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4ª aula: Cristãos agostinho declínio e queda do império romano grande conversa

Agostinho de Hipona

Mestre em retórica clássica e um dos primeiros Doutores do Cristianismo, é a ponte que liga a Antiguidade ao mundo medieval. (Guia de Leitura do curso Introdução à Grande Conversa.)

Mestre em retórica clássica e imerso na atmosfera intelectual do mundo greco-romano, mas também um dos primeiros Doutores do Cristianismo, dotado de uma fé intensa e atormentada, Agostinho de Hipona encarna, em si mesmo, como nenhum outro, a ponte que liga a Antiguidade ao mundo medieval. É um dos autores mais importantes da minha vida.

As confissões

Não é um livro de reminiscências, uma autobiografia contada por amor ao próprio ego. Agostinho chegara a um ponto de crise: seu modo de vida passado, de professor de retórica, não era mais possível depois de seu salto de fé. Era preciso encontrar, não, criar um novo modo de vida. Como viver? Quem ele era? Quem tinha sido? Suas Confissões são um reflexo da profunda crise por qual está passando, um livro tenso e urgente, sempre dobrado sobre si mesmo, em uma tensão insuportável que nunca cede, nunca diminui, a autoterapia pública de um homem atormentado refletindo sobre suas escolhas, avançando ferozmente sobre si mesmo, espiando dentro de si, tentando fazer as pazes com seu desejos e pulsões, buscando se construir em um novo tipo de homem. (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 164)

“Quando tentava deitar minha alma ali, para que repousasse, ela caía no vazio e voltava a ruir sobre mim, e eu me tornara para mim um lugar inóspito, onde não podia ficar e de onde não podia me afastar. Como meu coração poderia fugir do meu coração? Como eu poderia fugir de mim mesmo? Como poderia não acompanhar a mim mesmo?” (IV, 12)

É um livro escrito em forma de prece, falado diretamente para Deus. Na época, não era incomum que livros começassem com preces, até mesmo livros de filosofia. O que era incomum era manter esse estilo não apenas na invocação mas durante todo um livro. Ainda mais no tom íntimo de Agostinho, praticamente contando fofocas com Deus. Na verdade, é uma autobiografia sui-generis porque, muitas vezes, não parece que Agostinho está escrevendo para falar de si, para se entender, mas sim para entender Deus, seu amigo imaginário silencioso, de quem tanto depende mas que, fundamentalmente, lhe fala tão pouco. (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 167)

As confissões são, antes de mais nada, uma grande viagem de maravilhamento por tudo o que temos dentro de nós:

“Grande admiração surge em mim por causa disso, a estupefação me arrebata. E os homens vão admirar a altura das montanhas, as ondas ingentes do mar, as quedas enormes dos rios, a amplidão do oceano, as órbitas das estrelas, mas se esquecem de si mesmos e não se admiram de que tudo isso que acabei de dizer eu não o via com os olhos, e no entanto não o teria dito se montanhas e ondas e rios e estrelas, que vi, e o oceano, no qual acredito, não os visse interiormente em minha memória, tão grandes em dimensão, como se os visse lá fora.” (X, 15)

É impressionante como Agostinho se abre ao nosso escrutínio com honestidade feroz. O incidente dos roubos das peras lhe parece uma fonte infindável de reflexões, tão grave justamente por ser tão aleatório, por ter roubado peras que nem pretendia comer, por ser um paradigma tão claro e tão triste de que o livre-arbítrio servia apenas para que mergulhássemos de cabeça no Mal. (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 172-3)

“Eu ansiava por isso [me unir a Deus], atado não por grilhões exteriores, mas pelos grilhões de minha própria vontade. O inimigo dominava meu querer, dele fizera minha corrente e me prendera. Por certo, da vontade pervertida nasce a libido, e quando se obedece à libido nasce o hábito, e quando não se resiste ao hábito nasce a necessidade. Por todos eles, como anéis entrelaçados — por isso falo em corrente —, uma dura escravidão me mantinha prisioneiro.” (VIII, 10)

Por isso, As confissões também são uma jornada apavorante para dentro de nós. Agostinho certamente tem medo do que traz dentro de si, o que não o impede de se autofutucar furiosamente:

“[A]inda há um pouco de luz nos homens; que andem, andem, para que as trevas não os engulam. … Lutam minhas mágoas más com meus prazeres bons, e não sei de que lado ficará a vitória. Ai de mim! … [A]inda há essas lastimáveis trevas a esconderem a capacidade que está em mim, para que minha mente, quando se interroga acerca de suas forças, não julgue poder acreditar em si mesma tão facilmente, porque o que está em mim é muitas vezes oculto, se a experiência não o torna manifesto, e nesta vida, que é dita ser toda uma provação, ninguém deve ter certeza de que quem se tornou, de pior, melhor, não possa também se tornar, de melhor, pior. A única esperança, única confiança, única promessa firme é tua misericórdia. … [N]ão consigo julgar claramente até que ponto estou me purificando desta peste, e receio muito em mim lados ocultos, que teus olhos conhecem, mas não os meus. … Eis, vejo em ti, Verdade, que nos louvores que recebo, deveria ser movido não por mim, mas pelo proveito do próximo; mas não sei se é assim. Quanto a isso, me conheço menos do que te conheço. Imploro-te, meu Deus: mostra-me a mim mesmo.” (X, 33, 39, 48, 60, 62)

Estrutura das Confissões

Até o capítulo 9, o livro narra, em chave pessoal e autobiográfica, a trajetória de Agostinho até finalmente se converter ao cristianismo dito ortodoxo. (Cristão ele sempre foi, mas acreditava e praticava outros tipos de cristianismo que, depois, foram considerados heresias. Mais sobre as heresias aqui.)

No capítulo 10, ele escreve sobre sua própria alma, em um exercício de introspecção inédito na história da literatura. Não seria exagero dizer que Agostinho praticamente inventa esse tipo de mirada profunda para dentro de si, ou seja, inventa o conceito de subjetividade que praticamos até hoje.

