Górki | alex castro

Górki

Dos grandes russos, Górki é, ao mesmo tempo, o menor e o maior, o mais falho e o mais necessário.

Nunca perfeito, todos os seus defeitos emanam das suas grandes qualidades, do seu humanismo, da sua empatia, da sua expansividade.

“Gorky Visiting Red Army Men” por Victor Ryzhikh

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Sua obra-prima é, sem dúvida, sua autobiografia, em três volumes, publicada no Brasil em belíssima edição pela finada Cosac Naify.

Tolstoi, Dostoievski, Turgeniev, Tchecov me ensinaram muito sobre a condição humana, mas só na autobiografia de Górki eu realmente conheci a Rússia, a verdadeira Rússia, a Rússia dos pobres, dos miseráveis, dos bestializados.

Tolstoi dedica seus últimos anos a isso e Turgeniev, em movimento inverso, faz uma brava tentativa no começo da carreira em Memórias de um caçador (um dos livros mais importantes da minha vida), mas ambos eram aristocratas, pairavam muito acima dos pequenos. Tchecov, que vinha de família humilde e é meu autor preferido no geral, chegou mais perto de ter sucesso, mas nada como Górki.

O primeiro volume da autobiografia consegue a inacreditável façanha de ser, ao mesmo tempo, um dos livros mais brutais e mais esperançosos que já li. São tantas surras e violências que uma se confunde à outra. A atmosfera de ignorância e violência que envolve aqueles camponeses é tão espessa que parece não haver saída. E, apesar disso, é um livro repleto de alegria, de vida, de esperança.

Os grandes russos são alguns de meus melhores amigos, meus companheiros da vida toda: Puchkin, Gogol, Lermotov, Turgeniev, Tolstoi, Dostoievski, Tchecov, Górki. Amo todos, cada um do seu jeito, cada um com seus defeitos e qualidades.

Mas, quando quero me inspirar, quando quero me levantar, quando quero uma lufada de vida, é sempre a Górki que retorno.

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Górki é um de tantos autores que só li por recomendação de Henry Miller.

Outros autores que eu talvez não tivesse lido, ou pelo menos não teria lido tão cedo, sem Henry Miller: Boccaccio, Cellini, Prescott, Rabelais, Emerson, Thoreau, Whitman.

Sempre serei grato a esse velho sem vergonha por tudo que fez por mim. Recomendo o seu Os livros da minha vida. Ou confira os 100 livros que mais lhe marcaram.

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A Editora 34, em todo seu maravilhoso catálogo de russos, tem apenas uma antologia de contos de Górki, Meu companheiro de estrada e outros contos, traduzida e organizada pelo recém-falecido Bóris Chnaidermann, uma das pessoas mais incríveis que já conheci.

Górki também é o poeta da força. Dois contos desse livro, talvez os meus preferidos, têm esse tema.

Em “Caim e Artiom”, o valentão da vila é salvo por homenzinho fracote e covarde, e passa a protegê-lo. Em poucos dias, entretanto, ele acaba confessando que simplesmente não consegue respeitar a fraqueza do outro e que não vai mais protegê-lo.

Em “Meu companheiro de estrada”, que dá título ao livro, Górki, então vagabundo andarilho, faz uma longa caminhada ao lado de um aristocrata que se perdeu da família e está sem dinheiro. Ao longo de toda a viagem, o aristocrata faz pouco e humilha o vagabundo que o está ajudando, mas Górki simplesmente se recusa a ser humilhado. Do seu ponto de vista, o aristocrata é como se fosse uma criança, incapaz de seu cuidar e sem saber o que fala. Em outras palavras, Górki se considera tão acima do homem que pretensamente está tentando humilhá-lo que nem ao mesmo responde e, pelo contrário, continua tratando-o com carinho.

É uma tática que venho usando por toda a minha vida com as pessoas que tentam me humilhar e me atacar.

Obrigado, Górki.

“Maxim Gorky (1868-1936) at the Building of the Hydroelectric Power Plant ‘DnieproGES'”, 1951, por Kotov, Pyotr Ivanovich (1889-1953).

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Em 1932, enquanto Gorki ainda era vivo e à sua revelia, Stálin mudou o nome da cidade natal do escritor para “Górki”.

Não era uma vila qualquer. Ainda hoje, é a quinta maior cidade da Rússia.

