“é tudo mentira”, uma entrevista

talvez minha melhor entrevista.

concedida a felipe nascimento, do blog voo subterrâneo.

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como disse krishnamurti, filósofo indiano do século passado, não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade doente. mas, para os deslocados, as pessoas que não encontram eco dentro dos valores estabelecidos nas esferas da família, religião, sexualidade, trabalho e tantas outras, nem sempre é fácil sentir-se saudável tendo ideias e comportamentos respeitados por poucos. entretanto, há quem trabalhe para tentar desconstruir as verdades estabelecidas, questionar os valores sociais cristalizadas, dialogar sobre outras formas de convívio e comportamento. são esses os interlocutores das “ovelhas negras”, e entre eles está alex castro.

escritor, alexandre moraes de castro e silva é carioca, nascido em 1974. em seus textos, é recorrente a abordagem de temas como feminismo, racismo, identidades de gênero, relacionamentos não monogâmicos, ego, narcisismo. ele escreve regularmente em seu blog e no papo de homem, e como literatura publicou o livro de contos “onde perdemos tudo” e o romance “mulher de um homem só”. além de escrever, também trabalha promovendo encontros chamado “as prisões”, no qual se reúne com grupos de pessoas para discutir temas como monogamia, dinheiro, família, regilião, ego, felicidade, etc. ele também foi um dos co-fundadores do tumblr classe média sofre.

procurado pelo voo subterrâneo, que realiza entrevistas gravadas em áudio, alex castro optou por responder as perguntas por e-mail, para  ter “tempo de refletir e pensar em cada resposta, com calma e tranquilidade”. confira, abaixo, a entrevista.

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se tornando escritor

o que fez você decidir, com 12 anos de idade, que iria ser escritor?

até os 12 anos, eu desenhava quadrinhos, que xerocava e vendia entre os amigos de escola. então, passei um mês com um amigo da família que era desenhista profissional, gutemberg monteiro, o goot, que na época desenhava a tirinha do tom & jerry. essa temporada com o goot me fez ver que desenho era muito mais complicado do que eu imaginava. percebi que minha paixão era contar histórias e que o desenho era somente um meio (muito complicado e trabalhoso) de fazer isso. então, aposentei os materiais de desenho e decidi que seria escritor.

coloquei uma mesa e uma máquina de escrever elétrica ibm no meu quarto, daquelas verdes e enormes, com esferas metálicas, e comecei a trabalhar todo dia. nesse ano, meu primeiro exercício foi inventar um detetive e reescrever contos policiais de outros personagens mas agora estrelados pelo meu. sem a pressão de precisar criar um enredo, eu podia treinar desenvolver o meu próprio personagem.

e assim, comecei. esperando não parar até morrer, como disse whitman.

em algum momento essa convicção tua foi abalada?

não sei bem se era uma convicção, nem se era sólida ao ponto de ser abalada. digamos que era gelatinosa. o que é gelatinoso não se abala, pois se tremer já é da sua natureza. mas, certamente, desde então, nunca quis ser nenhuma outra coisa a não ser isso: escritor.

quais foram as pessoas que mais inflenciaram suas ideias e seu jeito de ser?

vou citar só os escritores, pois se falasse das pessoas de carne-e-osso do meu dia-a-doa, não acabaria nunca mais.

ninguém lê do mesmo jeito depois de ler borges. clarice lispector e lobo antunes me ensinaram que eu podia fazer muito mais com a língua portuguesa do que imaginava possível. a bíblia e “declínio e queda do império romano”, de gibbon, me ensinaram tudo o que sei sobre a arte de contar histórias. henry miller, apesar do sexismo galopante, e walt whitman me ensinaram um amor pela vida além de todas as fronteiras e de toda a lógica. thoreau e conrad me ensinaram, pelo contrário, um certo autocontrole e uma sobriedade que são tão importantes quanto. “cecília valdés”, de cirilo villaverde, me mostrou como os horrores da escravidão podem virar grande literatura. “a hora da estrela”, de novo da clarice, “os miseráveis”, de victor hugo, e “memórias de um caçador”, de turgeniev, e tudo de lima barreto, me ensinaram como escrever e como abordar as histórias das pessoas humildes e marginalizadas. machado me ensinou o valor da sutileza, que tudo pode ser dito indiretamente, discretamente, e o texto não é menos contundente por causa disso. por fim, tchecov me ensinou que não se pode escrever ficção sem uma gigantesca empatia por tudo que seja humano.

esses são meus mestres.

relação com as causas sociais

quais as principais dificuldades que você encontrou ao longo de sua vida e como você vem superando elas?

tive uma vida privilegiada. sou homem, branco, hétero, cis, classe média alta. em um país como o nosso, tão cruel com suas mulheres, com suas pessoas negras, com suas pessoas homossexuais, com suas pessoas trans*, chega a ser ofensivo uma pessoa como eu falar em dificuldades. eu só tive facilidades. minha maior dificuldade talvez tenha sido justamente superar os preconceitos de classe oriundos da minha vida ó-tão-fácil, me dar conta de que o mundo não girava em torno do meu umbigo e, finalmente, reconhecer meus muitos privilégios. só então pude virar uma pessoa menos detestável. é um longo processo. falta muito ainda.

quando e como surgiu em você suas preocupações com as causas sociais, femininas, raciais, etc?