Nos capítulos 11 a 13, ele faz uma leitura do primeiro capítulo do livro do Gênese, com importantes reflexões sobre a memória, a natureza do tempo e o próprio conceito de hermenêutica crítica literária.

Para Agostinho, o significado de um texto não se esgota na intenção do autor, especialmente se o autor escreveu por inspiração divina. Nesse sentido, o processo de ler e interpretar um texto é potencialmente interminável, pois são infinitas as possibilidades de interpretação, as conexões críticas que podem ser realizadas entre esse texto, outros textos escritos antes dele, e até outros textos escritos depois. (Mammi, Confissões, 24-7)

Inclusive podemos aplicar esse mesmo método às Confissões: qual é a estrutura do livro? Por que não parar no final do capítulo 9? Qual é a relação da narrativa autobiográfica anterior com os capítulos mais teológicos posteriores, quase metade do livro? Um depende do outro? A narrativa autobiográfica ilumina e prepara a exposição teológica? Ou a exposição teológica justifica e confirma a narrativa autobiográfica? Não sabemos. As interpretações possíveis, como nos ensinou Agostinho, são infinitas.

Agostinho e Buda: as doenças e os tratamentos

Agostinho escreve as Confissões como um médico recém-convertido a um novo tipo de tratamento: a diferença é que a doença é o pecado e o tratamento, o cristianismo. Nos primeiros nove livros, ele descreve o que acontece quando o tratamento não é aplicado, como ele o descobriu e, pulando uma década, a partir do livro 10, sua aplicação no presente. Por isso, entre outras coisas, sua autobiografia era diferente de tudo o que havia até então, aquelas Vidas de Homens Ilustres da Antiguidade, que têm em Plutarco seu maior exemplo. O objetivo de Agostinho era demonstrar sua doença e tornar seu tratamento disponível ao público. As Confissões não são a afirmação de um homem curado e vitorioso, mas o diário de um pobre, atormentado convalescente. (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 176-7)

Nesse sentido, é interessante como Buda também encara o sofrimento como uma doença e encara seu ensinamento, o darma, como uma forma de cura. A diferença é que o Buda, pelagiano como poucos, enfatiza que a possibilidade de cura está 100% nas mãos do homem. (Sobre o pelagianismo e outras heresias, veja aqui.) Da introdução do meu livro, Atenção.:

“Em primeiro lugar, [o Buda] propôs um diagnóstico da doença: o problema humano era o sofrimento intrínseco a ser uma criatura senciente que nasce apenas para sentir frio e dor, fome e abandono, e então morrer.

Em segundo lugar, propôs quais seriam as causas dessa doença: a fonte desse sofrimento era uma ignorância fundamental sobre a natureza da realidade: acreditamos na ilusão de que temos existência concreta enquanto indivíduos; tentamos proteger esse Eu ilusório através de atos negativos baseados em orgulho e cobiça, ódio e inveja; sofremos quando sentimos as consequências inevitáveis desses atos. Sem essa ignorância, não haveria sofrimento.

Em terceiro lugar, propôs a possibilidade de cura dessa doença: não apenas esse sofrimento era possível de ser extinto, como essa cura poderia ser realizada pelas próprias pessoas humanas, sem necessidade de intervenção divina — uma das ideias mais revolucionárias da história.

Em quarto lugar, por fim, propôs o tratamento para essa doença: esse tratamento, formado por um conjunto de propostas para testarmos e validarmos, praticarmos e corporificarmos, em nossa experiência diária, é aquilo que no ocidente chamamos Budismo, um método prático para corrigir nossa percepção incompleta da realidade e, assim, erradicar nossa ignorância fundamental.”

Atenção., capa em alta resolução. Clique para baixar.

Os pecados e a decisão

Agostinho enfatiza repetidas vezes seu passado de pecador. Muitas pessoas leitoras contemporâneas entendem que ele era algum tipo de canalha libertino criminoso, pulando de orgia em orgia, e lêem ansiosas, já esperando pela “confissão” de bacanais sem fim. Naturalmente, saem frustradas.

Agostinho escreve As confissões pouco depois de ser nomeado Bispo de Hipona, relativamente jovem e com muito a provar, para si e para sua congregação — que era na maioria donatista, uma variante do cristianismo depois considerada herege. (Mais sobre as heresias aqui.) Ele era claramente um homem torturado e atormentado pela noção de pecado e pelo mal que sentia dentro de si. Então, embora seja possível que, de fato, ele fosse um libertino safadão, o mais provável é que os grandes crimes e pecados que Agostinho sente que cometeu na juventude, tudo aquilo que mais pesava em sua alma atormentada, tenham sido somente o de ter uma vida normal para sua época: masturbar-se e fazer sexo, coabitar com uma companheira e ir ao teatro. Não é à toa que o “pecado” que ele desenvolve com mais detalhes seja o roubo das pêras (II.9): para Agostinho, o maior pecado não era nem o ato em si, mas o fato que ele nem mesmo queria comer as pêras. Fez o mal por gosto ao mal. O que poderia ser mais perverso do que isso? (Fox, The Confessions, XV)

A conversão no jardim, no capítulo 8, não é uma conversão à fé em Deus ou ao cristianismo, mas é uma des-conversão do sexo. O salto de fé de Agostinho não é simplesmente se converter a uma religião, mas sim dedicar-se de corpo e alma a ela. E ele só pode fazer isso abrindo mão do sexo e abraçando o autoescrutínio feroz que caracteriza todos os seus textos. Fazer essa escolha é o seu grande momento de decisão, o clímax dramático de todo o livro. (O batismo de verdade, que acontece oito meses depois, ele conta em uma linha.) (Fox, The Confessions, xvi-xvii)

(Na verdade, todas as correntes filosóficas da época, dos estóicos aos epicuristas, de Aristóteles a Platão, que consideravam como ideal máxima uma certa imperturbabilidade, ou apatia, consideravam que o sexo era sempre disruptivo, atrapalhava, misturava tudo. Em Da natureza, de Lucrécio, poema epicurista por definição, existe um longo trecho especificamente antissexo, no final do livro IV, 1030-1287.)

