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4ª aula: Cristãos evangelhos grande conversa

Paulo versus Jesus

Tudo o que Jesus tinha de teórico Paulo tinha de prático. (Guia de leitura para a quarta aula, Cristãos, do o curso Introdução à Grande Conversa)

De todos os autores do Novo Testamento, Paulo é o único que conhecemos com certeza. Algumas das cartas atribuídas a ele são apócrifas, mas existe um cerne que seguramente foi escrito por ele, o apóstolo Paulo de Tarso, ali, no meio da ação, no calor do momento, na vida prática das primeiras comunidades cristãs.

(São cartas tão absolutamente práticas, tão centradas nos problemas imediatos do dia-a-dia, que lê-las é quase como viajarmos no tempo e estarmos ali, ao seu lado.)

Pensar no Novo Testamento somente como “o livro de Jesus” significa enxergar menos de metade da história: o Novo Testamento é o livro de Jesus e de Paulo, um livro cujo poder é muito maior do que a soma dessas partes, cuja explosiva força literária vem justamente da fratura, da tensão entre os objetivos teóricos e milenaristas de Jesus e os práticos e institucionais de Paulo.

Sim, às vezes, sinto uma certa pirraça de Paulo quando vejo o quanto ele distorceu a mensagem de Jesus. Ler as cartas paulinas imediatamente depois dos evangelhos é como ler O Capital de Marx, com um pós-escrito de Roberto Campos e Milton Friedman explicando como aplicar aquilo na prática: privatizando empresas públicas, diminuindo o tamanho do Estado e cortando benefícios sociais!

Mas, por outro lado, é muito mais fácil se arrebatar, se empolgar, se incendiar lendo Paulo do que acompanhando a pregação de Jesus. Quanta energia, quanta força, quanta potência. Paulo é a minha definição de “um homão da porra”. Difícil um time perder tendo um jogador como Paulo. Não sei se eu seguiria Jesus, mas eu com certeza chamaria Paulo para o conselho de qualquer empresa, ONG, instituição que eu considerasse montar.

Tudo indica que havia vários pregadores judeus milenaristas e messiânicos em atividade na Palestina na época de Jesus. Mas Paulo de Tarso sempre houve apenas um.

Então, quando não estou de pirraça contra Paulo, eu me dou conta do seguinte:

Sem a força vital e a capacidade de liderança de Paulo, talvez a belíssima mensagem de Jesus tivesse se perdido e ele fosse esquecido, como tantas outras coisas belas que se perderam e se esqueceram ao longo dos milênios.

Mas, sem a pregação específica de Jesus, se Paulo tivesse decidido investir essa sua libido transbordante em outro pregador, em Felipe ou Barnabé, hoje certamente viveríamos numa civilização felipã ou barnabã.

* * *

Não dei nenhuma das cartas de Paulo como leitura para nosso curso, mas indiquei o Atos dos Apóstolos, texto onde ele aparece, ao lado de Pedro, como protagonista – embora não narrado por suas próprias palavras.

Abaixo, as sete cartas que são unanimemente consideradas como obras autênticas do apóstolo Paulo e sua data provável de escritura:

  • 1 Tessalonicenses (c. 50 EC)
  • Gálatas (c. 53)
  • 1 Coríntios (c. 53–54)
  • Filipenses (c. 55)
  • Filemom (c. 55)
  • 2 Coríntios (c. 55–56)
  • Romanos (c. 57)

Essas cartas são os textos mais antigos do Novo Testamento: Marcos, o evangelho mais antigo, foi certamente escrito depois da destruição do Templo de Jerusalém, em 70 EC.

Para quem quiser ouvir a voz de Paulo, selecionei alguns dos meus trechos abaixo:

(Tem pelo menos dois versos de músicas famosas da MPB tirados diretamente desses trechos)

* * *

Aliás, usamos tanto certos nomes que às vezes esquecemos o que realmente querem dizem, seu significado perde o sentido.

Mas quem aqui for paulista ou paulistana é porque nasceu em um estado ou em uma cidade batizada em nome dessa pessoa que de fato existiu, que viveu e sofreu, que pensou e escreveu, Paulo de Tarso, autor das linhas abaixo, que (ao menos para mim) me soam tão incrivelmente vivas.

Quantas de nós já tínhamos parado para pensar nisso?

(Eu não sou paulista, mas sou agostiniano, aluno do Colégio Santo Agostinho, outro autor que também leremos.)

Fiquem com as palavras de Paulo de Tarso.

* * *

Vale tudo para salvar almas

“Será que eu não sou um homem livre? Por acaso não sou um apóstolo? …

Sou um homem livre; não sou escravo de ninguém. Mas eu me fiz escravo de todos a fim de ganhar para Cristo o maior número possível de pessoas. Quando trabalho entre os judeus, vivo como judeu a fim de ganhá-los para Cristo. Não estou debaixo da Lei de Moisés; mas, quando trabalho entre os judeus, vivo como se estivesse debaixo dessa Lei para ganhar os judeus para Cristo. Assim também, quando estou entre os não judeus, vivo fora da Lei de Moisés a fim de ganhar os não judeus para Cristo. Isso não quer dizer que eu não obedeço à lei de Deus, pois estou, de fato, debaixo da lei de Cristo. Quando estou entre os fracos na fé, eu me torno fraco também a fim de ganhá-los para Cristo. Assim eu me torno tudo para todos a fim de poder, de qualquer maneira possível, salvar alguns. Faço tudo isso por causa do evangelho a fim de tomar parte nas suas bênçãos.