morar no exterior e ver o brasil de fora me fez desnaturalizar algumas convicções. ver que havia outras maneiras de resolver os mesmos problemas. que o nosso jeito não era um “destino” ou uma “obrigatoriedade”, mas nossa escolha enquanto sociedade. e o que é escolhido pode ser des-escolhido.

essa escolha que você diz você se refere a escolha de todos ou dos que têm o poder de escolha? é questão de des-escolher ou de mudar quem escolhe?

existem duas esferas aí.

na esfera das pessoas individuais, o mundo hoje é claramente dividido entre as pessoas que têm todas as escolhas e pessoas que têm escolhas bastante limitadas. na verdade, meritocracia e liberdade de escolha são dois dos grandes mitos da nossa direita. para as pessoas privilegiadas, é sempre muito fácil esquecer que nem todas as pessoas tiveram as mesmas possibilidades de escolha que elas, e então, apontar para as pessoas oprimidas e exploradas… e afirmar que elas são oprimidas e exploradas porque escolheram ser assim!

a outra esfera é a social: a nossa sociedade como um todo, de forma coletiva, impulsionada por seus membros, democraticamente, pela ação política, pela opinião pública, pode sim escolher mudar de rumo. como um transatlântico, que muda de rumo bem devagar, mas muda.

as prisões

o que o motivou a escever sua série de textos sobre as prisões?

sempre fui um leitor voraz. tinha curiosidade sobre tudo. absorvia conhecimento febrilmente. então, um dia, comecei a me questionar. e fui percebendo que era tudo mentira. que apesar de suas melhores intenções, meus pais tinham me ensinado várias coisas que simplesmente não eram verdade. e não só eles: meus professores, meus amigos, meus parentes, meus escritores favoritos. e comecei a desconstruir todas essas lições. des-conhecer todo esse conhecimento. des-aprender todo esse aprendizado. em um dado momento, passei a questionar a própria noção de verdade. e daí que não é tudo verdade? hoje, acho que “sabemos” coisas demais. há mais de dez anos que meu foco é saber menos coisas. desaprender. todo dia extirpar mais um conhecimento inútil da minha cabeça, mais uma certeza errada, mais um preconceito adquirido. fora, fora, fora. “as prisões” é como chamo esse processo de des-aprendizado.

como foi esse processo de transformar esses textos em temas da palestras?

não sou filósofo. só o que sei fazer é escrever sobre coisas que nunca aconteceram a pessoas que nunca existiram. criei meu primeiro blog na internet, em 2003, justamente para publicar as primeiras prisões. porque já pressentia que esse era um daqueles poucos projetos literários que não poderia ser escrito em uma cabana isolada. que para conseguir aclarar e desenvolver essas ideias, eu precisaria de um contato, de um confronto, de um debate com um público ansioso, curioso, revoltado, reativo, os encontros que tenho realizado a partir de 2013 são parte desse processo: não dá pra exagerar como o contato com esse público tem ajudado a desenvolver, refinar, jogar fora, recriar minhas ideias. um escritor sem as pessoas que o leem não é ninguém.

quais das prisões são as que mais te aprisionam atualmente?

quase tudo o que faço é por vaidade. quase tudo que não faço é por preguiça. essas são minhas duas maiores prisões. e luto contra elas todo dia. como sou preguiçoso, não luto com tanto afinco assim. como sou vaidoso, criei uma série de textos para me gabar publicamente dessa minha luta. ou seja, de novo, ainda falta um longo caminho pela frente.

escrita e transformação social

meus textos buscam desmontar as verdades compulsórias que nos enfiam goela abaixo.

vivo em um mundo onde as cenas cotidianas que mais me enchem de horror são vistas com normalidade por quase todas as pessoas a minha volta. a exploração, a desigualdade, o racismo, a transfobia. tudo aceitável e dentro dos padrões do bom funcionamento da sociedade.

então, sinto que estou sempre escrevendo textos de horror.

talvez essa seja a melhor definição de arte engajada: tornar contagioso o horror.

li em uma entrevista que o classe média sofre é seu único trabalho que te deixou orgulhoso. por que ele te orgulha e por que você não sente isso em relação a seus outros trabalhos?

orgulho é uma coisa meio babaca, né? afinal, pra que serve o orgulho? em um dado momento, eu me orgulhei do classe média sofre, sim, por causa do pequeno impacto concreto que ele teve: muita gente estava sinceramente auto-censurando algumas das piores barbaridades elitistas que talvez dissessem por medo de aparecer no classe média sofre. mas, no fim das contas, e daí? o mundo mudou? ficou um lugar melhor, mais justo, mais igual por causa disso? não, né? então, me corrijo: não sinto orgulho de nada que fiz.

até que ponto você acredita que seus trabalhos são capazes de transformar a realidade?

não são.

mas você escreve querendo isso, pelo menos é a impressão que dá nos textos que saem no papo de homem…

entre o que as pessoas querem e o que é efetivamente possível existe uma distância infinita.

há quem fale que se o próprio trabalho provocou uma mudança positiva em uma pessoa já valeu a pena. não é esse o caso? existe algo ou alguém que consegue de forma rápida uma mudança social profunda?

só a revolução. encontro vocês lá embaixo com o fuzil.

