A violência desigual

Vivemos em um país violento, mas, antes de tudo, vivemos em um país desigual.

Se a violência fosse distribuída igualmente, ela já teria acabado: nossa classe alta não suportaria.

* * *

Recebo muitas turistas na minha casa. Elas perguntam:

“É perigoso aqui?”

E eu respondo:

“Pra você, não.”

* * *

Tenho muitas pessoas amigas, brancas de classe alta, que se isolam em casa e deixam de frequentar espaços públicos por medo da violência.

Para acalmá-las, eu digo:

Quem morre vítima de violência no Brasil são pessoas que moram nas favelas e pessoas que trabalham na Polícia Militar.

Quando foi a última vez que morreu uma loira branca de Ipanema? Quando morre, sai na primeira página dos jornais cinco dias seguidos, tem passeata pela paz na praia, as culpadas (pasmem!) vão até presas.

A taxa de homicídios de pessoas cariocas brancas de classe alta deve ser quase dinamarquesa.

Então, pode ficar tranquila, as ruas foram feitas para sua segurança. Quem está morrendo que nem mosca não é você, suas amigas, sua família. É gente que você nem conhece. Talvez sua manicure.

Aliás, o ciclo vicioso, monstruoso é exatamente esse:

Quanto mais a classe alta se considera acuada pela violência (não está), mais ela exige medidas repressivas que só causam mais mortes entre as pessoas faveladas e as pessoas que trabalham na Polícia Militar, aumentando assim sua percepção da violência, ad eternum, ad nauseum.

A classe alta, quando se sente acuada, se torna cada vez mais bárbara, mais violenta: exige o sangue de pretos pobres em troca de sua paz de espírito. (Sabemos disso pela experiência de séculos de História.)

Talvez, caso se sinta segura, encontre a generosidade para lutar contra esse genocídio. Talvez. (Pelo menos, é algo que nunca foi tentado.)

Não falta sangue correndo nas ruas do Brasil. O problema é que é só sangue negro.

* * *

Aliás, classe alta, no Brasil, é quem tem renda mensal per capita maior que R$2.400. (Falo sobre isso na Prisão Privilégio.)

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