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Tersites, um criador de caso da Ilíada a Shakespeare

Tersites, da Ilíada aos Lusíadas, de Shakespeare a Brecht, é o primeiro criador de caso da literatura. (Guia de leitura para o curso Introdução à Grande Conversa)

Tersites é tudo que os herois homéricos não são, que ninguém mais é, que até então não existia. Tersites é uma figura que acaba de surgir na história humana: agitador popular e revolucionário marxista, um revoltado e um silenciado, o primeiro anarquista e o primeiro protestante. Um criador de caso que não sabe o seu lugar, um homem do povo que diz que o rei está nu. Um teórico da conspiração, um herói da classe trabalhadora. Tersites é aquilo que somente então se torna concebível.

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O vilão da Ilíada

Na Ilíada, não existem nem bons, nem maus. Só existem pessoas lutando e sofrendo, matando e morrendo. Por uma escolha narrativa consciente, todos os personagens (com uma exceção) são retratados de maneira carinhosa e compassiva, empática e respeitosa. Sabemos que é uma escolha, pois as mesmas personagens serão retratadas de maneira bem mais negativa pela tradição posterior.

Para a voz narrativa do poema, o mau não é aquele que nos causa dano, que tenta nos matar no campo de batalha, que pretende destruir nossa cidade, mas aquele que é vil, que é desprezível.

O maior inimigo do herói épico não é o seu adversário heróico no campo de batalha, mas sim o homem sem honra.

Ou seja, Tersites.

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Quem era Tersites

Politicamente falando, a Ilíada é a história de uma quebra na liderança dentro de uma elite que conduzia uma guerra. No momento de maior perigo para o projeto dessa elite, quando as massas estão querendo largar tudo e voltar para casa, um tal Tersites se levanta, denuncia a injustiça na divisão do butim entre nobres e soldados, e defende simplesmente abandonarem o grande líder para lutar sua guerrinha por conta própria. (Veja o trecho completo ao final desse texto.)

Quem era esse homem?

Em uma obra onde a beleza física é sempre inextricavelmente ligada ao caráter, a feiura deformada de Tersites já demonstrar, além de qualquer dúvida, a deformidade de sua personalidade.

Tersites era nobre ou não? Parece que não, pois não é dado o nome do seu pai, nem seu local de nascimento. (Ele literalmente não é ninguém, filho de ninguém, de nenhum lugar.)

Mas pode ser que sim, pois, segundo algumas fontes, só nobres podiam fazer prisioneiros. Tersites fala na assembleia, o que também é prerrogativa dos nobres. Por outro lado, é brutalmente silenciado — o que pode indicar que, talvez, não pudesse falar.

A Ilíada é um poema de muitos discursos e contradiscursos. Mas, de todos os personagens que se levantam para falar, ninguém sofre nem remotamente o que sofre Tersites.

Um heroi se manifesta em atos e palavras. Tersites, que não é heroi, não tem atos, só palavras. Ulisses, heroi de atos e palavras, marca sua diferença para Tersites respondendo-o somente com atos. Se Tersites fosse um igual, Ulisses teria usado sua lábia para convencê-lo. Como não é, usa o cetro de Agamenon para golpeá-lo. (Ao não responder a nenhum de seus argumentos, Ulisses só indica o seu cuidado de não validar de nenhuma maneira a interpelação de Tersites.)

Aliás, as linhas logo anteriores mostram Ulisses praticando exatamente essa distinção: admoestando os nobres com palavras, batendo nos homens do povo com seu cetro.

(Alguns autores, como Finley, em O mundo de Ulisses, alegam que o cetro de Agamenon, como líder da expedição, funcionaria como um bastão de fala, ou seja, passaria de mão em mão e estaria sempre de posse da pessoa que estivesse em posição de falar. Então, se não estava com Tersites, é porque ele, por definição, estava falando fora de hora, sem autorização.)

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A fala de Tersites

Ao tomar a palavra, no Canto II, Tersites faz rigorosamente o mesmo argumento de Aquiles no Canto I. Por que só ele apanha?

Uma explicação, naturalmente, é que estava falando fora de hora. Outra explicação é que, como homem do povo, feio e desprezível, não havia como Tersites estar certo, por mais certo que estivesse. Ele apanha não pelo que diz, mas por ser quem é.

Apesar de usar os argumentos de Aquiles, Tersites não fala em seu nome nem defende-o. Pelo contrário, a voz narrativa deixa claro que Tersites sempre criticava Aquiles e que o herói lhe odiava. Talvez mais importante, o poema enfatiza também que essa não era uma intervenção isolada: Tersites tinha uma fala desmedida e estava sempre vilipendiando os nobres.