Fé e conhecimento

Agostinho não acreditava em casualidade: para ele, esse era apenas o nome que dávamos às coisas cujas causas ignorávamos. E as coisas boas vêm sempre, naturalmente, de Deus. Inspirado em Isaías 7,9, Agostinho defende que só pode entender quem acredita e; consequentemente, quem não acredita não pode senão entender tudo errado. Mil anos antes antes de Descartes, ele afirma:

“Se penso de forma equivocada, então existo.” (Cidade de Deus, livro XI)

Em termos de hoje, podemos dizer que Agostinho acreditava na Lei Divina como se fosse uma lei natural, cósmica. Dito de outra maneira: não faz diferença se uma pessoa não acredita na lei da gravidade, ela vai cair do mesmo jeito. Idem com a Lei de Deus. Uma lei moral universal não deixa de ser uma lei moral universal porque alguém não acredita nela, mas essa lei só estará disponível para ser entendida e apreendida se a pessoa primeiro acreditar. Senão, ela vai simplesmente fazer pouco da lei e chamar quem a afirma de “só mais um moralista”.

Por isso, para Agostinho, conhecimento laico, sem fé, era um conhecimento inútil: mesmo se fizermos o certo, se for por razões erradas, não conta. (Falo sobre isso mais abaixo.) E a fé, sem conhecimento, é muito instável: uma pessoa ingênua ou predisposta poderia acreditar em qualquer superstição ridícula. A fé era necessária como pré-condição necessário ao verdadeiro conhecimento.

Dessa maneira, toda a obra de Agostinho pode ser considerada uma tentativa de, primeiro, despertar e estimular a fé, e, em seguida, elevá-la ao nível do conhecimento. (Williams, On free choice of the will, xvii)

A Graça divina

Ao longo de toda a sua narrativa autobiográfica, Agostinho constantemente enfatiza a falta de uma motivação racional ou consciente para a maioria das decisões que o levam de Tagaste até Milão. Ele sai de Tagaste e vai para Cartago (na época, segunda maior cidade do Império) por causa da dor pela morte de um amigo; vai de Cartago para Roma por causa das turbulências estudantis; vai de Roma para Milão por causa da desonestidade de alunos e porque um maniqueísta lhe arrumou emprego. E, em Milão, ele encontra em Ambrósio um tipo diferente de cristianismo, mais eloqüente, mais racional, do que ele jamais imaginara possível. Em tudo isso, em todas essas andanças sem rumo e sem sentido, Agostinho enxerga, retroativamente, a mão de Deus, a Graça divina.

Como saber se fomos tocados pela Graça de Deus? Não tem como. Se fosse aparente na vida terrena, as pessoas amariam Deus pelas razões erradas. Então, para Agostinho, Deus permite coisas boas aos maus, justamente para que não seja amado somente pelas coisas boas que proporciona (Evans, City of God, xlviii)

Agostinho defende que o homem somente pode ser salvo pela Graça de Deus. Mas, se todos os homens são pecadores, como Deus escolhe em quem depositar sua Graça? Para Agostinho, Deus não concede sua Graça em quem faz o Bem, mas, pelo contrário, só pode fazer o Bem quem recebeu a Graça de Deus. (Por isso também, para Agostinho, pagãos e hereges não podem fazer o Bem, pois mesmo quando fazem o Bem, não estão fazendo por bons motivos, não estão habitados pela Graça de Deus.)

O prazer

Agostinho acreditava que o homem era totalmente dependente de Deus, até mesmo para acreditar em Deus. Para Agostinho, o prazer era a mola de toda e qualquer ação, a única coisa capaz de mover a vontade do homem. Portanto, o homem só poderia agir se mobilizado por seu prazer. Mais ainda, o homem só poderia se mover em direção a Deus se esse movimento lhe causasse prazer. Não por sua vontade férrea, não por sua determinação, não por sua teimosia. Nada disso bastaria. Mas somente porque Deus, com sua Graça, fez com que ele obtivesse prazer buscando as coisas puras e virtuosas de Deus. Essa, para Agostinho, poderia ser uma definição da Graça: possuir a Graça de Deus era sentir prazer em buscar as coisas puras de Deus:

“Quem pode abraçar de todo coração algo a não ser aquilo que lhe traz prazer? E quem é capaz de decidir, de escolher por si mesmo, por sua própria vontade, o que é que lhe traz prazer?” (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 154-5)

O Mal

Para Agostinho, toda a bondade vem de Deus. O Mal não existe, ou melhor, é simplesmente a ausência do Bem, a ausência de Deus. Assim, se uma pessoa é boa, está apenas manifestando a natureza divina. Se é má, está manifestando a ausência dessa natureza.

“O homem é uma alma usando um corpo” (Sobre a moral da Igreja Católica e sobre a moral dos maniqueístas, I, 27, 52)

Tudo na natureza é bom, a única diferença é a posição na ordem hierárquica: corpos são inferiores às almas, que são inferiores à Deus, mas as coisas físicas, os corpos, a matéria, não são maus. Em Agostinho, o Mal é algo que acontece, mas não é natural: ele é sempre uma ferida, uma ausência, uma privação. O Mal seria como um buraco. Dá pra se machucar caindo nele, mas não existe a natureza do buraco, assim como não existe a natureza do Mal: o buraco não é feito de nada, ele é só uma ausência. (Bourke, Essential Augustine, III)

Fatalismo e onisciência

Para muitos pensadores, se Deus era onisciente e sabe tudo o que faremos, então, não havia livre-arbítrio e tudo estava predestinado.

