Geléia de Jabuticaba

Café da manhã de pousada em Paraty. Mãe, filha, avó:

A filha trazia a proverbial cara-de-cú da adolescente forçada a viajar com a família.

A mãe, profissional liberada e empoderada, ocupada e sem tempo a perder, parecia ansiosa para sair dali e ticar boxes no seu roteiro já pré-planificado de Paraty: Praça da Matriz e Praia do Pontal, Igreja de Santa Rita e Cais do Porto, etc e etc.

Mas a avó estava simplesmente maravilhada demais com aquele simples café-da-manhã. Tudo era lindo, incrível, delicioso:

“Tem omelete! Feita na hora! Quentinha!”

“Mãe, a senhora ainda nem começou a comer. Desse jeito a gente vai ficar aqui até o meio-dia, vamos perder Paraty!”

Em resposta, a avó pegou um pote da mesa, leu o rótulo e riu sozinha, feliz como uma menina:

“Olha só, geléia de jabuticaba caseira. Que incrível! Quanto tempo que não vejo isso.”

Entre a filha impaciente e a neta entediada, me senti na obrigação de tomar partido.

Fiz contato visual com a senhorinha e disse:

“Tá tudo tão lindo, né?”

* * *

Esse texto é dedicado à minha mãe, que faz aniversário amanhã e que também anda pela vida se maravilhando com cada pote de geléia. Obrigado, mãe.

* * *

O próximo encontro As Prisões: Exercícios de Atenção será o meu CENTÉSIMO evento, e acontece no fim-de-semana de 21 a 23 de setembro. Saiba mais.

Kafka no restaurante

Alguém deve ter distorcido seu pedido, pois assim que Joseph K chegou no restaurante o garçom já lhe trouxe um bife. Joseph K mandou voltar o bife e o garçom disse que não tinha autoridade pra devolver o bife, que Joseph K deveria falar com o Gerente-Geral. Joseph K pede que ele pelo menos afaste o bife, pois é vegetariano e tem nojo. O garçom diz que não pode fazer nada, que é apenas uma engrenagem na grande máquina do restaurante, que não sabe como as coisas funcionam, que tem acesso apenas ao 3o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 2o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 1o cozinheiro, que teria que passar o bife ao cozinheiro-chefe, que nenhum deles nunca tinha visto, não sabiam nem se existia um cozinheiro-chefe. Joseph K pede que o garçom então chame o Gerente-Geral. O garçom avisa que é inútil, que o Gerente-Geral nunca vem ao restaurante, nunca gerencia nada e nunca, nunca fala com os clientes, mas que iria tentar assim mesmo.

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Diálogo em uma mesa de bar carioca

A gente se acostuma a tudo.

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A Autobiografia do Poeta-Escravo em escolas públicas de todo Brasil

É com enorme prazer que compartilho a melhor notícia de minha carreira de escritor:

A Autobiografia do Poeta-Escravo, de Juan Francisco Manzano, organizado, traduzido e anotado por mim, foi selecionado pelo PNLD Literário (Programa Nacional do Livro e do Material Didático).

Em breve, milhares de estudantes de escolas públicas por todo Brasil terão acesso à história de vida de um homem excepcional: um poeta nascido escravizado e que se libertou por força de sua palavras.

O livro foi lançado no Brasil em 2015 e, em Cuba, no ano seguinte. Está à venda nas principais livrarias e existe em versão ebook.

Para comprar e saber mais:
alexcastro.com.br/autobiografia-do-poeta-escravo

De quem é a bondade?

“Lembremos-nos, também, de socorrer os mais necessitados, particularmente os enfermos, sendo para eles um sinal da bondade divina.”

Uma das frases mais bonitas e intrigantes da missa de hoje de manhã.

Afinal, se eu, homem mortal e falho, posso decidir, por um ato de vontade humana, socorrer um enfermo e me tornar, assim, para ele, um sinal da bondade divina…

… uma interpretação possível é que só socorri o enfermo por inspiração da bondade divina.

Uma outra inspiração mais interessante é que o pobre enfermo está projetando bondade divina onde só existe bondade humana, ou seja, que Deus está tomando crédito pela minha bondade.

Que, na verdade, só existe a bondade humana, inclusive a bondade humana de inventar um Deus que justifique, com sua bondade divina fictícia, a bondade humana que já praticamos umas com as outras.

