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Porque escrever sobre “Prisões”

Só faz sentido escrever sobre Prisões porque as pessoas estão presas.

Um comentário que recebi hoje:

“Alex, tem um aspecto que sempre vejo você desconsiderando nas suas análises, que é o complexo e o medo da rejeição. Não é próprio da sua experiência, não é da sua personalidade, mas é um fator com um peso gigante na vida das pessoas mais inseguras. Eu diria que metade dos adolescentes sofrem primordialmente por isso (eu) enquanto a outra metade se sente no topo do mundo nesta fase (você?). Junto com o aspecto identitário que você descreveu, tem a dor de ser rejeitado pelo parceiro e pelo empregador, de não ser bom o suficiente pra ser amado/aceito/apreciado.”

Se todas as pessoas fossem bem-resolvidas como você acha que eu sou, meus textos perderiam totalmente a razão de ser.

Se eu achasse que todas as pessoas eram bem-resolvidas como você acha que eu sou, eu definitivamente estaria escrevendo outras coisas.

Afinal, pessoas livres, bem-resolvidas, no topo do mundo, etc, não estão procurando textos sobre a Prisão Trabalho, a Prisão Monogamia, etc.

Eu só escrevo sobre Prisões porque

1) eu SEI que a maioria das pessoas é aprisionada por inseguranças galopantes e

2) estou tentando ajudá-las.

Sem qualquer uma dessas duas condições, ou seja, se eu não soubesse como as pessoas são inseguras ou se eu não quisesse ajudá-las, os textos das Prisões simplesmente não fariam sentido e eu teria passado os meus últimos anos fazendo alguma outra coisa.

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Projeto As Prisões

Desde 2002, venho escrevendo sobre As Prisões, ou seja, as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido.

O que chamo de As Prisões são sempre prisões cognitivas: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.

A Monogamia, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.

A Felicidade é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.

Quem está “presa” na Prisão Monogamia não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (cognitiva) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.

Quem está “presa” na Prisão Felicidade não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (cognitiva) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.

Cada uma das Prisões, da Verdade à Religião, do Dinheiro ao Trabalho, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva, uma percepção incompleta da realidade. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância. (O Livro das Prisões será publicado pela Rocco em breve.)

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O encontro As Prisões: Práticas de Atenção

O encontro As Prisões: Práticas de Atenção é uma instalação artística, indefinível e improvisada, onde exploramos os limites e as possibilidades de nossa atenção, de nossa generosidade, de nosso cuidado. Um espaço de prática, sempre imprevisível, onde pessoas se juntam e se chacoalham, compartilham vivências e trocam histórias e, no processo, criam novos tipos de interação. Um evento que só pode ser presencial, pois foi criado para só poder ser presencial, justamente para fazermos aquilo que é impossível de ser feito através de textos.

Foi nesses mais de cem encontros, realizados desde 2013 nas cinco regiões do Brasil, no contato energizante e polifônico com milhares de pessoas, que as práticas de atenção foram sendo lentamente criadas e aprimoradas e são, até hoje, praticadas.

Tudo o que faço é sempre fundamentalmente gratuito, e os encontros não seriam a exceção. Existe um preço sugerido mas paga quem quer, o quanto quiser. Hoje, eu literalmente vivo da generosidade alheia: graças às pessoas mecenas, que me sustentam com suas contribuições, não preciso ganhar a vida. Então, o mínimo que posso fazer com essa vida que me foi dada ganha é passar adiante a generosidade: promovo esses encontros como um serviço para as pessoas que precisam dele.

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Imersão “As Prisões: Práticas de Atenção”

Fins de semana, de sexta, às 18h, a domingo, às 17h.

Sudeste 18-20jan2019 — Areias, SP (de $400 por $250 até 15nov)

Nordeste 1-3fev2019 — Taíba, CE  (de $400 por $150 até 15out)

Para saber mais e se inscrever:

alexcastro.com.br/encontros

As virtudes de não-lutar

Estamos no século III antes da Era Comum. Roma, então somente uma cidade-estado na península itálica, estava em guerra com outra cidade-estado, Cartago (perto da atual Túnis), pelo controle do Mediterrâneo.

Aníbal Barca, um dos grandes generais de todos os tempos, desembarcou um exército de mercenários e elefantes na Espanha, cruzou os Alpes enfrentando mil perigos e penetrou na Itália pelo norte, surpreendendo Roma e suas aliadas.

Durante dezoito longos anos, Aníbal perambulou pela península, vencendo todas as batalhas que travou.

Roma sofreu derrotas achapantes, que teriam derrubado qualquer cidade mais fraca, e que são estudadas até hoje em academias militares pelo mundo, como as de Lago Trasimeno e Canas.

Ainda assim, não caiu.

Por quê?

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Elogio às forças armadas

A esquerda precisa urgentemente reatar relações afetivas, intelectuais, estratégicas com as forças armadas.

Defesa, teoria militar, geopolítica, nada disso é “coisa de direita”. Aliás, todas as revoluções populares que tivemos foram ganhas e, depois, mantidas por forças armadas coesas, unidas, eficientes.

(Os escravos do Haiti conquistaram sua independência das armas; Cuba manteve a sua da mesma maneira. Os exemplos são inúmeros.)

As forças armadas não têm lado: elas são do lado de quem estiver lá, ocupando suas patentes, estudando suas questões, articulando suas prioridades.

Se a esquerda hostiliza as forças armadas desde a redemocratização, é natural que elas sejam majoritariamente ocupadas por pessoas de direita.

Na foto, de 11 de outubro, a nossa fragata “Liberal”, atual navio-capitânia da Força Tarefa Marítima (FTM) da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil, sigla em inglês) socorrendo refugiados de um barco à deriva na Costa do Líbano.

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O que significa nossa bandeira

Uma amiga norte-americana, uns dez anos atrás:

“Alex, sabe qual a coisa que mais amo no Brasil? Na Europa, em qualquer país, se você encontra uma grupo de pessoas enroladas na bandeira nacional, já sabe que não é coisa boa. Nos EUA, as casas com a bandeira hasteada na fachada são sempre de republicanos que apoiam todas as nossas guerras e invasões. No Brasil, não. Aqui, as pessoas vestem a bandeira do Brasil, colocam a bandeira nas havaianas e nas camisetas, vão à praia com a canga da bandeira, e isso não é ameaçador, não é agressivo, não é violento. Aqui a bandeira ainda é linda, positiva, inspiradora.”

* * *

Hoje, agora, acabou de passar uma carreata do Bolsonaro aqui pela frente de casa. Motos enormes e jipões utilitários com a bandeira verde-amarela balançante. Pessoas agressivas gritando “Mito! Mito!” e “Melhor Jair se acostumando”, com toda a carga de ameaça que essa frase pode ter. Gestos que simbolizavam armas sendo apontados para as pessoas nas calçadas.

Ando pensando muito nessa minha amiga norte-americana.

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Levamos uma surra achapante

Eric Hobsbawm afirmava ter dedicado toda sua vida a um projeto que considerava fracassado, mas que nada aguçava tanto a mente do historiador quanto a derrota: afinal, quem consegue ser reflexivo enquanto está ganhando? Quem consegue aprender com suas vitórias?

A palavra “autocrítica” tem o sufixo “auto” porque é uma crítica que uma pessoa ou grupo faz a si mesma. Pedir ou exigir “auto”crítica a outrem é uma forma disfarçada e hipócrita de criticar.

Não posso fazer autocrítica do PT pois não sou nem nunca fui petista, nem pensaria jamais em exigir isso do partido e de suas pessoas apoiadoras: elas que decidam o que querem fazer de si mesmas e de seu projeto político.

Mas sou de esquerda e, já faz anos, escrevo publicamente como homem de esquerda: publiquei até um livro chamado “Outrofobia: textos militantes” e mantive um blog de mesmo nome na Revista Fórum.

Primeiro, é preciso encarar a realidade, sem dourar pílulas: nós, as pessoas que nos consideramos de esquerda, sofremos uma derrota achapante e literalmente traumática (tenho várias amigas sinceramente traumatizadas, chorando, deprimidas), a maior na minha geração.

