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Ulisses, Dante, Tennyson, e a Grande Conversa

Um malandro grego, com nome latino, deslido por um florentino que não sabia grego, reinterpretado por um queer britânico, e colocado para servir o império e o capitalismo. Essa é a Grande Conversa.

Um malandro grego da Antiguidade, com nome latino, deslido por um florentino medieval que não sabia grego, reinterpretado por um queer britânico, e colocado para servir o império oitocentista e o capitalismo contemporâneo. Essa é a Grande Conversa.

Ao longo dos séculos e dos milênios, sempre que uma pessoa artista ou pensadora, filósofa ou cientista, cria uma nova obra intelectual, ela está ativamente dialogando com todas as suas predecessoras, seja somando ou reagindo, se opondo ou se juntando. Esse diálogo é o que chamamos de a Grande Conversa. Estudá-la não significa concordar com os valores ultrapassados que a moldaram, mas sim adquirir as ferramentas para moldarmos a Grande Conversa do futuro de acordo com nossos próprios valores, em nossos próprios termos.

Todos os meus cursos são sempre sobre essa grande, maravilhosa, cruel, fascinante conversa. (Você pode conhecê-los melhor aqui.) Abaixo, um exemplo da Grande Conversa em ação.

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* * *

De Odisseu a Tennyson

Na Antiguidade, Odisseu é um heroi grego, que aparece na Ilíada, protagoniza a Odisseia e uma das minhas tragédias preferidas, Filoctetes, de Sófocles. É famoso por ser matreiro e malandro.

Na Idade Média, Dante, apesar de não ter acesso aos gregos, conhecia Odisseu, agora chamado de Ulisses, pelas fontes latinas, e o coloca no Inferno por “dar maus conselhos”.

No Canto 26 do Inferno, Ulisses faz um discurso apaixonado (e soberbo!) de amor pelo conhecimento e pela exploração. É um discurso ambíguo, ainda mais partindo de Dante. Ele aprova ou não aprova?

Por um lado, sabemos que Dante compartilha em boa parte desses valores. Também sabemos que Ulisses foi condenado explicitamente por dar maus conselhos, não por seu amor ao conhecimento e à exploração. Por outro lado, o simples fato do discurso estar sendo dito por um condenado ao inferno já é uma crítica, já sugere que a posição de Ulisses não é 100% válida, positiva, sustentável.

No século XIX, quando Dante começa a ser reabilitado e recanonizado depois de séculos de esquecimento, um poeta inglês, gay, cria um poema de louvor à força e à coragem usando como mote o discurso de Ulisses no Canto 26: “Ulysses” (1833), de Lord Tennyson.

Mais tarde, o poema será muito mal utilizado e se tornará quase que um hino em louvor ao imperialismo britânico — do qual o poema é inocente.

Eu, em minha juventude mais liberal, libertária e direitista, amava esse poema e já soube de cor o final:

“Tho’ much is taken, much abides; and tho’

We are not now that strength which in old days

Moved earth and heaven, that which we are, we are;

One equal temper of heroic hearts,

Made weak by time and fate, but strong in will

To strive, to seek, to find, and not to yield.”

“Mesmo perdendo muito, há muito à frente,

Ainda que como antes não movamos

A Terra e o Céu; O que nós somos, somos;

O mesmo heroico peito temperado,

Fraco por tempo e fado, mas forte a

Lutar, buscar, achar, e não ceder.”

Esses versos são bem pop. Foram citados por M (Judi Dench), chefe de James Bond em Skyfall. Na série Babylon 5 (que eu amo), o novo comandante encontra esse poema em sua mesa quando toma posse da estação, recado do antecessor. São o obituário de Robert Falcon Scott, explorador inglês que morreu em 1912 tentando chegar no Polo Sul. Etc etc.

O trecho final lido por Helen Mirren no programa do Colbert é lindo.

Mas, para vocês verem como o poema continua sendo usado ideologicamente até hoje, a melhor versão completa em áudio que achei pra vocês é de um “instituto para o estudo do capitalismo”.

Hoje, mais de esquerda mas também mais velho, voltei a amar “Ulysses”, pois também é um poema sobre a morte e sobre o que dá pra fazer antes disso.

Abaixo, o poema, no original em inglês, e em uma tradução ao português.

Ulysses

It little profits that an idle king,

By this still hearth, among these barren crags,

Match’d with an aged wife, I mete and dole

Unequal laws unto a savage race,

That hoard, and sleep, and feed, and know not me.

