zen | alex castro

A liberdade de não revidar

Liberdade é receber o tapa e poder escolher, friamente, se quero responder na mesma moeda ou não. » leia o texto completo «

Como conheci minha namorada

Tinha essa moça que eu mal conhecia mas estava tentando encontrar há mais de um mês. (Para bater papo, porque ela parecia interessante, mas também para devolver uma canga que tinha esquecido em um evento.)

Aí, um mestre zen norte-americano iria palestrar no meu templo, em Copacabana (eu faria a tradução simultânea), e convidei a moça para vir. Ela topou. Marcamos de nos encontrar na plataforma do metrô Flamengo e irmos juntos.

Enquanto esperava, reparei em um velhinho meio perdido. Cheguei perto, puxei conversa, percebi que ele não sabia onde estava. Pedi permissão para olhar em sua bolsa e descobri seu nome e endereço. Era em uma rua perto mas eu não sabia exatamente onde.

Tenho celular mas não smartphone, então, liguei para a moça (com quem eu não tinha nenhuma intimidade) e disse apenas:

“Por favor, descobre onde é a rua Almirante Tamandaré.”

Ela não hesitou, não reclamou, não perguntou. Quando saiu do vagão, já estava com o mapa na tela do smartphone. Eu disse:

“Seu Oswaldo mora nessa rua e está um pouco perdido. Vamos levar ele em casa?”

Ela pegou um braço, eu peguei outro, e fomos escoltando seu Oswaldo. No caminho, ela ainda descobriu que isso nunca tinha acontecido com ele (confirmado pelo porteiro do seu prédio) e que a culpa provavelmente era de um remédio para parar de fumar que ele estava tomando.

Corremos de volta para o metrô e chegamos no meu templo ainda com alguns minutos de folga. A tradução simultânea da palestra do mestre foi bem mais cansativo do que imaginei que seria e meu cérebro estava uma geléia.

(Dá pra ouvir a palestra aqui.)

Ainda assim, quis sair para conversar com ela. Jantamos na Trattoria, ali do lado do Copacabana Palace (era 29 de março, dia de nhoque da fortuna) e, depois, caminhamos pela orla, conversando até às quatro da manhã.

No dia seguinte, eu entraria em um retiro de dois dias com esse mesmo mestre zen, um retiro importante para minha progressão espiritual no templo e na ordem.

Mas, às seis da manhã (ou seja, duas horas depois de deixá-la em casa), lhe mandei um email de uma linha dizendo simplesmente:

“Não vou pro retiro.”

Ela respondeu:

“Ótimo. Vem pra cá.”

Eu fui.

E ainda estou.

* * *

Minha teoria é que o seu Oswaldo mudou tudo.

Que um relacionamento humano que começa ajudando outra pessoa sem hesitação já se beneficia de um manancial de carma positivo.

Que podemos conviver com alguém socialmente por anos, mas que somente conhecemos uma pessoa de verdade quando fazemos algo com ela, quando compartilhamos um objetivo e trabalhamos juntos para realizá-lo.

Ao convidá-la para um evento religioso, eu não tinha intenções nem remotamente românticas para com aquela moça. Mal nos conhecíamos.

Mas, quando ela saiu daquele vagão de metrô com o endereço do seu Oswaldo na tela de seu smartphone, eu já sabia coisas importantíssimas sobre ela, sobre sua capacidade de reação, sobre sua inteligência emocional, sobre sua disposição de ajudar o próximo.

Quando deixamos o seu Oswaldo em casa, eu já havia realizado, construído, empreendido mais coisas práticas, úteis e bonitas com ela do que com a maioria das pessoas que conheço.

E, quando a deixei em casa às quatro de manhã, depois de horas e horas de conversa, eu já sabia que era com ela que gostaria de passar minhas horas, meus dias, minha vida.

Nada disso teria acontecido sem o Seu Oswaldo.

Sou grato a ele por ter nos dado a dádiva de nos permitir ajudá-lo e, ao ajudá-lo, nos ajudar, nos encontrar, nos amar.