De certa maneira, não é que o discurso de Tersites usa os mesmos argumentos ou ecoa o de Aquiles: ele parodia, satiriza Aquiles. Os argumentos de Aquiles, por mais certos que estejam, perdem força retroativamente ao serem repetidos por alguém tão indigno quanto Tersites. Ao ecoar Aquiles, Tersites está atacando-o mais uma vez, como sempre faz.

Simone Weil, em Ilíada, o poema da força, comenta que os discursos de Tersites eram razoáveis em altíssimo grau, mas, em uma sociedade como essa, “palavras razoáveis sempre caíam no vazio” e, pior, se vinham de um inferior, eram caladas na porrada.

Naturalmente, Tersites é calado na porrada, ao fazer os mesmos argumentos de Aquiles, porque ele era possível de ser calado na porrada: Aquiles, não. De certo modo, Ulisses dá em Tersites todas as porradas que queria, e jamais poderia, dar em Aquiles.

Tersites sai chorando e, por fim, diante disso, os próprios colegas soldados se voltam contra ele. “Assim falava a multidão”, diz o poema, encerrando o episódio.

Para René Girard, é o sacrifício de um bode expiatório escolhido unanimente que resolve a crise social. O que é Tersites, se não isso? Os gregos estavam à beira do caos, desiludidos e desobedientes, morrendo de peste e sendo atacados por troianos, prestes a largar tudo e voltar. Ulisses, andando por entre os homens e tentando animá-los, se depara com Tersites. Longe de ter qualquer responsabilidade pela crise, Tersites toma a palavra, dando voz às insatisfações dos soldados. Ulisses, prontamente, reverte a situação, não responde Tersites, lhe aplica uma surra e lhe oferece às tropas como se fosse ele o culpado da crise que ele mesmo denunciou. Apesar de humilhadas e desenganadas, as tropas riem subservientemente, a crise passa, o bode expiatório some. (Falo mais sobre essa teoria de Girard aqui.)

Assim como Ulisses bate em Tersites porque não pode bater em Aquiles, os pobres soldados, subservientes e humilhados, se voltam contra Tersites, pois não podem se voltar nem contra Ulisses nem contra Agamenon.

E assim sai de cena o primeiro agitador político da história, renegado pelos seus, mas não esquecido.

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Um silenciamento pedagógico

A nobreza só pode existir, ser obedecida, ser temida, enquanto se levar e for levada extremamente a sério. Como disse Kafka, “contra uma piada não há argumentos”.

Se a situação grega não estivesse tão frágil e periclitante, a ideia de voltar para casa não teria se alastrado tão rapidamente.

Ulisses bate violentamente em Tersites porque sabe, mais do que ninguém, o potencial destrutivo demolidor de uma voz zombeteira e ressentida que fala livremente contra os privilégios estabelecidos.

O único outro homem pobre que tem voz nos poemas homéricos é o porqueiro Eumeu, que nasceu nobre, é sequestrado e termina a vida escravo fiel de Ulisses e o ajuda em seus planos na Odisseia. Não é difícil de imaginar o que Ulisses teria feito com o porqueiro se ele, tal como Tersites, não soubesse o seu lugar.

Seu silenciamento, tão cedo no poema, ajuda a dar o tom de toda a ação posterior: estabelece ser a Ilíada um história de heroísmo e não de ativismo, de nobres e não de plebeus. O silenciamento de Tersites é tão radical porque ele já pré-explica todos os próximos silenciamentos que, graças a ele, não precisam nem mais ser mencionados. Já sabemos como serão tratadas as objeções e reclamações dos meros soldados rasos: podemos presumir que as seguintes, caso aconteçam, serão despachadas da mesma maneira brutal.

Tersites termina silenciado, derrotado, humilhado, mas obtém uma vitória acachapante e duradoura: ele quebra a unanimidade heroica, nobre, aristrocrática do poema. Sem ele, não haveria nem uma única voz dissonante. Sem ele, nem saberíamos que havia, que era possível haver, vozes dissonantes.

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A igualdade concebível

Tersites não é alguém para ser admirado, um heroi com quem dialogar, uma pessoa com família: ele é uma encarnação do medo que a aristocracia tem do povo. Não seria exagero afirmar que o maior inimigo dos gregos não é Troia, não é Heitor, não é Apolo: é Tersites.