“é tudo mentira”

há um aviso, no papo de homem e no seu site, que todos os seus textos são ficcionais. o que faz seus textos opinativos/argumentativos serem ficcionais? qualquer texto desse gênero, independente de quem escreva, são ficcionais?

tudo é ficção. a verdade não existe. tem coisa mais ficcional do que o jornal nacional, do que um livro de história do brasil, do que uma biografia de celebridade? as pessoas ainda acreditam no que leem e isso me choca todo dia. por isso, bato sempre nessa mesma tecla: é tudo mentira. tudo. o tempo todo. especialmente as coisas que batem no peito pra se afirmar verdades verdadeiras.

seu único livro de contos até hoje fala sobre perdas. por que seu interesse em escrever e publicar sobre esse tema?

pura curiosidade intelectual. na prática, na verdade verdadeira, nunca perdi nada. todos os meus livros são maneiras de sair de mim mesmo. para falar de mim, tenho meu blog, minha terapia, meu diário. já a ficção é para brincarmos de ser pessoas que não existem, fazendo o que nunca fizemos, sentindo o que nunca sentimos.

li em entrevistas que no livro mulher de um homem só você optou por escolher como narradora a personagem menos parecida contigo, porque achava chato falar de si mesmo na literatura. como leitor seu, creio que seria mais interessante fazer o contrário, por seu estilo de vida e ideias serem mais singulares, enquanto carla é uma personagem mais próxima do senso comum. qual sua opinião sobre isso?

talvez o que me faça uma pessoa de estilo de vida e ideias “singulares”, como você falou, seja o fato de eu achar mais interessante dar vida à carla (a narradora de “mulher de um homem só”) e tentar descobrir o que motiva uma pessoa como ela, e o que a lavagem cerebral do senso-comum faz com a cabeça de alguém, do que falar de mim, da minha individualidade borbulhante e da minha vida pretensamente singular. minha vida não tem nada de especial. nem a da carla, aliás.

“só faz sentido escrever se for para ser do contra.

muitos de seus textos têm uma linguagem que pode soar violenta, autoritária, para quem não concorda com suas ideias. há quem procure escrever de forma a evitar o máximo que quem tenha opiniões contrárias se sintam ofendidas. queria que você contasse sobre o estilo da sua escrita. você escreve esperando um tipo específico de reação? escreve apenas pensando na forma mais exata de se expressar?

tudo o que escrevo é sempre para sacudir. jamais escreveria para afagar o ego e as certezas da pessoa leitora. de que serviria isso?

de vez em quando me perguntam: você é sempre do contra? não, claro que não. a maioria das minhas opiniões é igual à opinião da maioria das pessoas. mas de que serve escrever sobre isso? se saiu o filme x e ele é uma unanimidade de crítica e público, todo mundo adorando o filme, e eu também adorando o filme… de que adianta eu escrever mais um texto dizendo que o filme é lindo e reforçando o que todo mundo já sabe e já acha?

então, não é que sou sempre do contra, mas que acho que só faz sentido escrever se for para ser do contra. se for para mostrar à leitora um novo ângulo. se for para sacudir suas certezas. para questionar suas ideias.

tudo o que escrevo é para desmontar certezas. (às vezes, as minhas.) tudo o que escrevo é para sacudir. tomo o maior cuidado para nunca criticar pessoas vivas, para nunca acusar ninguém de nada, para nunca apontar dedos, mas é natural que algumas pessoas se sintam atacadas.

nesse caso, digo a elas: o texto não era sobre você, mas se você vestiu a carapuça e se sentiu atacada… então, é porque era.

uma frase sua: “não se muda o mundo respeitando a opinião de quem te oprime”. qual sua opinião sobre as ideias religiosas de amor incondicional, o que se aplica ao opressor, seria isso contrário à transformação social?

muitas das ideias religiosas são ótimas. a bíblia é meu livro preferido; jesus, uma pessoa excepcional; e sua mensagem, revolucionária e subversiva. o mais incrível do novo testamento é ver as epístolas paulinas desmentindo todo o evangelho que veio antes, transformando aquela linda mensagem revolucionária na fundação de um império conservador. é como se adam smith tivesse escrito o posfácio ao manifesto comunista afirmando que marx na verdade amava o livre-mercado e a mão invisível. jesus é o chê, paulo é fidel. um fala bonito e morre cedo, o outro administra o dia-a-dia do pós-revolução. enfim, meu problema não são as ideias religiosas, mas sua aplicação.

público que o acompanha

quais os perfis das pessoas que entram em contato contigo, que se correspondem com você e vão nas suas palestras? quais os maiores sofrimentos das pessoas que te procuram?

em geral, eu atraio ovelhas negras. as pessoas que vêm até mim tendem a ser aquelas que se sentem sozinhas, deslocadas. as malucas dos seus grupos. buscando por interlocutores. em um encontro meu, uma moça disse: “acho que é a primeira vez que estou em um grupo de pessoas e ninguém pensa que sou a excêntrica.”

na sua visão, qual é causa para que haja tanto sofrimento humano?

a ignorância e a cegueira. o mal está naquilo que a gente não vê, naquilo que não enxergamos, no fato de que nossos olhos naturalmente não reconhecem alguns locais, algumas pessoas, alguns problemas. o romance que estou escrevendo pelos últimos seis anos, “cria da casa: histórias de empregadas & escravos”, é todo sobre isso: a nossa cegueira constitutiva. os cantos para onde nunca olhamos e o que está acontecendo por lá.