Mas não para Agostinho. Ele explica que Deus, por ser eterno, existe fora do tempo: Deus está, enxerga, conhece todas as épocas simultaneamente. Não é nem que Deus sabe antecipadamente o que uma pessoa fará… porque esse conceito “saber antecipadamente” não faz sentido do ponto de vista de Deus. Deus apenas sabe, porque Deus sabe tudo, ao mesmo tempo, agora, sempre.

Livre-arbítrio

A frase de Ovídio “Conheço o Bem e, apesar disso, persigo o Mal” resume bem a idéia de livre-arbítrio para Agostinho.

Agostinho concorda que, sem livre-arbítrio, não existiria o Mal. Mas argumenta que também não existiria o Bem. Sem livre-arbítrio, o universo seria apenas o show de marionetes de Deus. (Para mim, Alex, a ideia do Deus cristão é intolerável justamente porque me parece intolerável a ideia de tudo ser um show de marionetes de um Deus.)

Deus, fonte da vontade e da liberdade, os dá ao homem para que possa ser virtuoso mas, para que essa dádiva tenha sentido, para que tenha valor, o homem também precisa ter potencial para o Mal.

Mas a fonte desse Mal não é e nem pode ser Deus, que é todo Bem. A fonte de todo o Mal só pode ser o homem. Quando faz o Bem, está agindo de acordo com sua natureza divina, indo em direção à Deus. Quando faz o Mal, aí está agindo por conta própria. O pecado, portanto, seria fruto de uma vontade humana que perdeu o contato com Deus.

Agostinho enxerga dois tipos de liberdade: o livre-arbítrio, que seria a possibilidade de fazer escolhas, e a liberdade em si, que seria mais alta e mais sublime.

O livre-arbítrio seria a liberdade que o homem possui, por sua própria natureza, de fazer o Bem ou de fazer o Mal, uma liberdade aliás ilusório: se não foi tocado pela Graça de Deus, ele, na verdade, só pode pecar, só é livre para pecar.

Por outro lado, se Deus escolher pousar sua Graça no homem, pode libertá-lo dessa “liberdade” de fazer o Mal, lhe concedendo assim a verdadeira liberdade, a liberdade de ser incapaz de pecar, uma inclinação total e absoluta para somente querer fazer o Bem e seguir a vontade de Deus.

Como os seres humanos vêm de Deus e são feitos à sua imagem e semelhança, eles amam Deus e amam sua própria existência, que é reflexo de Deus. Então, em seu afã por existir da maneira mais plena possível, é natural que busquem a Deus, que busque a substância divina dentro de si. Por isso, a maior liberdade possível é, quando finalmente encontramos Deus, nos submetermos a essa lei divina e universal que não é simplesmente um mero rol de proibições mas, segundo Agostinho, nossa única verdadeira segurança contra a frustração, a insatisfação, a confusão e a tirania de nossos hábitos perversos e de nossas prioridades equivocadas.

Ou seja, o livre-arbítrio seria poder escolher livremente entre ser justo ou ser pecador, e a verdadeira liberdade (aberta somente para quem dispõe da Graça de Deus) seria não ter a escolha de ser pecador, não ter nem mesmo a vontade de pecar, pecar deixar de ser uma escolha concebível na vida da pessoa. A liberdade definitiva seria a liberdade de ser incapaz de querer pecar.

O paradoxo de Agostinho é que, ao olhar dentro de si, ele não tem como negar seu livre-arbítrio e, ao olhar para sua biografia, não tem como negar a Graça de Deus. Então, apesar de ambos os conceitos aparentemente se autoanularem, no pensamento de Agostinho eles se complementam.

Para Agostinho, o livre-arbítrio seria o oposto da liberdade. A verdadeira liberdade seria justamente se submeter totalmente a Deus e abrir mão de seu livre-arbítrio. (Williams, On free choice of the will.)

Agostinho e o darma

Agostinho nunca é mais budista do que quando está falando de livre-arbítrio. Na 18ª prática do meu livro Atenção., “Desapegar do Eu”, falo um pouco mais sobre isso. Liberdade não é sermos livres para seguir nossos desejos mais loucos e consumistas mas, pelo contrário, sermos livres desses desejos:

“A liberdade é muitas vezes entendida como liberdade para realizar nossos desejos, ou seja, para fazermos o que quisermos. … Talvez essa liberdade que tanto desejamos seja apenas a liberdade da biruta, livre para soprar em direção sudoeste ou noroeste, dependendo desse ou daquele vento, mas sem nunca sair do lugar. Talvez precisemos nos libertar de nossas velhas definições de liberdade. Talvez a verdadeira liberdade seja não uma liberdade para nossos desejos, mas uma liberdade dos nossos desejos. …

Se a liberdade é simplesmente podermos realizar esses desejos que pipocam dentro de nós, vindos sabe-se lá de onde, então, a pessoa dita livre não passa de um veleiro à deriva, indo para lá e para cá ao sabor dos elementos. Mas a liberdade não está nas velas ou nas marés: está em não ser refém de nossos apegos e de nossas compulsões, dos ventos que nos sopram ou das correntezas que nos puxam. A verdadeira liberdade é podermos decidir para onde vamos navegar esse barco. A verdadeira liberdade é o leme.”

Atenção., capa em alta resolução. Clique para baixar.

O misticismo ou não de Agostinho

Toda a obra de Agostinho é permeada por uma sensação de que as palavras sempre são inadequadas e falhas para descrever tudo aquilo que ele tenta comunicar. (Por isso, muitos estudiosos consideram que ele é, no fundo, um pensador místico.)

Mas ele se propõe a ser um escritor e um professor, um pregador e um comunicador, justamente porque a vontade divina nos foi comunicada através de palavras divinamente inspiradas, então, nós entendermos e usarmos essas palavras corretamente é parte do plano de Deus para nós. Para Agostinho (Confissões, cap.13), batismo e eucaristia são importantes e indispensáveis, mas insuficientes se não forem propriamente compreendidos, e essa compreensão se dá através de palavras, textos, ensinamentos. (Por isso, por essa ênfase na palavra e na comunicação, muitos estudiosos consideram que ele é o oposto de um pensador místico.)