Ao final do episódio, as estruturas de classe, de poder, de hierarquia, estão fortalecidas, os nobres conseguiram o que queriam, a guerra vai continuar. Final feliz.

Mas Tersites, apesar de não mais mencionado, não foi esquecido. Ao silenciar Tersites, o poema lhe dá voz. Ao esquecê-lo, o poema salva-o do esquecimento. Três mil anos depois, aqui estamos nós falando dele.

A mesma voz literária que humilha e silencia Tersites não deixa de reconhecer que estava certo (ou, ao menos, tão certo quanto Aquiles) em tudo o que disse. Não só ele defendeu a mesma opinião do maior heroi da Grécia, como também, depois de sua surra, ainda são necessários mais dois discursos, de Ulisses e de Nestor, para convencer as tropas. Sabemos que não está errado, que não é burro, que sabe falar.

Em um mundo onde já havia o conceito de igualdade (pelo menos, entre os nobres; pelo menos, para a divisão do butim), Tersites é a primeira voz que se ergue para dizer: e se essa igualdade se estendesse também aos soldados?

O poema, mesmo completamente imerso nas estruturas de poder da aristocracia, demonstra que consegue enxergar além delas. A característica mais importante da interpelação de Tersites é o simples fato de a igualdade entre homens agora ser concebível — nem que apenas para ser então desprezada.

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O Tersites de Shakespeare

Alguns séculos depois, Shakespeare resolve dar nova voz a Tersites, dessa vez como um bobo da corte ultrajante insuportável.

Troilo e Créssida (1601) é uma das melhores e mais injustamente esquecidas peças de Shakespeare. Assisti-la na sequência da Ilíada é uma excelente demonstração de como a mesma história pode ser contada de formas tão radicalmente diferentes.

Na Ilíada, todos os personagens (com a exceção de Tersites) estão em sua melhor forma: são sempre mais nobres, mais bem-comportados, mais bem-intencionados do que no resto da mitologia grega. Já em Troilo e Créssida, todos esses mesmos personagens estão em sua pior forma: ninguém presta, todos mentem, não há herois, só canalhas. (Ironicamente, Tersites é novamente a exceção: como centro moral da peça, apenas ele tem coragem e impertinência de dizer as duras verdades.)

Aquiles e seus mirmidões, por exemplo, flagram Heitor desarmado no campo de batalha, e o troiano diz:

“Desarmado me encontro. Não te valhas, grego, dessa vantagem.”

Mas o Aquiles de Shakespeare não é o de Homero: não só manda que seus homens matem Heitor (não é nem mesmo ele que faz o serviço) como se gaba depois:

“Cantai com bem vigor: “Matou Aquiles o possante Heitor!”” (V, viii)

Se é impossível confiar naqueles velhos herois de antigamente, quem nos restou? Somente Tersites, desagradável e enlouquecido, único personagem que não está nem se enganando, nem enganando ninguém. A peça é tão desconfortável pois sua principal voz é tão incômoda.

Tersites quem tem a insensatez de resumir o enredo nas seguintes palavras:

“Quanta palhaçada! Quanta falsidade! Quanta velhacaria! E a causa de tudo isso, um cornudo e uma prostituta. Bonita querela, para suscitar partidos contenciosos e sangrá-los até a morte. [Q]ue a luxúria e a guerra confundam a todos.” (II, iii)

Duas vezes, ele é chamado para o combate e foge.

Na primeira, Heitor pergunta se ele é “de honra ou posição” e Tersites responde: “sou um biltre, um lacaio injuriador, um tipo crapuloso”, ao que Heitor rebate: “Acredito no que dizes; vive.” (V, iv)

Em uma das últimas cenas, um dos filhos bastardos de Príamo novamente tenta combater Tersites e ele responde:

“Também sou bastardo. Gosto de bastardos. Sou bastardo por nascimento, bastardo por nutrição, bastardo nas ideias, bastardo no valor, ilegítimo em tudo. Um urso não morde outro; por que há de fazê-lo um bastardo? Toma cuidado. A batalha é nefasta para nós. Bater-se um filho de prostituta por causa de outra prostituta é chamar sobre si condenação eterna. Adeus, bastardo.” (V, vii)

Tersites, na Grécia Arcaica, era mero figurante. Dois mil anos depois, na Inglaterra elizabetana, já é protagonista.