Presentear às outras pessoas com a chance de praticar a generosidade também é um presente generoso que lhes damos. Indo ou vindo, generosidade sempre faz bem.

Obrigado, seu Oswaldo. » leia o texto completo «

História de um celular

Um monge zen estava acompanhando uma pessoa enferma.

Em um dado momento, a pessoa ficou agitada, apreensiva, nervosa.

O monge lhe deu a mão e disse:

“Pode ficar tranquila. Está tudo seguindo seu curso. Não há nada a temer. Você só está morrendo.”

* * *

Essa história me inspira, acalenta, conforta.

Quinta feira, 8 de novembro de 2018, perdi meu pai. » leia o texto completo «

Liberdade no vazio

Dentre as muitas armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos e escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas, poucas podem ser mais unânimes (especialmente no Ocidente) do que a ilusão de que, dentro de cada uma de nós, existiria uma essência maior do que a soma de nossas partes: o Eu.

Nossa prática zen não consiste em “abandonar o Eu” — porque o Eu não existe e não temos como abandonar algo que não existe — mas sim em desapegar dessa ilusão que criamos para buscar o prazer e evitar a dor, dessa ilusão que nos venderam para poderem vender a ela automóveis e pasta de dente.

Não é que eu, aqui, pessoa concreta, de carne e osso, falando essas palavras nesse exato minuto, e você, ouvindo essas palavras nesse exato minuto, não tenhamos existência física, concreta, real.

(Afinal, eu sinto, eu sei que estou aqui e você sente, você sabe que está aí.)

Mas essa entidade que chamo de Eu — que me parece tão maior e mais transcendental do que apenas a mera soma de “meus” membros, “meu” corpo, “minha” consciência, “meu” nome — é apenas um conceito que não possui existência permanente e autônoma, uma coleção de características contingentes e fortuitas sem nenhum tipo de essência intrínseca.

Nossa consciência é formada por um contínuo de experiências ao qual damos um nome. Por razões práticas, faz sentido distinguir uma pessoa da outra – sou o João da Silva porque não sou nem o Chico Buarque nem a Joana d’Arc.

Da mesma maneira, distinguimos um rio do outro: o Rio Amazonas e o Rio Paraíba do Sul são dois rios diferentes porque nascem em pontos diferentes, correm por trajetos diferentes, contêm águas de composições químicas diferentes, deságuam em pontos diferentes.

Entretanto, por mais reais e concretos que sejam esses caudalosos rios, eles não possuem qualquer essência: como até os gregos antigos sabiam, não se banha duas vezes no mesmo rio. Suas águas literalmente nunca são as mesmas.

Tudo é contingente: somos pessoas únicas não porque temos uma pretensa essência metafísica (o Eu!) qualitativamente diferente da essência metafísica das outras entidades que não-são-o-meu-Eu, mas sim porque surgimos a partir de condições únicas e de circunstâncias irrepetíveis.

Se conseguimos desapegar de nosso Eu, se conseguimos nos libertar da obrigação absorvente de cuidar e proteger essa frágil entidade dentro de nós (“será que construí o suficiente em vinte e cinco anos de vida?”, “será que as pessoas gostam mesmo de mim?”, etc etc), então, poderemos finalmente levantar os olhos, perceber as pessoas à nossa volta e nos dar conta de que elas também estão sofrendo.

Desapegar do nosso Eu não nos impede de militar em causas sociais ou de lutar para transformar a realidade.

Pelo contrário, ao eliminar a importância excessiva que damos a nós mesmas em relação às outras pessoas, o nosso potencial de engajamento político é finalmente desbloqueado, realizado, magnificado.

Se o nosso Eu tivesse uma essência, então nossa natureza nunca poderia mudar: o fato de o nosso Eu ser vazio de existência intrínseca é justamente o que nos permite a liberdade de nos reconstruir, recriar, reinventar.

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A piada que o Dalai Lama não entendeu

Uma piada budista, em inglês:

The Dalai Lama walks into a pizza place and says,

“Make me one with everything.”

