Categorias
leituras

Peter Handke

O austríaco Peter Handke ganhou o Nobel de Literatura de 2019. Recomendo o seu “Bem-aventurada infelicidade”, de 1972.

Deus!, como eu queria gostar de literatura contemporânea!

Infelizmente, obras sobre personagens tediosos e vazios quase sempre também são obras tediosas e vazias.

Lord Byron está morto há 200 anos, mas nunca escreveu uma frase que não fosse, no mínimo, interessante. É uma das poucas obrigações da literatura.

Acabei de ler quatro romances de Peter Handke, ganhador do Nobel de Literatura de 2019, e só o que pensava era que teria sido melhor, mais útil, mais prazeroso, reler Byron.

* * *

Um autor de opiniões polêmicas

Quando a austríaca Elfried Jelinek ganhou o Nobel de Literatura, em 2004, seu primeiro comentário foi:

“Eu? Vocês estão loucos! Se queriam premiar um autor de língua alemã, que fosse [o também austríaco] Peter Handke!”

Finalmente, em 2019, a Academia Sueca aceitou a sugestão.

Infelizmente, deu ruim. Houve protestos por todo o mundo. Pessoas, organizações, movimentos, queriam que a Academia retirasse a premiação e denunciasse o escritor.

Foi por algo que Handke foi acusado sem nunca ter sido condenado, como Woody Allen? Foi por algo que ele efetivamente fez, e reconheceu, como Louis C.K.? Foi por algo pelo qual foi efetivamente condenado, e fugiu, como Roman Polanski? Não.

O motivo: durante as guerras civis no Leste Europeu, na década de 1990, Handke (cuja mãe era eslovena) manifestou apoio e solidariedade ao lado sérvio, mais tarde universalmente considerado como tendo sido o agressor e culpado de crimes de guerra. Pronto.

Não pegou em armas em favor dos sérvios, não participou do governo sérvio, nada. Em sua posição de escritor mundialmente reconhecido, morando em outro país, simplesmente manifestou opiniões sobre o conflito, de causas longas, sutis e complexas, que estava rachando a Europa no meio.

Posso até entender boicotar um artista que se casou com a própria filha, mesmo que não tenha sido condenado, assim como boicotar um artista que tenha opiniões detestáveis, mesmo sabendo que são apenas opiniões, mas exigir que outras pessoas e organizações não possam premiá-lo me parece um pouco demais.

Se existe uma opinião de Handke que eu protestaria seria sua afirmação, em 2014, que o Prêmio Nobel de Literatura era um circo e que devia ser abolido.

Bem, em 2018, o circo estava tão desorganizado, com tantas traições e fofocas e adultérios, que nem se apresentou e, por isso, houve dois ganhadores em 2019, entre eles, Handke.

Em 1960, o esquerdista Sartre teve a dignidade de rejeitar o Nobel de Literatura, alegando que não queria se tornar porta-voz ou representante ou ser chancelado por nenhuma instituição. (Leiam a belíssima carta de Sartre à Academia, em português.)

Já Handke não viu problemas em se apresentar no centro do picadeiro que deveria ser abolido.

* * *

O tédio e o vazio, o isolamento e a indiferença

Estou sempre tentando ler literatura contemporânea – deixado solto, só leio clássicos.

(O passado já está lá, arrumadinho pra nós, o joio já separado do trigo, enquanto o presente é esse furdunço que bem conhecemos.)

Atualmente, por exemplo, estou lendo o delicioso poema épico-satírico Don Juan, de Lord Byron, escrito entre 1819 e 1824, e me divertindo horrores. (Em breve, escreverei mais sobre Byron.)

Handke já estava na minha fila desde a recomendação de Jelinek e achei que era uma boa oportunidade de fazer uma dobradinha e ler o seu romance Don Juan, contado por ele mesmo, de 2004. Desse, só posso afirmar que não gostei de absolutamente nada. Mas li outros.

O medo do goleiro diante do penâlti (1972)

Passei para essa narrativa de um goleiro desempregado que perambula por uma grande cidade sem nome, tendo relações sem sentido com pessoas aleatórias, mata uma mulher por motivo nenhum e fica tudo por isso mesmo.

O romance do “homem letárgico fraturado pela falta de sentido de uma vida vazia”, inaugurado por Camus com O estrangeiro (1942, ano de nascimento de Handke), já havia se tornado um cansativo lugar-comum quando ele escreve O medo do goleiro em 1972.

