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José J. Veiga, criador de cruéis cachorros

Um de nossos grandes autores esquecidos, alegórico de mão cheia, melhor romancista da ditadura de 1964, talvez único verdadeiro praticante de realismo mágico no Brasil.

José J. Veiga (1915–99) é um de nossos grandes autores esquecidos, um alegórico de mão cheia, talvez único verdadeiro praticante de realismo mágico no Brasil.

Veiga começa tarde: estreia com um livro de contos, Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), quando tinha 44 anos e, pasmem!, faz imenso sucesso, merecido.

Depois disso, começa a escrever e publicar prolificamente. Seus melhores romances são das décadas de sessenta e setenta, em especial A hora dos ruminantes (1966) e Sombras de reis barbudos (1972), brilhantes alegorias do nosso regime militar, com destaque também para Os pecados da tribo (1976).

A qualidade de sua produção cai bastante no final, mas seus cinco primeiros livros são uma sequência simplesmente brilhante, invejável.

Seus dois melhores romances, A hora dos ruminantes e Sombras de reis barbudos (que sozinhos já seriam mais que suficientes para imortalizá-lo) expandem os temas e obsessões do melhor conto de Os Cavalinhos de Platiplanto, “A usina atrás do morro”, e podem ser considerados diferentes versões da mesma história: uma cidade pequena e pacata é invadida por uma força insólita e irresistível.

Simples e assustador. São os melhores romances políticos, os melhores romances alegóricos, os melhores (praticamente os únicos) romances de realismo mágico da literatura brasileira.

A linguagem é tão simples, tão límpida, tão cristalina (Veiga traduzia Hemingway) que são muitas vezes ensinados para jovens, como se fossem romances infanto-juvenis. Quando dava aulas de português e literatura brasileira nos Estados Unidos, ensinei A hora dos ruminantes por esse motivo, entre outros, e foi um sucesso.

Com um senão.

Minhas pessoas alunas eram falantes nativas de inglês e, também, fluentes em espanhol. Ou seja, português era sua terceira língua.

Mas, em um dado momento da discussão sobre A hora dos ruminantes, percebi que claramente tinha havido alguma quebra na comunicação, pois estavam comentando o livro em uma chave muito errada.

Deixo vocês com dois trechos do romance, para que tenham os subsídios para adivinhar qual foi o mal-entendido, e depois eu conto.

A abertura do romance:

“Manarairema ao cair da noite – anúncios, prenúncios, bulícios. Trazidos pelo vento que bate pique nas esquinas, aqueles infalíveis latidos, choros de criança com dor de ouvido, com medo de escuro. Palpites de sapos em conferência, grilos afiando ferros, morcegos costurando a esmo, estendendo panos pretos, enfeitando o largo para alguma festa soturna. Manarairema vai sofrer a noite.”

Um dos momentos mais opressores e apavorantes de A hora dos ruminantes é quando Manarairema é invadida por cachorros, que ninguém sabe de onde vieram e tomam conta da cidade:

“Outros [cachorros] parece que entravam numa casa apenas para descarregar a bexiga; chegavam, farejavam, escolhiam lugar, às vezes até um par de botinas encostado num canto, e calmamente se aliviavam; ou rodavam, rodavam no meio da sala, o corpo encurvado no meio, as pernas traseiras abertas, espremiam, largavam uns charutinhos ou uma broa; satisfeitos com o resultado, raspavam as patas duas, três vezes e saíam sem olhar para ninguém, os donos da casa que providenciassem a limpeza. Eram desacatos que as pessoas toleravam resignadas, consolando-se em pensar que não há mal que sempre dure.”

O único problema é que, em espanhol, “cachorro” não tem o mesmo significado em português: minhas alunas tinham visualizado a cidade invadida por filhotinhos de cachorro.

Realmente, assim não há clima opressivo e metáfora do regime militar que se sustente.

* * *

Acima, o cartaz da minha disciplina, espalhado pelo campus e, abaixo, a transcrição do texto:

A survey course on Brazilian culture.

Portuguese 325 – Composition & Conversation

Tuesdays and Thursdays, 12:30-1:45 – Instructor Alexandre Silva

PORT 325 is a survey course on Brazilian culture, focusing on oral discussion and writing practice.

First, three short, approachable novels, “Clara dos Anjos”, by Lima Barreto, “Vidas Secas”, by Graciliano Ramos and “A Hora dos Ruminantes”, by J. J. Veiga, each exemplifying on a main theme of Brazilian literature: racial relations, regionalism and dictatorship.

Then, the distinctive voices of two short story masters: the psychological prose of Lispector in “Laços de Família” and the dry, violent style of Rubem Fonseca in “Feliz Ano Novo”.

Finally, five contemporary movies explore radically different views of Brazilian slums and urban violence: “Cidade de Deus”, “Cidade dos Homens”, “Quanto Vale ou É por Quilo”, “De Passagem” and “Redentor”.

As this is an introductory Portuguese survey class, the novels, short stories and movies will mostly serve as the basis for further development of speaking and writing, focusing more on skill practice than on literary analysis.

Fulfills non-Western culture requirement.

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E eu agradeceria muito, muito mesmo.

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José J. Veiga, criador de cruéis cachorros é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 27 de maio de 2020, disponível na URL: alexcastro.com.br/jose-j-veiga // Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. Esse, e todos os meus textos, só foram escritos graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou muito, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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