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Carapuças

A carapuça é uma das forças mais poderosas do universo, alimentada pelo nosso inesgotável narcisismo.

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Pessoas de vida fácil

Algumas pessoas olham para minha vida e comentam, sempre em tom estranhamente negativo:

“Arrá! Sem filhos é muito fácil viver assim, né?! NÉ?!”

E eu respondo, simplesmente:

“Sim. É por isso que fiz a escolha de não ter filhos.” » leia o texto completo «

Toda relação homem-mulher é assimétrica

Como ser um homem não-canalha em um mundo criado e pensado para ser abusivo para as mulheres?

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Compre livros

Sim, compre livros nesse natal. Muitos livros.

Mas não na Saraiva ou na Cultura, que não estão repassando pagamentos para as editoras e, talvez, nunca repassem.

Compre direto das pessoas autoras.

Compre nos sites das editoras.

Compre nas livrarias independentes.

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Porque não dou presentes

Quem pode ser contra presentes?

Não dou presentes porque

1) estimula o consumismo de objetos;

2) cria uma pesada e constrangedora obrigação de reciprocidade; e

3) é uma ferramenta de controle e dominação.

Em vez de dar presentes, prefiro

1) fazer atividades e ter experiências com as pessoas que eu amo, como ir à praia ou passear;

2) fazer coisas pelas pessoas que eu amo, como cozinhar ou lavar a louça

3) dar a elas minha atenção plena, quando estamos juntas.

* * *

Aviso necessário

Querida pessoa leitora, eu não te conheço. Logo, eu não tenho nem poderia ter nenhuma opinião sobre você, sobre as coisas que você faz, sobre as coisas que você deveria fazer ou deixar de fazer. O texto é sobre MIM, sobre os motivos que ME levaram a parar de dar presentes, sobre o meu próprio galopante e relinchante narcisismo. Você, tenho certeza, é uma pessoa bem melhor que eu.

* * *

Não dou presentes porque…

* * *

1) Estimula o consumismo de objetos

Uma ex-namorada me trazia um presentinho sempre que me via.

Sim, era por amor e por carinho, e eu adorava. Mas também era por seu enorme e compulsivo prazer em comprar objetos.

Observar a ela me fez perceber que eu não era diferente: passava em uma livraria e pensava:

“Não posso comprar mais nada para mim, já estourei meu orçamento!”

Mas, então, via um livro perfeito, da autora preferida da minha amiga Paulinha, e pensava:

“Ah, gente, a Paulinha vai amar esse livro, é ideal pra ela! PRECISO comprar!”

E pronto. O que poderia ser mais mais conveniente?

Eu coçava a minha comichão obsessiva por comprar mais um objeto e, ao mesmo tempo, comprava também a desculpa perfeita:

“Não é para mim, é para a Paulinha! É presente! Não estou sendo consumista e compulsivo! Não, não! Estou sendo carinhoso e generoso! Olha como sou bonzinho!”

(Aprendi a sempre desconfiar das minhas autonarrativas que tenham como moral da história “olha como eu sou bonzinho!”)

Tirando uma ou duas pessoas realmente significativas, os presentes que eu dava serviam muito mais para atenuar minha própria ansiedade do que para, de fato, presentear outras pessoas.

Como tudo na minha vida narcisista e egocêntrica, o foco era em mim.

* * *

2) Cria uma constrangedora e pesada obrigação de reciprocidade

Todo cartão de natal traz duas mensagens.

A interna, que você precisa abrir o cartão para ler, é sempre uma variação de

“Feliz natal da família Fulano!”

A externa, que você não precisa nem abrir o envelope para decodificar, é mais sutil, mas ninguém deixa de entender:

“Parabéns! Você acabou de ganhar a obrigação de mandar um cartão de natal no ano que vem ou arriscar tornar-se uma pária social!”

* * *

Desde o começo do mundo, presentear é uma das formas mais antigas e tradicionais de comércio, gerando uma cadeia infinita de obrigações sociais.

