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François Villon, poeta maldito medieval

Nenhum outro poeta medieval consegue se comunicar conosco com tanta intimidade e urgência.

François Villon é o grande poeta lírico francês da Idade Média, e um dos maiores poetas do mundo. Era jovem, beberrão, criminoso, desesperançado. Nascido em 1432, foi preso por homicídio, quase enforcado, solto e, então, aos 32 anos, desaparece.

Ele passa da sátira burlesca ao pathos cristão sem piscar, e parece conter em si a soma de toda a potência da vida humana, inclusive da nossa, aqui, hoje, mas ainda em um contexto reconhecível como cristão medieval. Nenhum outro poeta da época consegue se comunicar conosco com tanta intimidade e urgência.

Assim como Rabelais, nascido pouco depois de seu desaparecimento, Villon também representa esse momento de virada revolucionária da Idade Média ao Renascimento: ao mesmo tempo em que ainda medieval em seus temas e formas, ele já era, por sua individualidade pulsante, renacentista. (Não à toa é repetidas vezes citado em Gargantua e Pantagruel.)

Seus temas refletem a fascinação crescente com a morte que caracteriza a atmosfera cultural cada vez mais mórbida do final da Idade Média. (Aquele que talvez seja o grande poema medieval espanhol, contemporâneo a Villon, também é uma meditação sobre o morte: “As coplas pela morte de meus pai“, sobre o qual falo na segunda aula da Grande Conversa Espanhola.)

Villon é canônico porque, como todo grande artista, continua se comunicando e dialogando com as novas gerações. Nos séculos XIX e XX, foi apropriado por poetas tão distintos como Rimbaud, Pound e Augusto de Campos, e reinterpretado seja como poeta maldito avant la lettre, seja como precursor dos modernistas e concretistas do XX.

Na aula de hoje do curso Grande Conversa Fundadora, sobre o Gargantua e Pantagruel, de Rabelais, como obra fundadora da língua literária francesa, vou falar um pouco desse grande poeta que é François Villon.

Abaixo, algumas de suas melhores poesias, para ler, ou, se clicar na imagem, para me ouvir declamando.


Balada das Coisas sem Importância

Conheço se há moscas no leite,
Conheço pela roupa o homem,
Conheço o tédio e o deleite,
Conheço a fartura e a fome,
Conheço a mulher pelo enfeite,
Conheço o princípio e o fim,
Conheço pela chama o azeite,
Conheço tudo, menos a mim.

Conheço o gibão pela gola,
Conheço o rico pelo anel,
Conheço o fiel pela sacola,
Conheço a monja pelo véu,
Conheço o porco pela tripa,
Conheço o irmão pelo latim,
Conheço o vinho pela pipa,
Conheço tudo, menos a mim.

Conheço a mula e o cavalo,
Conheço o carro e a carreta,
Conheço a galinha e o galo,
Conheço o sino e a sineta,
Conheço a flor pelo talo,
Conheço Abel e Caim,
Conheço o pote e o gargalo,
Conheço tudo, menos a mim.

Ofertório
Príncipe, conheço tudo em suma,
Conheço o branco e o carmim,
E a morte que o fim consuma.
Conheço tudo, menos a mim.

(trad: Ferreira Gullar)


Balada dos Enforcados

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era cara viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis-
Nos de pelos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

(tradução: Augusto de Campos)


Primeira balada em jargão

Na grande festa da capital,
Onde cinco ou seis mártires,
Por anjos de guarda capturados,
São curtidos e enforcados,
Malandro tem lugar de destaque,
Exposto à chuva e ao vento.
Escapa ao centro de detento!
Ladrão de orelha amputada
Some no nada em momentos.
Foge, foge ao cadafalso!
Cai fora da calçada,
Mete o pé na estrada,
Desvanece qual fumaça.
Ou pro altar vai casado,
Branco igual um saco de cal.
Mas se for identificado,
Livre-se dos olheiros,
E não dá passo em falso,
Ou seus punhos são presos…
Foge, foge ao cadafalso!
Pendura logo a gazúa
Ou dorme em palha dura,
Agrilhoado, na clausura,
Atrás de sólido muro.
Desaparece, não seja burro
Que o grande Can lhe pendura.
Não vacila, não se ilude,
Pra enrolar o cabaço
Doura sempre a pílula.
Foge, foge ao cadafalso!
Príncipe, não dorme no ponto,
Se está de olho o tonto,
Melhor apertar o passo,
Ou pro pior fica pronto,
Foge, foge ao cadafalso!

(trad. Daniel Padilha Pacheco da Costa)


Epístola aos amigos

Tende piedade, ó tende piedade
Ao menos vós, amigos mais sentidos!
No fosso estou, e sem amenidades
Cá neste exílio ao qual fui remetido
Pela sorte, e por Deus foi permitido.
Moças, amantes, jovens e donzéis,
Saltimbancos girando sobre os pés,
Gargantas-guizos como cascavéis,
Fica o pobre Villon sob os grilhões?

Cantores livres, soltos, à vontade,
Galantes palradores desmedidos,
Biltres sem ouro falso ou de verdade,
Seres de tanto espírito aturdido,
Tardais muito, porque morre estendido!
Com rondós e motetos, menestréis,
Dai-lhe, ao morrer, um bom caldo, ao invés!
Onde está, não vão raios, turbilhões:
Muros espessos são vendas cruéis.
Fica o pobre Villon sob os grilhões?