* * *

Um apresentador de TV tentou contar essa piada pro Dalai Lama e ele não entendeu nada:

Esse artigo, em inglês, lista todos os pressupostos culturais e linguísticos que se precisa compartilhar pra entender essa piada. (São muitos.)

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Castelos de areia

Um grupo de crianças brincava de construir castelos na areia da praia. De repente, por acidente, uma das crianças pisou no castelo de areia de outra.

Em breve, havia uma briga generalizada. Grupos se formaram para atacar outros grupos. Narizes sangraram, bracinhos foram torcidos. Algumas crianças foram expulsas de volta para casa, derrotadas, chorando. Amizades incipientes se romperam e nunca se refizeram. Décadas no futuro, essas antipatias (cuja origem ninguém mais lembrava) ainda causavam hostilidade, agressão, sofrimento.

Então, o sol caiu, a noite esfriou, as mães chamaram.

Poucos minutos depois da última criança sair, veio uma onda e destruiu todos os castelos de areia.

* * *

Adaptado de uma velha história budista.

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Um dia tranquilo

Em poucos minutos, embarco pro Recife.

Hoje, está um dia especialmente agitado, cheio de bombas estourando no último minuto, vários problemas para resolver.

Então, em pleno tumulto, de repente, eu páro e penso: toda pessoa que morreu em acidente aéreo estava assim, ansiosa, correndo, resolvendo mil coisas.

E aí eu páro e sento e respiro. Como uma ameixa com calma, apreciando cada mordida. Dou um cheiro bem gostoso na Capitu e deixo ela lamber minha orelha. Escrevo esse textículo e jogo ao mundo, como quem lança um bilhete em uma garrafa.

Não porque eu acho que eu vá morrer nesse voo. (As chances disso acontecer são diminutas.) Mas porque, de fato, posso morrer a qualquer momento, inclusive nesse voo. E, se não for nesse voo, será atropelado por um caminhão que talvez ainda nem foi fabricado, ou traído por meu coração, esse que está aqui batendo agora, e que um dia pode decidir que não quer mais brincar.

E, no dia em que isso acontecer, quero que tenha sido um dia que passei tranquilo, onde comi uma fruta com gosto, apertei a Capitu como se não houvesse amanhã, escrevi um texto que, quem sabe, ajudou outras pessoas.

* * *

Depois de amanhã, começa a Imersão do Nordeste. Vejo vocês lá. Se sobrevivermos.

Carma

“Alex, como pode uma pessoa como você, agnóstica e cética, “acreditar” em carma?”

Não acho que carma seja algo em que eu “acredito” (realmente não acredito em nada) mas meu entendimento de carma é o seguinte, a partir de uma perspectiva budista secular.

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Algozes de nós mesmas

Nada pode ser mais poderoso, mais apavorante, mais necessário do que estarmos sozinhas com nossas mentes, sem intermediários e sem desculpas.

Se uma colega de trabalho me feriu hoje à tarde no escritório, essa foi uma ação dela sobre mim e, mais dia menos dia, ela vai pagar o preço: afinal, ela me fez sofrer.

Mas, se hoje à noite, fritando na cama sozinha com meus pensamentos, eu ainda estou remoendo esse insulto e mastigando essa ofensa, então essa é uma ação minha sobre eu mesma e o preço eu já estou pagando agora, em tempo real: eu estou me fazendo sofrer.

Mesmo em um universo tão cruel e tão aleatório, o meu maior algoz quase sempre sou eu mesma: meus pensamentos obssessivos, minha mente desordenada, meu apego à minha identidade.

Não precisa ser assim.

Relaxamento

Meditar não é pra se acalmar, pra se tranquilizar, para relaxar: pelo contrário, é pra nos darmos conta de que não somos calmas, tranquilas, relaxadas.

É para descobrirmos, muitas vezes para nossa surpresa, que ainda estamos obcecadas por aquele velho namorado, que ainda estamos sofrendo a dor daquela velha ofensa, que já estamos vivendo a angústia da morte que um dia morreremos.