Digamos que eu plante milho e meu cunhado crie porcos.

No meu aniversário, ele me dá dois porcos e eu fico obrigado a ele.

Aliás, é exatamente daí que vem a nossa palavra “obrigado”: alguém nos faz um “favor” (entre aspas, pois não é favor, é comércio) e eu respondo:

“Agora estou obrigado a você.”

Ou seja, agora tenho uma obrigação para com você de retribuir esse favor. Com o tempo, a frase foi abreviada até virar uma palavra só, mas a obrigação continua a mesma.

(Ja dizia o Profeta Gentileza: “em lugar de “muito obrigado” devemos dizer “agradecido” e ao invés de “por favor” devemos usar “por gentileza” porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor.”)

Como não existe uma equivalência precisa entre milhos e porcos, quando chega o aniversário do meu cunhado, eu lhe presenteio com mais milho do que me parecem valer dois porcos, criando um excedente que, agora, faz com que ele fique obrigado a mim.

De certo modo, uma das primeiras funções do dinheiro foi quantificar, matemática e friamente, operações que antes eram subjetivas e sociais:

Se você me deu um porco, e um porco tem um valor de mercado determinado, eu posso te retribuir com exatamente aquele valor, sem sobras e sem excedentes, e assim, literalmente, me desobrigar de você, quebrando essa estrutura capilar de créditos e débitos que efetivamente mantinha a sociedade unida e coesa.

* * *

Em um ano desses da vida, algumas décadas atrás, eu mandei vinte cartões de natal, pintados por mim, um por um, à mão.

Foi uma das experiências mais instrutivas e iluminadoras da minha vida, pois aquilo me consumiu: gerou dor, angústia, raiva, inveja.

“Porra, não brinca que Fulana não vai nem agradecer?!”

“Pintei o cartão à mão, À MÃO!!, e Beltrano, hein, nem tchuns!”

“Ano que vem, está fora da minha lista, não quero nem saber!” etc.

Descobri, horrorizado, que eu não queria ser a pessoa que mandava cartões de natal pintados à mão.

No ano seguinte, tirei todo mundo da minha lista: nunca mais mandei cartões de natal.

* * *

Esse texto é sobre as minhas falhas de caráter.

Se você, pessoa leitora, consegue dar presentes e, no íntimo do seu ser, não julga, não cobra, não espera, eu te admiro, pois você é uma pessoa evoluída.

Parei de dar presentes porque, para minha vergonha, não sou.

* * *

3) É uma ferramenta de controle e dominação

Um dia, um parente me deu a feliz notícia de que me presentearia com um apartamento, novinho, na planta. Agradeci efusivamente e já comecei a fazer planos de onde eu iria morar com o dinheiro do aluguel daquela minha nova propriedade.

“Como assim, Alex?! Estou te dando o apartamento para você morar nele. Está desdenhando do meu presente?!”

E respondi que não, claro que não! Aquele presente iria mudar minha vida de verdade. Afinal, alugar uma propriedade para gerar renda era uma das maneiras mais úteis e comuns de usufruir de um bem.

Mas meu parente não quis nem saber: disse que o apartamento (dois quartos, vaga na garagem, academia no prédio) ficaria no nome dele; eu poderia morar lá enquanto quisesse; e, quando morresse, ficaria para mim em testamento.

Na época, eu não tinha nem apartamento nem nenhuma perspectiva de ter: pagava aluguel e morava em uma república com três outras estudantes.

Mesmo assim, relutantemente, dolorosamente, recusei.

(Não porque sou forte, ou incrível, ou maduro, tralálá, mas porque sempre tive um instinto rebelde muito forte contra tentativas de me controlar.)

Se ele quisesse me dar aquele presente, eu aceitaria (e queria e precisava!), mas então o apartamento passaria a ser meu e eu poderia dispor dele à vontade, como fazemos com as coisas que são nossas.