De quantas variações de Mersault, escritas por quantos autores de quantas culturas, precisaremos até podermos considerar esgotado esse projeto estético de representar literariamente o vazio e a misantropia, o tédio e a dissociação, o isolamento e a indiferença?

(Um autor nacional que me parece estar sempre batendo nessa tecla é João Gilberto Noll, do qual também li quatro romances antes de desistir.)

A mulher canhota (1976)

Na sequência, li essa história de uma mulher que subitamente decide se separar do marido e passa a viver somente com o filho.

O projeto estético é o mesmo de O medo do goleiro: retratar nosso isolamento e indiferença, explorar nosso tédio e vazio, etc etc, mas com duas vantagens.

Não há assassinatos gratuitos à la Rubem Fonseca (sou sempre grato pelas pequenas bençãos da vida) e a protagonista é uma mulher — a literatura era tão exclusivamente masculina até praticamente anteontem que uma das melhores novidades do século XX é a simples possibilidade de enxergar outras personagens, contar outras histórias.

Para mim, essa foi a diferença entre um livro insuportável e um tolerável: meu interesse pelas perambulações do goleiro assassino era rigorosamente zero; pelo pós-separação da mulher canhota, algum.

Bem-aventurada felicidade (1972)

Por fim, além do excelente título muito bem traduzido, foi o único dos quatro livros de Handke que li com algum prazer.

Em novembro de 1971, a mãe de Handke comete suicídio. Esse pequeno romance é uma tentativa de o filho entender a mãe, o que sentia, o que queria, quem era, ao mesmo tempo em que reflete sobre a suprema impossibilidade de realmente conhecermos alguém, menos ainda nossos pais, e, para piorar, como o simples ato de converter essa busca em literatura já distorce a própria realidade.

Não existe enredo em si, a não ser pelo tênue fio narrativo da vida de uma mulher centroeuropeia absolutamente comum (ela não é nem mesmo nomeada), mas, pelo menos, existe uma personagem com planos e projetos, medos e vontades, que acompanhamos, enxergamos, amamos.

Nenhuma das personagens dos outros romances de Handke que li me pareceu ter nenhuma subjetividade ou transcendência: eram meras figuras de papelão, ocupando o lugar que deveria ser de pessoas reais, servindo apenas para expor as teses do autor sobre o vazio da condição humana e o isolamento da sociedade contemporânea, blá blá blá.

Nesse romance, pelo contrário, parece que a profunda humanidade de sua mãe, sua imensa dor que a empatia do filho consegue captar tão bem, se sobrepõe mesmo ao projeto estético do filho-escritor.

Além desse cerne duro de humanidade concreta (conspicuamente ausente dos outros livros), a discussão sobre literatura e memória dá ao livro um apelo estilístico e metalinguístico que transcende a vida dessa simples senhora austríaca.

Não é um grande romance. Mas é um romance sólido e humano, sentido e pensado.

Para quem quer conhecer o autor, é o romance que eu recomendaria.

E eu, por mim, para mim, esses quatro romances já foram suficientes para saber que não mais lerei Peter Handke.

* * *

Literatura contemporânea: a busca

Enfim, estou sempre procurando por literatura contemporânea de qualidade, mas raramente encontro. Alguns nomes que me agradam (metade mulheres):

Nossa última grande pessoa autora foi Ariano Suassuna. (Hoje, não saberia dizer quem é a grande pessoa autora brasileira viva.) Dos romances de autoras brasileiras vivas, os que mais me impressionaram foram Em liberdade, de Silviano Santiago; Coisa Não-Deus, Alexandre Soares Silva; Defeito de cor, Ana Maria Gonçalves; Diário da Queda, Michel Laub; Filho Eterno, Cristovão Tezza. Na poesia, Ana Martins Marques.

Minhas pessoas autoras vivas preferidas são o francês Michel Houellebecq; a bielorrusa Svetlana Alexeivich; o português António Lobo Antunes; o peruano Mario Vargas Llosa; o checo Milan Kundera e, até pouco tempo atrás, a norte-americana Toni Morrison. Grandes romances internacionais de pessoas autoras vivas incluem Tetralogia Napolitana, Elena Ferrante; Vegetariana, Han Kang; Imperfectionistas, Tom Rachman; Conto da Aia, Margaret Atwood; Canção de ninar, Leila Slimani; e os contos de Miranda July em É claro que você sabe do que estou falando. Na poesia, sou apaixonado pela polonesa Wislawa Szymborska, recentemente falecida.

Aceito sugestões.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *