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Castro Alves

Criticado por não ter ido tão longe quanto poderia, elogiado por ter ido mais longe do que todos os seus contemporâneos, Castro Alves continua polêmico, 150 anos depois de sua morte.

Para muitas gerações de brasileiros, Castro Alves é o “poeta dos escravos”. Seu poema “O Navio-Negreiro” é um dos mais citados e antologizados de nossa literatura. Na tradição literária brasileira, praticamente livre de pessoas protagonistas negras, onde as pessoas escravizadas são em geral retratadas somente em papéis coadjuvantes e chapados, sem profundidade e sem humanidade, Castro Alves apresenta-se como uma conspícua exceção. Apesar de alguns excessos juvenis (tinha apenas vinte e quatro anos ao morrer), o poeta consegue unir o lírico ao social e cria uma poesia ao mesmo tempo romântica e politicamente contundente: pela primeira vez no Brasil, as pessoas escravizadas são vistas como indivíduos, com problemas existenciais e vidas privadas intensas, capazes de amar e de odiar, de perdoar e de se vingar.

Castro Alves entrou muito cedo no cânone literário e nunca deixou de ser polêmico. Algumas críticas literárias o acusam de só lutar contra a escravidão quando ela já estava quase derrotada, um poeta reacionário canonizado justamente por saber o ponto exato até onde poderia ir antes de ofender as sensibilidades burguesas de suas pessoas leitoras escravocratas. Outras, o celebram por ser abolicionista antes que o abolicionismo virasse moda, quando ainda não era uma posição política conveniente para jovens responsáveis. Algumas, o elogiam por mostrar, pela primeira vez na literatura brasileira, a humanidade da pessoa escravizada; outras, o censuram por nunca adotar a perspectiva negra e escrever sempre do ponto de vista do homem branco, relegando a pessoa negra a uma eterna posição de alteridade.

No texto abaixo, apresentaremos a vida e obra do poeta, destacaremos os aspectos mais transgressores (e também os mais conservadores) de sua poesia abolicionista, situaremos sua obra dentro do contexto da luta internacional pela abolição da escravatura, chamaremos a atenção para a oralidade de sua poesia e faremos um breve resumo das controvérsias em torno de seu status canônico.

O que ele publicou

Castro Alves publicou somente um livro em vida: Espumas Flutuantes (1870), uma coleção de poemas líricos, românticos e sensuais. Ao preparar essa edição, o poeta não incluiu nenhuma de suas poesias abolicionistas mais célebres, pois planejava compor um outro livro somente sobre esse tema. Infelizmente, não teve essa chance, pois morreu no ano seguinte, 1871. Já Os Escravos, o outro título de Castro Alves que pode ser facilmente encontrado nas livrarias brasileiras até hoje, é uma antologia póstuma, idealizada por Afrânio Peixoto em 1921, com base em algumas notas deixadas pelo poeta. Peixoto, entretanto, incluiu alguns poemas que não constavam do plano original de Castro Alves, como “Canção do Africano” e “A Bainha do Punhal“, e não incluiu outros relacionadas ao mesmo tema, como “Ao Dia Dous de Julho” e “O Povo ao Poder“. Para complicar ainda mais a situação, por as poesias de Castro Alves estarem em domínio público, cada editora subsequente criou sua própria edição de Os Escravos, incluindo ou excluindo poemas sem necessariamente informar seus critérios. O poema longo “A Cachoeira de Paulo Afonso“, por exemplo, é incluído em algumas edições e não em outras, sendo também publicado separadamente.

Vida de Castro Alves

Antonio de Castro Alves nasceu na vila de Curralinho (atualmente Castro Alves), na Bahia, em 1847. Quando tinha sete anos, a família se mudou para Salvador, onde seu pai, um médico, ensinava na Faculdade de Medicina e atendia clientes particulares no térreo de sua casa. Em 1854, o tráfico escravo já havia sido proibido há quatro anos, mas Salvador, um dos principais portos de entrada de pessoas escravizadas nas Américas, continuava tendo (como ainda tem) importante presença negra. A escravidão, com todos os dramas humanos inerentes a ela, estava por todos os lados, inclusive na casa de Castro Alves: sua família possuía pessoas cativas e seu pai rotineiramente tratava pessoas escravizadas em sua clínica.

Em criança, o poeta estudou em uma das escolas mais progressivas da época. Entre seus radicalismos, incluíam-se um forte currículo de ciências e a completa abolição de castigos corporais. Quando fez quinze anos, Castro Alves e seu irmão foram enviados ao Recife, para estudar em uma escola preparatória para a Faculdade de Direito. Ironicamente, os irmãos Castro Alves viajaram com seu pajem, o escravizado Gregório, mencionado muito de passagem na maioria das biografias do poeta, e algumas vezes descrito como “inseparável” dele.

O “poeta dos escravos” aparentemente nunca libertou seu inseparável pajem: até em seu leito de morte, Gregório estava ao lado do bardo agonizante. Nenhuma das biografias de Castro Alves menciona o que aconteceu com Gregório mais tarde. Não deixa de ser irônico tanto interesse pelo poeta que denunciou a escravidão do Brasil e tão pouco interesse pela pessoa escravizada que serviu esse homem por toda a vida, e cuja liberdade o poeta negligenciou conceder.[1]

Em 1861, aos catorze anos de idade, o aluno Castro Alves declamou sua primeira poesia a abordar o tema da escravidão, em um evento escolar em homenagem ao Dois de Julho. Ainda hoje um feriado importante na Bahia, a data celebra a retirada das últimas forças militares portuguesas de Salvador, em 1823, e a subsequente consolidação da independência do Brasil. Ainda muito juvenil, a assim chamada “Poesia Recitada pelo Aluno Antônio de Castro Alves no Outeiro que Teve Lugar no Ginásio Baiano a 3 de Julho de 1861”[2] não é incluída nem na antologia póstuma Os Escravos nem em nenhuma das seletas de Castro Alves. Possui, entretanto, valor histórico: é a primeira vez que o poeta articula, timidamente ainda, a subversiva associação entre independência do Brasil e liberdade das pessoas escravizadas, mais tarde desenvolvida explosivamente em poesias como “O Navio-Negreiro“:

“Se o índio, o negro africano,

e mesmo o perito Hispano

tem sofrido servidão;

Ah! Não pode ser escravo

quem nasceu no solo bravo

da brasileira região.”

Os lusitanos em fuga aprenderam que

“para peitos briosos

é quimera o cativeiro”.[3]

Dois anos depois, em 1863, Castro Alves publicou em um jornal universitário de Recife[4] aquela que é considerada sua primeira poesia abolicionista canônica: “Canção do Africano“, na qual um escravizado canta suas saudades da África. Talvez por distorção das memórias da personagem escravizada, mais provavelmente por ignorância e ingenuidade do poeta adolescente, o continente africano é retratado idealisticamente como uma terra de liberdade onde não havia escravidão. O crítico literário Flávio Kothe utiliza essa poesia para sugerir que Castro Alves defendia que as pessoas escravizadas brasileiras voltassem para a África, onde seriam mais felizes:

“Lá todos vivem felizes,

todos dançam no terreiro;

A gente lá não se vende

como aqui, só por dinheiro”.

No mesmo ano, em uma reunião de estudantes na Bahia, declamou o poema “Ao Dia Dous de Julho“, posteriormente publicado no Diário de Pernambuco[5]. Apesar de voltar ao tema ufanístico da independência da Bahia, a primeira parte do poema se chama “O Cativo” e a segunda, “A Vingança”. Ostensivamente sobre a vitória brasileira contra Portugal, quase todas as imagens do poema remetem à escravidão e à negritude: um escravizado másculo e amargurado (humano, portanto) chora por estar separado da esposa e não conhecer seu filho, e brada por vingança. Ao validar o brado do escravizado e associá-lo à luta por independência, Castro Alves subverte a própria atmosfera patriótica do poema, ao sugerir que a liberdade conquistada pelo Brasil não era para todos e, mais ainda, ao apresentar uma possível rebelião escrava como justificada. O poema parece falar de liberdade como uma conquista do passado, mas, na verdade, aponta para o futuro, afirmando que essa conquista ainda não se completou.