Se ele quisesse decidir onde eu iria morar (usando um apartamento como ferramenta), então, eu recusava, pois já estava velho demais para delegar a outras pessoas esse tipo de decisão.

Depois disso, nosso relacionamento nunca mais foi o mesmo. Não sei o que ele fez com o imóvel, mas sei que não estou mais no testamento.

Hoje, eu tenho uma quitinete que alugo para turistas e moro de favor com a pessoa mais leve que eu conheço.

* * *

A história acima, emblemática do mundo privilegiado de onde venho, serve para ilustrar que, na verdade, grande parte dos pequenos presentes que recebemos também contém pequenas tentativas de controle.

Quem nunca deu um livro como uma maneira sutil de fazer com que a outra pessoa lesse uma obra que provavelmente não leria?

Quem nunca, pior ainda, perguntou:

“E aí, leu?”

Quem nunca recebeu um item decorativo que não tinha nada a ver com a casa, mas foi obrigada a colocá-lo na estante, porque senão “o que a Tia Maricota vai pensar?!”

Quem nunca, pior ainda, saiu correndo pra procurar no depósito a estatueta horrenda da Tia Maricota só porque ela estava vindo visitar e o que pensaria se não visse seu presente em exposição?!

Já dizia o provérbio inuit: “dádivas criam escravos, como o chicote cria cachorros”.

* * *

Então, por tudo isso, em vez de dar presentes, eu prefiro:

* * *

1) Fazer atividades e ter experiências com as pessoas que eu amo, como ir à praia ou passear;

2) Fazer coisas pelas pessoas que eu amo, como cozinhar ou lavar a louça;

3) Dar a elas minha atenção plena, quando estamos juntas.

Em 2013 e 2014, viajei o Brasil inteiro com o encontro “As prisões”, ficando sempre hospedado na casa de pessoas leitoras queridas.

Em vez de seguir as regras de etiqueta que guiaram boa parte da minha vida (“leve sempre um presente para a mulher mais velha da casa e, ao sair, dê uma gorjeta aos empregados”), eu simplesmente chegava de mãos vazias — para o horror e decepção da minha mãe:

“Mas, meu filho, você não traz nada? Nem uma lembrancinha?”

“Não, mãe. Mas eu ajudo na faxina, faço o jantar, lavo a louça, configuro o computador, ajudo minhas pessoas anfitriãs em tudo que eu puder.”

“Ainda bem que nenhuma dessas pessoas sabe que sou sua mãe. Não criei você assim!”

Mas não é só isso: quando estou hospedado na casa de uma pessoa, eu lhes dou (ou tento dar) o presente mais valioso que tenho a oferecer: minha atenção plena.

* * *

Se chego na casa de uma pessoa e ela me recebe com a tevê ligada, eu já me sinto desprestigiado:

Se ela queria ver tevê, por que me dei ao trabalho (para mim, cada vez mais árduo) de vir até aqui?

Poderíamos ter ficado ambas em casa, interagindo pela internet, nunca sabendo as mil coisas que outra está fazendo enquanto finge que presta atenção à nossa conversa…

* * *

Há quinze anos, quando eu tinha celular e trabalhava como consultor de internet, eu abria as reuniões com um pequeno mise-en-scène:

Tirava o celular do bolso, desligava publicamente, guardava dentro da pasta, fechava e dizia:

“Pronto. Agora, sou só de vocês.”

Naquela época, eu não sabia nada nem de atenção plena e nem de empatia (hoje, eu mal sei!): era apenas um truque de vendas, para me sobressair à competição e maximizar meu lucro. (Money money money!)

Ainda assim, mesmo com as intenções mais toscas e mais interesseiras, o teatrinho tinha o seu valor.

Hoje em dia, os celulares estão muito mais ubíquos: deixaram de ser aparelhos que fazem chamadas telefônicas para se converterem em fetiches mágicos que representam nossa identidade.

Então, de modo bem real e concreto, se a pessoa simplesmente não fica conferindo retângulos luminosos enquanto interage comigo eu já me sinto como se tivesse recebido um dos presentes mais escassos e mais valiosos do mundo.

Muito obrigado.

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E muito obrigado também às 800 pessoas mecenas que, com suas contribuições em dinheiro, seja em agradecimento pelos meus textos que já consumiram ou para me possibilitar escrever novos textos, me dão o presente mais concreto que um artista independente poderia desejar.

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Notas

Sobre a cultura do presente, recomendo Dívida: os primeiros 5.000 anos, publicado pelo antropólogo David Graeber em 2011 e um dos livros mais incríveis que li esse ano.

Envio esses textos em primeira mão para as pessoas assinantes da minha newsletter, e elas sempre têm sugestões sensacionais. A frase do Profeta Gentileza foi sugerida pela Beatriz Cruz e pode ser encontrada em uma crônica de Leonardo Boff. O provérbio inuit foi sugerido pelo Joeverson e está na introdução de Ilhas de História, do Marshall Sahlins.

Para também ler meus textos em primeira mão, assine a minha newsletter.

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Pós-escrito

Estamos com duas imersões abertas, ambas com desconto até o dia 15dez.

(As Imersões sempre são mais baratas quanto mais cedo você compra, para facilitar meu planejamento.)

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Imersão “As Prisões: Práticas de Atenção”

Fins de semana, de sexta, às 18h, a domingo, às 17h.

Sudeste 18-20jan2019 — Areias, SP (a meio caminho entre RJ e SP)

Nordeste 1-3fev2019 — Taíba, CE (a 70km de Fortaleza)

Quem são as pessoas chatas?

“Alex, como você aguenta receber visitas de pessoas desconhecidas? E se elas forem chatas, tediosas, pentelhas?”

A chatice que enxergamos na outra pessoa é a nossa própria.

Nenhuma pessoa pode ser mais desinteressante do que aquela que não está interessada nas outras à sua volta.

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Dez romances favoritos

Perguntaram a vários escritores. Aqui vão os meus, em ordem alfabética:

  • Cecília Valdés (Cuba, 1882), de Cirilo Villaverde
  • Cem anos de solidão (Colômbia, 1967), de Gabriel Garcia Márquez
  • Fortunata e Jacinta (Espanha, 1887), de Benito Perez Galdós
  • Grande sertão: veredas (Brasil, 1956), de Guimarães Rosa
  • Guerra e paz (Rússia, 1867), de Liev Tolstoi
  • Hora da estrela (Brasil, 1977), de Clarice Lispector
  • Ilíada (Grécia, c.IXaec), de Homero
  • Miseráveis (França, 1862), de Victor Hugo
  • Moby Dick (EUA, 1851), de Herman Melville
  • Manuscrito encontrado em Saragoça (Polônia, 1815), de Jan Potocki

Quais são os seus? » leia o texto completo «

o texto é de quem lê

quando me perguntam qual era a intenção de algum texto meu, eu nunca respondo.

às vezes, me acusam de não querer dialogar, mas é o oposto.

cada texto será sempre lido por um pessoa leitora que trará à leitura suas vivências, suas experiências, seu preconceitos, seus traumas.

a mágica da leitura acontece nesse efêmero espaço virtual, fora do texto, onde se encontram as intenções da pessoa autora e as percepções da leitora.

naturalmente, as intenções da autora são baseadas no que imagina que serão as percepções da leitora, e as percepções da leitora são baseadas no que imagina que foram as intenções da autora.

mais naturalmente ainda, a beleza do processo é a precariedade da comunicação: nem a pessoa autora consegue prever quais vão ser as percepções da leitora, nem a leitora consegue saber quais são as intenções da autora.

por isso, o espaço virtual da leitura é tão efêmero, pois ele nunca é o mesmo: “Dom Casmurro” era o mesmo livro em 1992 e em 2009, mas as percepções, projeções, presunções que eu trouxe ao texto nessas duas datas eram tão radicalmente diferentes que ocasionaram duas experiências de leitura também radicalmente diferentes.

a partir do momento em que a pessoa leitora recebe o texto, ele pertence a ela, para lê-lo através de SUAS definições, para projetar nele os SEUS significados, para interpretar ele de acordo com as SUAS vivências.

então, quando uma pessoa autora se recusa a revelar suas intenções, não é que ela não quer dialogar: pelo contrário, ela quer possibilitar o diálogo.

porque, se a autora revelar suas “verdadeiras intenções”, além de elas não serem importantes, ela estará matando o diálogo, pois sua resposta será vista como a “resposta certa”.

por outro lado, enquanto a pessoa autora se mantiver calada e respeitar que o texto agora pertence às leitoras, mais elas vão poder dialogar, interpretar, interpelar o texto livremente.

o texto é de quem lê. » leia o texto completo «

Como conheci minha namorada

Tinha essa moça que eu mal conhecia mas estava tentando encontrar há mais de um mês. (Para bater papo, porque ela parecia interessante, mas também para devolver uma canga que tinha esquecido em um evento.)

Aí, um mestre zen norte-americano iria palestrar no meu templo, em Copacabana (eu faria a tradução simultânea), e convidei a moça para vir. Ela topou. Marcamos de nos encontrar na plataforma do metrô Flamengo e irmos juntos.

Enquanto esperava, reparei em um velhinho meio perdido. Cheguei perto, puxei conversa, percebi que ele não sabia onde estava. Pedi permissão para olhar em sua bolsa e descobri seu nome e endereço. Era em uma rua perto mas eu não sabia exatamente onde.

Tenho celular mas não smartphone, então, liguei para a moça (com quem eu não tinha nenhuma intimidade) e disse apenas:

“Por favor, descobre onde é a rua Almirante Tamandaré.”

Ela não hesitou, não reclamou, não perguntou. Quando saiu do vagão, já estava com o mapa na tela do smartphone. Eu disse:

“Seu Oswaldo mora nessa rua e está um pouco perdido. Vamos levar ele em casa?”

Ela pegou um braço, eu peguei outro, e fomos escoltando seu Oswaldo. No caminho, ela ainda descobriu que isso nunca tinha acontecido com ele (confirmado pelo porteiro do seu prédio) e que a culpa provavelmente era de um remédio para parar de fumar que ele estava tomando.

Corremos de volta para o metrô e chegamos no meu templo ainda com alguns minutos de folga. A tradução simultânea da palestra do mestre foi bem mais cansativo do que imaginei que seria e meu cérebro estava uma geléia.

(Dá pra ouvir a palestra aqui.)

Ainda assim, quis sair para conversar com ela. Jantamos na Trattoria, ali do lado do Copacabana Palace (era 29 de março, dia de nhoque da fortuna) e, depois, caminhamos pela orla, conversando até às quatro da manhã.

No dia seguinte, eu entraria em um retiro de dois dias com esse mesmo mestre zen, um retiro importante para minha progressão espiritual no templo e na ordem.

Mas, às seis da manhã (ou seja, duas horas depois de deixá-la em casa), lhe mandei um email de uma linha dizendo simplesmente:

“Não vou pro retiro.”

Ela respondeu:

“Ótimo. Vem pra cá.”

Eu fui.

E ainda estou.

* * *

Minha teoria é que o seu Oswaldo mudou tudo.

Que um relacionamento humano que começa ajudando outra pessoa sem hesitação já se beneficia de um manancial de carma positivo.

Que podemos conviver com alguém socialmente por anos, mas que somente conhecemos uma pessoa de verdade quando fazemos algo com ela, quando compartilhamos um objetivo e trabalhamos juntos para realizá-lo.

Ao convidá-la para um evento religioso, eu não tinha intenções nem remotamente românticas para com aquela moça. Mal nos conhecíamos.

Mas, quando ela saiu daquele vagão de metrô com o endereço do seu Oswaldo na tela de seu smartphone, eu já sabia coisas importantíssimas sobre ela, sobre sua capacidade de reação, sobre sua inteligência emocional, sobre sua disposição de ajudar o próximo.

Quando deixamos o seu Oswaldo em casa, eu já havia realizado, construído, empreendido mais coisas práticas, úteis e bonitas com ela do que com a maioria das pessoas que conheço.

E, quando a deixei em casa às quatro de manhã, depois de horas e horas de conversa, eu já sabia que era com ela que gostaria de passar minhas horas, meus dias, minha vida.

Nada disso teria acontecido sem o Seu Oswaldo.

Sou grato a ele por ter nos dado a dádiva de nos permitir ajudá-lo e, ao ajudá-lo, nos ajudar, nos encontrar, nos amar.

Presentear às outras pessoas com a chance de praticar a generosidade também é um presente generoso que lhes damos. Indo ou vindo, generosidade sempre faz bem.

Obrigado, seu Oswaldo. » leia o texto completo «

História de um celular

Um monge zen estava acompanhando uma pessoa enferma.

Em um dado momento, a pessoa ficou agitada, apreensiva, nervosa.

O monge lhe deu a mão e disse:

“Pode ficar tranquila. Está tudo seguindo seu curso. Não há nada a temer. Você só está morrendo.”

* * *

Essa história me inspira, acalenta, conforta.

Quinta feira, 8 de novembro de 2018, perdi meu pai. » leia o texto completo «

Liberdade no vazio

Dentre as muitas armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos e escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas, poucas podem ser mais unânimes (especialmente no Ocidente) do que a ilusão de que, dentro de cada uma de nós, existiria uma essência maior do que a soma de nossas partes: o Eu.

Nossa prática zen não consiste em “abandonar o Eu” — porque o Eu não existe e não temos como abandonar algo que não existe — mas sim em desapegar dessa ilusão que criamos para buscar o prazer e evitar a dor, dessa ilusão que nos venderam para poderem vender a ela automóveis e pasta de dente.

Não é que eu, aqui, pessoa concreta, de carne e osso, falando essas palavras nesse exato minuto, e você, ouvindo essas palavras nesse exato minuto, não tenhamos existência física, concreta, real.

(Afinal, eu sinto, eu sei que estou aqui e você sente, você sabe que está aí.)

Mas essa entidade que chamo de Eu — que me parece tão maior e mais transcendental do que apenas a mera soma de “meus” membros, “meu” corpo, “minha” consciência, “meu” nome — é apenas um conceito que não possui existência permanente e autônoma, uma coleção de características contingentes e fortuitas sem nenhum tipo de essência intrínseca.

Nossa consciência é formada por um contínuo de experiências ao qual damos um nome. Por razões práticas, faz sentido distinguir uma pessoa da outra – sou o João da Silva porque não sou nem o Chico Buarque nem a Joana d’Arc.

Da mesma maneira, distinguimos um rio do outro: o Rio Amazonas e o Rio Paraíba do Sul são dois rios diferentes porque nascem em pontos diferentes, correm por trajetos diferentes, contêm águas de composições químicas diferentes, deságuam em pontos diferentes.

Entretanto, por mais reais e concretos que sejam esses caudalosos rios, eles não possuem qualquer essência: como até os gregos antigos sabiam, não se banha duas vezes no mesmo rio. Suas águas literalmente nunca são as mesmas.

Tudo é contingente: somos pessoas únicas não porque temos uma pretensa essência metafísica (o Eu!) qualitativamente diferente da essência metafísica das outras entidades que não-são-o-meu-Eu, mas sim porque surgimos a partir de condições únicas e de circunstâncias irrepetíveis.

Se conseguimos desapegar de nosso Eu, se conseguimos nos libertar da obrigação absorvente de cuidar e proteger essa frágil entidade dentro de nós (“será que construí o suficiente em vinte e cinco anos de vida?”, “será que as pessoas gostam mesmo de mim?”, etc etc), então, poderemos finalmente levantar os olhos, perceber as pessoas à nossa volta e nos dar conta de que elas também estão sofrendo.

Desapegar do nosso Eu não nos impede de militar em causas sociais ou de lutar para transformar a realidade.

Pelo contrário, ao eliminar a importância excessiva que damos a nós mesmas em relação às outras pessoas, o nosso potencial de engajamento político é finalmente desbloqueado, realizado, magnificado.

Se o nosso Eu tivesse uma essência, então nossa natureza nunca poderia mudar: o fato de o nosso Eu ser vazio de existência intrínseca é justamente o que nos permite a liberdade de nos reconstruir, recriar, reinventar.

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Patriotismo vs nacionalismo, ou vice-versa

Poucas operações retóricas são mais arbitrárias do que tentar diferenciar “patriotismo” de “nacionalismo”…

como se fossem diferenciáveis…

como se um fosse positivo e o outro negativo. » leia o texto completo «

Um retiro em um hospital espanhol

Passei a última semana em um quarto de hospital em Madri, cuidando do meu pai. Com exceção de uma breve ida ao Museu del Prado para ver as Pinturas Negras de Goya, fiquei todo o tempo no hospital. » leia o texto completo «

Serão os negros criminosos?

Os negros não são a maioria dos criminosos, mas a maioria dos presos por crimes.

* * *

Em discussões sobre racismo, de vez em quando me desafiam:

“Alex, não é um fato inquestionável que a maioria dos criminosos são negros?”

Não, não é. Nem perto disso. » leia o texto completo «

O Brasil, enlouquecido

Em qual momento você percebeu que o Brasil tinha enlouquecido?

Para mim, foi 16 de março de 2016.

Eu estava em Matanzas, Cuba, lançando um livro na Feira Internacional do Livro, e o Moro liberou os áudios de gravações ilegais entre um ex-presidente e a atual presidente.

Já havia uma crise política em andamento, naturalmente. Mas era uma crise política feijão com arroz, parecia a velha crise politica de sempre.

Então, isso!

(Naturalmente, o fato político relevante não foi o ato individual do Moro — juiz doido sempre existiu — mas metade do Brasil aplaudir e ele não ter sido imediatamente preso e execrado.)

Talvez, pra mim, tenha sido mais impactante por estar sozinho no exterior, único brasileiro entre centenas de editores, escritores, intelectuais, que vinham todos me perguntar:

“¿Que pasa en Brasil, Alejandro?”

E respondi que não sabia.

Que claramente tudo tinha mudado.

Que as regras antigas não se aplicavam mais.

Que, de agora em diante, tudo era possível.

Desde então, confesso, nada mais realmente me surpreendeu.

Enterrei ali meu estoque de surpresas.

E você? Quando foi? » leia o texto completo «

Elogio ao Henfil

Quando eu tinha seis anos de idade, Henfil publicou essa capa na sua revista Fradim, confessando abertando seu tesão por pés femininos. (E publicando cartas das leitoras que lhe enviavam fotos dos pés.)

Não vou nem dizer que abriu caminhos ou horizontes para mim, porque, nessa época, eu ainda era muito pequeno.

Mas, quando fui crescendo, e descobrindo quem eu era, o que eu queria, o que eu gostava, foi extremamente importante para minha autoestima e para minha sanidade que esse caminho já estivesse aberto, que já fosse uma coisa no ramo do possível.

Obrigado, Henfil.

* * *

Meu depoimento:

Elogio aos pés
papodehomem.com.br/elogio-aos-pes

Porque escrever sobre “Prisões”

Só faz sentido escrever sobre Prisões porque as pessoas estão presas.

