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1ª aula: Bíblia Hebraica grande conversa

O significado literal da Bíblia: ler com amor

Se a Bíblia ensina o amor, então, ela não pode ser lida literalmente, mas generosamente. (Um guia de leitura para a primeira aula do curso “Introdução à Grande Conversa”.)

Até meados do século XIX, nunca tinha passado pela cabeça de ninguém que o Gênese poderia ser uma narrativa literal da criação do mundo. Pelo contrário, desde cedo temeu-se que colocar esses textos sagrados por escrito estimularia certezas estridentes, inflexíveis, irrealistas. (Como, aliás, Jeremias sugere em 8, 8-9)

Como um texto alegórico como a Bíblia passou a ser lido de forma literal justo na época mais científica da humanidade? Não é coincidência.

Abaixo, uma pequena história dos diversos significados possíveis da Bíblia ao longo dos milênios.

Comentaristas e estudiosos antigos, tanto do Judaísmo quanto do Cristianismo, raramente buscavam pelo significado “original” ou “verdadeiro” de algum trecho bíblico. Pelo contrário, as escrituras “provavam” serem sagradas justamente por sua multiplicidade de possíveis interpretações, por sua contínua aplicabilidade aos novos problemas do dia a dia.

O trabalho dos sábios do judaísmo não era apenas preservar o texto sagrado, mas constantemente reinterpretá-lo à luz dos novos tempos. Nesse sentido, a palavra de Deus não tinha sido revelada ao homem somente uma vez, mas, pelo contrário, era um processo contínuo, pois sempre haveria novas verdades, novas interpretações, novas leituras a serem retiradas dos mesmos textos. (Escrever sobre os profetas é um pouco ser profeta também, diz Ben Sira, no Eclesiástico 24, 33.)

Para os sábios judaicos, o significado do texto sagrado nunca era auto-evidente: ele precisava ser ativamente buscado e, a cada vez, significará algo diferente, pois a palavra de Deus é inexaurível. (Naturalmente, isso também manteve esses sábios empregados por milênios.) Na verdade, um texto que não pudesse ser radicalmente reinterpretado de acordo com os novos tempos era um texto morto, um texto inútil; mais uma vez, o que provava a sacralidade do texto era sua contínua relevância para novas épocas, seu contínuo diálogo com as novas gerações que se sucediam. Como poderia ser sagrado um texto cujo significado se esgotou na época e na geração em que foi concebido? Por ser sagrado, o texto conteria a soma do conhecimento humano, ainda que de forma embrionária ou sugerida: não haveria nada que não conseguiríamos encontrar dentro dele se procurássemos o suficiente. Se a palavra de Deus era literalmente infinita, então, quaisquer novos significados encontrados nela teriam sido postos ali, por Deus, para nosso benefício. Encontrá-los era trabalho desses sábios.

Essa postura não se limitava aos rabinos, mas foi herdada e expandida pelos hermeneutas cristãos, que também consideravam a Bíblia um texto inesgotável, capaz de gerar infinitos novos significados. O Papa Gregório, no século VI, dizia que estudar o sentido literal da Bíblia era como julgar uma pessoa por seu rosto e não por seu coração: não havia sentido que já não esteja previamente no texto, mas nunca dado literalmente e sim esperando por nosso esforço para ser revelado.

Já no século III, o patriarca cristão Orígenes enfatiza que, levada ao pé da letra, era impossível a Bíblia ser a palavra sagrada. Como encontrar inspiração em alguns dos trechos mais problemáticos e pouco edificantes? Mas, se partimos do princípio que a Bíblia só ensina o amor e a caridade, continuava Orígenes, então precisamos fazer o esforço de desencavar o amor e a caridade por trás desses trechos. Por exemplo, Abraão fingiu que sua esposa era sua irmã e a cafetinou ao Faraó… porque ela simbolizava a virtude e a virtude deve sempre ser compartilhada! Para nós, talvez até para ele mesmo, parece que Orígenes forçou uma barra, mas ele defendia que sua leitura não era arbitrária, pois as pistas tinham sido plantadas pelo próprio Deus: ele, Orígenes, apenas decifrava essas pistas para atualizar a voz de Deus à luz da revelação de Jesus Cristo. (Ironicamente, Orígenes castrou a si mesmo, por levar ao pé da letra Mateus 19, 12.)