Em 1865, empolgado com a vitória no Norte na Guerra Civil Norte-Americana, Castro Alves compôs e declamou “O Século[6], um poema radical, libertário e anticlerical onde tenta incorporar a luta contra a escravidão no Brasil à luta internacional por mais democracia e liberdade. Já no ano seguinte, ele fundou uma efêmera sociedade abolicionista no Recife. Um dos membros era o calouro, ex-colega de casa e patrício baiano Rui Barbosa — que, anos mais tarde, com sua palestra “Elogio a Castro Alves”, ajudaria a confirmar o status canônico do poeta[7]. Nesse mesmo ano, morreu seu pai, que havia se casado de novo após a morte prematura de sua mãe. A partir daí, sua única fonte de renda passou a ser o aluguel de uma das casas da família em Salvador.

Enquanto isso, com apenas dezenove anos de idade, Castro Alves já desafiava a moral e os bons costumes ao viver abertamente com uma atriz portuguesa décadas mais velha, Eugênia Câmara, em uma época em que ser atriz era praticamente sinônimo de prostituta. “Uma atriz que não fosse prostituta”, disse um viajante inglês no Rio de Janeiro, em 1870, “seria considerada  inapta para os palcos.”[8] Para Eugênia, Castro Alves escreve o drama histórico Gonzaga ou A Revolução de Minas, sobre a Inconfidência Mineira. Vale a pena lembrar que Tiradentes somente foi canonizado como herói nacional depois da Proclamação da República: quando Castro Alves escreve Gonzaga, a Inconfidência Mineira não era muito conhecida e nem era de bom tom valorizá-la. Afinal, apesar de nativista, tinha sido um movimento contra a dinastia do atual Imperador. Entretanto, se eram de fato nativistas, os inconfidentes não eram nem nunca foram abolicionistas, como os retrata Castro Alves: não planejavam abolir a escravatura e a maioria inclusive possuía pessoas escravizadas. A peça estreou no Sete de Setembro de 1867, em Salvador, e fez muito sucesso. É possível que o sucesso dessa releitura simpática, abolicionista e anacrônica dos inconfidentes tenha influído na entrada de Castro Alves no panteão dos heróis nacionais poucas décadas depois.[9]

Em 1868, o poeta se transferiu para a Faculdade de Direito de São Paulo — naquela época, somente uma sonolenta cidadezinha provinciana de menos de cinqüenta mil habitantes, mas também capital da maior província produtora de café e centro da resistência anti-abolicionista. Eugênia Camara fez a viagem com ele, pois tinham planos de montar Gonzaga em São Paulo, e o casal provocou furor por onde passou. Não apenas eram os dois marginalmente famosos — ela bem mais que ele — como sua união ilícita e aberta causava bastante desconforto. Sugere-se até mesmo que ela o sustentava[10]: tanto na vida pessoal quanto na poesia, Castro Alves sempre foi um transgressor.

No caminho para São Paulo, o casal passou pela Corte Imperial, o Rio de Janeiro, onde o poeta conheceu José de Alencar, já celebrado como maior autor nacional, que por sua vez o apresentou ao seu futuro sucessor no cânone, Machado de Assis. Ambos escritores escreveram laudatórios artigos na imprensa elogiando o jovem poeta baiano. É curioso notar que, nessa época, aos 21 anos, Castro Alves publicara apenas alguns poemas em jornais locais. A fama que então possuía (e que bastou para impressionar Alencar e Machado) se devia às suas declamações públicas e à sua peça Gonzaga. Enquanto no Rio, Castro Alves declamou, do alto da varanda do jornal Diário de Notícias, sua poesia “Pesadelo de Humaitá[11], sobre o recentíssimo episódio da Guerra do Paraguai. Humaitá era a fortaleza de Solano López no Rio Paraguai, bloqueando acesso fluvial ao interior do país e considerada intransponível. Quando a esquadra brasileira finalmente conseguiu transpôr a fortaleza e penetrar no Paraguai (ou seja, forçar a “Passagem de Humaitá”), o fato repercutiu por todo Brasil como uma grande vitória. O poema de Castro Alves, entretanto, é ambíguo e vem sendo lido tanto como exaltação quanto como crítica à guerra: alguns autores elogiam o poeta por ajudar o esforço de guerra, apesar de ser pessoalmente um pacifista[12], e outros o elogiam por ter a coragem de se opor ao esforço de guerra, especialmente em um contexto tão patriótico[13]. Talvez esteja aí a chave para entendermos a canonização precoce e contínua popularidade de Castro Alves: sua proteica capacidade de ser tudo para todas as pessoas o tempo todo.

Ao longo de 1868, suas declamações tornaram-se cada vez mais populares. No Sete de Setembro, exatamente um ano após a estréia de Gonzaga, declamou aquele que talvez seja seu poema mais famoso, “O Navio-Negreiro[14]. Era o auge de sua carreira: adorado pelo público, um herói para colegas estudantes, elogiado pelos maiores autores do seu tempo. Poucas semanas depois, foi abandonado por Eugenia Câmara e, logo após, atirou no próprio pé enquanto caçava. Apesar de alguns biógrafos mais românticos tentarem ver uma conexão entre os dois eventos, foi provavelmente apenas um acidente. Aos 22 anos, os dias de glória de Castro Alves eram passado. Sofrendo de tuberculose e com o pé infeccionado, ele voltou ao Rio de Janeiro (onde teve o pé amputado) e, de lá, para Salvador e para sua cidade natal, no interior da Bahia, e então de volta à Salvador, onde finalmente morreu, em julho de 1871, aos 24 anos de idade.

O isolamento imposto pelos problemas de saúde foi fatal para a popularidade contemporânea de Castro Alves mas vital para a permanência e canonização de sua obra. Sem poder declamar publicamente, seu nome sumiu dos jornais, mas estar acamado por quase dois anos lhe deu a oportunidade de finalizar o único livro que publicaria em vida, Espumas Flutuantes, em 1870; de escrever talvez sua obra-prima, o longo poema “A Cachoeira de Paulo Afonso“, e de começar a compilar e dar redação final aos poemas abolicionistas que pretendia reunir em livro, mas nunca teve chance — a maioria, incluídos em Os Escravos.

Esses anos calmos e tranqüilos, longe dos holofotes, de reflexão profunda e revisão das obras, foram cruciais para a permanência de Castro Alves. Se tivesse morrido imediatamente após o acidente de novembro de 1868, teria deixado somente uma peça não publicada, alguns poemas espalhados em jornais avulsos e uma efêmera memória de um orador talentoso. Sua fama provavelmente não teria sobrevivido.

O Movimento Abolicionista na Época de Castro Alves

Na década de 1840, a Grã-Bretanha intensificou sua campanha naval contra o tráfico escravo no Atlântico Sul, abordando e capturando inúmeros navios brasileiros e abertamente desrespeitando a soberania do Império. Apenas entre 1849 e 1851, os britânicos capturaram noventa navios negreiros brasileiros.[15] Nessa época, uma guerra naval contra a Grã-Bretanha parecia inevitável e houve até mesmo uma subscrição pública para financiar a compra de navios de guerra — os mesmos que seriam usados contra o Paraguai na década seguinte. Ironicamente, uma das consequências contraditórias da campanha naval antiescravista britânica foi criar uma atmosfera de nacionalismo exacerbado onde qualquer manifestação contra o tráfico escravo era vista como anglófila e antibrasileira. Nesse contexto, qualquer movimento abolicionista brasileiro seria impossível.[16]

O tráfico escravo já tinha sido proibido no Brasil desde 1831, mas as penalidades eram leves e a lei não era levada a sério nem pelas próprias autoridades. Finalmente, em 1850, o governo brasileiro aboliu o tráfico mais uma vez, passando uma nova lei para proibir algo que já estava proibido, mas dessa vez disposto a fazer valer a lei. Pessoas escravizadas continuaram a ser contrabandeadas para dentro do país, mas em números cada vez menores. Como a população escravizada brasileira tinha crescimento vegetativo negativo, ao contrário do que acontecia nos Estados Unidos, era somente uma questão de tempo para a extinção da escravatura no Brasil.[17] É a partir desse momento que começa a surgir um incipiente movimento abolicionista nacional. Por um lado, argumentava-se que uma abolição imediata seria perigosa e traumática para a sociedade, e que se devia esperar que a escravatura seguisse seu curso enquanto o país buscava por fontes alternativas de mão de obra, como a imigração europeia. Por outro lado, as pessoas abolicionistas lutavam não apenas pela abolição, mas também atacavam a escravidão pelos flancos, defendendo leis como a do Ventre Livre e do Sexagenário, que diziam, respectivamente, que toda filha ou filho de pessoa escravizada nasceria livre, e que toda pessoa escravizada, ao completar sessenta anos, seria libertada e sustentada pela antiga proprietária.