Um comentário que recebi hoje:

“Alex, tem um aspecto que sempre vejo você desconsiderando nas suas análises, que é o complexo e o medo da rejeição. Não é próprio da sua experiência, não é da sua personalidade, mas é um fator com um peso gigante na vida das pessoas mais inseguras. Eu diria que metade dos adolescentes sofrem primordialmente por isso (eu) enquanto a outra metade se sente no topo do mundo nesta fase (você?). Junto com o aspecto identitário que você descreveu, tem a dor de ser rejeitado pelo parceiro e pelo empregador, de não ser bom o suficiente pra ser amado/aceito/apreciado.”

Se todas as pessoas fossem bem-resolvidas como você acha que eu sou, meus textos perderiam totalmente a razão de ser.

Se eu achasse que todas as pessoas eram bem-resolvidas como você acha que eu sou, eu definitivamente estaria escrevendo outras coisas.

Afinal, pessoas livres, bem-resolvidas, no topo do mundo, etc, não estão procurando textos sobre a Prisão Trabalho, a Prisão Monogamia, etc.

Eu só escrevo sobre Prisões porque

1) eu SEI que a maioria das pessoas é aprisionada por inseguranças galopantes e

2) estou tentando ajudá-las.

Sem qualquer uma dessas duas condições, ou seja, se eu não soubesse como as pessoas são inseguras ou se eu não quisesse ajudá-las, os textos das Prisões simplesmente não fariam sentido e eu teria passado os meus últimos anos fazendo alguma outra coisa.

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As virtudes de não-lutar

Estamos no século III antes da Era Comum. Roma, então somente uma cidade-estado na península itálica, estava em guerra com outra cidade-estado, Cartago (perto da atual Túnis), pelo controle do Mediterrâneo.

Aníbal Barca, um dos grandes generais de todos os tempos, desembarcou um exército de mercenários e elefantes na Espanha, cruzou os Alpes enfrentando mil perigos e penetrou na Itália pelo norte, surpreendendo Roma e suas aliadas.

Durante dezoito longos anos, Aníbal perambulou pela península, vencendo todas as batalhas que travou.

Roma sofreu derrotas achapantes, que teriam derrubado qualquer cidade mais fraca, e que são estudadas até hoje em academias militares pelo mundo, como as de Lago Trasimeno e Canas.

Ainda assim, não caiu.

Por quê? » leia o texto completo «

Elogio às forças armadas

A esquerda precisa urgentemente reatar relações afetivas, intelectuais, estratégicas com as forças armadas.

Defesa, teoria militar, geopolítica, nada disso é “coisa de direita”. Aliás, todas as revoluções populares que tivemos foram ganhas e, depois, mantidas por forças armadas coesas, unidas, eficientes.

(Os escravos do Haiti conquistaram sua independência das armas; Cuba manteve a sua da mesma maneira. Os exemplos são inúmeros.)

As forças armadas não têm lado: elas são do lado de quem estiver lá, ocupando suas patentes, estudando suas questões, articulando suas prioridades.

Se a esquerda hostiliza as forças armadas desde a redemocratização, é natural que elas sejam majoritariamente ocupadas por pessoas de direita. » leia o texto completo «

O que significa nossa bandeira

Uma amiga norte-americana, uns dez anos atrás:

“Alex, sabe qual a coisa que mais amo no Brasil? Na Europa, em qualquer país, se você encontra uma grupo de pessoas enroladas na bandeira nacional, já sabe que não é coisa boa. Nos EUA, as casas com a bandeira hasteada na fachada são sempre de republicanos que apoiam todas as nossas guerras e invasões. No Brasil, não. Aqui, as pessoas vestem a bandeira do Brasil, colocam a bandeira nas havaianas e nas camisetas, vão à praia com a canga da bandeira, e isso não é ameaçador, não é agressivo, não é violento. Aqui a bandeira ainda é linda, positiva, inspiradora.”

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