* * *

nessa parte da entrevista, vou falar algumas palavras e gostaria que você desse a concepção, o entendimento que você tem sobre elas. a primeira é literatura:

literatura

linguagem carregada de sentido.

qual tua relação com as outras artes? vi que você gosta muito de teatro…

teatro é sensacional. é literatura em movimento, cinestésica, com cheiro, suor. gostaria muito de trabalhar em teatro, mas não sei se conseguiria funcionar bem em grupo. talvez por isso mesmo devesse tentar. aliás, vou. acabei de escrever meu primeiro texto teatral e tenho outros cinco planejados.

trabalho

escrever.

você diz que as pessoas não precisam necessariamente trabahar com aquilo que amam, que às vezes é melhor que isso nem aconteça. como isso se aplica no seu caso? existe algum tipo de trabalho que você goste mais do que escrever?

essa doutrina de que temos que amar o nosso trabalho, que temos que trabalhar no que amamos, etc, é muito elitista e hipócrita. essa possibilidade está aberta para pouquíssimas pessoas. a enorme maioria da população humana, todas pessoas tão incríveis e complexas como eu e você aí lendo isso, com um cérebro poderoso e subjetividade profunda, estão fadadas a trabalhar em empregos chatos e repetitivos, entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones. a questão não é se amamos ou não essas atividades remuneradas que executamos, mas se o salário que nos pagam em troca das horas de trabalho é maior do que tudo que esse emprego toma de nós em termos de tempo e energia vital. a questão é se temos tempo e energia para viver nossas vidas plenas de pessoas humanas quando não estamos entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones.

quanto a mim, só sei escrever, mas tenho pensado seriamente em abandonar a escrita profissional. o raduan nassar, quando largou a literatura, disse que não havia criação literária que se comparasse a uma criação de galinhas. penso muito nisso. se não é mais digno, mais honesto, mais humano, em vez de receber dinheiro para escrever textos que eu normalmente não escreveria, receber dinheiro para cuidar, passear, dar banho, tosar cachorros, e só escrever aquelas coisas que eu realmente escreveria de graça.

o que o motivou a trabalhar de forma totalmente independente hoje, sem nenhum vínculo com alguma instituição? você considera essa tua forma ideal de trabalhar?

eu trabalho da única maneira que seria possível para mim. sou uma pessoa solitária, como imagino que são a maioria das pessoas que escolhem essa vida. sou temperamentalmente incapaz de fazer parte de grupos, empresas, instituições. em muitas carreiras, como nas ciências, por exemplo, só se consegue produzir tecnologia de ponta trabalhando em grupo. já a grande literatura, muitas vezes, é produzida por misantropos isolados em cabanas distantes. por isso, quase sempre, quem escolhe a literatura é por ter uma certa aversão a trabalhar em grupo. pelo menos eu tenho.

liberdade

uma excelente desculpa. como fim último, é um objetivo vazio. ser livre pra quê?

quando você diz que quer se livrar das mentiras impostas socialmente, isso não se refere a ter uma liberdade mental? nesse caso, a liberdade não seria, além de somente uma postura individual, uma postura coletiva no sentido de querer se livrar dos preconceitos, dos ideais individualistas do capitalismo, etc?

liberdade e felicidade são dois conceitos bem interessantes. assim, por alto, eles parecem lindos, unânimes, desejáveis. entretanto, quando você começa a olhar de perto, eles se desfazem.

existe ou poderia existir felicidade? essa felicidade plena, linda, pura? se você disser que não, que a felicidade são momentos, então, bem, a gente já está limitando mais e mais a definição, não? quais momentos? quantos momentos?

idem com a liberdade. existe isso de liberdade? alguém já teve essa liberdade plena, linda pura? é teoricamente possível? não, né? então, ok, todos temos liberdades bem restritas. podemos votar, mas não podemos deixar de votar. podemos chamar a polícia, mas não podemos passar a mão na bunda do guarda. podemos falar que uma peça é uma merda mas não podemos gritar fogo no teatro lotado.

ou seja, nossa tal liberdade é limitada de mil maneiras diferentes, pela lei, pela sociedade, pelos costumes. mais ainda, essa liberdade também é cerceada pelos limites do nosso corpo, pela química do nosso cérebro. toda nossa evolução nos preparou para encontrarmos, consumirmos, acumularmos gordura e açúcar. então, o quanto somos realmente livres para abdicar dessas substâncias que todo nosso corpo deseja? o alcoolatra é realmente livre para não tomar o copo de vodca que lhe oferecem? somos livres para ir conta a programação do nosso cérebro?

então, se essa tal liberdade, pela qual eu deveria estar disposto a matar e morrer, é cerceada pelas leis, pela família, pela sociedade, por meu cérebro, por meus hormônios, etc etc, o quanto livre eu realmente sou? se não sobrou quase nada, se a minha liberdade acabou se reduzindo somente a esse quadradinho aqui, ainda faz sentido falar em liberdade? mais ainda, ainda faz sentido matar e morrer por essa liberdade? ainda faz sentido colocar essa liberdade como fim último da minha existência?

política

vida.

você acredita na viabilidade do socialismo? quais foram suas impressões sobre cuba, por exemplo?

não vou nunca desistir da ideia de que é possível algum tipo de socialismo verdadeiro e viável, mas com democracia. que não é necessário fechar as fronteiras e a imprensa para termos uma sociedade menos desigual. cuba é um lugar incrível, um celeiro de ideias brilhantes e de exemplos negativos mais brilhantes ainda. resta saber quais vamos adotar para nós.

