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Houellebecq

Houellebecq é incômodo, desagradável e revoltante… como todo profeta.

O romancista francês Michel Houellebecq (uélbéq), com toda sua raiva, ressentimento, misantropia, reacionarismo, é, com certeza, em parte por tudo isso, mas também por seu inegável gênio literário, o escritor vivo mais importante do mundo, aquele que mais capturou o zeitgeist, aquele que tem que ler lido pra se entender 2020.

É dos poucos autores que li tudo.

Seu primeiro romance, Extensão do domínio da luta (1994), não teve grande impacto e é certamente o mais fraco de todos.

A partir do segundo, porém, o brilhante As Partículas Elementares (1998), ele se torna uma voz literária importante, mas que, em nossa inocência, nos parecia solitária, estranha, ultrapassada.

Mas não. Era apenas profética.

Hoje, vinte anos depois, seus protagonistas chegaram ao poder.

Pra entender Trump e Bolsonaro, Brexit e incels, atentados em Bali e ao Charlie Hebdo, é só ler Houellebecq.

* * *

Por onde começar a ler Houellebecq

Os seus melhores e mais amplos, mais cósmicos e mais enciclopédicos romances são As Partículas Elementares (1998) e A Possibilidade de uma Ilha (2005): um complementa tanto o outro que recomendo ler ambos na sequência. (São os dois que estão esgotados no Brasil.)

Por articularem tão bem praticamente todas as obsessões do autor, são provavelmente a melhor porta de entrada.

Entretanto, dependendo dos interesses específicos de cada pessoa, pode ser interessante começar por outros livros:

Para mim, que fui do mundo acadêmico, Submissão (2015) é o preferido. Bônus: islamismo, União Européia, Brexit. (Profético, foi publicado na semana do atentado ao jornal Charlie Hebdo.)

Para quem é do mundo da Arte, recomendo O Mapa e o Território (2010)

Para quem se interessa por colonialismo e terrorismo, prostituição e turismo sexual, Plataforma (2001) (Também profético, saiu junto com os atentados terroristas em Báli.)

Por fim, para quem se interessa por agricultura, protecionismo, União Europeia, Brexit, coletes amarelos, etc, recomendo Serotonina (2019), o mais recente, que saiu na mesma semana que os coletes amarelos pararam a França.

(Até mesmo seu romance de estréia, o mais fraco de todos e único que não recomendo, traz o primeiro tratamento literários dos incels que hoje estão por aí matando pessoas.)

Uns mais, outros menos, são todos no mínimo excelentes e instigantes.

Houellebecq é incômodo, desagradável e revoltante… como todo profeta.

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