I cannot rest from travel: I will drink

Life to the lees; all times I have enjoy’d

Greatly, have suffer’d greatly, both with those

That loved me, and alone; on shore, and when

Thro’ scudding drifts the rainy Hyades

Vext the dim sea: I am become a name;

For always roaming with a hungry heart

Much have I seen and known; cities of men

And manners, climates, councils, governments,

Myself not least, but honour’d of them all;

And drunk delight of battle with my peers,

Far on the ringing plains of windy Troy,

I am a part of all that I have met;

Yet all experience is an arch wherethro’

Gleams that untravell’d world, whose margin fades

For ever and for ever when I move.

How dull it is to pause, to make an end,

To rust unburnish’d, not to shine in use!

As tho’ to breathe were life. Life piled on life

Were all too little, and of one to me

Little remains: but every hour is saved

From that eternal silence, something more,

A bringer of new things; and vile it were

For some three suns to store and hoard myself,

And this gray spirit yearning in desire

To follow knowledge like a sinking star,

Beyond the utmost bound of human thought.

This is my son, mine own Telemachus,

To whom I leave the scepter and the isle—

Well-loved of me, discerning to fulfil

This labour, by slow prudence to make mild

A rugged people, and thro’ soft degrees

Subdue them to the useful and the good.

Most blameless is he, centred in the sphere

Of common duties, decent not to fail

In offices of tenderness, and pay

Meet adoration to my household gods,

When I am gone. He works his work, I mine.

There lies the port; the vessel puffs her sail:

There gloom the dark broad seas. My mariners,

Souls that have toil’d, and wrought, and thought with me—

That ever with a frolic welcome took

The thunder and the sunshine, and opposed

Free hearts, free foreheads—you and I are old;

Old age hath yet his honour and his toil;

Death closes all: but something ere the end,

Some work of noble note, may yet be done,

Not unbecoming men that strove with Gods.

The lights begin to twinkle from the rocks:

The long day wanes: the slow moon climbs: the deep

Moans round with many voices. Come, my friends,

‘Tis not too late to seek a newer world.

Push off, and sitting well in order smite

The sounding furrows; for my purpose holds

To sail beyond the sunset, and the baths

Of all the western stars, until I die.

It may be that the gulfs will wash us down:

It may be we shall touch the Happy Isles,

And see the great Achilles, whom we knew.

Tho’ much is taken, much abides; and tho’

We are not now that strength which in old days

Moved earth and heaven; that which we are, we are;

One equal temper of heroic hearts,

Made weak by time and fate, but strong in will

To strive, to seek, to find, and not to yield.

* * *

Ulisses

De nada serve a um rei ficar inerte,

No lar quieto, em meio à rocha infértil,

Unido a esposa idosa, eu doo e imponho

Iníquas leis a um bando de selvagens

Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê.

Estou inquieto: Sorverei da vida

A última gota: Sempre gozei muito,

Sofri muito, com todos que me amaram,

E só; em terra firme, ou arrastado

Por negras correntezas irritadas

Pelas Híades: Transformei-me em nome;

Errante sempre, com ardente impulso

Muito vi e conheci; cidades de homens

E costumes, conselhos, climas, regras,

E a mim mesmo, por todos sempre honrado.

Traguei da pugna o gozo junto aos meus,

Longe na Troia dos ventantes plainos.

Sou parte, enfim, de tudo que encontrei;

A experiência é um arco pelo qual

Vislumbro um mundo inexplorado, cuja

Margem se afasta sempre ao meu mover.

Que tolice o parar, o dar um fim,

Enferrujar assim, sem uso e brilho!

Como se respirar fosse viver.

Quão pouco, vidas sobre vidas! Desta,

Pouco resta: mas cada hora é salva

Do que é silêncio eterno, um algo além,

Arauto do que é novo; vil seria

Guardar-me, agrisalhando por três sóis,

A alma cinzenta ardendo por seguir

O saber como um astro que se afoga,

Além do limiar do pensamento.

Este é o meu filho, meu fiel Telêmaco,

Para quem eu relego o cetro e a ilha –

Meu bem-amado, hábil a cumprir

Esse labor, prudente domador

De um povo rude, e mansamente, aos poucos,

Vai sujeitá-los ao que é bom e útil.

Irreprochável, centra-se na esfera

Dos deveres comuns, decente para

Sutis ofícios, prestará tributos

De justa adoração aos nossos deuses

Quando eu me for. Ele obra o dele, eu o meu.