dinheiro

um mal necessário. sem dinheiro, não há independência. sem dinheiro, seremos sempre escravos, dependentes, submetidos a outras pessoas. aliás, com dinheiro, também.

drogas

a droga de um é a religião do outro.

você escreve muito pouco sobre o tema. você acha que diz respeito a relação pessoal de cada um? acha que ela pode ser encarada como mais uma prisão?

quando me perguntam se o consumo de drogas causa violência, sempre respondo que a proibição das drogas é que causa violência. se algum alucinado inventasse de proibir o chocolate, também teríamos guerras para controlar a boca de diamante negro, também teríamos gente subindo o morro para compar sonho de valsa. as substâncias proibidas que hoje chamamos de drogas deveriam ser liberadas e legalizadas, no mesmo status que álcool e tabaco, pagando impostos e com restrições de venda e publicidade.

quanto a mim, já provei drogas, mas apenas socialmente. entendo seu valor para abrir a consciência e estimular a criatividade. mas eu, pessoalmente, prefiro não alterar minha percepção. tomo café até o meio-dia, chá verde à tarde, e vinho tinto a partir das seis. é o máximo que me permito de alteração química intencional.

deus

adesivo de parachoque: “eu, sem deus, sou eu. deus, sem mim, é só uma manifestação pueril do inconsciente coletivo.”

como foi sua aproximação com o budismo? você já teve contato com outras práticas religiosas?

não acredito em qualquer tipo de deus, espiritualidade, força, energia, tarô, astrologia, homeopatia, etc etc. leio e estudo religiões por toda a vida. fui a todas as cerimonias de todas as religiões que me convidaram. respeito, admiro, e em alguns casos lamento, as convicções religiosas das pessoas, mas não compartilho de nenhuma. eu pratico zen mas é só porque o zen não me pede nenhuma crença, não me oferece nada para acreditar. é uma prática, um caminho, não uma fé.

amor

claudia.

como foi esse processo de questionamento da monogamia?

eu amo muito. me apaixono, me entrego, me junto. adoro o amor, a cumplicidade, o carinho. gosto de ter uma companheira que caminha ao meu lado e ao lado de quem eu caminho. saber ser solteiro é necessário, e é muito bom, mas nada se compara à sensação de estar ao lado da pessoa que é acertada para nós naquele momento. você antes falou de orgulho e, talvez, a coisa que eu mais chegue perto de ter orgulho seja das pessoas incríveis, sensacionais, brilhantes que me deram o privilégio de compartilhar a cama comigo.

faltou você responder a pergunta… como foi o processo de questionamento da monogamia?

nunca precisei ativamente questionar e desmontar a monogamia dentro de mim, pois ela sempre me pareceu auto-evidentemente nociva e impraticável. a monogamia nunca me pareceu uma possibilidade.

morte

a coisa mais importante da vida. eu amo a minha morte. sem ela, eu não sairia da cama, não faria nada, ficando só comendo pizza, bebendo vinho, fumando, me masturbando, vendo filme. só o fato de que vou morrer, inapelavelmente e em breve, me faz sair da cama, aturar as pessoas, ser minimamente produtivo.

felicidade

a felicidade e a liberdade são os maiores engodos, as maiores quimeras da nossa geração. quando tudo na sociedade, as escolas, os anúncios, os pais, as comédias românticas, etc, quer nos convencer a buscar a liberdade e a felicidade, que esses devem ser os dois principais objetivos da vida de alguém, então é hora de parar e repensar tudo. afinal, por que quero tanto ser livre? por que quero tanto ser feliz? o mundo vai ser um lugar melhor se eu for livre e feliz? eu vou ser uma pessoa melhor se eu for livre e feliz?

realizações e decepções

quais as maiores decepções e realizações que você teve em sua vida?

tive várias decepções literárias. quase diariamente, aliás. até perceber que eram todas só o meu ego falando. que todas eram uma variação de “eu mereço x, por que não me deram x? eu sou y, por que ninguém diz que sou y?” etc etc. hoje, quando meu ego tenta dizer alguma dessas coisas, eu enfio a cabeça dele dentro d’água até pedir arrego. das minhas realizações, então, ele nem ousa falar: sabe que eu lhe daria um belo de um chute no saco. atualmente, minha maior decepção é quando me distraio e solto coisas como “minha obra” ou “meu dever de artista”. o ego tem que apanhar todo dia pra saber quem manda.

medo e saudade

quais são seus maiores medos?

tenho medo das grandes ironias da vida. de perder o arquivo do romance que acabei de escrever. de morrer de uma doença um ano antes de descobrirem a cura. desse tipo de coisa que acontece num universo aleatório e sem deus, onde tudo caminha em direção à entropia.

do que você tem saudade?

de nada. saudade é inútil e traiçoeira. faz a gente desprezar o presente, que é a única coisa que existe, concreta e pulsante, em prol de um passado mentiroso e seletivo, sempre muito melhor do que realmente foi.

sociedade ideal

você tem alguma concepção de uma sociedade ideal?

uma sociedade onde as pessoas tivessem nas estantes livros sobre como ser uma pessoa melhor, uma pessoa mais aberta, uma pessoa mais humana, e não livros sobre como ser mais feliz, mais rico, mais bonito.

planos

tem planos para o futuro?

evito fazer planos. um desejo que tenho é, um dia, morar em um barco.