Na década de 1860, quando Castro Alves esteve ativo como poeta, o Abolicionismo começou a se tornar um movimento político articulado. Aos dezesseis anos, em 1863, quando publicou seu primeiro poema abolicionista, em um jornal do Recife, o Abolicionismo não era considerado uma ocupação apropriada ou aceitável para jovens de boa família[18]. Dois anos depois, o próprio Imperador apresentou um projeto de lei para libertar todas as pessoas escravizadas pertencentes ao governo e à Igreja, e libertando também todas as crianças de pessoas escravizadas, mas seu próprio Conselho de Estado decidiu que não era a hora de discutir esse tipo de lei, e o assunto foi rapidamente esquecido. O país estava imerso em sua mais longa e sangrenta guerra, e consideraram que não seria apropriado complicar ainda mais a situação política.

O poeta ainda teve a dúbia satisfação de ver o Brasil abolir a escravatura — mas somente no Paraguai conquistado e ocupado, não em casa. Poucos meses antes de sua morte, promulgou-se Lei do Ventre Livre, e o clima político no país já era muito diferente de quando Castro Alves começara a escrever poesias: em alguma medida, graças aos seus esforços. A luta por e contra a Lei do Ventre Livre mobilizou a opinião pública brasileira e foi o batismo de fogo de toda uma geração de participantes da política: subitamente, era não apenas politicamente viável, mas estava na moda ser abolicionista.[19]

Castro Alves, Poeta Canônico

Apesar de seu status canônico, a crítica nunca foi unânime quanto ao valor da obra de Castro Alves. Há décadas se discute se ele é um autor genial ou imaturo, se poeta lírico ou político, se pioneiro da abolição ou simples fingidor. Por exemplo, apesar de ser hoje mais lembrado por suas poesias abolicionistas, setenta por cento dos seus obituários nem mesmo mencionaram seu abolicionismo.[20] Como vimos, seu único livro publicado em vida foi Espumas Flutuantes, uma coleção de poemas líricos e apolíticos.

O primeiro nome de peso que se manifestou em defesa da obra de Castro Alves foi Rui Barbosa, antigo companheiro de república e colega na Faculdade de Direito de Recife, então um influente advogado e intelectual. No décimo aniversário da morte do poeta, em um evento especial realizado no Teatro São João da Bahia, Rui Barbosa pronunciou o seu “Elogio de Castro Alves”. Apesar de admitir alguns exageros estilísticos juvenis (algo que muitas pessoas também apontariam, com maior ou menor condescendência), Rui afirmou que o grande valor de Castro Alves estava em ter encarnado artisticamente o maior tema do seu tempo, a luta contra a escravidão.[21] Dois anos depois, Augusto Guimarães, amigo de infância do poeta, escreveu a primeira de muitas biografias de Castro Alves, abordando mais sua vida pessoal do que sua obra.

Em 1903, outra voz de peso fez-se ouvir, mas dessa vez contra: Euclides da Cunha, autor de Os sertões, publicado no ano anterior, acabara de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras e, de acordo com o protocolo, seu discurso de posse deveria ser em homenagem ao patrono de sua cadeira, Castro Alves. Fundada pouco antes, em 1896, a Academia tinha quarenta cadeiras numeradas cujos patronos formavam um verdadeiro “quem é quem” da literatura brasileira. De certo modo, pode-se considerar esses quarenta nomes (a maioria dos quais hoje completamente esquecidos) uma das primeiras e mais conscientes tentativas de formar um cânone literário oficial. O simples fato de Castro Alves fazer parte desses quarenta já comprova sua aceitação como autor canônico.

O também polêmico Euclides da Cunha, entretanto, o mais novo ocupante da cadeira de Castro Alves, discordou: quebrando o protocolo, criticou fortemente o patrono de sua própria cadeira, chamando-o de poeta imaturo e exagerado. Todos gostam de Castro Alves ao vinte anos, desdenhou Euclides, mas depois ele é logo esquecido. Mais importante, afirmou Euclides, os brasileiros não precisariam mais de Castro Alves; sua poesia política não seria mais relevante no mundo de hoje:

“Sua fantasia exagerada contrasta demais com o mundo em que vivemos. Na esteira infernal que “O Navio Negreiro” abriu sobre o abismo (…) navegam hoje pacíficos transatlânticos, onde se apinham os emigrantes tranquilos, que reclamamos para as lavouras do Oeste. (…) E a própria cachoeira de Paulo Afonso (…) em breve terá sua potência formidável aritmeticamente reduzida a não sei quantos milhares de cavalos-vapor, e se transformará em luz para aclarar as cidades.”[22]

Em 1911, saiu mais uma biografia, Vida de Castro Alves por Xavier Marques. Dez anos depois, no 50º aniversário de sua morte, outro importante marco no seu processo de canonização: o lançamento de suas Obras Completas, editadas por Afrânio Peixoto. Tudo parece indicar o forte status canônico (mas nunca unânime) de Castro Alves. Em seu estudo clássico, O Negro Brasileiro, de 1934, Arthur Ramos desdenha a obra de Castro Alves como “romantismo de mistificação” e “poemas de piedade branca” que somente serviriam para esconder os verdadeiros problemas sob “um sentimentalismo doentio, sadomasoquista” de modo que nada fosse efetivamente resolvido.[23] Em resposta, outro biógrafo, Edison Carneiro, aponta que poetas somente trazem os problemas à luz: cabe aos economistas, sociólogos e políticos encontrar soluções.[24]

O debate continua, ainda nos mesmos termos. Zilá Bernd, em sua Introdução à Literatura Negra (1988), compara desfavoravelmente Castro Alves a Luiz Gama (1830-1882), poeta negro e abolicionista. De acordo com Bernd, Gama sim teria sido um “divisor de águas” por ser o primeiro autor brasileiro a utilizar um “eu-enunciador” que assumia sua negritude e a articular um discurso transgressivo que usa as armas do homem branco contra ele. Já Castro Alves seria o porta-voz de uma condolência institucionalizada que somente lamentaria o destino das pessoas negras sem de fato mudar nada; sua completa identificação com o mundo branco faria com que visse as pessoas negras como um distante “Outro”, permitindo-lhe manter sua crítica sempre dentro dos limites apropriados para um jovem da elite branca:

“Sua poesia não se colocou no contrafluxo, nem representou um momento de dissonância com os cânones tradicionais mas, ao contrário, construiu-se em perfeita consonância com a praxe literária romântica, e a causa dos escravos foi, pura e simplesmente, a temática escolhida e ditada pela própria história.”[25]

Do ponto de vista da literatura negra, ou seja, produzida por pessoas negras, faz sentido Bernd valorizar mais Luiz Gama — um escritor negro pioneiro que escrevia enquanto homem negro — do que Castro Alves, um branco que escolheu as pessoas escravizadas como seu assunto principal.