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Perdoa-me por te esqueceres

Fui presidente do grêmio de uma escola de mil alunos (1991-93). Trabalhei com consultor entrando e saindo de diferentes empresas por oito anos (1999-2007). Dei aulas em escolas, cursos e universidades por dezoito anos (1993-2011). Estou promovendo encontros As Prisões: Exercícios de Atenção por todo Brasil há eis anos (2013-).

Sou o primeiro a dizer que nossa falta de memória é um sintoma da nossa falta de atenção: “quem presta atenção, lembra”, etc.

No meu caso, porém, a questão é tamanho do HD. Simplesmente não dá pra lembrar de todas as pessoas com quem tive interações intensas e significativas, mas curtas. (Só nos meus encontros já vieram duas mil.)

Então, pra começar, peço desculpas prévias por não lembrar de você quando nos esbarrarmos em 2020. Não quer dizer que você foi desimportante para mim. Não quer dizer que não prestei atenção no que você me contou. Quer dizer apenas que já superei e muito a capacidade do meu HD mental para nomes e rostos. Perdão.

E, pra terminar, um pedido: talvez eu me lembre de você, talvez não, mas é sempre mais compassivo pouparmos a outra pessoa de possíveis constrangimentos (“não acredito que você não lembra de mim?!”) e já comece a conversa nos apresentando: “oi, Alex, sou o Paulo, que veio no encontro de Belém, que tinha uma avó com Parkinson, tudo bem?”

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O tempo existe?

Temos duas maneiras de falar de localização espacial: uma objetiva (o Leblon, Curitiba, China, Júpiter) e outra subjetiva, que depende da localização da pessoa que está falando (aqui, perto, longe, ao norte, acima, abaixo).

Se uma pessoa diz que Patópolis fica ao norte, isso não nos comunica praticamente nada se não soubermos onde a pessoa está espacialmente ao falar isso.

Igualmente, existem duas maneiras de falar sobre o tempo: a objetiva (3 da tarde de 5 de junho de 1987, 9 da manhã de 30 de dezembro de 34 aC) e a subjetiva (ontem, faz cinco minutos, amanhã, daqui a cinco séculos, um milênio atrás).

Na subjetiva, tudo é contingente: só hoje eu posso falar que “ontem, conheci o Zé” pois amanhã essa frase já se tornará mentira. Igualmente, só posso dizer que “Curitiba está ao sul” enquanto estou no Rio de Janeiro, mas não se estiver em Buenos Aires.

Por outro lado, sempre posso dizer que “Getúlio Vargas se matou depois da Segunda Guerra Mundial” ou que “Buenos Aires fica no do Rio da Prata”.

Nossa tendência é pensar subjetivamente. Nosso aqui e agora é o centro do universo, o nexo focal da História, o ponto de referência para tudo: o que está ao norte de mim e o que está perto de mim, o que aconteceu antes desse momento que estou vivendo agora e qual será o futuro desse momento que estou vivendo agora.

Talvez devéssemos pensar o tempo da mesma maneira que pensamos o espaço, usando a palavra “agora” como usamos a palavra “aqui”: algo que tem significado em relação à pessoa que está falando, mas que não tem significado concreto, real.

Quando começamos a pensar dessa maneira, o “agora” continua sendo tão subjetivo quando o “aqui”, mas “20h de 5 de junho de 2002” ganha um pouco da concretude objetiva de “Curitiba”. Um momento do tempo passa a ser um lugar.

E, se o tempo objetivo torna-se concreto, o tempo subjetivo se revela tão ilusório e contigente quando o espaço subjetivo.

Afinal, o que é o passado, o presente, o futuro? Existe realmente essa distinção ou ela é apenas uma miragem causada por nossas mentes de macacos pelados?

O suicídio de Getúlio hoje é passado. Mas um dia ele foi presente. E, antes disso, por incontáveis milênios, foi futuro.

Faz sentido então falar que o suicídio do Getúlio está no passado? Ele não está igualmente no futuro? E esse momento onde ele é presente também não está igualmente “lá”, tão concreto quanto Curitiba?

Cada “agora” seria um universo completo e autocontido, um quadro onde o tempo não existiria.

A história do universo seria formada por esses quadros, cada um igualmente real, igualmente concreto.

