Mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua | alex castro

Mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua

Em meus textos, para chamar atenção para o sexismo de nossa língua, estou invertendo a norma e usando o feminino como gênero neutro.

Não porque troquei um sexismo por outro, mas porque o gênero da palavra “pessoa” é feminino.

Trocar:

“Meus alunos não calam a boca.”

Por:

“Minhas alunas não calam a boca.”

Só mantém o sexismo da língua. Pior: sugere que são apenas as minhas alunas mulheres que não calam a boca.

Por isso, hoje, eu digo:

“Minhas pessoas alunas não calam a boca.”

Essa tem sido, pra mim, a maneira não-sexista de escrever.

* * *

Para me referir a seres humanos de modo geral, uso o feminino, idealmente antecedido de “pessoa”.

Por exemplo, o texto “Carta aberta às pessoas privilegiadas” normalmente teria se chamado “Carta aberta aOs privilegiadOs”, se referindo a todas as pessoas privilegiadas do mundo de ambos os sexos.

Se eu mudasse simplesmente para “Carta aberta Às privilegiadAs”, o texto poderia passar a impressão errada, graças ao treino sexista que impusemos aos nossos ouvidos, de falar somente para as mulheres privilegiadas e não aos homens.

Portanto, para evitar essa distorção e manter o significado genérico, o título final ficou “Carta aberta às pessoas privilegiadas”.

* * *

A melhor forma de evitar o sexismo é usar a palavra “pessoa” livremente e sem medo de repetições.

* * *

Só uso o masculino para me referir especificamente a homens.

Trecho da mesma “carta aberta” citada acima:

“Escuto muito: homens reclamando da histeria das feminazis, pessoas cis reclamando da agressividade das militantes trans, brancas reclamando do vitimismo do movimento negro, religiosas reclamando da chatice das ateias militantes. … É comum ouvir as pessoas privilegiadas (homens, brancas, cis, ricas, etc) reclamarem que as militantes de causas marginalizadas (movimento negro, lgbt, trans, feministas, indígenas, ateias, etc) são agressivas, defensivas, estressadas, etc.”

* * *

Ocasionalmente, faço referências a mim mesma no feminino (como no texto “e se eu estiver errada?“), não porque me identifico como mulher, mas simplesmente para que esse estranhamento faça a pessoa leitora refletir sobre a arbitrariedade do uso de gêneros na nossa língua.

* * *

Existem várias outras maneiras de inverter o sexismo da língua, como usar a arroba e o X.

Respeito muito todas as pessoas que também estão lutando por menos sexismo na língua e que escolheram usar essas ou outras opções.

Os meus motivos para não adotá-las são os mesmos de Juno, expostos no texto: Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero

Recomendo também esse utilíssimo manual para o uso não sexista da linguagem.

Para dicas práticas, recomendo o artigo: Escrever com X não é linguagem neutra.

* * *

Essa é apenas uma regra que estou seguindo em meus próprios textos. Não estou impondo nem sugerindo a ninguém.

* * *

Talvez a grande contribuição da filosofia durante o último século tenha sido essa:

As palavras importam. a linguagem molda o mundo.

vale a pena brigar por isso. Não é uma luta vã.

* * *

Se você tem interesse em escrever de forma menos sexista, talvez goste de conferir meus melhores textos políticos, listados abaixo:

Pra começar
Uma história de quatro pessoas

Racismo
Senzalas & campos de concentração
O peso da história: a escravidão e as cotas
Imigrantes sim, mas de que cor?
Racismo, miscigenação e casamentos interraciais no brasil

Feminismo
Feminismo para homens, um curso rápido
A fácil paternidade
Cavalheirismo é machismo
O papel dos homens no feminismo
O segredo de beleza dos homens

Privilégio
Carta aberta às pessoas privilegiadas
Ação de graças pelos privilégios recebidos
O assunto não é você
O valor das pessoas e das coisas
Carta aberta às humoristas do brasil

Pra encerrar
O desabafo da moça do crachá
O baralho viciado

§ 39 respostas para Mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua

What's this?

You are currently reading Mini-manual pessoal para uso não-sexista da língua at alex castro.

meta