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Quando começa a carreira de uma artista

Sempre que vejo uma artista celebrando tantos anos de carreira, penso: “Que lindo, mas por onde começaram a contar?”

(Quero muito saber sua opinião. Para falar comigo, é só responder esse email ou deixar um comentário.)

Sempre que vejo uma artista celebrando tantos anos de carreira, penso:

“Que lindo, mas por onde começaram a contar?”

Assim como não sei com quantas pessoas transei porque não consigo definir o que é sexo, também não saberia marcar o início da minha carreira.

Talvez alguém ache que estou contando vantagem. Não estou não. Não tem nada pra contar vantagem na minha carreira literária, lenta, cheia de desvios e falsos começos, mal e mal existente. Mas utilizo minha vida como exemplo para a discussão maior e mais interessante:

Quando começa a carreira de uma artista?

Se vocês tivessem que escolher quando começa a minha carreira, qual opção escolheriam?

1986:

Decido ser escritor e começo a escrever religiosa e rigorosamente, diária e disciplinadamente.

(Ou seja, o começo é quando a artista decide que começou, independente de qualquer outra coisa. Um ato de vontade.)

1988:

Ganho meu primeiro prêmio literário e, consequentemente, meu primeiro dinheiro como escritor.

(Ou seja, o começo é quando a artista ganha seu primeiro dinheiro ou sua primeira distinção formal.)

1989:

Ganho um daqueles concursos literários caça-níqueis de editoras mercenárias onde o “prêmio” é pagar pra sair em uma antologia. (Caí no truque pela primeira e única vez porque era criança e os pais fizeram questão de pagar. Qual é a justificativa das outras pessoas, não sei.)

(Ou seja, o começo é quando a artista, nesse caso escritora, é pela primeira vez publicada em livro impresso. Quando seu trabalho ganha realidade concreta no mundo.)

1990:

Começo a editar o jornal da escola, onde escrevo cerca de 70% do conteúdo. Eram somente 200 cópias, em uma escola de mil alunas, e as pessoas literalmente brigavam pelos exemplares, faziam escambo, revendiam.

(Ou seja, o começo é quando a artista começa a ver e sentir na pele, concretamente, o efeito de sua arte no seu público.)

1994:

Publico na revista Mad pela primeira de muitas e muitas vezes, com o pseudônimo Xandelon, começando a fase onde ganho dinheiro regularmente e pago minhas contas escrevendo. Seria lá também o meu primeiro emprego, como Editor de Texto.

(Ou seja, o começo é quando a artista passa a ganhar dinheiro regularmente em troca de seu trabalho ou, no caso de escritoras, a ser regularmente publicado na imprensa escrita.)

2002:

Termino Mulher de um homem só, crio meu site de escritor e libero o romance para downloads gratuitos. Serão trinta mil, em quatro anos.

(Ou seja, o começo é quando a artista termina sua primeira obra de verdade e ela começa a ser consumida pelo público.)

2003, março:

Fundo o blog LLL, que já faz sucesso no primeiro ano, e cria um grupo de pessoas leitoras que sabe quem eu sou e que leem as coisas que escrevo porque fui eu que escrevi — não parece, mas esse porque é muito, muito importante.

(Ou seja, o começo é quando a artista cria seu próprio público.)

2003, dezembro:

Começo a assinar coluna de internet no Tribuna Bis, caderno de cultura da Tribuna da Imprensa, jornal diário carioca. A coluna depois vira de crônicas e dura até o fim do jornal, em dezembro de 2008.

(Ou seja, o começo é quando a artista, nesse caso escritora, começa a publicar regularmente coluna assinada na imprensa escrita.)

2006:

Depois de milhares de downloads gratuitos, começo a vender um dos meus livros como ebook, Onde perdemos tudo, que é resenhado muito positivamente por Miguel Sanches Neto, no Prosa & Verso, de O Globo.

(Ou seja, o começo é quando o público começa a pagar para consumir a obra de uma artista porque a conhece e a acompanha, ou quando a artista é finalmente resenhada elogiosamente por um caderno cultural canônico da imprensa.)