Política não é a arte de ser o mais certo e puro e lacrador do partido derrotado, mas de chegar ao poder, por meios democráticos, para assim implementar nosso projeto de governo legitimado pelo voto popular.

Nisso, falhamos miseravelmente. Isso é fato. As urnas comprovam.

Como falhamos? Por que falhamos? Como devemos fazer de agora em diante?

Não sei. Realmente, não sei.

Mas sei que essa é a grande questão que vou estar me colocando, de mim para mim mesmo, nos próximos meses e anos.

Não sei como agirei daqui pra frente, mas com certeza mudarei o meu jeito de fazer/pensar/articular política.

Porque, claramente, não deu certo.

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A maré da história

Em alguns anos ou décadas, talvez tenhamos uma nova perspectiva sobre a eleição de ontem.

Talvez a gente se perdoe.

Talvez a gente perceba que não dava para ter vencido.

Talvez a gente seja como o exército polonês em 1939, discutindo se deveríamos ter mandado a cavalaria pela esquerda ou pela direita, como se isso fosse fazer alguma diferença.

Talvez a gente perceba que estávamos na contramão de uma nova onda da História.

Mas talvez a gente também perceba que é da natureza das ondas ir e vir, que quando a onda da História está contra nós, a maior vitória é simplesmente resistir e sobreviver até maré mudar.

Porque a maré da História sempre muda.

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O voto das pessoas pobres

Faz algum tempo, escrevi que brincadeira só é brincadeira se a outra pessoa tem total liberdade de me mandar a merda, ir embora ou responder na mesma moeda.

Brincadeira de cima pra baixo tem outro nome: humilhação.

Penso muito nisso quando me pego tentando mudar o voto da empregada ou do faxineiro, da garçonete ou do taxista.

Ser de esquerda é ter consciência de classe. Ser de esquerda é ser sensível aos horrores da sociedade de castas onde nos calhou viver.

A moça quer apenas servir o meu café e garantir sua gorjeta, esperar o fim do seu turno e descansar em sua cama.

Eu aqui, do alto do meu privilégio, querer lhe ensinar qual é o voto correto me parece desrespeitoso e arrogante, invasivo e imperialista.

Então, em minha vida, também adotei essa regra: só tento mudar o voto de quem pode, livremente, me mandar à merda.

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Não é uma foto, é um espelho

Alemanha nazista, verão de 1939 ou 1940. Um casal apaixonado, nas areias de uma praia, completamente absortos um no outro, concentrados em seu amor, entregues ao seu futuro cheio de possibilidades.

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Guia pessoal para conversas políticas

Antes de conversar sobre política com qualquer pessoa, tento sempre lembrar que:

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O Brasil terá o presidente que merece

O Brasil terá o presidente que merece.

Só depende de nós fazer desse fato autoevidente uma esperança ou uma maldição.

* * *

Apesar de todos os percalços, o Brasil têm:

  • uma democracia robusta;
  • partidos/candidatos representando um vasto espectro político;
  • um tribunal eleitoral vigilante;
  • programa político gratuita na TV e no rádio;
  • uma imprensa livre e forte.

O destino do país está, como sempre esteve, nas mãos de todas nós.

O presidente que elegermos será o presidente que merecemos: ele terá a legitimidade para implementar seu projeto de governo e sua ideia de Brasil, chancelado pela vontade popular.

Em país livre, democrático e soberano, ninguém é inocente do resultado das urnas: é responsável quem decidiu votar e quem decidiu ficar em casa; é responsável quem votou no eleito e é responsável quem não fez campanha o suficiente para o derrotado.

Se quisermos jogar fora trinta anos de construção institucional, é nosso direito: se as pessoas individuais têm direito de se matar, as democracias representativas idem.

Ainda dá tempo de lutar, militar, panfletar pelo projeto de governo que nos contempla.

Depois, será tarde.

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Nesse post, algumas das melhores charges políticas que já vi.

Legenda da imagem: “Eu vou te comer.” // “Pelo menos, ele fala na cara.”

Melhora interior vs melhora exterior

Não acredito em “melhora interior” se ela não se manifesta em uma melhora “exterior”, ou seja, em uma melhora da maneira como tratamos as outras pessoas e interagimos com o mundo.