Mas esse debate, como tantos outros em torno da figura de Castro Alves ao longo dos últimos 150 anos, ilustra bem a posição controversa do poeta no cânone. Se tivesse ignorado assuntos políticos e se restringido à poesia lírica e romântica, como tantos outros poetas contemporâneos, Castro Alves provavelmente seria criticado por sua alienação política — como também o são esses mesmos poetas. Por decidir denunciar os males da escravidão, é criticado por ser um branco que vê a pessoa negra sempre de fora, como um “Outro” sem voz e sem subjetividade. Se tivesse decidido ver o mundo por olhos negros e dar voz a esses personagens subalternas, talvez fosse criticado por uma apropriação imperialista do discurso do homem negro.[26] De um modo ou de outro, Castro Alves é sempre polêmico.

“Lúcia”: Contra a Hipocrisia

O poema curto “Lúcia” foi escrito em São Paulo, em 1866, e publicado pela primeira vez em 1881, em uma edição comemorativa dos dez anos de morte do poeta[27]. Atualmente, aparece em algumas edições de Espumas Flutuantes mas é geralmente incluído em Os Escravos. (Se quiser, confira o poema aqui antes de prosseguir a leitura.)

Seu enredo é traiçoeiramente simples: o narrador conta a história de sua colega de brincadeiras da infância, Lúcia. A princípio, ele só descreve delícias e alegrias da vida em uma fazenda (grifos sempre meus):

“Eu e Lúcia corríamos — crianças

Na veiga, no pomar, na cachoeira

Como um casal de colibris travessos.”

Logo, entretanto, percebemos que Lúcia é uma escravizada:

“Ai! Pobre Lúcia… como tu sabias,

Festiva, encher de afagos a família

Que te queria tanto e que te amava

Como se fosses filha e não cativa…”

O narrador conta então como a família branca amava Lúcia, o quanto ela tocava suas vidas e os fazia felizes. Mesmo assim, entretanto, ela logo é vendida e mandada para longe. O poema não explica porque a família venderia uma escravizada pretensamente tão amada, mas sugere pobreza:

“Mas um dia a miséria, a fome, o frio,

Foram pedir um pouso nos teus lares

A mesa era pequena… Pobre Lúcia!

Foi preciso te ergueres do banquete

Deixares teu lugar aos mais convivas…”

Antes de ser mandada embora, Lúcia se despede da fazenda como se tudo fosse sua culpa e diz, “conversando com a natureza”:

“Perdoai-me que eu parto para sempre!

Venderam para longe a pobre Lúcia!… (…)

Não te esqueças de mim que te amo tanto”

Enquanto vai sendo levada embora, Lúcia ainda agita um lenço branco. Muitos anos se passam. O narrador, agora adulto, está andando em uma estrada do interior quando percebe a mulher solitária caminhando a sua frente, cantando uma cantiga triste, carregando água sobre a cabeça, pés descalços no chão de terra — pessoas escravizadas eram proibidas de usar sapatos. Subitamente, ele reconhece a canção:

“De repente, Lembrei-me… “Lúcia! Lúcia!”

… A mulher se voltou… fitou-me pasma,

Soltou um grito… e, rindo e soluçando,

Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.

… Mas súbito estacou… Nuvem de sangue

Corou-lhe o rosto pálido e sombrio…

Cobriu co’a mão crispada a face rubra

Como escondendo uma vergonha eterna…

Depois, soltando um grito, ela sumiu-se

Entre as sombras da mata… a pobre Lúcia!”

E assim termina.

A leitura mais comum desse poema vê nele a romântica história de um incipiente caso de amor precocemente abortado pela dura realidade da escravidão. Em uma época onde ainda era raro desconfiar do narrador, ele era visto como um pobre jovem inocente que, por ter as mãos atadas por uma realidade socioeconômica maior que ele, perde talvez o grande amor da sua vida. Mais recentemente, pessoas leitoras já escaldadas por Dom Casmurro tendem não só a desconfiar do narrador como a tentar ver a situação pelo ponto de vista da personagem subalterna, transferindo sua empatia do narrador para Lúcia.

Seguindo essa linha, o crítico Flávio Kothe faz uma análise especialmente dura do poema[28], tomando como ponto de partida a leitura acima. Pra começar, ele pergunta: se Lúcia era tão importante e tão amada, por que foi vendida? Naturalmente, não deveria ser tão importante assim. Além disso, também é fácil culpar outrem por uma separação que fatalmente aconteceria quando ele saísse da fazenda para estudar e Lúcia ficasse para trás, trabalhando pra pagar seus luxos na cidade grande[29]:

“O fato de Lúcia, companheira de folguedos, ser vendida de repente só importa na medida em que, com a ausência dela, o sinhozinho se sente ferido.”[30]

Kothe também questiona a razão da vergonha de Lúcia. Sua vergonha seria não por sua condição de escravizada, pois ela já era escravizada antes. Será vergonha de encontrar um dos membros da família que ela pensou que a amava, mas a vendeu como gado? Será vergonha que encontrar o homem que provavelmente, caso não tivesse sido vendida, a teria deflorado, como faziam quase todos os sinhozinhos?[31]

O poema também menciona a profunda tristeza de Lúcia: de acordo com a leitura tradicional, por ter sido separada de seu inesquecível amado da infância. Kothe se pergunta: uma escravizada trabalhando sem parar, brinquedo sexual do patrão, sofrendo todas as indignidades imagináveis, será que não tinha outros motivos mais concretos para sua melancolia?

Finalmente, Lúcia foge e o narrador não a segue. Na interpretação mais tradicional, ele o faz por pudor, para respeitar seu desejo de ficar sozinha. Na releitura de Kothe, esse ato acaba sendo reinterpretado como uma denúncia da hipocrisia do narrador, do poeta e da próprio pessoa leitora atual:

“Sugere-se que ela não queria ser encontrada e, portanto, não queria que ele fizesse algo por ela (exceto um poema). Assim, ele não precisa enfiar a mão no bolso para comprar a liberdade da amiga e dar-lhe vida mais digna. Também não precisa fazer politicamente nada, comprar qualquer briga, já que toda a culpa era dos outros e do passado. Desse modo é fácil ser abolicionista. (…) É a postura do político conservador que declara em público a sua solidariedade com os desgraçados e, na prática, nada faz. O leitor aceitar tal enredo é sinal de que ele também não foi mais longe. Ainda existe algo da mentalidade escravagista no inconsciente da população em regiões onde preponderou o escravismo.”[32]

Mas, independentemente de como o poema foi escrito em 1866, ou de como foi lido desde então, ele também pode ser entendido não como uma celebração da hipocrisia, pusilanimidade e egocentrismo do narrador (e, por extrapolação, das elites brasileiras, inclusive da própria pessoa leitora do século XXI) mas, precisamente, como sua denúncia. Hoje em dia, Lúcia seria uma empregada doméstica qualquer, tratada como se fosse “da família” mas despedida por ter engravidado. A análise incisiva de Kothe demonstra não a falta de valor da poesia de Castro Alves mas, pelo contrário, sua profundidade e relevância política sempre atuais.

O poema, entretanto, não se esgota nessas possibilidades. Uma leitura cuidadosa revela que o narrador nunca de fato se identifica: nada indica que ele seja branco, livre ou que pertença à família que possuía Lúcia. Ele brincava livremente com ela na infância, mas ela era escravizada e também brincava livremente. Seria o narrador também escravizado? Existe uma cuidadosa e ambígua operação de aproximação e distanciamento entre o narrador e a família branca: o narrador, ao falar que a miséria tomou pouso em “teus lares”, se coloca cuidadosamente fora desses lares — assim como acima fala “a família” e não “nossa família”. A que família e a que lares ele pertence então? Se uma interpretação mais política e contemporânea focalizou em Lúcia em detrimento do narrador, talvez fosse interessante voltar nosso olhar a ele: sabemos quem é Lúcia, mas quem é o homem que narra o poema? Se nada indica que é branco, rico ou dono de pessoas escravizadas, nada também indica que é negro, pardo ou escravizado: entretanto, a cuidadosa escolha de vocabulário do poema permite todas essas possibilidades.