Agostinho de Hipona (cujas Confissões leremos na quarta aula, Cristãos), professor de retórica clássica, versado em toda a literatura pagã da Antiguidade, afirmava que suas dificuldades iniciais com a Bíblia eram puramente por seu orgulho e arrogância: para ele, o significado das escrituras só estaria aberto para quem se libertasse de sua própria soberba e auto-importância. Para Agostinho, a Bíblia, por definição, só ensinava amor. Por isso, insultar alguém utilizando a Bíblia, usá-la para justificar o que hoje chamaríamos de discurso de ódio, etc, equivaleria a chamar Deus de mentiroso, o pior dos pecados. Agostinho apontava que os padrões de conduta moral eram culturalmente condicionados, como poligamia e etc. Sobre a história de Davi e Betsabeia, dizia não ser preciso transformá-la em alegoria: até mesmo os melhores entre nós cometem pecados; a história estava na Bíblia como um alerta para todas nós. E continua: condenar moralmente os personagens da Bíblia é muito fácil, traz uma satisfação condescendente e autocongratulatória, mas é um dos maiores obstáculos para uma verdadeira compreensão das escrituras. É preciso pensar e ponderar, analisar e trabalhar o texto até chegarmos à interpretação que seja a mais caridosa e a mais generosa possível: independente da intenção do autor original, se um trecho da Bíblia parece não estar ensinando o amor, a caridade, a generosidade, então esse trecho deve ser interpretado figurativamente. Nesse sentido, a interpretação bíblica, em si mesma, é uma prática da difícil arte da caridade. E, se conseguimos ler a Bíblia assim, então conseguimos ler todos os livros assim e, mais importante, também conseguimos ler assim o mundo e as pessoas à nossa volta.

(Agostinho defende esse tipo de leitura da Bíblia em A doutrina cristã, um livro importantíssimo pra mim, ateu cético que sou, justamente por ter me ensinado uma maneira mais bonita, mais generosa, mais útil de ler o próprio mundo. A segunda Prática de Atenção do meu livro Atenção. é sobre essa leitura e como ela pode ser aplicada em nossas vidas.)

Ao longo dos séculos, a Bíblia foi se afastando mais e mais da pessoa cristã comum: tanto o livro, quanto a própria missa, eram mantidos em uma língua que não era compreendida pela maioria das pessoas. Em resposta, uma das principais bandeiras da Reforma Protestante foi a doutrina da sola scriptura: dizia Lutero que um leigo sozinho com a Bíblia tinha mais chances de estar correto do que um Papa ou um Concílio sem ela. Graças à Reforma, a Bíblia começa finalmente a ser traduzida para as línguas vernáculas, ou seja, faladas: a primeira tradução da Bíblia para o português, por exemplo, realizada no século XVII por João Ferreira de Almeida, é protestante. Só no século XX, a Igreja Católica começou a estimular as traduções vernáculas da Bíblia. (Escrevo mais sobre esse processo aqui.)

Mesmo os primeiros líderes protestantes, entretanto, se enfatizam a leitura direta da Bíblia, não enfatizavam sua leitura literal. Calvino, por exemplo, dizia que, na Bíblia, Deus tinha sido caridoso com nossas limitações e tinha explicado somente o que tínhamos capacidade de entender em cada época. Ou seja, as histórias menos edificantes tinham que ser entendidas em seu contexto histórico. E prossegue: astronomia, por exemplo, é um conhecimento útil e bom, e demonstra a sabedoria de Deus em ação nos céus, mas seria absurdo considerar que a Bíblia ensina astronomia. Quem quer aprender astronomia deve buscar a astronomia. O mundo natural fazia parte da revelação de Deus aos homens e, por isso, estudá-lo, em seus próprios termos, também era uma atividade religiosa.

Ao mesmo tempo em que Lutero e Calvino defendiam a sola scriptura” eles também diziam coisas como: “Terá cada fanático de Bíblia na mão o direito de ensinar o que quiser?” (Lutero) e “Se todos tiverem direito de ser juiz e árbitro desses assuntos, então nada poderá ser estabelecido e nossa religião viverá sempre na incerteza” (Calvino). Não demorou muito para a liberdade religiosa inaugurada e possibilitada pela Reforma Protestante começar a ser considerada problemática por seus próprios líderes. Em uma época de conformismo cada vez mais forte e mais violento, o que poderia ser mais perigoso?

