texto é capenga e mal-escrito, revela suas deficiências também. Por isso, a melhor maneira de revisar um texto é lendo-o em voz alta.

Vale para qualquer texto, mas é absolutamente obrigatório para textos escritos antes da invenção da imprensa (que tendem a ser mais orais) e para poesia (que, com algumas exceções, é oral por definição).

Nas Confissões, de Agostinho, que leremos na quarta aula, “Novo Testamento”, ele comenta de um professor que era famoso por seu hábito esquisito de… ler silenciosamente.

A leitura silenciosa era muito rara antes da invenção da imprensa e, arrisco dizer, não era nem a forma preponderante de leitura na virada do século XIX pro XX.

Até a década de 1920, por exemplo, os jornais brasileiros tinham mais ouvintes que leitoras. Pesquisas dos próprios jornais indicavam que tinham um leitor pra cada dois ou três ouvintes. Era comum bares e leiterias assinarem o jornal, deixarem no balcão ou nas mesas, e quando aparecia algum freguês alfabetizado, lia em voz alta para todos.

Ou seja, grande parte do conteúdo que lemos foi escrito tendo em mente que seriam mais ouvidos que lidos. E, de fato, a língua, a língua mesmo, a língua verdadeira, é a falada: a escrita é sempre uma aproximação grosseira, uma tentativa tosca de reproduzir, de domesticar, algo que é essencialmente orgânico e incontrolável.

* * *

A leitura silenciosa era rara por ser difícil, ou era difícil por ser rara?

O fato é que quase todas as convenções gráficas que facilitam a leitura são muito recentes. (Sou historiador: quando digo que algo é “muito recente”, quero dizer que existe há menos de 500 anos.)

Quando a Bíblia foi escrita, por exemplo, ainda não existiam:

  • Papel
  • Livro
  • Diferenciação entre maiúsculas e minúsculas
  • Espaço entre palavras
  • Parágrafos
  • Qualquer tipo de pontuação

É por isso que o texto bíblico às vezes nos soa repetitivo: “E então Jesus disse”, “E então Labão disse”, etc.

Como não havia aspas, travessão, vírgula, parágrafo, espaçamento, nada, era preciso literalmente dizer tudo, para que as pessoas leitoras, ou melhor, ouvintes, pudessem entender o que estava acontecendo.

Só para terem uma ideia, tentem ler silenciosamente o trechinho abaixo, sem essas facilidades gráficas que inventamos recentemente. (Depois, tentem ler o mesmo trecho em voz alta.)

DEPOISDESSESACONTECIMENTOSSUCEDEUQUEDEUSPOSABRAAOAPROVAELHEDISSEABRAAOABRAAOELERESPONDEUEISMEAQUIDEUSDISSETOMATEUFILHOTEUUNICOQUEAMASISAACEVAIATERRADEMORIAELAOOFERECERASEMHOLOCAUSTOSOBREUMAMONTANHAQUEEUTEINDICAREIABRAAOSELEVANTOUCEDOSELOUSEUJUMENTOETOMOUCONSIGODOISDESEUSSERVOSESEUFILHOISAACELERACHOUALENHADOHOLOCAUSTOESEPOSACAMINHOPARAOLUGARQUEDEUSHAVIAINDICADONOTERCEIRODIAABRAAOLEVANTANDOOSOLHOSVIUDELONGEOLUGARABRAAODISSEASEUSSERVOSPERMANECEIAQUICOMOJUMENTOEUEOMENINOIREMOSATELAADORAREMOSEVOLTAREMOSAVOSABRAAOTOMOUALENHADOHOLOCAUSTOEACOLOCOUSOBRESEUFILHOISAACTENDOELEMESMOTOMADONASMAOSOFOGOEOCUTELOEFORAMSEOSDOISJUNTOSISAACDIRIGIUSEASEUPAIABRAAOEDISSEMEUPAIELERESPONDEUSIMMEUFILHOEISOFOGOEALENHARETOMOUELEMASONDEESTAOCORDEIROPARAOHOLOCAUSTOABRAAORESPONDEUEDEUSQUEMPROVERAOCORDEIROPARAOHOLOCAUSTOMEUFILHOEFORAMSEOSDOISJUNTOSQUANDOCHEGARAMAOLUGARQUEDEUSLHEINDICARAABRAAOCONSTRUIUOALTARDISPOSALENHADEPOISAMARROUSEUFILHOEOCOLOCOUSOBREOALTAREMCIMADALENHAABRAAOESTENDEUAMAOEAPANHOUOCUTELOPARAIMOLARSEUFILHOMASOANJODEIAHWEHOCHAMOUDOCEUEDISSEABRAAOABRAAOELERESPONDEUEISMEAQUIOANJODISSENAOESTENDASAMAOCONTRAOMENINONAOLHEFACASNENHUMMALAGORASEIQUETEMESADEUSTUNAOMERECUSASTETEUFILHOTEUUNICO

Na verdade, facilitei para vocês. Como o hebráico não tem vogais, o trecho originalmente seria ainda mais enigmático:

