Um dia tranquilo

Em poucos minutos, embarco pro Recife.

Hoje, está um dia especialmente agitado, cheio de bombas estourando no último minuto, vários problemas para resolver.

Então, em pleno tumulto, de repente, eu páro e penso: toda pessoa que morreu em acidente aéreo estava assim, ansiosa, correndo, resolvendo mil coisas.

E aí eu páro e sento e respiro. Como uma ameixa com calma, apreciando cada mordida. Dou um cheiro bem gostoso na Capitu e deixo ela lamber minha orelha. Escrevo esse textículo e jogo ao mundo, como quem lança um bilhete em uma garrafa.

Não porque eu acho que eu vá morrer nesse voo. (As chances disso acontecer são diminutas.) Mas porque, de fato, posso morrer a qualquer momento, inclusive nesse voo. E, se não for nesse voo, será atropelado por um caminhão que talvez ainda nem foi fabricado, ou traído por meu coração, esse que está aqui batendo agora, e que um dia pode decidir que não quer mais brincar.

E, no dia em que isso acontecer, quero que tenha sido um dia que passei tranquilo, onde comi uma fruta com gosto, apertei a Capitu como se não houvesse amanhã, escrevi um texto que, quem sabe, ajudou outras pessoas.

* * *

Depois de amanhã, começa a Imersão do Nordeste. Vejo vocês lá. Se sobrevivermos.

“Seja você mesma!”

Nossa essência, nossa personalidade, nossa sexualidade, são construídas por nossas ações: interagimos com o mundo através dos nossos atos.

Ninguém está lá muita interessada no que pensamos, no que sentimos, em nossa essência, em toda essa linda complexitude reluzindo dentro de nós.

O que importa é o que fazemos.

Não temos escolha de ser quem somos, mas temos escolha de agir como agimos.

Por isso, poucos conselhos são mais canalhas do que “seja você mesma”.

A maioria dos problemas do mundo veio de pessoas que estavam simplesmente “sendo elas mesmas”.

Mais importante do que sermos nós mesmas é sermos quem queremos ser.

Todas as forças do universo nos impelem a nos conformar, a aceitar as regras do mundo, a ceder, nos moldar.

Ser a pessoa que queremos ser é uma luta diária, surda, interna, contra nossos próprios preconceitos, nossas mesquinharias, nossos egoísmos.

Ser quem queremos ser é o mínimo que devemos a nós mesmas.

Se não somos nem isso, então não somos nada.

Decidir ser uma pessoa mais empática, mais atenciosa, mais cuidadosa, entretanto, é fácil.

Ser de fato essa pessoa, todos os dias, sistematicamente, é muito mais difícil.

Empregadas na piscina

A cena mais política e mais subversiva, mais bonita e mais inspiradora, mais inédita e mais surpreendente, da última imersão aconteceu depois do encerramento.

Ontem, fim de tarde. Acabou o evento, as participantes se beijaram e se abraçaram, e, assim, meio chacoalhadas e um pouco abobadas, foram todas embora.

E, então, a equipe da ecovila começou a cair na piscina.

A Geise e a Alda, que limparam. A Cris, que cozinhou. O David, que serviu. A Adriana, que coordenou.

Depois de todo um fim-de-semana servindo e atendendo aquele grupo de trinta pessoas vindas de dez estados brasileiros diferentes…

…agora estavam relaxando, ouvindo música, comendo e bebendo, nadando, rindo, aproveitando a vista do pôr-do-sol do deck da piscina.

E comecei a chorar, e chorei muito, de pura alegria.

Talvez elas não tenham entendido meu choro. Talvez tenham achado que estava chorando de felicidade por meu evento ter sido lindo. Não quis explicar. Tive medo de soar elitista, condescendente.

Sim, meu evento foi lindo.

Mas eu estava chorando mesmo pelo simples fato de elas estarem na piscina.

Continue lendo “Empregadas na piscina”

Como pedir

As pessoas me elogiam muito por “saber pedir”, como se o ato de “pedir” se resumisse ao “pedido”.

Parecem não se dar conta que a habilidade mais importante é “saber aceitar não”.

Nem sempre as pessoas vão poder ou querer nos ajudar. E tudo bem. Não tinham obrigação alguma. Não são nem mais nem menos nada por causa disso.

Se peço com a expectativa de receber e, portanto, se me frustro quando não recebo, minha vida se torna um inferno.

Mas, se consigo pedir sem expectativas, se consigo pedir respeitando os limites e desejos das outras pessoas, então, consigo acolher cada sim e cada não com a mesma alegria e com o mesmo agradecimento.

* * *

Minha maior fonte de sofrimento sempre foram minhas expectativas sobre o comportamento das outras pessoas. Se consigo diminuí-las ou desligá-las, minha interação social passa a ser muito mais prazeirosa e mais tranquila, menos egoísta e menos autocentrada.

E consigo até pedir.

* * *

Eu realmente preciso dos seus dez reais

Parece que é pouco.

(É meia Veja.)

Parece que não faz diferença.

(São dois expressos.)

Mas faz.

É disso que eu vivo. Mesmo.

São as pessoas-mecenas, que fazem contribuições diretas em dinheiro para mim, que me permitem estar aqui, exclusivamente dedicado a escrever esses textos que demandam muito trabalho, suor, experiência, artesanato para serem produzidos.

Esses textos que estão disponíveis na internet e que você pode ler de graça, quando quiser, sem culpas.

Mas, se você tem condições…

Se os textos fazem diferença na sua vida…

Se eles te chacoalham, instigam, interpelam…

Se não vai fazer falta no leitinho das crianças…

Considere a possibilidade de fazer uma contribuição em dinheiro.

Pode ser uma contribuição única de qualquer valor.

Pode ser uma contribuição fixa mensal de um valor pequeno.

Pode ser pelo PagSeguro ou pelo Paypal.

Pode ser por depósito em conta ou por boleto bancário

Pode ser como você quiser.

Só quero que saiba que faz diferença sim.

Faz muita diferença.

Faz toda a diferença.

É só por isso que estou aqui.

E sou imensamente grato, todos os dias, sempre.

Para contribuir:

alexcastro.com.br/mecenato