A piada que o Dalai Lama não entendeu

Uma piada budista, em inglês:

The Dalai Lama walks into a pizza place and says,

“Make me one with everything.”

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Um apresentador de TV tentou contar essa piada pro Dalai Lama e ele não entendeu nada:

dalai lama joke piada

Esse artigo, em inglês, lista todos os pressupostos culturais e linguísticos que se precisa compartilhar pra entender essa piada. (São muitos.)

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Apoiadores do próprio Ego

Um desabafo comum:

“Buáááá! Eu super-apóio, do fundo do meu coração, a luta contra a

(outrofobia/homofobia/machismo/racismo/transfobia/etc)

mas agora uma pessoa

(homossexual/mulher/negra/trans/etc)

foi grossa comigo, não me ouviu, não entendeu minha posição, me chamou de

(outrofóbico/homofóbico/machista/racista/transfóbicoi/etc)

e chega, né? Depois de tantos anos de apoio, ainda tenho que ouvir isso?! EU?! Foda-se essa luta! Fodam-se essas pessoas! Elas que se virem! Bolsonaro 2018!”

narcisismo world revolves around me

* * *

Se você é uma pessoa

(hétero/homem/branca/cis/etc)

que só apoia a luta contra a

(outrofobia/homofobia/machismo/racismo/transfobia/etc)

se as pessoas

(homossexuais/mulheres/negras/trans/etc)

forem legais com você,

então, você é um apoiador de merda.

A luta não é pessoal, é política.

Se você realmente acredita que a luta contra a

(outrofobia/homofobia/machismo/racismo/transfobia/etc)

é uma das lutas mais importantes do nosso tempo,

então, nada na conduta pessoal e individual das pessoas

(homossexuais/mulheres/negras/trans/etc)

seria capaz de te convencer do contrário.

Você está apoiando uma causa política?

Ou está somente apoiando seu próprio ego?

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O que acontece depois da morte

“Ai, Alex, não sei como você pode ser ateu. Jura que você acha que é só isso? Que não tem nada depois? Morreu, acabou?”

“Tem tudo depois. Nada acaba. Toda a matéria do meu corpo já esteve em outros seres vivos, toda a matéria do meu corpo estará de novo em outros seres vivos. Nem um pedacinho do meu corpo vai se perder ou deixar de existir. Se isso não é mágico e transcendental, eu não sei o que é.”

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Pessoas de vida fácil

Algumas pessoas olham para minha vida e comentam, sempre em tom estranhamente negativo:

“Arrá! Sem filhos é muito fácil viver assim, né?! NÉ?!”

E eu respondo, simplesmente:

“Sim. É por isso que fiz a escolha de não ter filhos.”

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Eu estou muito tranquilo com minha escolha de não ter filhos e espero que as pessoas que escolheram ter filhos também estejam muito tranquilas com a escolha que fizeram.

A luta pelo direito ao aborto é para que nunca mais ninguém seja obrigada a ter um filho que não queria. Continue lendo “Pessoas de vida fácil”

Enciclopédias

Terminar um relacionamento significa jogar fora uma enorme, laboriosamente compilada enciclopédia.

quedamosnos en el presente fiquemos no presente

Na página 2834, está a receita do ovo mexido ideal, do jeito que ela gosta: com manteiga, no fogo alto, quebra os ovos inteiros, só mexe quando a gema começa a endurecer.

Na página 3987, está o jeito ideal de lidar com o pai dela, do jeito que ele gosta: não pode falar de religião (ele se irrita), não pode oferecer ajuda (ele se sente diminuído), tem que apertar forte a mão (para ele respeitar sua hombridade).

De repente, puff. A enciclopédia vai pro lixo e bate uma sensação grande de trabalho desperdiçado.

Dá uma certa vontade de revendê-la ao próximo, mas certos conhecimentos são importantes de serem construídos por conta própria.

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Começar um relacionamento significa compilar uma nova enciclopédia, deliciosamente misteriosa, que não sabemos onde vai dar, que não sabemos quantas páginas terá, com todas as possibilidades ainda em aberto.

Na página 1, está a informação de que ela nunca come de pé.

Na página 2, que nasceu no Hospital Samaritano.

Na página 3, que adora saltos altos mas detesta sapatilhas.

A página 4 ainda está sendo preenchida.

Para o que estamos nos preparando?

Qual será nosso destino?

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O capitão Sully, que pousou com seu avião no Rio Hudson:

“Por 42 anos, desde que comecei a voar, venho fazendo pequenos e regulares depósitos no banco da experiência, da educação e do treinamento. E, nesse dia, o saldo era suficiente para eu fazer um saque enorme.”

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José Hernandez, autor do poema gauchesco Martin Fierro, obra máxima da literatura argentina, viveu por anos em uma pequena aldeia onde todos se conheciam e, segundo conta Jorge Luis Borges, não deixou nenhuma anedota, era só um pacato senhorzinho:

“Não fez nada de memorável, com exceção de algo que ignorava. Sem nem saber, havia dedicado toda sua vida a se preparar para escrever o ‘Martin Fierro’.”

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A novela A fera na selva, de Henry James, conta a história de um rapaz que acredita que está destinado a grandes coisas nessa vida.

Ele conhece uma moça que gosta dele, de quem ele gosta, mas evita formar um relacionamento… por acreditar que precisa estar livre para a grande coisa que fatalmente lhe acontecerá. A moça continua por perto, dedicada a ele mas lhe dando seu espaço, até que, décadas depois, morre.

E o rapaz percebe que talvez a grande coisa a que estava destinado era uma vida compartilhada com essa mulher, um destino que ele simplesmente, vaidosamente jogou fora.