DPSDSSSCNTCMNTSSCDQDSPSBRPRVLHDSSBRBRLRSPNDSMQDSDSSTMTFLHTNCQMSSCVTRRDMRLFRCRSMHLCSTSBRMMNTNHQTNDCRBRSLVNTCDSLSJMNTTMCNSGDSDSSSRVSSFLHSCLRCHLNHDHLCSTSPSCMNHPRLGRQDSHVNDCDNTRCRDBRLVNTNDSLHSVDLNGLGRBRDSSSSSRVSPRMNCQCMJMNTMNNRMSTLDRRMSVLTRMSVSBRTMLNHDHLCSTCLCSBRSFLHSCTNDLMSMTMDNSMSFGCTLFRMSSDSJNTSSCDRGSSPBRDSSMPLRSPNDSMMFLHSFGLNHRTMLMSNDSTCRDRPRHLCSTBRRSPNDDSQMPRVRCRDRPRHLCSTMFLHFRMSSDSJNTSQNDCHGRMLGRQDSLHNDCRBRCNSTRLTRDSPSLNHDPSMRRSFLHCLCSBRLTRMCMDLNHBRSTNDMPNHCTLPRMLRSFLHMSNJDHWHCHMDCDSSBRBRLRSPNDSMQNJDSSNSTNDSMCNTRMNNNLHFCSNNHMMLGRSQTMSDSTNMRCSSTTFLHTNC

Parece uma mensagem critptografada, não?

Sim, mas apenas porque, na prática, todo texto é uma mensagem criptografada, onde a fluência na leitura é a chave necessária para a decodificação e a leitura em voz alta uma das ferramentas que podemos usar para facilitar o processo.

O último trecho acima é mais ou menos equivalente (a grosso modo, apenas para que tenham uma certa ideia) do texto que está nos manuscritos, do texto que foi escrito pelas primeiras pessoas que o escreveram, do texto que foi lido pelas primeiras pessoas que o leram.

A única maneira de fazer sentido desse emaranhado de letras é, em primeiro lugar, tendo muita experiência (até pouco tempo atrás, ler era praticamente uma profissão) e, em segundo, lendo em voz alta.

Se vocês fizerem isso, talvez descubram que esse emaranhado de letras na verdade esconde (ou revela) um dos textos mais belos da literatura universal, o quase sacrifício de Isaac por seu pai, Abraão, em Gênese, 22, na tradução da Bíblia de Jerusalém:

“Depois desses acontecimentos, sucedeu que Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: “Abraão! Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui!” Deus disse: “Toma teu filho, teu único, que amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei.” Abraão se levantou cedo, selou seu jumento e tomou consigo dois de seus servos e seu filho Isaac. Ele rachou a lenha do holocausto e se pôs a caminho para o lugar que Deus havia indicado. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o lugar. Abraão disse a seus servos: “Permanecei aqui com o jumento. Eu e o menino iremos até lá, adoraremos e voltaremos a vós.” Abraão tomou a lenha do holocausto e a colocou sobre seu filho Isaac, tendo ele mesmo tomado nas mãos o fogo e o cutelo, e foram-se os dois juntos. Isaac dirigiu-se a seu pai Abraão e disse: “Meu pai!” Ele respondeu: “Sim, meu filho!” — “Eis o fogo e a lenha,” retomou ele, “mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Abraão respondeu: “É Deus quem proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho”, e foram-se os dois juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus lhe indicara, Abraão construiu o altar, dispôs a lenha, depois amarrou seu filho e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e apanhou o cutelo para imolar seu filho. Mas o anjo de Iahweh o chamou do céu e disse: “Abraão! Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui!” O Anjo disse: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único.””

* * *

Então, de modo geral, para qualquer texto, mas especialmente para textos antigos e poéticos, meu conselho é:

Não fez sentido? Soou estranho? Leia em voz alta.

Lendo em voz alta, as construções antes confusas subitamente farão sentido, os sujeitos vão se atrelar aos verbos corretos e as pausas intuitivamente se revelarão. É quase uma mágica para extrair sentido de textos difíceis.

Dos textos que leremos no curso A grande conversa, além dos bíblicos, na primeira e quarta aula…

A Ilíada (segunda aula) nasceu como poema oral, então, ler em voz alta é recuperar a experiência original, intencional do poema;

Os Lusíadas (sexta aula) e Paraíso Perdido (sétima aula) são poemas que, como poemas, precisam ser lidos em voz alta para destravar sua real potência e sonoridade (eu só entendi a grandiosidade de Paraíso Perdido quando encontrei um bom áudiolivro);

Martín Fierro (nona aula) é todo escrito no registro de uma payada, que é o equivalente argentino a um “duelo de repentistas”, ou seja, é fortemente oral; ouvi-lo faz parte da sua verdadeira experiência.

Então, não tenham medo. Leiam em voz alta.

* * *

Esse texto faz parte dos guias de leitura para a primeira aula, Antigo Testamento, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

* * *

Ler em voz alta é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 10 de junho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/ler-em-voz-alta // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: NewsletterInstagramFacebookTwitterGoodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.