A piada que o Dalai Lama não entendeu

Uma piada budista, em inglês:

The Dalai Lama walks into a pizza place and says,

“Make me one with everything.”

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Um apresentador de TV tentou contar essa piada pro Dalai Lama e ele não entendeu nada:

Esse artigo, em inglês, lista todos os pressupostos culturais e linguísticos que se precisa compartilhar pra entender essa piada. (São muitos.)

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Explicando para quem não entendeu:

Um dos objetivos do budismo é, digamos, “ser Um com o Todo”, buscar uma união com a totalidade das coisas.

ou seja, “be One with everything”.

Nos EUA (e aqui, e na Austrália, etc), tem pizzarias onde você pode escolher os toppings das pizzas, podendo inclusive pedir todos.

A graça da piada é que o pedido do Dalai Lama na pizzaria

(“make me One with everything”)

pode ser entendido tanto como

(budista) “faça-me Um com o Todo”

ou

(pizza) “me faz uma com tudo”

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Você entendeu a piada? Riu?

Eu ri (aliás, cada vez que releio, rio de novo), mas não é porque eu sou mais inteligente que você: estudo budismo, adoro pizza, morei por quase uma década nos EUA e falo inglês fluentemente – a piada, por exemplo, não funcionaria em português ou, presumo, com quem fala inglês bem mas sem vivência nos EUA.

De certo modo, o ouvinte ideal dessa piada sou eu. E devo ser mesmo, porque não paro de rir.

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Uma variação (bilíngue) da piada:

Em Nova Iorque (digamos), um monge zen-budista chega em uma carrocinha de cachorro-quente e pede:

“Make me One with Everything.”

Paga com uma nota de dez dólares, e fica esperando o troco.

Depois de alguns minutos, nada.

O monge então pergunta:

“Where is my change?”

O vendedor responde:

“Change comes from within.”

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Em teoria, o humor é simples: você cria uma expectativa, e depois a subverte.

Para o humor poder existir, são necessários uma série de pressupostos culturais coletivos, compartilhados por humorista e público que, convenhamos, muitas vezes são sim outrofóbicos, machistas, homofóbicos, racistas.

A piada “sabe como afogar uma loira? coloca um espelho no fundo na piscina!” só funciona porque tanto humorista quanto plateia “sabem” que loiras são fúteis, vaidosas e burras. Se não compartilhassem esse “conhecimento”, não é nem que a piada não seria engraçada: ela faria tão pouco sentido que não seria nem mesmo coerente enquanto narrativa.

(No vídeo acima, dá pra ver que a tal piada budista faz tão pouco sentido pro Dalai Lama que ele nem mesmo consegue perceber que ela já acabou.)

Naturalmente, por esse mesmo motivo, o humor é sempre local: para pessoas de outras culturas, com outros pressupostos culturais compartilhados, a historinha também não faria sentido – pois não teriam a chave pra decodificar a piada, ou seja, que loiras “são burras, fúteis e vaidosas”. (Aliás, naturalmente, não são.)

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Na minha Carta Aberta às Humoristas do Brasil, eu desenvolvo essas ideias.

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