Concordo com os últimos.

Falo mais sobre isso em meu texto sobre misticismo: Misticismo, o que é, como praticar.

Como ler a Bíblia: com amor

Agostinho, professor de retórica clássica, versado em toda a literatura pagã da Antiguidade, afirmava que suas dificuldades iniciais com a Bíblia eram puramente por seu orgulho e arrogância: para ele, o significado das escrituras só estaria aberto para quem se libertasse de sua própria soberba e auto-importância. Para Agostinho, a Bíblia, por definição, só ensinava amor. Por isso, insultar alguém utilizando a Bíblia, usá-la para justificar o que hoje chamaríamos de discurso de ódio, etc, equivaleria a chamar Deus de mentiroso, o pior dos pecados. Agostinho apontava que os padrões de conduta moral eram culturalmente condicionados, como poligamia e etc. Sobre a história de Davi e Betsabeia, dizia não ser preciso transformá-la em alegoria: até mesmo os melhores entre nós cometem pecados; a história estava na Bíblia como um alerta para todas nós. E continua: condenar moralmente os personagens da Bíblia é muito fácil, traz uma satisfação condescendente e autocongratulatória, mas é um dos maiores obstáculos para uma verdadeira compreensão das escrituras. É preciso pensar e ponderar, analisar e trabalhar o texto até chegarmos à interpretação que seja a mais caridosa e a mais generosa possível: independente da intenção do autor original, se um trecho da Bíblia parece não estar ensinando o amor, a caridade, a generosidade, então esse trecho deve ser interpretado figurativamente. Nesse sentido, a interpretação bíblica, em si mesma, é uma prática da difícil arte da caridade. E, se conseguimos ler a Bíblia assim, então conseguimos ler todos os livros assim e, mais importante, também conseguimos ler assim o mundo e as pessoas à nossa volta. (Armstrong, 121-5)

(Agostinho defende esse tipo de leitura da Bíblia em A doutrina cristã, um livro importantíssimo pra mim, ateu cético que sou, justamente por ter me ensinado uma maneira mais bonita, mais generosa, mais útil de ler o próprio mundo. A segunda Prática de Atenção do meu livro Atenção. é sobre essa leitura e como ela pode ser aplicada em nossas vidas.)

Falo mais sobre isso no texto: O significado literal da Bíblia: ler com amor

A libidinização do sexo

No livro 14 de Cidade de Deus, Agostinho volta seu olhar para Adão e Eva, tentando resolver o que era, para ele, o grande dilema do sexo: se o sexo é por natureza mau e baixo (como afirmava ser), como podia o casamento, a instituição mais sagrada de todas, ser sacramentado pelo sexo? Afinal, sexo era bom ou mau? Permitido ou proibido? A ser estimulado ou a ser reprimido? E tudo girava em torno do seguinte: no Paraíso, antes da Queda, Adão e Eva… transavam?

Na teoria de Agostinho, havia sexo no Paraíso, o que não havia era desejo, tesão, libido. Então, Adão levantaria seu pênis por vontade própria, como levantamos um braço, sem precisar estar em um estado emocional, sexual, emocional alterado. Claramente, para Agostinho, o pecado estava no descontrole do tesão, na vontade que nos arrastava, não no ato sexual em si. Se não havia abalo, então, não havia impureza. Para Agostinho, o sexo, no Paraíso, era voluntário:

“O órgão destinado a essa obra [povoar a terra] teria semeado o campo da geração como agora a mão semeia a terra.”

Em resposta a sua desobediência, Deus teria punido o homem fazendo uma parte de seu corpo também ser desobediente à sua vontade. Para Agostinho, quando Adão e Eva, logo depois da Queda, percebem que estão nus e correm para se cobrir, o que perceberam não foi sua própria nudez (pois, para Agostinho, eles já sabiam que estavam nus e já transavam): o que eles percebem é o tesão, é o desejo, é o pênis de Adão se movendo contra sua vontade, nessa transgressão humana que é um símbolo da transgressão divina que ambos haviam cometido. (Reparem que Agostinho, nesse contexto, fala somente em homem enquanto homem: a libido feminina para ele era uma não-questão.)

Naturalmente, o pênis é duplamente rebelde: tanto ao endurecer à revelia do dono, mas também deixando de endurecer nos piores momentos, única parte do corpo totalmente fora de nosso controle. É uma, na expressão dele, libido sui juris, de seu próprio direito, sob outra jurisdição, autônomo. Além disso, essa libido descontrolada também conspurca necessariamente o ato sexual: o pecado original está no fato de que toda pessoa que nasce nasceu a partir de um ato sexual corrompido pela mais torpe libido descontrolada. Para Agostinho, é essa libido, ainda hoje marca da transgressão primeira, que transmite a cada nova pessoa que nasce a lei do pecado original. (Desnecessário dizer o quão importante foi essa formulação para o futuro do sexo na civilização ocidental.)

Ou seja, para Agostinho, a libido não foi a causa do Pecado Original, mas, sim, pelo contrário, sua conseqüência. O fato de termos nascidos do sexo feito por nossos pais nos liga, em uma cadeia inquebrável de pecado, ao sexo dos nossos primeiros pais. Por isso, todo mundo, desde a Queda, nasce cheio desse desejo que Agostinho enxerga como torpe e libidinoso.

Alguns pensadores argumentavam que, se Deus fez o sexo bom, era para que o homem aproveitasse: o sexo só seria mau se feito de maneira desregrada, desviada, fora do casamento, etc. Agostinho discordava: no sexo, por ser libidinoso, o Mal não vinha do excesso, mas já era intrínseco a ele. Esse é o problema: mesmo quando santificado pelo casamento, o sexo faz necessariamente uso dessa libido corrompida e descontrolada para poder acontecer. Como pode ser bom se faz uso de algo que é mau? Não pode.