2007:

Autopublico, pela Os viralata, meu primeiro livro impresso, uma coletânea do blog, Liberal Libertário Libertino.

(Ou seja, o começo é quando a artista, nesse caso escritora, finalmente estreia em livro de papel de autoria individual.)

2008:

Publico primeiro ensaio acadêmico sobre literatura na revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea.

(Ou seja, o começo é quando a artista começa a teorizar publicamente sobre sua arte em veículo acadêmico conceituado e reconhecido.)

2009:

Auto-publico, pela Os viralata, meu romance Mulher de um homem só. Faço tanta fanfarra que consigo um pouco de cobertura na imprensa, o livro vende muito bem e ganho até dinheiro de verdade.

(Ou seja, o começo é quando a arte começa a dar lucro para a artista.)

2011, julho:

Abandono doutorado no exterior, volto ao Rio de Janeiro em definitivo e começo a vender meus textos para o portal PapodeHomem, efetivamente ganhando a vida com meu trabalho.

(Ou seja, o começo é quando a artista, na prática, tira o seu sustento da sua produção artística.)

2011, outubro:

É publicado meu primeiro livro por uma editora pequena mas de verdade: Onde perdemos tudo, pela Oficina Raquel.

(Ou seja, o começo é quando a artista, nesse caso escritora, publica seu primeiro livro impresso, de autoria individual, por uma editora de verdade.)

2012:

Alguns de meus textos publicados no portal PapodeHomem batem a marca de um milhão de visualizações.

(Ou seja, o começo é quando a artista finalmente começa a atingir um público numericamente expressivo.)

2013:

Começo a fazer os encontros As prisões, que depois se tornam os encontros e as imersões As prisões: Práticas de Atenção, uma instalação artística realizada nas cinco regiões do Brasil, para quase duas mil pessoas, ao longo de seis anos.

(Ou seja, o começo é quando a artista, nesse caso performer, pega a estrada com sua arte e a leva para onde o público está.)

2016:

Minha edição da Autobiografia do poeta-escravo é publicada em Cuba. Sou um dos autores convidados da Feira Internacional do Livro de Havana.

(Ou seja, o começo é quando a artista começa a atingir públicos de outras culturas e idiomas.)

2018:

Meu livro Autobiografia do Poeta-Escravo é uma das obras selecionadas pelo PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), vendendo mais de 90 mil exemplares e sendo distribuído para escolas de todo Brasil.

(Ou seja, o começo é quando a obra de um artista ganha capilaridade escolar.)

2019, março:

Meu livro Atenção. é publicado pela editora Rocco, nos formatos impresso, ebook e audiolivro, com lançamentos em cinco capitais do Brasil.

(Ou seja, o começo é quando a artista finalmente recebe o aval institucional de uma organização de primeira linha reconhecida nacionalmente.)

2019, junho:

Estréia a minha peça Outrofobia, em Curitiba, ficando em cartaz dois meses.

(Ou seja, o começo é quando a artista, nesse caso dramaturga, finalmente encena o seu primeiro texto.)

* * *

Para muitas pessoas, o verdadeiro começo da carreira de uma escritora seria justamente o último: publicar livro por uma editora grande, nacional.

Mas esse último vem depois de trinta e cinco anos de esforços.

Esses esforços foram só os preparativos para a jornada que, de fato, começa apenas em 2019?

Ou, quem sabe, os preparativos são a jornada?

Onde está o começo?

Onde começa a carreira de uma escritora?

Minha pergunta concreta é: se vocês fossem “celebrar” minha carreira de escritor, começariam a contar por qual ano?

(Para me dizer o que acha, basta ou responder esse email, caso tenha recebido o texto por email, ou deixar um comentário abaixo, caso esteja lendo no site.)

* * *

Se gosta do que escrevo, se acompanha minha carreira, se já fiz diferença na sua vida, por favor, considere se tornar mecenas. Você não me deve nada, todos os meu textos são oferecidos de graça, mas é bonito, possibilita minha produção artística e eu te agradeço. :)

* * *

Quando começa a carreira de uma artista um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 30 de julho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/carreira-de-artista // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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