Poderíamos perfeitamente reler “Lúcia” como uma abortada história de amor (e talvez nem mesmo isso) entre duas pessoas escravizadas. Quando o narrador encontra Lúcia na estrada, não há menção a nada que indique uma posição socioeconômica superior da parte dele: ele não está nem mesmo a cavalo, mas caminhando assim como ela — talvez também descalço ou carregando peso. Se começarmos a ler nas entrelinhas, desconfiaremos até da pretensa história de amor: quando Lúcia está para ir embora, ela faz um longo discurso de despedida que termina em “não te esqueças de mim que te amo tanto.” Nesse ponto, muitas pessoas leitoras podem presumir que ela está falando com o narrador, mas, já no começo do discurso, o poema deixa explicitamente claro que ela estava “conversando com a natureza”, se despedindo da mata, dos passarinhos, dos coqueiros e das violetas. Do mesmo modo, logo em seguida, quando ela acena um lenço branco ao longe, nada indica que esteja se despedindo do narrador, mas provavelmente da mesma natureza com a qual estava dialogando há pouco. Não deixa de ser curioso: por que o poema não mostra nenhuma interação, diálogo ou despedida entre os dois? Por que, pelo contrário, faz questão de deixar bem marcado que ela não estava se despedindo dele? Talvez a intenção do poeta fosse justamente deixar claro o caráter completamente platônico do relacionamento. Ao quebrar nossas expectativas de despedidas românticas e declarações apaixonadas, o poema parece estar enfaticamente afirmando: “essa não é uma história de amor, nosso assunto aqui é outro.”

Por fim, resta apenas a questão da vergonha final de Lúcia. Se fossem apenas duas pessoas escravizadas se encontrando em uma estrada, por que ela fugiria? Em primeiro lugar, porque encontrá-lo de novo a fez reviver toda a vergonha de ter sido vendida, aquele momento traumático no qual uma menina inocente, até então criada como se “fosse filha e não cativa”, descobriu o quanto de fato valia e qual era o seu verdadeiro lugar na ordem social. Talvez houvesse até uma ponta de ressentimento contra o narrador: afinal, ela foi vendida e ele não. Talvez ele fosse realmente amado e valorizado. Em segundo lugar, porque talvez de fato fossem de fato amigos, ou apaixonados um pelo outro, e Lúcia introjetou toda a culpa da separação. Assim como muitas mulheres estupradas que se sentem adúlteras ao encarar seus companheiros, Lúcia é duplamente vitimizada: além de ter sido vendida e separada de seu amigo e potencial companheiro, ela também introjeta a responsabilidade por essa separação, como se tivesse sido tudo sua culpa, como se ela pudesse ter evitado a separação se tivesse sido uma escravizada mais diligente e trabalhadora. Assim, sentindo-se culpada pelo crime que sofreu, não consegue mais encarar o narrador e foge.

O objetivo dessa análise não é, naturalmente, esgotar as possibilidades do poema mas exemplificar suas potencialidades. Um romântico e sentimental poeta é separado de sua amada pela perversa realidade da escravidão. Menina escravizada é vendida para longe de sua casa e família, e seu egocêntrico amigo e sinhozinho só consegue pensar em si mesmo e em como isso o afeta. Casal de pessoas escravizadas que cresceram juntas é separado e mulher introjeta a culpa da separação. Um mesmo poema e três enredos bastante diferentes: é por essa riqueza que Castro Alves continua fascinando as pessoas leitoras.

“O Navio-Negreiro”: Contra a Nação

Escrito em São Paulo, em 1868, “O Navio-Negreiro” foi publicado em um jornal do Rio de Janeiro, no ano seguinte. (Se quiser, confira o poema aqui antes de prosseguir a leitura.)

Nesse que é provavelmente seu mais famoso poema, Castro Alves nos leva em uma viagem dantesca a bordo de um navio-negreiro em pleno oceano Atlântico: escutamos a música da orquestra sinistra, sentimos os estalos do chicote e ouvimos as gargalhadas da tripulação, quando uma multidão de pessoas escravizadas dança no convés, sangrando e chorando, magras e cambaleantes, acorrentadas e nuas. Castro Alves pinta essa cena com as piores cores possíveis:

“Era um sonho dantesco… o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar de açoite…

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais …

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos… o chicote estala.

E voam mais e mais…”

O poeta não se contenta em descrever esses horrores: ele quer saber quem os promove, que nação empresta sua bandeira para proteger tamanha barbárie. Para seu “espanto”, é a sua própria nação, o Brasil. Então, em fúria, ele deseja que a nação, e o próprio continente, se desfaçam:

“Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança…

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!’

A crítica mais comum que se faz a “O Navio-Negreiro” diz respeito ao seu anacronismo: o poema foi escrito dezoito anos depois do tráfico escravo ter sido abolido — o que não quer dizer, naturalmente, que ainda não acontecesse. As cenas tão tétricas descritas por Castro Alves, argumenta-se, já não aconteciam mais e suas denúncias eram vazias. Autores tão diversos quanto Xavier Marques, Euclides da Cunha, Belmiro Barreto, Edison Carneiro, Fausto Cunha e Flavio Kothe ecoam essa mesma crítica. O crítico literário Fausto Cunha ainda acrescenta que só mesmo um artista completamente desinteressado na validade histórica do seu trabalho escreveria seu poema mais audacioso para denunciar uma situação que já não mais existia.[33] Edison Carneiro, importante militante do Movimento Negro e também biógrafo de Castro Alves, critica o poeta não apenas por escolher um assunto morto mas por ignorar a realidade factual da travessia atlântica, como a superlotação dos porões e as pessoas escravizadas sendo jogadas ao mar.[34] Flávio Kothe chega a acusar Castro Alves de ser um “auto-delegado poeta oficial da corte britânica, a fabricar uma justificativa interna para uma imposição externa”, como se bastasse proibir o tráfico para resolver o problema.[35] Por outro lado, críticas como Heloísa Toller Gomes apontam que a viagem no navio-negreiro não seria o tema, mas somente a imagem central utilizada por Castro Alves para dramatizar o problema da escravidão.[36]

Além de suas imagens vívidas e terríveis, “O Navio-Negreiro” também é especialmente digno de nota por seu ataque frontal e inédito à bandeira e à nacionalidade brasileiras. Especialmente na América Latina, a literatura foi uma importante ferramenta de construção e auto-afirmação da identidade nacional. Tentando construir uma nova mitologia para seus nascentes estados nacionais, as pessoas artistas do século XIX produziram um novo tipo de literatura, as chamadas ficções de fundação, cujo projeto pacificador, unificador e conciliador excluía críticas da realidade ou debates sobre projetos alternativos de construção nacional.[37] A simples escolha da pessoa escravizada como figura central da literatura, portanto, já significaria colocar em discussão as próprias fundações da sociedade escravista. Não por acaso, outros temas potencialmente polêmicos também foram cuidadosamente evitados: violência, trabalho, pobreza. No Brasil, esse projeto foi sistematica e conscientemente desenvolvido por José de Alencar, um dos primeiros patronos de Castro Alves. Nesse contexto histórico-literário, uma crítica tão aberta e tão feroz à nacionalidade quanto a presente em “O Navio-Negreiro” era praticamente inimaginável.

Enquanto a poesia abolicionista norte-americana não ousava “nacionalizar” o navio-negreiro, representando os traficantes de pessoas escravizadas sempre como estrangeiros sem pátria definida, Castro Alves vai mais longe e denuncia o seu próprio país: para ele, a escravidão era tão terrível ao ponto de justificar a dissolução do Brasil, e da própria América, em penitência por seus pecados. Seria melhor a nação nem existir, ele brada, angustiado, do que existir para promover tamanho mal. Basta ler “O Navio-Negreiro” ao lado da literatura contemporânea a ele (patriótica, romântica e açucarada) para perceber o quão revolucionária era a poesia de Castro Alves.