Se existe essa “melhora exterior”, então, ela é sinal de que existe uma “melhora interior”.

Se não existe essa “melhora exterior”, então, tanto faz o que está dentro de nós: claramente não está funcionando.

Meu próximo livro, “Atenção.”, a ser lançado pela Rocco em 2019, é exatamente sobre isso.

Duas histórias do Leme

Que tipo de pessoas somos se certas tragédias nem ao menos estragam nosso apetite?

* * *

O Leme é um sub-bairro de Copacabana, um canto pacífico e fora de mão onde convivem os ricos da praia, os pobres do morro e todas as outras classes sociais entre elas. Um resumo do Rio de Janeiro.

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Geléia de Jabuticaba

Café da manhã de pousada em Paraty. Mãe, filha, avó:

A filha trazia a proverbial cara-de-cú da adolescente forçada a viajar com a família.

A mãe, profissional liberada e empoderada, ocupada e sem tempo a perder, parecia ansiosa para sair dali e ticar boxes no seu roteiro já pré-planificado de Paraty: Praça da Matriz e Praia do Pontal, Igreja de Santa Rita e Cais do Porto, etc e etc.

Mas a avó estava simplesmente maravilhada demais com aquele simples café-da-manhã. Tudo era lindo, incrível, delicioso:

“Tem omelete! Feita na hora! Quentinha!”

“Mãe, a senhora ainda nem começou a comer. Desse jeito a gente vai ficar aqui até o meio-dia, vamos perder Paraty!”

Em resposta, a avó pegou um pote da mesa, leu o rótulo e riu sozinha, feliz como uma menina:

“Olha só, geléia de jabuticaba caseira. Que incrível! Quanto tempo que não vejo isso.”

Entre a filha impaciente e a neta entediada, me senti na obrigação de tomar partido.

Fiz contato visual com a senhorinha e disse:

“Tá tudo tão lindo, né?”

* * *

Esse texto é dedicado à minha mãe, que faz aniversário amanhã e que também anda pela vida se maravilhando com cada pote de geléia. Obrigado, mãe.

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O próximo encontro As Prisões: Exercícios de Atenção será o meu CENTÉSIMO evento, e acontece no fim-de-semana de 21 a 23 de setembro. Saiba mais.

Kafka no restaurante

Alguém deve ter distorcido seu pedido, pois assim que Joseph K chegou no restaurante o garçom já lhe trouxe um bife. Joseph K mandou voltar o bife e o garçom disse que não tinha autoridade pra devolver o bife, que Joseph K deveria falar com o Gerente-Geral. Joseph K pede que ele pelo menos afaste o bife, pois é vegetariano e tem nojo. O garçom diz que não pode fazer nada, que é apenas uma engrenagem na grande máquina do restaurante, que não sabe como as coisas funcionam, que tem acesso apenas ao 3o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 2o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 1o cozinheiro, que teria que passar o bife ao cozinheiro-chefe, que nenhum deles nunca tinha visto, não sabiam nem se existia um cozinheiro-chefe. Joseph K pede que o garçom então chame o Gerente-Geral. O garçom avisa que é inútil, que o Gerente-Geral nunca vem ao restaurante, nunca gerencia nada e nunca, nunca fala com os clientes, mas que iria tentar assim mesmo.

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Diálogo em uma mesa de bar carioca

A gente se acostuma a tudo.

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A Autobiografia do Poeta-Escravo em escolas públicas de todo Brasil

É com enorme prazer que compartilho a melhor notícia de minha carreira de escritor:

A Autobiografia do Poeta-Escravo, de Juan Francisco Manzano, organizado, traduzido e anotado por mim, foi selecionado pelo PNLD Literário (Programa Nacional do Livro e do Material Didático).

Em breve, milhares de estudantes de escolas públicas por todo Brasil terão acesso à história de vida de um homem excepcional: um poeta nascido escravizado e que se libertou por força de sua palavras.

O livro foi lançado no Brasil em 2015 e, em Cuba, no ano seguinte. Está à venda nas principais livrarias e existe em versão ebook.