Vocês sabem que numa corrida, embora todos os corredores tomem parte, somente um ganha o prêmio. Portanto, corram de tal maneira que ganhem o prêmio. Todo atleta que está treinando aguenta exercícios duros porque quer receber uma coroa de folhas de louro, uma coroa que, aliás, não dura muito. Mas nós queremos receber uma coroa que dura para sempre. Por isso corro direto para a linha final.

Também sou como um lutador de boxe que não perde nenhum golpe. Eu trato o meu corpo duramente e o obrigo a ser completamente controlado para que, depois de ter chamado outros para entrarem na luta, eu mesmo não venha a ser eliminado dela.

(1 Coríntios, 9, NTLH)

* * *

Hino ao amor

(A palavra aqui traduzida como amor é “Agape”. Algumas versões traduzem como “caridade”.)

Eu poderia falar todas as línguas

que são faladas na terra e até no céu,

mas, se não tivesse amor,

as minhas palavras seriam

como o som de um gongo

ou como o barulho de um sino.

Poderia ter o dom de anunciar

mensagens de Deus,

ter todo o conhecimento,

entender todos os segredos

e ter tanta fé, que até poderia tirar

as montanhas do seu lugar,

mas, se não tivesse amor,

eu não seria nada.

Poderia dar tudo o que tenho

e até mesmo entregar o meu corpo

para ser queimado,

mas, se eu não tivesse amor,

isso não me adiantaria nada.

Quem ama é paciente e bondoso.

Quem ama não é ciumento,

nem orgulhoso, nem vaidoso.

Quem ama não é grosseiro nem egoísta;

não fica irritado, nem guarda mágoas.

Quem ama não fica alegre quando alguém

faz uma coisa errada,

mas se alegra quando alguém

faz o que é certo.

Quem ama nunca desiste,

porém suporta tudo com fé, esperança

e paciência.

O amor é eterno.

Existem mensagens espirituais,

porém elas durarão pouco.

Existe o dom de falar

em línguas estranhas,

mas acabará logo.

Existe o conhecimento,

mas também terminará.

Pois os nossos dons de conhecimento

e as nossas mensagens espirituais

são imperfeitos.

Mas, quando vier o que é perfeito,

então o que é imperfeito desaparecerá.

Quando eu era criança,

falava como criança, sentia como criança

e pensava como criança.

Agora que sou adulto,

parei de agir como criança.

O que agora vemos

é como uma imagem imperfeita

num espelho embaçado,

mas depois veremos face a face.

Agora o meu conhecimento é imperfeito,

mas depois conhecerei perfeitamente,

assim como sou conhecido por Deus.

Portanto, agora existem

estas três coisas:

a fé, a esperança e o amor.

Porém a maior delas é o amor.

(1 Coríntios, 13, NTLH)

* * *

Lógica de Paulo

Se a nossa mensagem é que Cristo foi ressuscitado, como é que alguns de vocês dizem que os mortos não vão ressuscitar? Se não existe a ressurreição de mortos, então quer dizer que Cristo não foi ressuscitado. E, se Cristo não foi ressuscitado, nós não temos nada para anunciar, e vocês não têm nada para crer. E mais ainda: nesse caso estaríamos mentindo contra Deus, porque afirmamos que ele ressuscitou Cristo. Mas, se é verdade que os mortos não são ressuscitados, então Deus não ressuscitou Cristo. Porque, se os mortos não são ressuscitados, Cristo também não foi ressuscitado. E, se Cristo não foi ressuscitado, a fé que vocês têm é uma ilusão, e vocês continuam perdidos nos seus pecados. Se Cristo não ressuscitou, os que morreram crendo nele estão perdidos. Se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo. …

E, quanto a nós, por que é que nos colocamos em perigo a toda hora? Irmãos, eu enfrento a morte todos os dias. Se afirmo isso, é pelo orgulho que tenho de vocês, pois estamos todos unidos com Cristo Jesus, o nosso Senhor. Aqui em Éfeso eu lutei contra inimigos como se lutasse contra animais selvagens. E, se fiz isso somente por interesses humanos, o que foi que eu consegui com isso? Se é verdade que os mortos não são ressuscitados, façamos o que diz o ditado: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos.”

(1 Coríntios, 15, NTLH)

* * *

Autobiografia apostólica de Paulo

Repito: que ninguém me considere insensato! Ou então suportai-me como insensato, a fim de que também eu me possa gloriar um pouco. O que vou dizer, não o direi conforme o Senhor, mas como insensato, certo de ter motivo de me gloriar. Visto que muitos se gloriam de seus títulos humanos, também eu me gloriarei.

De boa vontade suportais os insensatos, vós que sois tão sensatos! Suportais que vos escravizem, que vos devorem, que vos despojem, que vos tratem com soberba, que vos esbofeteiem. Digo-o para vergonha vossa: poder-se-ia crer que nós é que fomos fracos… Aquilo que os outros ousam apresentar — falo como insensato — ouso-o também eu.

São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? Como insensato, digo: muito mais eu. Muito mais, pelas fadigas; muito mais, pelas prisões; infinitamente mais, pelos açoites. Muitas vezes, vi-me em perigo de morte. Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez, apedrejado. Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar. Fiz numerosas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte dos meus irmãos de estirpe, perigos por parte dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos! Mais ainda: fadigas e duros trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez!

E isto sem contar o mais: a minha preocupação cotidiana, a solicitude que tenho por todas as Igrejas! Quem fraqueja, sem que eu também me sinta fraco? Quem cai, sem que eu também fique febril? Se é preciso gloriar-se, de minha fraqueza é que me gloriarei.

(2 Coríntios, 11, Jerusalém)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a quarta aula, Cristãos, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 2 de julho de 2020 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Paulo versus Jesus é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 29 de agosto de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/paulo-versus-jesus // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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