Sem ter como impedir a bizarra homenagem, ele disse apenas que nunca mais escreveria para casa: se recusava a endereçar uma carta para a cidade de “Górki”.

 

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Pós-escrito: Dê Alex Castro de Natal

Queridas pessoas lindas,

Está chegando o Natal, época de dar e receber presentes.

(Confesso que evito dar presentes, por esses motivos aqui.)

Mas, enfim, as outras pessoas não são eu. (E esse é justamente um dos temas do meu novo livro Atenção.)

Nesse Natal, se você pretende comprar objetos e oferecê-los às pessoas queridas, posso sugerir que alguns desses sejam meus livros?

Se você comprar em qualquer lugar, de qualquer forma, já me ajuda muito e eu te agradeço demais.

A página dos meus livros, com links para comprá-los em livrarias virtuais, é essa aqui: alexcastro.com.br/livros

Se você comprar na minha própria mão, você paga um pouco mais caro mas tem a satisfação de ajudar diretamente o autor que você curte e acompanha. (Farei o envio das próximas compras na segunda, 16 de dezembro, para garantir que tudo chegue antes do Natal.)

Tenho dois títulos à venda na minha mão, em diferentes formatos:

Meu mais recente livro, Atenção., lançado pela editora Rocco em 2019, traz ensaios sobre a atenção como uma ferramenta de transformação política: ouvir, acolher, olhar, tudo isso pode ser revolucionário. O desenvolvimento pessoal, para valer a pena, tem que ser para nos tornar pessoas melhores para as outras pessoas, não apenas para nós mesmas.

Do Atenção., estou vendendo tanto o impresso ($95) quanto um voucher físico do áudiolivro ($75), narrado por mim mesmo. Em ambos os casos, você recebe, pelo correio, uma dedicatória apócrifa e três marcadores de página exclusivos.

Esse é o lindíssimo voucher do áudiolivro (a foto não faz justiça):

Também tenho pra vender a Autobiografia do Poeta-escravo, escrita pelo cubano Juan Francisco Manzano, e traduzida e anotada por mim. É a única autobiografia de uma pessoa escravizada de toda a América Latina que chegou até nós. Um texto emocionante, poderoso, valioso. Meu maior interesse artístico e estilístico foi tentar criar uma voz própria para Manzano em português: como falaria e escreveria uma pessoa escravizada brasileira que vivesse tudo o que ele viveu?

Na foto abaixo, a Autobiografia na pilha dos livros que Lula está lendo:

(Esse recente artigo acadêmico faz uma análise política e literária dessa minha tradução: “Alex Castro e a tradução minorizante da “Autobiografia do Poeta-Escravo”, de Juan Francisco Manzano“)

Da Autobiografia, estou vendendo a edição brasileira ($80) e também a (rara) edição cubana ($200), em espanhol, com reprodução facsimilar de todas as páginas do manuscrito original, trinta fotos originais e todas as minhas 400 notas explicativas.

(Acabou de sair o áudiolivro da Autobiografia, narrado parcialmente por mim, com o Manzano interpretado pelo grande ator negro Eduardo Silva. Esse você compra diretamente da Tocalivros e, como não passa por mim, não ganha brindes, mas está sensacional.)

Esse ano, com o lançamento do Atenção., viajei muito, fiz poucos eventos e estou quebrado. Pra piorar a situação financeira, mas melhorar minha vida, casei no civil faz uns dias e, em poucas semanas, caso no religioso, com a mulher mais maravilhosa que já encontrei na vida.

Então, se você curte e acompanha meu trabalho, a melhor coisa que pode fazer por mim, nesse fim de ano, é comprar e presentear meus livros. Eles são tudo que tenho de melhor, tudo o que tenho a dizer, tudo o que vou deixar.

Outra forma de ajudar, ainda mais diretamente, é tornar-se mecenas, aquelas santas pessoas (sempre listadas no final dos meus livros) que fazem as contribuições em dinheiro, únicas ou regulares, que possibilitam minha criação artística.

De qualquer modo, e isso talvez seja o mais importante, todos os meus textos são oferecidos a você de graça e estão de graça na internet, a disposição de qualquer pessoa.

Se você quiser e puder contribuir em dinheiro, eu te agradeço.

Mas, se não puder e se não quiser, ainda assim é meu prazer e minha honra ter você aqui me acompanhando, me lendo, me apoiando.

Muito obrigado e feliz natal!

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