A Cachoeira de Paulo Afonso: Contra Deus, Contra a Família e Contra a Lei

Apesar de somente finalizado nos últimos meses de vida do poeta e publicado postumamente em 1876, o poema “A Cachoeira de Paulo Afonso” teve um longo período de composição. José de Alencar, em carta aberta a Machado de Assis em 1868 apresentando Castro Alves, já menciona ter ouvido alguns trechos. (Se quiser, confira o poema aqui antes de prosseguir a leitura.)

O poema conta a história de Lucas, um lenhador e escravizado, que anda pela mata cantando seu amor por Maria. Quando chega na casa dela, ele não a vê: sai procurando-a pela mata, até encontrá-la desacordada em uma canoa, que ia descendo o rio em direção à cachoeira de Paulo Afonso — hoje, desaparecida para dar lugar à usina hidrelétrica de mesmo nome. Lucas pula na água, nada até a canoa, acorda Maria e ela confessa que tinha se colocado ali de propósito, para cometer suicídio (grifos sempre meus):

“Sou flor manchada por cruel serpente…

Só de encontro nas rochas pode a enchente

Lavar-me as nódoas, m’esfolhando a vida. (…)

Nada perguntes… é um segredo horrível…

Eu te amo ainda… mas agora — adeus!”

Finalmente, ela conta tudo: enquanto tomava banho numa fonte, foi atacada e estuprada, não sem antes tentar escapar:

“Quando caí — era virgem!

Quando ergui-me — desonrada!”

Lucas, diga-se a seu favor, nunca duvida dela nem a culpa, mas diz que em vez de ela se matar, ambos deveriam buscar o culpado e se vingar. Maria, entretanto, recorda uma promessa que ele fizera para sua mãe em seu leito de morte: a velha escravizada tinha revelado ter sido estuprada pelo Senhor e morta pelos ciúmes da Sinhá, mas, mesmo assim, faz Lucas prometer que não buscará vingança. Como muitas vítimas de agressão, ela parecia sentir-se culpada dos próprios crimes que sofreu:

“Ouve-me, pois!… Eu fui uma perdida; (…)

Por esse crime é que hoje perco a vida,

Mas dele em breve há de salvar-me a morte! (…)

“Porque eu pequei… e do pecado escuro

Tu foste o fruto cândido, inocente, (…)

“Filho! Bem vês… fiz o maior dos crimes

Criei um ente para a dor e a fome!”

E o culpado, revela Maria, tinha sido nenhum outro que o Sinhozinho, filho do Senhor e irmão paterno de Lucas. A memória do último pedido de sua mãe parece suficiente para convencer Lucas que a vingança não levará a nada. Aparentemente concordando com ambas as mulheres vitimizadas, ele conclui que a morte é a melhor solução e se abraça a Maria enquanto a canoa despenca das cachoeiras de Paulo Afonso.

Há um clima de vergonha, desespero e desesperança por todo o poema. É interessante que, entre os muitos crimes pelos quais se sente culpada, a mãe de Lucas inclui parir um filho escravizado — tema que aparece em outras poesias de Castro Alves, como “Mater Dolorosa“, onde uma escravizada mata o filho para salvá-lo de uma vida de escravidão. Por isso, alguns autores, como Flávio Kothe e David Haberly, acusam Castro Alves de não propor nenhuma alternativa concreta às pessoas escravizadas que não a morte.[38] Entretanto, se as personagens negras acabam escolhendo a morte, é interessante o caminho que tomam para chegar lá. No seu momento de maior raiva, por exemplo, Lucas faz um discurso revolucionário, onde não poupa nem mesmo a Deus:

Família, leis e Deus lhes coube em sorte [aos brancos]. 

A família no lar, a lei no mundo…

 E os anjos do Senhor depois da morte. (…)

“Ser escravo — é nascer no alcoice escuro

Dos seios infamados da vendida…

— Filho da perdição no berço impuro

Sem leite para a boca ressequida…

“É mais tarde, nas sombras do futuro,

Não descobrir estrela foragida…

É ver — viajante morto de cansaço —

A terra — sem amor!… sem Deus — o espaço!”

Ou seja, Deus, a família e a lei pertencem às pessoas branca: as pessoas escravizadas não possuem nada disso. Em uma monarquia onde a religião católica ainda era a oficial de estado, é difícil exagerarmos o impacto dessas palavras. Apesar de o poema não ter ido tão longe quanto poderia, era certamente revolucionário. Em uma sociedade ainda debatendo a abolição, onde grande parte da população ainda temia desordem civil e caos social caso as pessoas escravizadas fossem libertadas, onde o fantasma do Haiti ainda era uma assombração bem real, não era pouco colocar palavras revolucionárias nos lábios de um escravizado mesmo ficcional. De acordo com Lucas, já que Deus, a família e a lei pertenciam ao homem branco, eles não faziam sentido algum para as pessoas escravizadas que, assim, poderiam e deveriam tomar a lei em suas próprias mãos. Já que a sociedade não lhes dava nada (muito ao contrário, roubava sua força de trabalho, suas esperanças para o futuro, sua liberdade), então não deviam nada à sociedade. Como dizia o abolicionista José do Patrocínio, expandindo Proudhon, se toda propriedade é um roubo, então a escravidão é um duplo roubo, anátema a todos os princípios jurídicos civilizados. A lei, portanto, não faz sentido e as pessoas escravizadas não têm obrigação alguma de respeitá-la. Quando Maria implora que Lucas não manche sua vida ao buscar vingança, ele descarta sua súplica:

Crime! Quem falou, pobre Maria,

Desta palavra estúpida?… Descansa!

Foram eles talvez?!… É zombaria

Escarnecem de ti, pobre criança!

Pois não vês que morremos todo dia,

Debaixo do chicote, que não cansa?

Enquanto do assassino a fronte calma

Não revela um remorso de sua alma?

Entretanto, mesmo depois de declarações como essas, as personagens de Castro Alves são incapazes de agir: Lucas termina se deixando morrer, não buscando vingança. Segundo Haberly, seus poemas eram apelos à pena e à resignação, nunca chamados à ação, e por isso eram palatáveis e não-ameaçadores para a elite branca leitora.[39] Já Kothe critica a lógica através da qual seria justamente o laço de sangue entre Lucas e o estuprador de Maria que deveria impedir a vingança. Com base em uma fraternidade que nunca havia existido, o escravizado deve aceitar sua situação e não fazer nada (a não ser morrer) enquanto o agressor branco continua impune. Quando o escravizado está sendo explorado em sua força de trabalho ou a escravizada sendo violada, eles são somente coisas; quando levantam um machete e propõem vingança, subitamente são todos membros da mesma família e não devem atacar uns aos outros. Diante de tanto horror, o abolicionismo do poema, ainda segundo Kothe, parece propor uma anistia geral que impediria o branco de ser punido e o negro, de reclamar.[40]

O poema mostra, entre outras coisas, como o sistema escravista efetivamente impede as pessoas escravizadas de formarem famílias estáveis. Primeiro, o proprietário viola a mãe de Lucas e, depois, seu filho-branco viola a companheira de seu filho-bastardo, em uma cadeia de crimes, mortes, traumas e violência que destrói inúmeras vidas ao longo dos anos. Para Afonso Romano de Sant’anna, em seu estudo O Canibalismo Amoroso, o grande mérito de Castro Alves é fundir, em uma coisa só, a tragédia racial, a tragédia social e a tragédia erótica de Lucas e Maria. Enquanto alguns críticos separam a poesia de Castro Alves em lírica e romântica, por um lado, e política e abolicionista, de outro, Sant’anna afirma que o Castro Alves erótico e o político são a mesma pessoa:

“A liberalidade do poeta nas relações amorosas com as mulheres brancas se complementa na luta contra a opressão erotica de negras e negros.”[41]

A Cachoeira de Paulo Afonso” apresenta o que talvez sejam as duas características mais criticadas da poesia abolicionista de Castro Alves: personagens negras falando como se fossem brancas, e morte voluntária como única solução para o problema da escravatura. Na opinião de Edison Carneiro, tudo é improvável neste poema: “o falso pudor de Maria, o falso orgulho de Lucas, o falso sentimento de pecado da mãe de Lucas, a falsidade de toda a trama do poema.”[42] Mas “A Cachoeira de Paulo Afonso” também coloca em evidência os maiores méritos do poeta. Mesmo que diluída por sua posterior inação, o monólogo revoltado de Lucas contra a escravidão é revolucionário e inflamatório. Se, em “O Navio Negreiro”, Castro Alves ataca a nação e, em “Vozes da África“, o próprio Deus, aqui o poeta ousa afirmar que a existência da escravidão rouba de sentido Deus, a família e a lei. Assim, não seria um crime se as pessoas escravizadas fizessem justiça com as próprias mãos. Apesar de suas personagens nunca irem tão longe, elas poderiam. O discurso ideológico subversivo já foi articulado; a violência contra as pessoas brancas já foi proposta, racionalizada, justificada. Nenhum escritor brasileiro da época foi tão longe.