Vinde vê-lo em atroz calamidade,
Nobres homens, sem tributos retidos,
Que sois livres de império e majestade,
E só a Deus no céu sois prometidos.
Terça e domingo são jejuns batidos
E tem os dentes mais longos que ancinhos;
Após pão seco – e nada de pastéis –
Corre nas tripas água aos borbotões.
Jaz no solo, sem mesa e sem tripés:
Fica o pobre Villon sob os grilhões?

Príncipes raros, velhos ou donzéis,
Dai-me o selo real sobre os papéis
E tirai-me em canastra dos porões;
Até os porcos juntos são fiéis:
Se um ronca, seguem outros em tropéis.
Fica o pobre Villon sob os grilhões?

(tradução: Sebastião Uchoa Leite)


Balada do concurso de Blois

Morro de sede quase ao pé da fonte,
Quente qual fogo, mas batendo os dentes;
Em meu país vivo além do Horizonte;
Junto a um braseiro tremo e fico ardente;
Nu como um verme. O traje: um presidente;
Rio no pranto e espero sem esperança;
Conforto acho na desesperança,
E alegro-me sem ter prazer algum;
tenho o poder sem força ou segurança;
E sou bem vindo a todos e a nenhum.

Só me é certo algo com que eu não conte;
nada é obscuro, exceto o que é evidente;
E sem dúvidas, fora as que defronte,
Tomo a ciência por mero acidente;
Conquisto tudo e fico dependente
Digo “Boa noite” se a aurora avança;
Deito-me sem controle em confiança;
Tenho alguns bens, mas sem vintém algum;
Sou um herdeiro mas ser ter herança,
E sou bem-vindo a todos e a nenhum

Descuido-me de tudo e suo a fronte
Para ter bens, sem ter um pretendente;
Com quem mais me afague, me confronte,
Quem mais me é veraz é quem mais mente;
É meu amigo que diz procedente
De um cisne alvo e um corvo a semelhança;
Em quem me nega enxergo uma aliança;
A patranha e a verdade acho comum;
recordo tudo sem a menor lembrança
E sou bem-vindo a todos e a nenhum.

Príncipe brando: se isso não vos cansa,
De tudo eu sei, e a mente não alcança;
Sou faccioso e sigo a lei comum.
Que faço? O Quê? Dos meus bens a cobrança,
E sou bem-vindo a todos e a nenhum.

(tradução: Sebastião Uchoa Leite)


Balada da Gorda Margô

Se eu amo e sirvo a dona de bom grado,
Tomar-me-ão por vil, paspalho e tudo?
Ela dá conta de qualquer recado,
Por seu amor cinjo punhal e escudo.
Quando vem gente, eu me despacho, grudo
Um pichel de vinho e me viro na moita, não
Sem dar água, queijo, fruta e pão.
Digo (se pagam bem): “Nomine Figlii,
E voltem sempre às ordens do tesão,
A este bordel, que é o nosso domicílio!”
Não tarda muito, e eis-me de humor amargo,
Se sem dinheiro ela me vem pro quarto:
Não a suporto, quero vê-la morta:
Faço a pilhagem nos seus quatro trapos
E juro me pagar por conta e encargo.
Pego-a por trás e ela: “Anticristo!”
– Jura por Nosso Senhor Jesus Cristo
Que não dará. Passo a mão num porrete
E lhe gravo na estampa um bom lembrete,
Neste bordel, que é o nosso domicílio.
Mas vem a paz, e ela me vem com um bruto
Peido, mais venenoso do que um bafo
De onça. Rindo, me acerta um squiafo no
Coco, diz: “Vem, filhote”, e abre o pernão.
Então, dormimos como um pau, briacos.
Margô desperta, o ventre lhe ronrona,
E monta em mim: desatrofia o anão,
De milho em milho me debulha o saco.
De tanto putear, fico na lona,
Neste bordel, que é o nosso domicílio.
Tenho o pão quente – vente, chova ou neve.
Sou putanheiro e puta não faz greve:
Quem vale mais, se não se vê a mais leve
Diferença de brilho – se a tal mãe, tal filho?!
Amor ao lixo – e o lixo vem atrás;
Desprezo à honra – e a honra é mais voraz,
Neste bordel, que é o nosso domicílio.

(tradução: Décio Pignatari.)


Balada das damas dos tempos idos

Dizei-me em que terra ou país
Está Flora, a bela romana;
Onde Arquipíada ou Taís,
que foi sua prima germana;
Eco, a imitar na água que mana
de rio ou lago, a voz que a aflora,
E de beleza sobre-humana?
Mas onde estais, neves de outrora?
E Heloísa, a mui sábia e infeliz
Pela qual foi enclausurado
Pedro Abelardo em São Denis,
por seu amor sacrificado?
Onde, igualmente, a soberana
Que a Buridan mandou pôr fora
Num saco ao Sena arremessado?
Mas onde estais, neves de outrora?
Branca, a rainha, mãe de Luís
Que com voz divina cantava;
Berta Pé-Grande, Alix, Beatriz
E a que no Maine dominava;
E a boa lorena Joana,
Queimada em Ruão? Nossa Senhora!
Onde estão, Virgem soberana?
Mas onde estais, neves de outrora?
Príncipe, vede, o caso é urgente:
Onde estão elas, vede-o agora;
Que este refrão guardeis em mente:
Onde estão as neves de outrora?

(trad: Modesto de Abreu)

* * *

A aula sobre Gargantua e Pantagruel, François Rabelais e o francês como língua literária do curso Grande Conversa Fundadora acontece hoje, às 19h, e sim, ainda dá tempo de você participar ao vivo. (As aulas ficam todas gravadas.) Mais detalhes aqui.

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