Assim como em um filme, nossa percepção do tempo passando, fluindo, se movendo, seria uma ilusão causada pela “exposição” em sequência desses quadros.

Dessa maneira, cada instante presente seria fundamentalmente eterno. O instante presente não envelhece, não passa, não “está acontecendo”: ele simplesmente é.

Estou eternamente aqui, às 11h48 de 30 de março de 2018, escrevendo esse texto, assim como estou eternamente vendo Seinfeld às 22h20 de 11 de maio de 1996, assim como estou eternamente dando aquela topada com o dedão às 8h39 de 23 de agosto de 2002.

O Alex-de-48-anos é tão real quanto o Alex-de-23 ou o Alex-de-8.

Tudo está acontecendo agora, ao mesmo tempo, para sempre.

Se os eventos passados são tão reais quanto os eventos presentes e futuros, nada realmente termina, nada realmente deixa de existir.

Nesse sentido, uma vida “termina” ou “acaba” assim como o Rio de Janeiro “termina” ou “acaba” quando chegamos na divisa com São Paulo: na prática, o Rio de Janeiro continua lá, no mesmo lugar, não foi a lugar algum.

Portanto, uma pessoa que não está viva agora, mas que já esteve viva no passado ou vai estar viva no futuro, é tão real quanto uma pessoa que não vive AQUI mas que está viva em algum outro lugar.

A morte de uma pessoa não apaga, anula, termina com sua existência: ela apenas delimita um dos extremos da extensão daquela pessoa no tempo, assim como sua pele delimita a extensão do seu corpo no espaço, assim como os rios Chuí e o Oiapoque delimitam os limites do Brasil no espaço.

Nessa perspectiva, as pessoas ditas-mortas estão tão vivas quanto as pessoas que vivem em um país distante com o qual não temos como nos comunicar: elas apenas estão habitando pontos diferentes do contínuo temporal.

Logo, podem ser visitadas.

Daí, viagens no tempo.

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A punição por falas outrofóbicas

A sociedade brasileira é machista, homofóbica, racista — em resumo, outrofóbica.

A escravidão e o patriarcado são nossos fatos sócio-econômicos fundacionais. Nossa cultura e nossa língua, nossos estereótipos regionais e nossos padrões de beleza, tudo racista, tudo machista.

A única maneira de começarmos a sair desse buraco historicamente cavado é reconhecendo nossa própria outrofobia, tanto a estrutural quanto a individual.

Porém, se a punição para a pessoa que reconhece sua fala outrofóbica for sua total aniquilação pessoal e profissional, então, ninguém mais vai se responsabilizar por seu próprio racismo, por seu próprio machismo.

A punição por falas outrofóbicas tem que existir: só não pode ser a pena de morte.

Não porque o crime não seja hediondo, mas porque isso vai desistimular outras pessoas de refletirem, admitirem, confessarem seus racismos subterrâneos, seus machismos constitutivos

O que poderia ser um processo de reflexão coletivo sobre nosso pecado original acaba se tornando uma caça às bruxas.

Receita de riqueza

Pessoa rica é quem pode comprar tudo o que quer.

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A piada que o Dalai Lama não entendeu

Uma piada budista, em inglês:

The Dalai Lama walks into a pizza place and says,

“Make me one with everything.”

* * *

Um apresentador de TV tentou contar essa piada pro Dalai Lama e ele não entendeu nada:

Esse artigo, em inglês, lista todos os pressupostos culturais e linguísticos que se precisa compartilhar pra entender essa piada. (São muitos.)

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Castelos de areia

Um grupo de crianças brincava de construir castelos na areia da praia. De repente, por acidente, uma das crianças pisou no castelo de areia de outra.

Em breve, havia uma briga generalizada. Grupos se formaram para atacar outros grupos. Narizes sangraram, bracinhos foram torcidos. Algumas crianças foram expulsas de volta para casa, derrotadas, chorando. Amizades incipientes se romperam e nunca se refizeram. Décadas no futuro, essas antipatias (cuja origem ninguém mais lembrava) ainda causavam hostilidade, agressão, sofrimento.

Então, o sol caiu, a noite esfriou, as mães chamaram.

Poucos minutos depois da última criança sair, veio uma onda e destruiu todos os castelos de areia.

