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“A vara da minha raiva”: os profetas e seus inimigos

Os inimigos de Israel nunca vencem: mesmo quando massacram os israelitas, estão sempre trabalhando para o Deus de Israel. (Um guia de leitura para a primeira aula do curso “Introdução à Grande Conversa”.)

Jerusalém está cercada pelos babilônios de Nabucodonosor e parece não haver esperança para os israelitas. O próprio rei implora a Jeremias por boas notícias (Jer 38), mas infelizmente todos os oráculos são negativos: o reino será mesmo conquistado e seus habitantes, exilados. Felizmente, contudo, o inimigo está a serviço do Deus dos israelitas:

“Assim disse Iahweh dos Exércitos, Deus de Israel. Falai assim a vossos senhores: Eu fiz a terra, o homem e os animais que estão sobre a terra, por minha grande força e com meu braço estendido e os dei a quem me aprouve. Mas agora eu entreguei todas essas terras nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servidor; eu lhe entreguei, também, todos os animais do campo para servi-lo. (Todas as nações o servirão, bem como seus filhos e os filhos de seus filhos até que chegue o tempo determinado para sua terra; então numerosas nações e grandes reis o subjugarão.) A nação ou o reino que recusar servir a Nabucodonosor, rei da Babilônia e não entregar o seu pescoço ao jugo do rei da Babilônia, eu castigarei essa nação pela espada, pela fome e pela peste — oráculo de Iahweh — até que eu a consuma por sua mão.” (Jer 27)

Essa ideia, chamada providencialismo, tão absurda e tão contraintuitiva, é talvez uma das ideias mais politicamente brilhantes de todos os tempos: na verdade, nos dizem os profetas, os piores inimigos de Israel estão a serviço do próprio Deus dos israelitas.

Nabucodonosor, como vimos, é servo de Deus. Ciro, rei da Pérsia, é seu pastor e cumprirá sua vontade (Is 44,28) A Assíria, arquiinimiga de Israel, é a vara e o bastão, o machado e o serrote da sua raiva. (Is 10,5) Os exemplos são muitos.

O Profeta Jeremias, no teto da Capela Sistina, por Michelângelo.
O Profeta Jeremias, no teto da Capela Sistina, por Michelângelo.

Providencialmente, os grandes impérios conquistam Israel não por suas próprias razões sociopolíticas internas; não pela fraqueza militar ou falta de molejo político dos israelitas; e muito menos por ser uma das regiões mais estratégicas do Oriente Médio. Nada disso. Os impérios mais poderosos de todo o mundo são fantoches do Deus dos israelitas, utilizados, como uma ferramenta qualquer, para punir os pecados do Povo Escolhido.

O que poderia ser mais autocentrado do que essa visão providencialista da história? E o que poderia ser mais eficiente, em termos de sobrevivência nacional, política, religiosa? Onde estão hoje os assírios, os babilônios, os filisteus? Diluiram-se no caldo da humanidade.

Em nosso curso, poderíamos ter lido qualquer um dos três grandes livros proféticos: Isaías, Ezequiel ou Jeremias. Todos foram escritos durante ou logo após o Exílio Babilônico, no ponto mais baixo da história nacional, e, ainda assim, apontam o dedo não para os crimes dos cruéis conquistadores de Israel… mas para as faltas dos próprios israelitas.

Os livros proféticos são talvez os mais difíceis de ler da Bíblia Hebraica: são menos narrativos, tem menos enredo, os oráculos são repetitivos e terríveis. Mas não tem igual em intensidade poética.

De onde os profetas tiravam tanta coragem, tanta loucura, tanta paixão? Quantos profetas não terão sido linchados, mortos, apedrejados? Quantos povos, cercados por um inimigo sanguinário, tolerariam em seu meio um profeta pregando que merecem a conquista e degradação que virá?

E, ainda assim, muitas vezes sob protesto, profetizavam.

(Referências: The prophets, de Abraham J. Heschel; Introdução ao profetismo bíblico, de José Luiz Sicre Diaz.)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a primeira aula, Antigo Testamento, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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“A vara da minha raiva”: os profetas e seus inimigos é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 1º de julho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/profetas-e-seus-inimigos // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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