Basta tentarmos habitar o momento presente para percebermos o quanto moramos no passado e no futuro.

A liberdade da biruta

Pergunta:

“Alex, faz sentido se esforçar tanto para controlar e disciplinar a mente? Por que tanta repressão?”

Porque, ironicamente, nenhuma mente está mais presa, nenhuma mente é menos livre, do que a mente descontrolada, refém de seus próprios condicionamentos, correndo sem rumo de um lado para o outro como um cachorro que não sabe qual carro perseguir.

A gente se autocontrola para sermos mais livres.

birutas ddf

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A cruz e o carma

Outro dia, um moço me procurou. Setenta anos, alguns distúrbios mentais, um câncer no cérebro. Estava raivoso, puto, frustrado.

Em um dado momento, me acusou de não estar fazendo nada para ajudá-lo. Que o que ele precisava mesmo era que eu pegasse aquele câncer pra mim. Afinal, por que no cérebro dele e não no meu?!

E eu respondi:

“Se você pudesse pegar o meu diabetes, a minha hipertensão, a minha gota, a minha gastrite, eu pegaria o seu câncer de cérebro.”

cancer battle

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Os Padres do Deserto

Foram talvez os últimos cristãos verdadeiros, os últimos iconoclastas que escolheram seguir os ensinamentos da pessoa Jesus em detrimento das ordens da instituição criada por Paulo.

padres do deserto

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Por quê?

Um tipo de pergunta que me fazem muito:

“Alex, no templo zen, por que vocês meditam de frente para a parede? Ou se prostram para o altar? Ou andam em ângulos retos?” etc etc.

question everything why

E só tenho uma resposta:

“Não sei. Por toda a minha vida, sempre fui a pessoa que queria saber o porquê de tudo. Hoje, minha prática zen é desapegar do meu ego questionador e aprender a fazer as coisas sem precisar saber seus porquês.”

Noite escura, de João da Cruz

Meditamos não para fugir da realidade ou para nos isolar do mundo, mas por perceber que a vida não-contemplativa, a vida do ego, a vida do consumo, a vida do apego, é fundamentalmente irreal. Meditar é a nossa maneira de mergulharmos plenamente na realidade ilimitada.

Mas nem sempre a espiritualidade, a contemplação, a meditação trazem a paz: essa não-paz é o que João da Cruz chama de “noite escura”.

noite escura da alma joao da cruz

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Zen FLIP

A experiência da FLIP para uma pessoa que vive de escrever e está apegada ao Ego (perdão pela redundância) é uma verdadeira montanha russa emocional.

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a importância dos rituais

nem todo ritual é bobagem.

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tudo é prática

cada palavra conta. cada interação conta. tudo é prática.

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Notas de um retiro em um campo de concentração

Na primeira semana de novembro de 2016 — entre o Dia de Todos os Santos, quando todos os maus espíritos estão soltos no mundo, e uma eleição norte-americana entre uma direitista militarista e um louco racista misógino; enquanto meu país sofre sob um desgoverno ilegítimo e meu estado enfrenta a ressaca pós-olímpica cortando serviços essenciais — participei de um retiro zen-budista em Auschwitz, na Polônia, realizado pela Ordem dos Pacificadores Zen.

Para quem está chegando agora, recomendo começar por meu texto Um escritor no campo de concentração, escrito antes do retiro. Abaixo, algumas palavras sobre a experiência pós-retiro zen em Auschwitz.

tomando sopa do lado de fora do campo de concentração auschwitz-birkenau. tomávamos sopa trazida em um caminhão, sempre com a mesma cumbuca e não podíamos usar colher

tomando sopa do lado de fora do campo de concentração auschwitz-birkenau. tomávamos sopa trazida em um caminhão, sempre com a mesma cumbuca e não podíamos usar colher

* * * » leia o texto completo «

Prisão Conhecimento

Cultivando o não-conhecimento e abraçando a não-certeza, exercendo a não-opinião e praticando o não-debate. Ouvindo e aceitando, acolhendo e abraçando.

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