Para comprar e saber mais:
alexcastro.com.br/autobiografia-do-poeta-escravo

De quem é a bondade?

“Lembremos-nos, também, de socorrer os mais necessitados, particularmente os enfermos, sendo para eles um sinal da bondade divina.”

Uma das frases mais bonitas e intrigantes da missa de hoje de manhã.

Afinal, se eu, homem mortal e falho, posso decidir, por um ato de vontade humana, socorrer um enfermo e me tornar, assim, para ele, um sinal da bondade divina…

… uma interpretação possível é que só socorri o enfermo por inspiração da bondade divina.

Uma outra inspiração mais interessante é que o pobre enfermo está projetando bondade divina onde só existe bondade humana, ou seja, que Deus está tomando crédito pela minha bondade.

Que, na verdade, só existe a bondade humana, inclusive a bondade humana de inventar um Deus que justifique, com sua bondade divina fictícia, a bondade humana que já praticamos umas com as outras.

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Perdoa-me por te esqueceres

Fui presidente do grêmio de uma escola de mil alunos (1991-93). Trabalhei com consultor entrando e saindo de diferentes empresas por oito anos (1999-2007). Dei aulas em escolas, cursos e universidades por dezoito anos (1993-2011). Estou promovendo encontros As Prisões: Exercícios de Atenção por todo Brasil há eis anos (2013-).

Sou o primeiro a dizer que nossa falta de memória é um sintoma da nossa falta de atenção: “quem presta atenção, lembra”, etc.

No meu caso, porém, a questão é tamanho do HD. Simplesmente não dá pra lembrar de todas as pessoas com quem tive interações intensas e significativas, mas curtas. (Só nos meus encontros já vieram duas mil.)

Então, pra começar, peço desculpas prévias por não lembrar de você quando nos esbarrarmos em 2020. Não quer dizer que você foi desimportante para mim. Não quer dizer que não prestei atenção no que você me contou. Quer dizer apenas que já superei e muito a capacidade do meu HD mental para nomes e rostos. Perdão.

E, pra terminar, um pedido: talvez eu me lembre de você, talvez não, mas é sempre mais compassivo pouparmos a outra pessoa de possíveis constrangimentos (“não acredito que você não lembra de mim?!”) e já comece a conversa nos apresentando: “oi, Alex, sou o Paulo, que veio no encontro de Belém, que tinha uma avó com Parkinson, tudo bem?”

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O tempo existe?

Temos duas maneiras de falar de localização espacial: uma objetiva (o Leblon, Curitiba, China, Júpiter) e outra subjetiva, que depende da localização da pessoa que está falando (aqui, perto, longe, ao norte, acima, abaixo).

Se uma pessoa diz que Patópolis fica ao norte, isso não nos comunica praticamente nada se não soubermos onde a pessoa está espacialmente ao falar isso.

Igualmente, existem duas maneiras de falar sobre o tempo: a objetiva (3 da tarde de 5 de junho de 1987, 9 da manhã de 30 de dezembro de 34 aC) e a subjetiva (ontem, faz cinco minutos, amanhã, daqui a cinco séculos, um milênio atrás).

Na subjetiva, tudo é contingente: só hoje eu posso falar que “ontem, conheci o Zé” pois amanhã essa frase já se tornará mentira. Igualmente, só posso dizer que “Curitiba está ao sul” enquanto estou no Rio de Janeiro, mas não se estiver em Buenos Aires.

Por outro lado, sempre posso dizer que “Getúlio Vargas se matou depois da Segunda Guerra Mundial” ou que “Buenos Aires fica no do Rio da Prata”.

Nossa tendência é pensar subjetivamente. Nosso aqui e agora é o centro do universo, o nexo focal da História, o ponto de referência para tudo: o que está ao norte de mim e o que está perto de mim, o que aconteceu antes desse momento que estou vivendo agora e qual será o futuro desse momento que estou vivendo agora.

Talvez devéssemos pensar o tempo da mesma maneira que pensamos o espaço, usando a palavra “agora” como usamos a palavra “aqui”: algo que tem significado em relação à pessoa que está falando, mas que não tem significado concreto, real.