* * *

Adaptado de uma velha história budista.

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o que não falta é prédio alto

eu não me dedico à luta política e à criação artística por ter esperança ou fé na vitória.

eu não tenho fé, nem esperança em nada.

* * *

vivemos em um universo aleatório, de entropia crescente, caminhando rapidamente em direção ao seu próprio fim: em breve, morreremos e, logo após, todas as pessoas que nos conheceram, e depois nossa língua, nosso país e, por fim, até o próprio chão onde caminhamos, o monte himalaia e a muralha da china, serão engolidos pelo sol e deixarão de existir.

não existe vitória possível.

nossa única esperança, nosso melhor futuro, é uma morte não muito dolorosa, não muito solitária, não muito indigna, em um amanhã não muito imediato.

* * *

eu me dedico à luta política e à criação artística…

porque a vida entre seres gregários é sempre uma luta política.

porque criar arte é uma forma de gritar contra a entropia.

devemos lutar as lutas que valem a pena mesmo sem nenhuma esperança de vitória.

devemos continuar criando mesmo sabendo que tudo será destruído.

senão, é melhor nos entregarmos logo à entropia:

o que não falta é prédio alto.

* * *

outros textos divertidos sobre a entropia que nos engolirá:

alexcastro.com.br/entropia

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A violência desigual

Vivemos em um país violento, mas, antes de tudo, vivemos em um país desigual.

Se a violência fosse distribuída igualmente, ela já teria acabado: nossa classe alta não suportaria.

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Apoiadores do próprio Ego

Um desabafo comum:

“Buáááá! Eu super-apóio, do fundo do meu coração, a luta contra a

(outrofobia/homofobia/machismo/racismo/transfobia/etc)

mas agora uma pessoa

(homossexual/mulher/negra/trans/etc)

foi grossa comigo, não me ouviu, não entendeu minha posição, me chamou de

(outrofóbico/homofóbico/machista/racista/transfóbicoi/etc)

e chega, né? Depois de tantos anos de apoio, ainda tenho que ouvir isso?! EU?! Foda-se essa luta! Fodam-se essas pessoas! Elas que se virem! Bolsonaro 2018!”

* * *

Se uma pessoa

(hétero/homem/branca/cis/etc)

só apoia a luta contra a

(outrofobia/homofobia/machismo/racismo/transfobia/etc)

se as pessoas

(homossexuais/mulheres/negras/trans/etc)

forem legais com ela,

então, é uma apoiadora de merda.

A luta não é pessoal, é política.

Se alguém realmente acredita que a luta contra a

(outrofobia/homofobia/machismo/racismo/transfobia/etc)

é uma das lutas mais importantes do nosso tempo,

nada na conduta pessoal e individual das pessoas

(homossexuais/mulheres/negras/trans/etc)

seria capaz de convencê-la do contrário.

* * *

Militamos em prol de uma causa política?

Ou somente em prol de nosso próprio Ego?

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Sempre existem as exceções

Quando escrevo sobre suicídio como escolha pessoal ou sobre autocontrole de nossas emoções, surge sempre uma objeção mais ou menos assim:

“Do jeito que você fala parece muito fácil, mas nem todo mundo têm estabilidade mental para isso. Tem gente que simplesmente está doente, deprimida, bipolar!”

Seria como eu escrever sobre os benefícios da caminhada e alguém rebater:

“É, mas tem gente que não tem perna, seu insensível!”

Somos sete bilhões de pessoas no mundo. Infelizmente, existem pessoas com todo tipo de restrição física, mental, política, econômica.

Quando alguém escreve sobre “fazer X” (desde comer pudim até dançar tango) ela sabe que existem pessoas que, por quaisquer motivos, não têm como executar essa simples ação.

Fica implícito que o texto é direcionado àquelas pessoas que têm a felicidade de conseguir.

Criatividade

De repente, abro um velho conto do Borges e o trecho, escrito cuidadosamente por ele há 80 anos e sublinhado empolgadamente por mim há 30, é justamente aquela ideia brilhante que eu, hoje, podia jurar que era minha…

… e que reconheço que não era nem mesmo do Borges, mas sim uma citação (não atribuída) de Platão que, por seu lado, estava citando seu professor Sócrates.