citação e aprendizado

uma frase ou citação que você goste muito:

sim!

um aprendizado que você teve em sua vida e que quer compartilhar para os outros:

aprender a ser menos egocêntrico e egoísta. não existe paz possível para as pessoas egocêntricas e egoístas, sempre tão preocupadas com nossa própria felicidade, com o que as outras pessoas estão falando de nós, em como podemos usar essa ou aquela pessoa para nosso benefício, em como devemos nos afastar dessa ou daquela pessoa porque ela não tem nada a nos oferecer, etc. é minha grande batalha diária. um aprendizado que não tem fim.

entrevistas como essas, aliás, só atrapalham. o fato de alguém ter interesse no que tenho a dizer só confirma algumas das piores pretensões do meu ego.

entretanto, eu sou escritor e vivo disso. se não por entrevistas assim, as pessoas não vão me conhecer, não me ler e não vou ter como ganhar a vida. (o horror, o horror!)

esse é o meu grande dilema pessoal (aliás, bem egocêntrico, como todo “dilema pessoal”): como ser um artista trabalhando em público e evitar ser egocêntrico e egoísta?

claramente, não sei responder essa pergunta.

talvez cuidar de cachorros.

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leia outras entrevistas de felipe nascimento no site voo subterrâneo: monja coen, eduardo marinho, claudio assis, helio leites.

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calendário completo de eventos de alex castro em 2014.

minha maior qualidade

encontrei aqui nas minhas notas. entrevista para jornal universitário. não anotei o nome, não sei se saiu.

mas eis a última pergunta, e a minha resposta:

E, para finalizar, qual característica pessoal sua você destacaria como a que te ajuda a seguir em frente?

Como todo ser humano, eu tenho uma capacidade ilimitada de denegação e auto-ilusão. Então, contra todas as evidências, mesmo sabendo que não consegui nada na vida, mesmo sabendo que o futuro é provavelmente uma morte dolorosa e então o desaparecimento, mesmo viajando pelo universo sem deus a bordo de uma bola de pedra, ainda assim, eu continuo acreditando em mim, continuo achando que vai tudo dar certo. Ser humano é isso.

Entrevista de Alex Castro à Rachel Glickhouse

Entrevista concedida a Rachel Glickhouse, do blog RioGringa, a 21 de fevereiro de 2012.

This week, I had a chance to catch up with Alex Castro, 304688606_815f7c6a4b_oone of my favorite Brazilian bloggers. He has a  keen and critical eye for some of the most sensitive social issues in Brazil, including racism, machismo, and domestic workers. After living abroad, he also writes with an fascinating perspective on social differences between the United States and Brazil. He writes his own blog, Liberal Libertário Libertino, as well as contributing to Papo de Homem. He’s also written several books, including short stories and novels. He also was one of the founders of the hit Tumblr Classe Média Sofre, a crowdsourced blog that pokes fun at Brazil’s middle class. It’s become a cultural phenomenon in Brazil, falling somewhere between Lamebook and White Girl Problems, but providing more insight into social idiosyncracies.

We chatted about his return to Brazil from New Orleans, emblematic of Brazil’s increasing reverse brain drain, his various projects, and his thoughts on Brazil’s changing role in the world.

What were you doing abroad?

I was living in New Orleans. I was a Ph.D. candidate at the department of Spanish & Portuguese at Tulane University. As such, part of my duties included teaching classes on the Spanish and Portuguese languages, plus the odd Brazilian literature and culture classes. My dissertation is about slavery (or the lack thereof) in Brazilian 19th century literature.

Can you tell me about why you decided to move back to Rio from New Orleans?‬

I came back because a man who is a living god to me once said: “I celebrate myself, and sing myself, / And what I assume you shall assume, / For every atom belonging to me as good belongs to you. // I loafe and invite my soul, / I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. … / I, now thirty-seven years old in perfect health begin, / Hoping to cease not till death.” And even though he has never died, because he cannot die, I know for a fact that he suffered a stroke 18 years after writing those words.

So, when I turned 37, last year, still in perfect health, and hoping not to cease till death, and not knowing how long would I have before my heart attack, I decided to return home and live the life of a writer. Because if even HE died, what hope can I have? On the contrary, I have to RUN and LIVE. I realized that I was and had always been a Brazilian writer. So even though I had lived in New Orleans for 7 years and could write in English, I had never felt the urge to write to New Orleanians about Rio but, on the contrary, I was always coming up with new things about New Orleans and the U.S. to tell Brazilians. I realized that, in my head, I was always talking and writing to Brazilians. They were my core audience, and so it made no sense to stay away.

Throughout the years, there had always been events and stuff that I was invited to and couldn’t attend because I was in New Orleans. None of them by themselves were a major deal, but the career of a minor independent author is made of baby steps, so I felt my incipient (actually, non-existent) career was at a standstill. Now, for example, I’m going to Belo Horizonte in April for a roundtable about e-books. So I came to Rio and I’m now making a living as a writer, writing and editing for Papo de Homem, translating for Editora Record, and trying to finish my dissertation and my novel.

Tell me about your book, Onde Perdemos Tudo.

It’s actually an old book, written in the early 90s. But I think it withstood the test of time, so here I’m publishing it. It is the only one of my books to be actually published by an actual publishing house. All my other books were self-published. It’s composed of five short stories about loss, all kinds of loss, from losing a friend to losing your wife, or your career.