Mais importante, como apontou Antonio Cândido, Castro Alves tornou-se “o poeta dos escravos” não por lhes dar um grito de luta, mas sim uma atmosfera de dignidade lírica.[43] Lucas e Maria podem até mesmo não falar, agir ou pensar como pessoas escravizadas (pois Castro Alves não pôde ou não quis ir tão longe) mas em seu amor, devoção, compromisso, vergonha, raiva e desespero, ambas são pessoas completamente, profundamente humanas. Naquele contexto histórico, ressaltar a humanidade da pessoa negra talvez fosse mais revolucionário do que lhe armar para a guerra.

Castro Alves, Poeta Oral

Já em vida, Castro Alves era uma celebridade. Entretanto, quando consideramos a cronologia de sua curta vida, parece claro que o seu período de fama foi curtíssimo. Em fevereiro de 1868, ele parou no Rio de Janeiro, a caminho de São Paulo, e foi publicamente elogiado por talvez os dois maiores autores contemporâneos, José de Alencar e Machado de Assis, simbolizando sua precoce entrada no cânone nacional. Em novembro do mesmo ano, atirou no próprio pé, ficando doente e acamado pelo resto de sua vida, e limitando severamente suas aparições públicas. Até então, apesar de alguma fama nacional, havia publicado apenas alguns poucos poemas em jornais estudantis. Pelo resto de sua vida, Castro Alves se dedicou a coligir e revisar suas poesias líricas e românticas, que publicou sob o título de Espumas Flutuantes. O grosso de sua poesia abolicionista — talvez a maior responsável por sua fama atual — não foi publicada em vida nem mesmo em efêmeros jornais acadêmicos. De onde veio sua fama então?

Castro Alves foi acima de tudo um poeta oral. Seus recitais de poesia, normalmente em grêmios e associações estudantis, atraíam cada vez mais e mais pessoas à medida que crescia sua reputação. No século XIX, havia poucas opções de ensino superior no Brasil: faculdades de Direito no Recife e em São Paulo, e de Medicina no Rio de Janeiro e em Salvador. Nesse contexto, atividades estudantis tinham muito mais impacto cultural do que hoje, ainda mais em cidades comparativamente pequenas, como Recife e São Paulo. Os estudantes eram os futuros barões e eleitores, médicos e advogados: toda a atual elite local queria saber o que a futura elite nacional tinha a dizer.

Além disso, Castro Alves era conhecido por afrontar a moral e os bons costumes. Não usava barba, em uma época onde essa atitude tinha certa conotação homossexual, e dividia seu cabelo exatamente ao meio, um penteado considerado feminino. Antes de subir ao palco, ele se maquiava para tornar sua pele mais branca e seus lábios, mais vermelhos.[44] Fazia as unhas regularmente e quase sempre se vestia todo de preto. Vivia abertamente com uma atriz, em uma época em que o concubinato não só era muito mais escandaloso do que hoje, como também atrizes ainda carregavam um forte estigma de prostituição. Como não tinha muito dinheiro e era órfão de pai e mãe, é provável que ela também o sustentasse, o que só aumentava o escândalo e alimentava sua fama. Em sua relação com Eugênia, assim como em sua poesia abolicionista, Castro Alves demonstrava sua tendência de apoiar sempre o lado mais fraco e marginalizado. Como falou um de seus biógrafos, em meio a um povo que tinha as atrizes no pior conceito possível, sua valorização dessa mulher marginal não deixa de ter forte simbologia.[45] Tanto na poesia quanto na vida de Castro Alves, sexo não era desonra.[46]

A fama póstuma e duradoura de Castro Alves provavelmente se deve à sua poesia, mas sua fama entre seus contemporâneos provavelmente se devia mais à sua personalidade e aos seus maneirismos teatrais do que à sua poesia escrita propriamente dita. De fato, dado que poucos de seus poemas foram publicados, a própria pessoa do poeta era o meio através do qual seu público absorvia sua poesia. Um de seus primeiros recitais foi em 11 de agosto de 1865, participando da abertura dos cursos jurídicos da Faculdade de Direito do Recife com uma leitura do poema “O Século“. Aquele calouro de dezoito anos, de rosto pálido e cabeleira negra, de voz poderosa e palavras revolucionárias, simplesmente eletrificou a plateia. Ainda não havia cursado uma única aula e já era aclamado, inclusive pelos veteranos, como “primeiro poeta da academia”. Dias depois, os jornais publicavam a versão completa da poesia e destacavam sua participação como o ponto alto do evento.[47] Para muitas de suas primeiras entusiastas, era essa a ordem normal de consumo da obra do poeta: em primeiro lugar, compareciam à performance e aplaudiam o poeta em pessoa; e depois procuravam nos jornais dos dias seguintes a publicação integral do texto da poesia que já haviam ouvido. Quem não fosse aos recitais poderia ainda assim ler as poesias no jornal e, estimulado pelos elogios de jornalistas ou pelo boca-a-boca de amigas, decidir comparecer às próximas apresentações. Em uma sociedade ainda largamente analfabeta, ser um poeta eminentemente oral não era demérito e, pelo contrário, multiplicava o público em potencial da obra. Um estudo recente indica que os jornais do Rio de Janeiro, entre 1880 e 1920, tinham mais pessoas ouvintes que pessoas leitoras: ler em voz alta as notícias para família, amigas ou colegas de trabalho, ou mesmo em ambientes públicos, como bares e praças, era bastante comum e essa prática pode ter inclusive influenciado o estilo melodramático da imprensa da época, cujos artigos já seriam escritos prevendo mais pessoas ouvintes que leitoras.[48] Se jornais tinham mais pessoas ouvintes que leitoras, podemos presumir que o mesmo também se aplicava à poesia. Ou seja, mesmo aquelas leitoras que nunca encontraram o poeta em pessoa e conheceram suas obras pelos jornais, provavelmente ouviram suas obras antes de lê-las.

Para algumas estudiosas, essa qualidade oral da poesia de Castro Alves seria justamente a responsável por grande parte de seus defeitos e superficialidade. Segundo um de seus principais biógrafos, Haddad, as multidões presentes nos recitais de Castro Alves estariam mais interessadas em sua beleza física e oratória radical do que em suas palavras, e as ovações entusiasmadas não quereriam dizer que as plateias concordavam ou mesmo entendiam suas ideias:

“Diante da caudal de metáforas, tropos, trocadilhos, antíteses, hipérboles, todo o repositório que constitui o arsenal do condoreiro, não havia lugar para a análise das ideias.”[49]

Na opinião de Haddad, considerando a tamanha empolgação das fãs, daria na mesma se a poesia de Castro Alves fosse ou não abolicionista. De fato, o poeta baiano provavelmente foi aclamado em São Paulo, então maior bastião da luta pela manutenção da escravatura, porque sua plateia não percebeu ou, pior ainda, não levou a sério seu abolicionismo. Luiz Gama, por outro lado, um abolicionista contemporâneo que foi levado muito a sério pela elite escravista paulista, teve seu progresso profissional barrado a todo momento e nunca nem conseguiu exercer a advocacia.[50] Flávio Kothe, ainda mais crítico, diz que a poesia de Castro Alves, escrita para ser ouvida e não lida, tinha todas as características de uma ode: barulhenta e superficial; sua poesia seria como um fósforo, feita para ser usada somente uma vez.[51]

Como Castro Alves foi muito pouco publicado e lido em vida, é difícil de entendermos o impacto que causou em seus contemporâneos sem levar em conta a qualidade oral de sua poesia, sua personalidade chamativa e suas técnicas de oratória. Entretanto, se essas fossem as únicas qualidades de Castro Alves, sua fama não teria sobrevivido à morte. Em sua biografia, Haddad aponta que as menções a Castro Alves na imprensa paulista, numerosas em 1868, somem assim que ele atira no próprio pé e sai da cena pública. Para Haddad, a fama de Castro Alves dependeria, em larga medida, de sua presença física e ação direta. Entretanto, quando Haddad escreve seu estudo monumental de mais de mil páginas sobre a vida e obra de Castro Alves, o poeta já não estava fisicamente presente em lugar algum há mais de oitenta anos. De fato, a fama de Castro Alves vêm sobrevivendo à sua ausência há 150 anos.