No século XIX, começam a surgir as primeiras críticas literárias mais sérias da Bíblia, como a Hipótese Documental, da qual falo mais aqui. A princípio, ela foi encarada como uma ameaça maior que a própria teoria da Evolução: temia-se que, se o público soubesse que Moisés não escreveu o Pentateuco, ou que os milagres eram símbolos, iriam abandonar a religião! “Se Jonas não passou literalmente três dias dentro da barriga da baleia”, se perguntava um pastor protestante, “por que acreditaríamos que Jesus ressuscitou depois dos mesmos três dias?” Se os evangelhos não são História factual, então, como podem ser verdade? Como podem ter valor?

Essas perguntas, com certeza, são compartilhadas por boa parte das leitores desse texto, religiosas ou não. Como tudo que nos parece óbvio, elas também nos parecem atemporais. Entretanto, são questões eminentemente modernas. Nunca sido postas, pensadas, concebidas antes do século XIX. O nosso pensamento moderno, racional, científico faz com que nos seja cada vez mais difícil, mesmo para as pessoas religiosas entre nós, lidar com mitos, fantasia, símbolos da mesma maneira relaxada que nossos antepassados. Foi a ciência, ao nos tornar mais literais e mais precisos, que tornou possível os cristãos fundamentalistas e suas leituras literais da Bíblia. Foi a própria ciência que, ao instigar em nós uma busca sedenta por certezas, fez com que também passássemos a buscar nas escrituras algumas certezas que ninguém nunca antes tinha exigido delas. O primeiro livro de interpretação bíblica com o objetivo de provar a veracidade literal de cada palavra da Bíblia é somente de 1881 e é difícil de exagerar o quanto era original — isso nunca tinha passado pela cabeça de ninguém em todos os milênios anteriores — e o quanto foi influente — provando, de fato, que respondia a anseios profundos e poderosos de grande parte da comunidade cristã.

A Bíblia pode ser conformista, sim, mas também pode ser subversiva. Ela não é um texto: é uma atividade, é uma prática. É um hipertexto. Ressignificar a Bíblia, reinterpretar e contextualizar seus trechos violentos e problemáticos também é defender nossa própria tradição cultural de si mesma, de seu lado negro, de seus piores instintos. É recapturá-la para nós, nos nossos próprios termos.

Muitas vezes, para nossa mentalidade mais literal, criada pela razão científica, as interpretações alegóricas parecem estar violentando o texto, acrescentando aquilo que não está, nunca esteve, não poderia estar lá. Mas existe uma generosidade na leitura alegórica que faz muita falta no nosso discurso atual. Orígenes não desprezava o texto bíblico (e, por isso, projetava nele os significados que bem entendesse) mas sim dava a ele o benefício da dúvida. A leitura que Agostinho sugere para a Bíblia pode ser considerava uma variação de métodos de comunicação contemporâneos como Comunicação Não-Violenta e minhas próprias Práticas de Atenção. Se queremos realmente entender o Outro, qualquer outro, uma pessoa ou um texto, é necessário presumir sua boa-fé, que está falando a verdade em seus próprios termos.

Qualquer leitura que ensine o ódio não é uma leitura válida. Nem da Bíblia nem de nenhum texto. Se toda pessoa é melhor do que a pior coisa que fez, todo texto também é melhor do que o seu pior trecho. Ler com generosidade é presumir a verdade do Outro e buscar sempre a interpretação mais generosa de qualquer texto. Ao invés de usar a Bíblia para justificar nossos piores instintos, nossa ganância ou nossa homofobia, ler com generosidade é usar nossa inteligência e nossa criatividade para encontrar no texto algo novo, mais amoroso, mais generoso. Um tipo de leitura que pode fazer do mundo um lugar marginalmente melhor.

Esse texto não é uma defesa da Bíblia. Não estou dizendo que ela é um livro especial que merece ser lido com mais carinho. Como falei em outro texto, a Bíblia, como todas nós, é ao mesmo tempo boa e má, inocente e culpada. A questão é o que nós, cidadãs de hoje, vamos fazer a respeito.

O que estou estou propondo é (com base em uma leitura sugerida pela primeira vez para a Bíblia) uma nova maneira de lermos o livro do mundo.

(Referência: esse texto inteiro é uma paráfrase de Bíblia, uma biografia, de Karen Armstrong.)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a primeira aula, Antigo Testamento, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura da primeira aula estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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O significado literal da Bíblia: ler com amor é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 2 de julho de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/significado-literal-da-biblia // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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