Why’d you go the self-publishing route with the other books and the publishing house route with this one?

It wasn’t a choice. Nobody wanted to publish the other ones. For Onde Perdemos Tudo, I had a publisher interested in my work and an able literary agent who got her interested. Still, unless you’re a best seller, one can make a lot more money self-publishing.

How has the book been received?

It’s very hard to break through. It has been positively reviewed in blogs here and there, but nothing in the mainstream press. It’s as if the book has never existed. But I have a loyal following of readers, and so it keeps selling. It can be frustrating, but it’s the only way. Baby steps, as I always say. But at least now I’m here to network and promote the books.

In Papo de Homem and your blog Liberal Libertário Libertino, you write a lot about racism and machismo with a critical eye. Why are these issues important to you?

That’s a very good question. I really don’t know. I guess I had a very very privileged, sheltered upbringing, something that I only realized very late in my adult life. So I felt the need to…. give back? Finally look at other people other than myself? That sort of thing. Also, the American academic environment was the main catalyst, that’s for sure. If I had stayed, maybe I’d be reading Veja. I remember I rather liked Diogo Mainardi, if you can believe that.

You have a really unique perspective that’s sometimes hard to find in Brazil, particularly with racism. How did your views on that issue evolve?

People say that I’m bringing racial conflct into Brazil and I argue, Yes! We need more racial confrontation! One of the major problems in Brazil is the fact that we never “confront” the issues.

You’ve also written quite a bit about domestic workers, which is also something of a taboo topic in Brazil. What got you interested in this?

Well, actually it was my interest in slavery. I think domestic workers, as the profession has established itself in Brazilian culture, is a direct relic of slavery. Only a former unapologetically slave-owning country such as we are could ever have such a slavery-like institution as our live-in maids. So it is a bit of the past alive in our daily lives up to today.

On the subject of your blogs, given your perspective and knowledge of these issues, why is it more important for Brazilians to be your audience, rather than an international one?

It’s the other way around. It’s not that talking to Brazilians is more important than talking to an international audience, but rather that I feel I have something to tell, teach, show to a Brazilian audience that I don’t have to an international one.

Let’s talk about Classe Média Sofre, but I noticed you don’t seem to have your name on the blog, at least not very visibly. Is there a reason for that?

Well, for starters, it is a collective and collaborative enterprise, so it’s not mine per se but I’m one of the founders and co-creators. Since then, everyone else has left, other people have gotten involved and left again, and now, pretty much, I’m the only one left managing the business. But the site still depends of the anonymous collaboration of hundreds of people every day. I’m more of a curator than anything else. I try to keep it faithful to its original vision, but mostly the only reason I’m the visible face of it is because I’m a writer, so I need the visibility and it does help me to sell some books. Actually, if it weren’t for that, the site would either still be 100% anonymous or, more likely, I’d have gotten bored and left with everyone else. Still, it’s the one thing I’ve done that I’m actually proud of.

Can you tell me about how the blog got started, and why you thought it would be worthwhile?

Its major inspiration was White Whine and Louis C K, when he says something like this. So a friend and I had the idea, and we started looking for examples. They were so numerous that it took us a day to fill several pages, and two days later we were already receiving more contributions than we could handle. On day 4, I kid you not, on day FOUR, we got our first complaint that the tumblr was no longer as good as it once was.

It caught on pretty fast.

Yes, it was amazing. And people were already self-censoring their worst bullshit pretty fast too. It was inspiring.

The blog’s been featured around the web and it’s literally become a cultural reference. Why do you think it hit a nerve?

Well, on one hand, lots of people feel really really defensive about it. They take the site as a personal attack to them. On the other hand, for several other people, the blog gave them their first way to vent their frustration at some of the most whiny, elitist comments their friends make. You can bet people will say that there’s nothing more classe media sofre than giving this interview in English! I especially love it when people accuse us of being “middle class too,” and of course we are. What did they think we were? Millionaires? Favelados?

What’s the absolute worst thing you’ve posted on there?

There can be no worst. You can always sink lower.

Ok, so your favorite?

“Pior dia da minha vida: acabou o chocolate.” [Worst day of my life: the chocolate is gone.] Simple yet perfect.

Can you tell me your thoughts on the complexo de vira-lata and the obsession with everything foreign/in English?

Brazilians are obssessed with Brazil to an extent that only Americans are obssessed with the U.S. We are truly kindred peoples, yours and mine. I’m pretty sure, given the power, Brazilians would have done every single thing Americans have. Brazilians are as proud, egocentric, and naive as Americans. We have our own version of manifest destiny (the Bandeirantes), etc.

I’ve never seen any people as interested about what people are saying about them abroad. In a way, in Classe Média Sofre, we talk about both sides of this coin. So, in a very schizophrenic way, what comes from abroad can seem very important or not at all important. And of course, I’m guilty as charged, because I travelled, and I studied abroad, and I could have studied anything, I could have dedicated myself to ancient Greece or pure mathematics, but here I am thinking about Brazil and writing about Brazil. It’s kind of a curse, but it was also my choice, so I don’t in any way exclude myself from this. I’m part of it.

Brazil is undergoing so many changes in terms of its place in the world. Is there a chance it could become more insular and inward looking like in the U.S., or is this fascination with other countries here to stay?