Quando começamos a pensar dessa maneira, o “agora” continua sendo tão subjetivo quando o “aqui”, mas “20h de 5 de junho de 2002” ganha um pouco da concretude objetiva de “Curitiba”. Um momento do tempo passa a ser um lugar.

E, se o tempo objetivo torna-se concreto, o tempo subjetivo se revela tão ilusório e contigente quando o espaço subjetivo.

Afinal, o que é o passado, o presente, o futuro? Existe realmente essa distinção ou ela é apenas uma miragem causada por nossas mentes de macacos pelados?

O suicídio de Getúlio hoje é passado. Mas um dia ele foi presente. E, antes disso, por incontáveis milênios, foi futuro.

Faz sentido então falar que o suicídio do Getúlio está no passado? Ele não está igualmente no futuro? E esse momento onde ele é presente também não está igualmente “lá”, tão concreto quanto Curitiba?

Cada “agora” seria um universo completo e autocontido, um quadro onde o tempo não existiria.

A história do universo seria formada por esses quadros, cada um igualmente real, igualmente concreto.

Assim como em um filme, nossa percepção do tempo passando, fluindo, se movendo, seria uma ilusão causada pela “exposição” em sequência desses quadros.

Dessa maneira, cada instante presente seria fundamentalmente eterno. O instante presente não envelhece, não passa, não “está acontecendo”: ele simplesmente é.

Estou eternamente aqui, às 11h48 de 30 de março de 2018, escrevendo esse texto, assim como estou eternamente vendo Seinfeld às 22h20 de 11 de maio de 1996, assim como estou eternamente dando aquela topada com o dedão às 8h39 de 23 de agosto de 2002.

O Alex-de-48-anos é tão real quanto o Alex-de-23 ou o Alex-de-8.

Tudo está acontecendo agora, ao mesmo tempo, para sempre.

Se os eventos passados são tão reais quanto os eventos presentes e futuros, nada realmente termina, nada realmente deixa de existir.

Nesse sentido, uma vida “termina” ou “acaba” assim como o Rio de Janeiro “termina” ou “acaba” quando chegamos na divisa com São Paulo: na prática, o Rio de Janeiro continua lá, no mesmo lugar, não foi a lugar algum.

Portanto, uma pessoa que não está viva agora, mas que já esteve viva no passado ou vai estar viva no futuro, é tão real quanto uma pessoa que não vive AQUI mas que está viva em algum outro lugar.

A morte de uma pessoa não apaga, anula, termina com sua existência: ela apenas delimita um dos extremos da extensão daquela pessoa no tempo, assim como sua pele delimita a extensão do seu corpo no espaço, assim como os rios Chuí e o Oiapoque delimitam os limites do Brasil no espaço.

Nessa perspectiva, as pessoas ditas-mortas estão tão vivas quanto as pessoas que vivem em um país distante com o qual não temos como nos comunicar: elas apenas estão habitando pontos diferentes do contínuo temporal.

Logo, podem ser visitadas.

Daí, viagens no tempo.

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A punição por falas outrofóbicas

A sociedade brasileira é machista, homofóbica, racista — em resumo, outrofóbica.

A escravidão e o patriarcado são nossos fatos sócio-econômicos fundacionais. Nossa cultura e nossa língua, nossos estereótipos regionais e nossos padrões de beleza, tudo racista, tudo machista.

A única maneira de começarmos a sair desse buraco historicamente cavado é reconhecendo nossa própria outrofobia, tanto a estrutural quanto a individual.

Porém, se a punição para a pessoa que reconhece sua fala outrofóbica for sua total aniquilação pessoal e profissional, então, ninguém mais vai se responsabilizar por seu próprio racismo, por seu próprio machismo.

A punição por falas outrofóbicas tem que existir: só não pode ser a pena de morte.

Não porque o crime não seja hediondo, mas porque isso vai desistimular outras pessoas de refletirem, admitirem, confessarem seus racismos subterrâneos, seus machismos constitutivos

O que poderia ser um processo de reflexão coletivo sobre nosso pecado original acaba se tornando uma caça às bruxas.