A influência do pensamento de Agostinho sobre a história cultural do Ocidente todas nós sentimos, até hoje.

(Michel Foucault, História da Sexualidade: 4. As confissões da carne, III.3)

Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino

A principal diferença entre Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino ajuda um pouco a ilustrar a importância da interioridade em Agostinho. Apesar das teologias de ambos serem consideradas ortodoxas, elas são bem diferentes, partem de pontos distintos e são, efetivamente, irreconciliáveis.

Tomás de Aquino parte de fora, observa o mundo das experiências empíricas e, a partir daí, atinge Deus através de um processo eminentemente racional e lógico. (Falo mais sobre a lógica de Tomás de Aquino nesse texto.)

Já a metafísica do conhecimento de Agostinho começa a partir daquilo que Deus plantou dentro da mente dos homens. Ele parte de dentro, de sua experiência interna com Deus, analisa sua própria subjetividade, seu próprio pensamento, e encontra Deus aí, sem nunca precisar sair de si.

Agostinho contra Gibbon

A tese de Edward Gibbon, em Declínio e queda do Império Romano, de que os cristãos teriam causado a queda do Império Romano, não é nova. Na verdade, ela é contemporânea à própria queda do Império e, naturalmente, muito popular entre aqueles que eram pagãos ou simplesmente valorizavam a cultura greco-romana em óbvio declínio. (A novidade de Gibbon, naturalmente, será retomar essa tese, mil anos depois, a partir de um ponto de vista nominalmente cristão e usando toda sua vasta erudição, impecável historiografia e estilo insincero. Mais sobre isso aqui.)

Em 410, os godos liderados por Alarico invadem e saqueiam Roma, um evento simplesmente impensável e inconcebível que chacoalha o mundo, dando ainda mais popularidade à tese que a decadência do império, e essa nova catástrofe, tinham sido causadas pelo cristianismo.

Em resposta, Agostinho escreve Cidade de Deus, talvez sua obra-prima e certamente um livro interessantíssimo e monumental, uma verdadeira obra-irmã ao Declínio e Queda do Império Romano.

Os primeiros dez livros respondem à acusação de que o Cristianismo teria uma influência nociva e corrosiva no Império. Usando seu conhecimento enciclopédico da antiguidade clássica greco-romana (certamente, ele foi seu último grande pensador, o que faz a ponte entre a Antiguidade e o mundo medieval), Agostinho refuta a tese e aponta que foi o paganismo que destruiu sua própria civilização. Nos últimos doze livros, ele compara Roma com uma “Cidade de Deus” que seria o ideal cristão de cidade.

Seguindo sua tese sobre livre-arbítrio e Graça, Agostinho afirma que só pode haver verdadeira virtude na verdadeira religião. Da mesma maneira, uma sociedade ou civilização só pode ser justa se estiver seguindo a Lei de Deus. Sim, os romanos tinham virtudes, mas essas virtudes na verdade eram “vícios esplêndidos”. A justiça romana, por exemplo, motivada por orgulho patriótico, ou por desejo de glória, etc, podia ser até virtuosa, mas uma virtude espúria, majestosa e poderosa, esplêndida, ok, mas nunca uma verdadeira virtude. Por não ser orientada em direção a Deus, apesar de ser nominalmente uma virtude, ela acaba funcionando na prática, como um vício.

Enquanto Agostinho escrevia, a queda do Império Romano, entretanto, continua acelerada. Quando Agostinho morre, em 430, sua cidade está cercada pelos vândalos, que vinham devastando todo o norte da África. Pouco depois de sua morte, a cidade é invadida e saqueada, e seus papeis somente se salvam por muito pouco. O contexto local da vida de Agostinho é destruído. Em 476, menos de quarenta anos depois, acontece a queda definitiva do Império Romano do ocidente. O contexto geral da vida de Agostinho é destruído. É o fim do Mundo Antigo.

Finalmente, para nós, aqui no Brasil, não há como evitar a associação da obra-prima de Agostinho com outra Cidade de Deus, um bairro planejado, e também idealizado, que se transformou em filme e romance, levando ao mundo a vergonha dos nossos crimes, das nossas falhas, da nossa desigualdade. (Bourke, Essential Augustine, IX)

Filosofia da História Cristã

Antes do cristianismo, a ideia de História era quase sempre fatalista e decadente: havia um passado idealizado de grandes homens, o presente era uma era de decadência, no futuro haveria mais decadência, o mundo terminaria, começaria tudo de novo. Fundamentalmente, seríamos todos Sísifos, todos vítimas de uma grande piada cósmica, com todos nossos esforços destinados sempre ao fracasso ou, no mínimo, à obsolescência.

(Podemos ver no judaísmo da Bíblia Hebraica alguns elementos que antecipam a quebra radical que o cristianismo trará mas a verdade é que os textos judaicos nunca quebram explicitamente com essa ideia e dão suporte a ela em vários momentos.)

Agostinho é um dos primeiros a efetivamente, articuladamente, conscientemente quebrar essa roda do destino:

“Cristo morreu somente uma vez por nossos pecados. Agora que ressuscitou, não morrerá mais.” (Cidade de Deus, XII, 13, 2)

Parece pouco, mas foi uma ideia poderosa. Literalmente dividiu o tempo em dois, e divide até hoje. A unicidade da redenção cristã liberou as mentes ocidentais do fatalismo e do determinismo gregos, e lhes deu um horizonte amplo no futuro, inclusive depois da morte, inclusive depois do fim do mundo, muito além das limitações de raça, cultura, instituições.