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Tersites marxista

Alguns séculos mais tarde, em 1830, na introdução de A razão na História, Hegel cunha o termo “tersitismo”:

“O Tersites de Homero, que critica os reis, é uma figura de todos os tempos. Sem dúvida, não recebe em todas as épocas as bastonadas que levou nos tempos homéricos; mas a sua inveja, a sua obstinação é o espinho que tem cravado na carne; e o verme indestrutível que o corrói é o tormento de ver que as suas excelentes intenções e censurazinhas são de todo infrutíferas no mundo. É possível também ter uma alegria maligna no destino do tersitismo.”

Na opinião de Hegel, portanto, o tersitismo era um fenômeno negativo, originário do ressentimento e que nunca daria bons frutos.

Para Marx, naturalmente, talvez o mais famoso dos hegelianos, o tersitismo não era nem poderia ser negativo. A arte era, ao mesmo tempo, uma distorção ideológica que escondia a brutal natureza da história, mas também, uma ferramenta que tornava a história passível de ser pensada e concebida. Tersites, assim, simbolizava o potencial da poesia e da sátira, da literatura e da arte, de criticar a ideologia dominante e efetivamentre criar uma nova prática revolucionária. (Cobrindo a política britânica para o New York Daily Tribune, Marx mencionava Tersites com frequência.)

Em 1847, um jornalista, envolvido em uma longa polêmica com Marx, comparou-se a Heitor e caçoou do adversário: pensava que Marx era um “Aquiles comunista” mas ele não passava de um “Tersites”. Marx não titubeou: trocando o Tersites de Homero pelo de Shakespeare, rebateu:

“Bem, se você está combatendo Tersites, então, não é Heitor, mas Ajax.”

Em Troilo e Créssida, ao destruir Ajax verbalmente, Tersites lhe diz:

“Se começares a bater em mim, vou grudar-me em teus calcanhares e dizer o que és, polegada por polegada, sujeito sem entranhas!” (II, i)

O projeto de Marx ataca a civilização burguesa da mesma maneira, da terra para o céu, de baixo para cima, expondo crime por crime, destruindo ilusão por ilusão.

Quanto mais vezes Tersites apontasse que o rei estava nu, tanto melhor.

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Um trabalhador que lê

Não é difícil encontrar Tersites salpicado ao longo da Grande Conversa. O “trabalhador que lê”, de Bertold Brecht, quem é se não Tersites?

Quem construiu a Tebas de sete portas?

Nos livros estão nomes de reis.

Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída –

Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas

Da Lima dourada moravam os construtores?

Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.

Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio

Tinha somente palácios para suas habitantes? Mesmo na lendária Atlântida

Os que se afogavam gritaram por seus escravos

Na noite em que o mar a tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?

César bateu os gauleses.

Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada

Naufragou. Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.

Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.

Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande homem.

Quem pagava a conta?

Tantas histórias.

Tantas questões

(Obrigado à Clotilde por me lembrar desse poema)

* * *

Tersites no Restelo

Entre as leituras do nosso curso, o mais famoso Tersites é o Velho do Restelo, em Os Lusíadas.

Enquanto Vasco da Gama está embarcando em sua mui-heroica frota para as Índias, um velho aparece no Restelo (o bairro de onde saíam as naus) e faz um apaixonado discurso contra aquela aventura: as melhores vidas do reino estavam se perdendo no mar, por pura ganância, enquanto passava-se fome por não haver camponeses para lavrar a terra.

Não resta dúvidas que nem o poeta e nem a voz narrativa concordam com as objeções levantadas pelo Velho do Restelo. Se Camões concordasse, não teria escrito Os Lusíadas. Mas ele tem a grandeza literária e a sabedoria humana de lhe dar voz. Porque havia Velhos do Restelo por todas as ruas de Portugal, nas lavouras abandonas, entre as primeiras leitoras e ouvintes do poema.

Apesar disso, nós, leitoras do século XXI, não precisamos nos restringir às intenções do autor. Não nos faz diferença se apenas incluiu os argumentos do Velho do Restelo para melhor refutá-los e esquecê-los: nós podemos escolher reinterpretar o poema inteiro a partir dessa chave.

O Velho do Restelo desmonta a obra por dentro e sabota seu chauvinismo conservador: ele é a chaga exposta que o texto não pôde ou não quis esconder. Parte da grandeza de Os Lusíadas está na coragem, ou na temeridade, de dar voz ao Velho do Restelo.

Mais tarde, José Saramago colocou o Velho do Restelo em Cabo Canaveral, conversando com os astronautas que subiam para a Lua:

Fala do velho do restelo ao astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,

A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme

E dizemos amor sem saber o que seja.

Mas fizemos de ti a prova da riqueza,

E também da pobreza, e da fome outra vez.