I think Brazil is in fact getting more powerful as a country, so other countries will tend to seek Brazil’s opinion or support more often, and consequently, Brazilian politicians and statesmen will be forced to be more versed in international affairs than their predecessors, and consequently, the Brazilian voter as well. You can see that starting. These past years, Honduras, Cuba and Iran were more talked about, even during elections, than I had ever seen before. In elections before 2010, foreign affairs had never had any relevance at ALL.

When I started teaching Portuguese in the U.S. in 2005, most of my students were there because they had a Brazilian signficant other, or a Brazilian parent, or liked bossa nova and City of God. Period. When I left, in 2011, most of my students were actually seeking employment, business or research opportunities in Brazil. There were lawyers and business majors; most of them had not watched City of God, but they knew about Petrobras, pre-salt and biofuel. It was a complete revolution in less than 6 years. Several  of my former students are now either working and living in Brazil, or living in the U.S. but working as “Brazilian liasons” with companies that do business in Brazil.

I think it’s exciting and I’m a part of it. I’m part of a large reverse migration of Brazilians coming back from abroad these last few years, exactly because of all these opportunities, but it’s important not to let this go to our heads.

Why’s that?

The United States was once a country that was actually a beacon of democracy and of high ideals, before it stated having imperial dreams and conquering Mexico, the Phillipines, Cuba, etc. Brazil was an actual empire-empire once. People were afraid of us in the 19th century (my main area of knowledge). Brazil used to topple Uruguyan presidents in the 19th century the same way Americans did to Central American ones in the 20th century. Besides, we do tend to be overconfident and overindulgent. Raising people from poverty should continue to be number one priority.

So you don’t want history to repeat itself, in other words.

Actually, that particular history has no chance of repeating itself, I think. But we can be stupid and overconfident in several new ways now.

What are your hopes for the future now that you’re back in Brazil?

My main priority is being a writer. That’s all I know how to do. Write, write, write, until I die. That’s my only ambition. Get some writing done. Publication will take care of itself, or not. But time is running out and I need to get some books out of me. That’s it.

Os Favoritos de Alex Castro

Entrevista concedida a Simone Magno, para o Tempo de Letras, da Rábio CBN, em 28 de junho de 2010.

O quadro desta semana é com o escritor carioca Alex Castro, radicado em Nova Orleans, que no momento percorre Macau e Timor Leste em busca da literatura em língua portuguesa fora de Portugal e Brasil, para uma série de ensaios. Ele é autor de Mulher de um homem só.

TL – Qual o primeiro livro que marcou sua vida?

AC – O pequeno Nicolau, escrito por Goscinny e ilustrado por Sempé, em uma edição da Artenova, capa cinza, grosso. Eu tinha sete anos e era meu primeiro livro de texto corrido, em formato normal, com fonte pequena, parágrafos atrás de parágrafos. O primeiro livro que sabia que eu era criança, que sabia que eu tinha preocupações de criança, mas que, ainda assim, não me tratava como criança. O primeiro livro que me fez sentir… adulto. Toda minha vida literária, toda minha carreira de leitor, começou com O pequeno Nicolau.

TL – Qual o livro que mais mexeu com você?

AC – Gosto muito de escrever em livros, sublinhar, marcar, e tenho a seguinte teoria: o livro que você não marca é porque não te marcou. Então, mudando a metáfora, eu diria que o livro que mais mexeu comigo seria o livro no qual eu mais quis mexer, intervir, interferir. Em 2004, Fernando Braga da Costa, doutor em Psicologia, publicou Homens invisíveis: Retratos de uma humilhação social, sobre seus dias de trabalho voluntário entre os garis da USP. As histórias vividas pelo Fernando e por seus colegas, histórias de vergonha, humilhação, invisibilidade, me marcaram profundamente e foram a inspiração primordial para o romance que estou escrevendo agora, Cria da casa: Histórias de empregadas & escravos. Meu livro nada mais é do que eu mexendo e interferindo nesse livro que tanto mexeu comigo, levando-o para uma plataforma ficcional e tentando descobrir o que vai acontecer.

TL – O que você está lendo agora?

AC – Confesso: amo literatura, mas não tenho nenhum amor pelo suporte livro. Nesse momento, estou viajando pela Ásia e, pela primeira vez, levando meu Kindle, sem precisar carregar uma mala de livros nas costas! Estou adorando a possibilidade de, ao mesmo tempo, dispor de tantos livros e não carregar tanto peso. O Kindle é perfeito tanto para ler livros novíssimos que acabaram de sair como para ler livros de domínio público, que encontro de graça pela internet. Então, acabei de ler o monólogo-desabafo final de Molly Bloom, em Ulisses, de Joyce, para um projeto atual. Também li duas versões diferentes, em prosa e em poesia, do segundo canto da Eneida, de Virgílio, para um futuro romance que estou planejando, comparando a decisão de um carioca de sair do Rio de Janeiro, com Enéias dividido entre fugir de Tróia ou ficar e lutar até a morte. A Eneida é meio tediosa, mas o segundo canto é simplesmente magistral. E, por fim, no campo dos livros recentes, depois desses dois clássicos, comecei a ler 2666, do Roberto Bolaño, meu primeiro livro desse autor, que me chegou altamente recomendado, e simplesmente não consigo parar de ler, é enorme, delicioso, colossal. A primeira parte, sobre os acadêmicos europeus obcecados por um autor alemão, tem muito a ver com minhas experiências estudando literatura latino-americana nos Estados Unidos.