Agostinho pessoalmente não vai tão longe, mas essa ampliação de horizontes que ele inicia vai permitir que, nos séculos seguintes, comece a surgir a ideia de progresso sob a qual vivemos até hoje, que o passado não era necessariamente melhor, que o futuro pode ser melhor ainda, e sem a qual pode-se argumentar que todo o nosso mundo seria outro, e que talvez nem mesmo nossos avanços tecnológicos e sociais pudessem ter sido concebidos. Sim, diz o pensamento cristão, o mundo terminará no Apocalipse descrito no último livro da Bíblia, mas isso não quer dizer que ele não possa progressivamente ir melhorando até lá. (Bourke, Essential Augustine, X)

A fim do ideal clássico do pensador

A ambição de Agostinho sempre foi ser um filósofo como os da antiguidade, o único modelo que possuía, naturalmente: estóico, imperturbável, apático. (A apatia, no sentido de imperturbabilidade, era um ideal dos filósofos estóicos e epicuristas.) Mas, para um homem com sua natureza intensa e angustiada, esse ideal era impossível. Em desespero, Agostinho se volta para dentro e cria um novo ideal de personalidade, de subjetividade, de intelectualidade, que está conosco até hoje. É impossível, ele escreve, nessa vida mortal, dispersar as brumas dos desejos carnais, e possuir a luz límpida da verdade imutável e, ainda por cima, mantê-la com constância de espírito e alheio aos modos comuns da vida cotidiana:

“Quem acha que isso é possível, não entende nem o que está buscando, nem quem é aquele que busca.” (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 147)

Agostinho, ao final das Confissões, parece se conformar com seu destino de homem incompleto, com a união que ele mais desejava, com a placidez que mais ansiava, adiadas para depois de sua morte, quando de seu encontro com seu Deus tão amado. Para ele, qualquer um que pensasse o oposto, era ou um ignorante ou um dogmático: tudo o que podíamos fazer, nessa vida, era ansiar, desejar, aspirar a essa união transcendental, mas nunca alcançá-la. (Típico de Agostinho concluir que, se era impossível para ele, também deveria ser para todos!) (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 154-5)

Nesse sentido, as Confissões simbolizam o fim de um certo ideal de perfeição da Antiguidade: Agostinho nunca alcançaria a perfeição e imperturbabilidade dos santos cristãos ou dos sábios pagãos que tanto admirava.

Para alguns autores, aliás, Agostinho seria o primeiro romântico, no sentido de ser consciente de estar preso numa existência que lhe nega a completude que deseja; por sentir que é definido pela ânsia por algo irrealizável e fora do seu horizonte de possibilidades; por sua capacidade passional de sentir fé, esperança, saudade; por ser um andarilho buscando por um país eternamente mais e mais distante, mas presente justamente pela intensidade com a qual é desejado. O que poderia ser mais romântico que isso? (Brown, Santo Agostinho, uma biografia, 156-7)

Por fim, Agostinho acaba passando para a História como o pensador que uniu o Deus de Abrão, Isaac e Jacó com o “Deus dos filósofos”, de Platão, Cícero, Plotino.

Uma relação pessoal com Agostinho

Poucos livros foram mais importantes na minha vida do que as Confissões de Agostinho de Hipona. Com poucas pessoas autoras eu sinto que tenho uma conexão tão forte.

Agostinho, pra mim, é como se fosse um velho amigo. Impossível não pensar nele como um daqueles bróders que já carreguei depois da bebedeira mas que hoje não bebe mais. Uma pessoa sempre interessante e fascinante, não apenas pela nova vida que conscientemente abraçou, e sobre a qual fala com intensidade única, mas também pela antiga vida devassa que podemos perceber aqui e ali, por entre as frestas da nova, através de seus comentários sempre mordazes.

Não só um velho amigo: na arrogância de se achar melhor que os outros; na falta de valor que subitamente enxerga no que antes tão valorizava; na busca por sentidos maiores e mais importantes para dedicar a segunda metade da vida; na dificuldade de lidar eticamente com seus desejos sexuais, ele é quase como se fosse um alter-ago, um duplo, uma sombra.

Li as Confissões pela primeira vez aos 21 anos, em uma aula chatíssima dada por um intelectual brilhante que deveria estar escrevendo livros e nunca ensinando. (Saí traumatizado.) Reli em Cuba, no dia em que completei 42. Desde então, nunca mais larguei.

É incrível como o livro melhorou desde a época em que eu era um pós-adolescente ateu que sabia tudo de tudo, até hoje, quando sou um homem de meia-idade que não sabe nada de nada, e se descobre cada vez mais intensamente religioso.

Uma amiga me perguntou por que reler livros. É por isso: porque a gente muda.

Quando reli as Confissões, eu estava sozinho, em um país estrangeiro, a trabalho, bastante doente, sem ninguém para cuidar de mim, sem ninguém que realmente se importasse. (Tinha decidido que se ficasse passando mal mais do que cinco dias consecutivos desmarcava todo o tour de lançamento do livro e voltava pro Rio.) Ao mesmo tempo, em minha vida, estava cada vez mais envolvido com o zen, mais envolvido com o templo, pensando em me ordenar, pensando em firmar um compromisso. No meio disso tudo, em dia estranhamente gelado de inverno havaneiro, vendo o mar investir com toda a fúria contra o malecón, reli As Confissões.

Foi uma leitura chacoalhadora. Talvez a que mais me chacoalhou. Fiquei mexido, emocionado, consternado. E muito, muito irmanado, muito próximo ao autor. Sem Agostinho ao meu lado, sem Agostinho pra me dar suporte, eu não teria conseguido dar o salto no zen e não teria me ordenado.

Recomendo as Confissões de Agostinho de Hipona para qualquer pessoa que esteja a beira de uma grande decisão que simplesmente não consegue tomar.

Obrigado, velho amigo.

O mendigo bêbado

Abaixo, o meu trecho favorito de Agostinho.