Não existe originalidade: a criação é uma grande conversa, onde estamos sempre no ombro de pessoas que estavam nos ombros de outras pessoas.

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Enciclopédias

Terminar um relacionamento significa jogar fora uma enorme, laboriosamente compilada enciclopédia.

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Para o que estamos nos preparando?

Qual será nosso destino?

* * *

O capitão Sully, que pousou com seu avião no Rio Hudson:

“Por 42 anos, desde que comecei a voar, venho fazendo pequenos e regulares depósitos no banco da experiência, da educação e do treinamento. E, nesse dia, o saldo era suficiente para eu fazer um saque enorme.”

* * *

José Hernandez, autor do poema gauchesco Martin Fierro, obra máxima da literatura argentina, viveu por anos em uma pequena aldeia onde todos se conheciam e, segundo conta Jorge Luis Borges, não deixou nenhuma anedota, era só um pacato senhorzinho:

“Não fez nada de memorável, com exceção de algo que ignorava. Sem nem saber, havia dedicado toda sua vida a se preparar para escrever o ‘Martin Fierro’.”

* * *

A novela A fera na selva, de Henry James, conta a história de um rapaz que acredita que está destinado a grandes coisas nessa vida.

Ele conhece uma moça que gosta dele, de quem ele gosta, mas evita formar um relacionamento… por acreditar que precisa estar livre para a grande coisa que fatalmente lhe acontecerá. A moça continua por perto, dedicada a ele mas lhe dando seu espaço, até que, décadas depois, morre.

E o rapaz percebe que talvez a grande coisa a que estava destinado era uma vida compartilhada com essa mulher, um destino que ele simplesmente, vaidosamente jogou fora.

Um dia tranquilo

Em poucos minutos, embarco pro Recife.

Hoje, está um dia especialmente agitado, cheio de bombas estourando no último minuto, vários problemas para resolver.

Então, em pleno tumulto, de repente, eu páro e penso: toda pessoa que morreu em acidente aéreo estava assim, ansiosa, correndo, resolvendo mil coisas.

E aí eu páro e sento e respiro. Como uma ameixa com calma, apreciando cada mordida. Dou um cheiro bem gostoso na Capitu e deixo ela lamber minha orelha. Escrevo esse textículo e jogo ao mundo, como quem lança um bilhete em uma garrafa.

Não porque eu acho que eu vá morrer nesse voo. (As chances disso acontecer são diminutas.) Mas porque, de fato, posso morrer a qualquer momento, inclusive nesse voo. E, se não for nesse voo, será atropelado por um caminhão que talvez ainda nem foi fabricado, ou traído por meu coração, esse que está aqui batendo agora, e que um dia pode decidir que não quer mais brincar.

E, no dia em que isso acontecer, quero que tenha sido um dia que passei tranquilo, onde comi uma fruta com gosto, apertei a Capitu como se não houvesse amanhã, escrevi um texto que, quem sabe, ajudou outras pessoas.

* * *

Depois de amanhã, começa a Imersão do Nordeste. Vejo vocês lá. Se sobrevivermos.

“Seja você mesma!”

Nossa essência, nossa personalidade, nossa sexualidade, são construídas por nossas ações: interagimos com o mundo através dos nossos atos.

Ninguém está lá muita interessada no que pensamos, no que sentimos, em nossa essência, em toda essa linda complexitude reluzindo dentro de nós.

O que importa é o que fazemos.

Não temos escolha de ser quem somos, mas temos escolha de agir como agimos.

Por isso, poucos conselhos são mais canalhas do que “seja você mesma”.

A maioria dos problemas do mundo veio de pessoas que estavam simplesmente “sendo elas mesmas”.

Mais importante do que sermos nós mesmas é sermos quem queremos ser.

Todas as forças do universo nos impelem a nos conformar, a aceitar as regras do mundo, a ceder, nos moldar.

Ser a pessoa que queremos ser é uma luta diária, surda, interna, contra nossos próprios preconceitos, nossas mesquinharias, nossos egoísmos.

Ser quem queremos ser é o mínimo que devemos a nós mesmas.

Se não somos nem isso, então não somos nada.

Decidir ser uma pessoa mais empática, mais atenciosa, mais cuidadosa, entretanto, é fácil.

Ser de fato essa pessoa, todos os dias, sistematicamente, é muito mais difícil.