Lá jaz o porto; O barco estufa as velas:

Ensombram grandes mares. Meus marujos,

Almas que lutam, sofrem junto a mim –

Que, jubilosas, acolheram sempre

Trovão e sol ardente, opondo frente

E fronte livres – nós estamos velhos;

Na velhice, persiste a honra e a luta;

A morte é o fim: mas antes, algum feito

Notório e nobre está por se fazer,

Sem impróprios conflitos com os Deuses.

Luzes estão a cintilar nas rochas:

O dia míngua: a lua ascende: o abismo

Gemendo em muitas vozes. Venham, homens,

Não tarda a busca por um novo mundo.

Partam, em ordem todos, e fulminem

As sonoras esteiras; Meu intento

É navegar além-poente, e sob

Estrelas do ocidente, até morrer.

Talvez vorazes golfos nos devorem,

Ou então, nas Afortunadas Ilhas,

Vejamos grande Aquiles, caro a nós;

Mesmo perdendo muito, há muito à frente,

Ainda que como antes não movamos

A Terra e o Céu; O que nós somos, somos;

O mesmo heroico peito temperado,

Fraco por tempo e fado, mas forte a

Lutar, buscar, achar, e não ceder.

(tradução de Rubens Canarim)

* * *

O discurso de Ulisses

Da Divina Comédia, Inferno, Canto 26, na tradução em prosa do meu querido, querido Helder da Rocha, disponível gratuitamente aqui:

Quando descobri que nada podia impedir minha ânsia de viajar e conhecer o mundo, nem ternura de filho ao velho pai, nem o amor da minha Penélope, decidi explorar o mar aberto e profundo, acompanhado de minha tripulação fiel. Passamos da Espanha e Marrocos, e continuamos além dos pilares que por Hércules foram fixados, sinalizando aos homens que daquele ponto não passassem. Navegamos em mar aberto por cinco meses, com a vela sempre à esquerda, até que vimos no horizonte uma enorme montanha. Mesmo distante, apagada e escura, nunca eu vira outra assim tão grande. Mas nossa alegria durou pouco e logo transformou-se em pranto. Da nova terra saiu um grande redemoinho que atingiu a nossa embarcação na popa. Três vezes o barco rodou até que na quarta fomos sepultados nas profundezas do oceano.

Na tradução de Emanuel França de Brito, Mauricio Santana Dias e Pedro Falleiros Heise, da Companhia das Letras:

“Quando

parti de Circe, a qual fez que eu ficasse

mais de um ano lá perto de Gaeta,

antes que assim Eneia a nomeasse,

nem ternura de filho, nem a reta

adoração ao pai, nem mesmo o amor

por alegrar Penélope dileta

puderam superar em mim o ardor

que tive em ser conhecedor do mundo

e dos vícios humanos e o valor;

mas me meti pelo alto-mar a fundo

só com um lenho e os poucos companheiros

aos quais me atava um vínculo profundo.

Até a Espanha vi os dois costeiros,

mais o Marrocos, e avistei Sardenha

e outras ilhas do mar em nevoeiros.

Lentos no rastro que o batel desenha,

éramos velhos ao chegar à estreita

foz onde Hércules pôs a sua senha

pra que o homem além não acometa;

pela direita mão deixei Sevilha,

e Ceuta na outra costa lá se deita.

‘Ó irmãos’, disse, ‘que por esta trilha

correstes riscos rumo ao Ocidente,

pensando nesta tão breve vigília

dos sentidos que o fado nos consente,

não queirais vos negar a experiência

de o sol seguir ao mundo além sem gente.

Ora considerai vossa ascendência:

não fostes feitos pra viver qual brutos,

mas para perseguir virtude e ciência’.

Meus companheiros fiz tão resolutos

com esta oração breve, no caminho,

que logo desejaram ver os frutos;

coa popa pro horizonte matutino,

fizemos com os remos voo insano,

à esquerda conquistando o mar vizinho.

Já as estrelas do outro polo arcano

a noite via, e o nosso ia tão raso,

que não surgia fora do oceano.

Cinco vezes brilhou, cinco em ocaso,

o lume que jazia sob a lua

após termos entrado no alto passo,

quando surgiu uma montanha nua

e escura na distância, alta tanto

quanto jamais eu avistara alg˜ua.

Na alegria, do riso fez-se o pranto;

da nova terra veio um vendaval

e percutiu do lenho o primo canto.

Ele o girou três vezes no caudal;

na quarta então a popa se elevou,

como alguém quis, e a proa foi coa nau,

até que sobre nós o mar fechou”.

* * *

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Um beijo e até a aula,

Alex

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