Não há vida mais iluminada do que a dele em toda a Antiguidade. Podemos iluminar o local e data dessa anedota com razoável probabilidade: na noite de 22 de novembro de 385, décimo aniversário de reinado do Imperador Valentiniano II, então com sua corte em Milão. Em uma das muitas ruelas da cidade, Agostinho está caminhando com seus amigos, intelectuais e cortesãos, quando se deparam com o menor de todos os seres humanos, um singelo mendigo bêbado:

“Ambicionava honras, lucros, matrimônio, e tu rias de mim. … Como eu era miserável, e de que maneira fizeste com que sentisse minha miséria naquele dia, quando me preparava para declamar o elogio do imperador, em que diria muitas mentiras e mentindo ganharia a aprovação dos entendidos, e essa preocupação tornava meu coração ofegante e quente de febre pelos pensamentos que me consumiam, e eu então, passando por uma ruela de Milão, vi um pobre mendigo, já completamente bêbado, acredito, que cantava e ria.

Lamentei, falando aos amigos que estavam comigo, as muitas dores de nossas loucuras, porque com todos os nossos esforços — como aqueles com que então me atribulava, arrastando o fardo de minha infelicidade sob o aguilhão da cobiça, e aumentando-o ao arrastá-lo — nada mais queremos senão chegar a uma felicidade serena, na qual aquele mendigo nos precedera; e talvez nunca o alcançássemos.

Pois aquilo que ele conseguira com poucos trocados de esmola, isto é: a alegria de uma felicidade terrena, eu o procurava por percursos tortuosos e cansativos. E por certo ele se alegrava, eu estava ansioso; ele era sereno; eu, trepidante.

E, se alguém me perguntasse se eu preferia ficar alegre ou sentir medo, eu responderia: “Ficar alegre”; por outro lado, se me perguntassem se preferia ser como ele, ou como eu era então, eu, ainda que assoberbado por preocupações e temores, teria escolhido a mim mesmo, mas por um raciocínio errado. E como poderia ser verdadeiro? Pois não deveria me preferir a ele por ser mais instruído, porque não sentia prazer por isso, mas queria agradar os homens, e não para instruí-los, mas apenas para agradar. …

Afastem-se de minha alma aqueles que dizem: “Mas a diferença está no motivo da alegria. Aquele mendigo gozava da embriaguez, tu querias gozar da glória”. Que glória, Senhor? Aquela que não está em ti. Com efeito, assim como não era verdadeira a felicidade, também não era verdadeira a glória, e pervertia ainda mais minha mente. Naquela mesma noite, a ebriedade dele teria evaporado, eu dormiria e me levantaria e dormiria de novo e me levantaria de novo com a minha, por quantos dias!” (Confissões, VI, 9-10)

(Referências: Karen Armstrong,  Bíblia, uma biografia; Vernon J. Bourke, The essential Augustine, Hackett, 1964; Peter Brown, Santo Agostinho, uma biografia; Henry Chadwick, “Introdution”, em The Confessions, Oxford, 1991; G. R. Evans, “Introduction”, em City of God, Penguin, 1972; Michel Foucault, História da Sexualidade: 4. As confissões da carne, Zahar, 2020; Robin Lane Fox, “Introduction”, em The Confessions, Everyman’s Library, 2001; R.P.H.Green, “Introduction”, em On Christian teaching, Oxford, 1997; Lorenzo Mammi, “Prefácio”, em Confissões, Companhia das Letras, 2017; Whitney J. Oates, “Introduction”, The basic writings of Augustine, Random House, 1948; Thomas Williams, “Introduction”, On free choice of the will, Hackett, 1993.)

Minhas edições de Agostinho de Hipona

Por Agostinho:

Confesiones.

Confessions, the. Chicago: Great Books of the Western World, 1978. [Trad: Edward Bouverie Pousey, 1914.]

Confessions. NY: Everyman’s, 2001. [Trad: Philip Burton.]

Confessions.  Oxford: OUP, 2008. [Trad: Henry Chadwick, 1991.]

Confessions.  Londres: Penguin. [Trad: R. S. Pine-Coffin, 1961.]

Confessions. Indianapolis: Hackett, 1993. [Trad. F. J. Sheed, 1942.]

Confesiones. Madri: Mestas, 2003. [Trad. Eugenio de Zeballos, 1781.]

Confissões. SP: Cia das Letras, 2017. [Trad: Lorenzo Mammi.]

Confissões. SP: Paulinas, 1986. [Trad: Maria Luisa Jardim Amarante, 1984.]

Confissões. SP: Nova Cultural, 1996. [Trad: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, ?]

Confissões. SP: Quadrante, 1985. [Trad: Jorge Pimentel Cintra.]

De civitate Dei.

City of God, the. Chicago: Great Books of the Western World, 1978. [Trad: Marcus Dods, 1871.]

Concerning the city of God against the pagans. Londres: Penguin, 2003. [Trad: Henry Bettenson, 1972.]

De doctrina Christiana.

On Christian doctrine. Chicago: Great Books of the Western World, 1978. [Trad: J. F. Shaw, 1886.]

On Christian teaching.  Oxford: OUP, 2008. [Trad: R. P. H. Green, 1997.]

Coletâneas.

Basic writings of Saint Augustine. 2 vols. NY: Random House, 1948. [Org: Whitney J. Oats]

Essential Augustine, The.  Indianapolis: Hackett, 1974. [Org. Vernon J. Bourke.]

Outros

Against academicians. The teacher. Indianapolis: Hackett, 1995. [Trad. Org. Peter King.]

On free choice of the will. Indianapolis: Hackett, 1993. [Trad. Org. Thomas Williams.]

Sobre a vida feliz. Petrópolis: Vozes, 2014. [Trad: Enio Paulo Giachini.]

Sobre Agostinho

Augustine, conversions to confessions, de Robin Lane Fox. NY: Basic Books, 2015.

Augustine of Hippo, a biography, de Peter Brown. Berkeley: UC Press, 1969.

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a quarta aula, Cristãos, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Agostinho de Hipona é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 8 de setembro de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/agostinho // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para a Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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