E pusemos em ti sei lá bem que desejo

De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos

As vertigens do espaço e maravilhas:

Oceanos salgados que circundam

Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa

Onde come, brincando, só a fome,

Só a fome, astronauta, só a fome,

E são brinquedos as bombas de napalme.

* * *

A função retórica de um Tersites

Sempre que uma autora pressente uma possível objeção na cabeça de suas leitoras, ela pode já pré-respondê-la na obra, de preferência colocando-a nos lábios de uma personagem tão desagradável que as leitoras teriam vergonha, nojo, receio de se identificar com ela.

Dessa maneira, a autora indica que pensou e refletiu na objeção; têm a oportunidade de rebatê-la nos seus próprios termos; cria nas leitoras um reflexo negativo automático contra o pensamento que elas mesmas tiveram; despacha rapidamente o assunto dentro da narrativa, superando-o e esquecendo-o.

Muitos dos ouvintes originais da Ilíada deveriam pensar, ou até mesmo articular em voz alta, objeções como as de Tersites, inclusive atrapalhando a própria performance — como os hecklers que hoje atrapalham os comendiantes de stand up. Ao inserir essa objeção na própria narrativa e atribui-la ao personagem mais desagradável do poema, aquele com quem nenhum grego de respeito próprio se identificaria, os cantores originais não apenas calavam os críticos como enriqueciam a própria obra?

Afinal, quem quer concordar com um Tersites?

* * *

Tersites na Ilíada

Canto II, 183-278:

Caminhou depressa, atirando a capa ao chão, que apanhou

o escudeiro Euríbates de Ítaca, que o servia.

Foi ter com Agamêmnon, filho de Atreu,

e dele recebeu o cetro paterno, imperecível para sempre.

Segurando-o foi por entre as naus dos Aqueus vestidos de bronze.

Se porventura encontrava um rei ou outro homem nobre,

aproximava-se dele e com palavras suaves o refreava:

“Desvairado, parece mal assustares-te como se fosses um covarde.

Senta-te agora e manda também sentar-se o teu povo.

Pois não sabes ainda ao certo a intenção do Atrida, que agora

os põe à prova, mas depressa castigará os filhos dos Aqueus.

Não ouvimos nós todos no Conselho aquilo que ele disse?

Que encolerizado ele não faça mal aos filhos dos Aqueus!

Pois orgulhoso é o coração dos reis criados por Zeus:

é de Zeus que vem a sua honra; ama-os Zeus, o conselheiro.”

Mas se porventura via um homem do povo metido numa rixa,

batia-lhe com o cetro, repreendendo-o com estas palavras:

“Desvairado! Senta-te sossegado e ouve o que dizem outros,

melhores que tu! Não passas de um covarde, de um fraco!

Não serves para nada, nem na guerra, nem pelo conselho.

Não penses que, aqui, nós Aqueus somos todos reis!

Não é bom serem todos a mandar. É um que manda;

um é o rei, a quem deu o Crônida de retorcidos conselhos

o cetro e o direito de legislar, para que decida por todos.”

Autoritário, assim percorreu o exército; e para a assembleia

se precipitaram eles de novo, de junto das naus e das tendas,

com o estrondo da onda que no mar marulhante rebenta

contra a longa praia e das profundezas sai um rouco bramido.

Todos os outros se sentaram, contidos nos seus assentos.

Só Tersites de fala desmedida continuava a tagarelar —

ele que no espírito tinha muitas e feias palavras,

sem nexo e sem propósito, para vilipendiar os reis,

embora o que acaso lhe ocorresse dizer fizesse surgir o riso

entre os Argivos. Era o homem mais feio que veio para Ílion:

tinha as pernas tortas e era coxo num pé; os ombros

eram curvados, dobrando-se sobre o peito. A cabeça

era pontiaguda, donde despontava uma rala lanugem.

Para Aquiles e Ulisses era ele especialmente odioso,

pois contra ambos disparatava; mas agora era contra

o divino Agamêmnon que gritava estridentes insultos.

Muito irados contra ele estavam os Aqueus no coração.

Mas ele gritava em voz alta e assim insultava Agamêmnon:

“Filho de Atreu, estás descontente? Falta-te alguma coisa?

As tuas tendas estão cheias de bronze e muitas mulheres

escolhidas estão nas tuas tendas, essas que nós Aqueus

te demos em primeiro lugar, quando saqueávamos uma cidade.

Ou será ouro que tu queres? Ouro que te traga um dos Troianos

domadores de cavalos de Ílion, como resgate pelo filho,

que eu ou outro dos Aqueus capturei e trouxe para cá?

Ou será uma mulher jovem, para a ela te unires em amor,

e para ficares só tu com ela? Parece mal ser quem manda

neles a trazer as desgraças aos filhos dos Aqueus!

Covardes! Tristes vergonhas! Mulheres aqueias, já não Aqueus!

Regressemos para casa com as naus e deixemos aqui este homem

em Troia para tirar proveito dos despojos, para que veja

se nalguma coisa também nós contribuímos, ou não!

Ele que há pouco desonrou Aquiles, melhor homem que ele,

pois tirou-lhe o prêmio, devido à sua própria arrogância.

Na verdade não há raiva no coração de Aquiles: não quer saber.

Se assim não fosse, ó Atrida, terias sido insolente pela última vez.”

Assim falou Tersites, insultando Agamêmnon, pastor do povo.

Rapidamente se postou junto dele o divino Ulisses;

fitando-o com sobrolho carregado repreendeu-o com duras palavras:

“Tersites de fala desbragada (embora até sejas bom orador),

controla-te! Não queiras entrar, sozinho, em conflito com reis.

Pois eu afirmo que não há criatura mortal mais abjeta que tu,

entre todos que para debaixo de Ílion vieram com os Atridas.

Por isso não devias andar com os nomes dos reis na boca,

nem proferir injúrias, nem preocupar-te com o regresso.

Não sabemos ao certo como estas coisas se passarão,

se nós os filhos dos Aqueus regressaremos bem ou mal.

Agora contra o Atrida Agamêmnon, pastor do povo,

lanças insultos, porque lhe oferecem muitos prêmios

os heróis Dânaos. É assim que falas, com impropérios.

Mas uma coisa eu te direi, coisa que se cumprirá:

se eu te encontrar outra vez a disparatar como agora,

que a cabeça não permaneça sobre os ombros de Ulisses

e que eu não me chame pai de Telêmaco,

se eu não te agarro e te dispo a roupa,

a túnica e a capa com que cobres as vergonhas,

e te mando embora a chorar da assembleia para junto

das naus velozes, espancado com bordoada humilhante.”

Assim falou; e com o cetro bateu-lhe nas costas e nos ombros.

Tersites agachou-se; copiosamente lhe escorriam as lágrimas.

Logo lhe apareceu nas costas um inchaço ensanguentado,

sob o cetro de ouro. Mas sentou-se, amedrontado;

e cheio de dores, com expressão desesperada, limpou as lágrimas.

Mas os outros, embora acabrunhados, riam-se aprazivelmente.

Entre eles um assim dizia, olhando de soslaio para outro:

“Ah, na verdade são aos milhares os feitos valentes de Ulisses,

tanto na primazia dos conselhos como na autoridade guerreira!

Mas esta foi a melhor coisa que ele fez entre os Argivos,

visto que cortou o palavreado a este caluniador desavergonhado.

Não me parece que doravante o seu coração orgulhoso

de novo o encoraje a insultar reis com palavras despudoradas!”

Assim falava a multidão.”

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Referências Bibliográficas

“Antagonismo de classes no canto II da Ilíada: Tersites e a economia da guerra”, de Sérgio Luiz Gusmão Gimenes Romero, 2018; “O humor dos deuses”, Antonio Medina Rodrigues, 1989; O mundo de Ulisses, Moses Finley, 1965; “Class Warfare: Thersites in the Iliad”, de William Schreiber-Stainthorp, 2011; “The Voice of Thersites: Reflections on the Origins of  the Idea of Equality”, Siep Stuurman, 2004; Humano, demasiado humano, de Nietzsche; Shakespeare, the invention of the human, de Harold Bloom; “Shakesperean Persuasion”, em Language As Symbolic Action: Essays on Life, Literature, and Method, de Kenneth Burke; Karl Marx and World Literature, de S. S. Prawer, 1976; “Épica e Guerra”, Luís de Oliveira e Silva, 2003; Poemas, 1913-1956, de Bertold Brecht; Violência, sacrifício e poder, uma leitura girardiana de tendências da literatura ocidental, de Lucas Matteocci Lopes, 2019; The Iliad: Structure, Myth, and Meaning, Bruce Louden, 2006; Poemas possíveis, de José Saramago, 1981.

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a segunda aula, Gregos, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Tersites, um criador de caso da Ilíada a Shakespeare é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 19 de julho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/tersites-iliada-shakespeare // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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