Para Antônio Cândido, a excelência da poesia de Castro Alves vem justamente de ele ser um “orador em prosa”:

“Quando a poesia está comprometida com a vida e com o contexto histórico social, a eloqüência deixa de ser somente recurso e assume força realmente poética.”[52]

A Importância de Castro Alves

Castro Alves tem sido objeto de controvérsias literárias há mais de cem anos, uma prova de sua contínua capacidade de tocar e instigar suas leitoras. Algumas estudiosas dizem que ele era jovem, provavelmente jovem demais, e que a maioria dos seus poemas melhoraria muito com uma revisão mais cuidadosa. Antônio Cândido até mesmo faz uma lista das suas piores “banalidades pomposas”, “verbalismos sem nexo” e “vertigens orais”.[53] O poeta também é criticado por motivos políticos, sendo acusado de não ir tão longe quanto poderia, de não internalizar o ponto de vista da pessoa negra e de não propor soluções de fato. Poderíamos até nos perguntar, afinal, o que ele deveria ter proposto, ou se a poesia tem obrigação de propor algo, mas a crítica em si é precisa: Castro Alves nunca propôs nada. De algum modo, entretanto, entre tantos argumentos e contra-argumentos, tantas leituras e desleituras, a fama de Castro Alves como “poeta dos escravos” continua forte. Comprovando sua firme posição no cânone nacional, Alberto Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras e talvez o maior africanista nacional, lançou em 2006 mais uma biografia do poeta, como parte da coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras, colocando-o ao lado de outras grandes figuras da História Brasileira como Maurício de Nassau, Marechal Rondon, D. Pedro I, D. Pedro II, Getúlio Vargas, General Osório e Joaquim Nabuco.

Apesar de seus inúmeros defeitos (muitos, de fato, decorrentes de sua juventude), a poesia de Castro Alves foi revolucionária não apenas no contexto brasileiro, mas também em comparação a outros literatos abolicionistas estrangeiros. Em sua defesa das pessoas escravizadas, Castro Alves não poupou nem Deus, nem a nação, nem a Lei. Sua poesia inclui uma vasta gama de retratos escravos, muitos dos quais se pode somente mencionar aqui, mas que a leitora está convidada a ler por conta própria e descobrir: em “Manuela”, um escravo chora a falta de sua amada, agora amante do sinhô; em “Mater Dolorosa“, uma mãe mata seu filho recém-nascido para salvá-lo da escravidão; e em “Tragédia no Lar”, o filho de uma escravizada é vendido para longe dela. Os exemplos poderiam multiplicar-se.

Mas Castro Alves foi ainda mais longe. Em poemas como “Saudação de Palmares” e “Bandido Negro” (descrito por Rui Barbosa como “canção de Espártaco”), ele não apenas clama por violência negra contra o agressor branco, como a justifica. Castro Alves não foi o primeiro a fazer isso: o poema de Fagundes Varela, “Mauro, o Escravo”, mostra um escravo invadindo o casamento do Sinhô e matando-o por ter violado sua irmã. Mas enquanto “Mauro, o Escravo” foi uma exceção isolada na obra de um poeta normalmente romântico e apolítico, Castro Alves abordou o tema da escravidão consistentemente, politicamente, provocativamente. Comparando “Bandido Negro” com “Mauro, o Escravo”, Antonio Cândido admite que apesar de Varela ter sido o primeiro a dar “consistência mais nobre” e “perfil heróico” ao negro na literatura, só a poesia de Castro Alves estenderia sobre ele o “manto redentor da poesia”, “tratando-o como herói, amante, ser integralmente humano.”[54]

Em “Bandido Negro”, ex-escravos invadem a casa do Sinhô e exigem vingança:

“Somos nós, meu senhor, mas não tremas,

nós quebramos as nossas algemas

para pedir-te as esposas e mães.

Este é o filho do ancião que mataste.

Este — irmão da mulher que manchaste…

Oh! não tremas, senhor, são teus cães.

Cai orvalho de sangue do escravo,

cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

cresce, cresce, vingança feroz.

São teus cães, que tem frios e tem fome,

que há dez séculos a sede consome…

Quero um vasto banquete feroz… “

Colocar a palavra “vingança” em lábios escravos não era algo feito levianamente no Brasil do século XIX. O fantasma da Revolução Haitiana ainda estava perigosamente próximo e assombradamente real para uma pequena e mal-armada elite branca escravocrata cercada por uma multidão de pessoas negras e mestiças, cafuzas e mamelucas, livres e escravizadas, todas marginalizadas e exploradas. Como no resto da América Latina, o processo de independência brasileiro foi bastante conservador, liderado por uma elite branca buscando liberdade das restrições da metrópole enquanto negava essa mesma liberdade às “perigosas” massas — em sua grande maioria, não-brancas e, muitas vezes, escravizadas. Qualquer líder independentista que se mostrasse muito progressivo era logo avisado para conter suas ideias liberais, ou se arriscaria a causar um “novo Haiti”. Mesmo no contexto de uma guerra patriótica de libertação nacional contra uma metrópole opressora, a palavra “liberdade” era usada com muito cuidado e parcimônia. Não se podia arriscar que as massas pensassem que essa liberdade era para elas também. Em 1823, um agente francês advertia o Rei de Portugal

“Se se continua a falar dos direitos dos homens de igualdade, terminar-se-á pronunciando a palavra fatal: liberdade, palavra terrível e que tem muito mais força num país de escravos do que em qualquer outra parte. Então, toda a revolução acabará no Brasil com o levante de escravos, que quebrando suas algemas, incendiarão as cidades, os campos e as plantações, massacrando os brancos, e fazendo deste magnífico império do Brasil uma deplorável réplica da brilhante colônia de São Domingos.”[55]

Ao longo da curta vida de Castro Alves, a Abolição passa de uma palavra subversiva que pode levantar as massas para a ocupação da moda para jovens estudantes — em alguma parte, graças aos seus esforços poéticos. Ainda assim, nem mesmo as pessoas mais ferrenhamente opostas à escravidão viam, ou, pelo menos, se referiam às pessoas escravizadas como se fossem gente. As pessoas anti-escravistas geralmente argumentavam que a escravidão era nociva à economia do país, vergonhosa à sua imagem no exterior ou colocava em perigo pobres pessoas brancas e inocentes nas mãos de negros bestializados e hiperssexualizados pelo cativeiro. Muitas abolicionistas se opunham à escravidão por medo dos efeitos nocivos das pessoas negras na cultura e no “sangue” brasileiros. Ou seja, a escravidão tinha inimigas, mas nem mesmo elas eram amigas das pessoas negras. Portanto, não é surpreendente que, na literatura brasileira, as pessoas negras quase sempre apareçam como escravizadas e criadas, trazendo água e carregando bilhetes, raramente como protagonistas capazes de amar ou odiar por seus próprios motivos. Castro Alves está entre os primeiros escritores brasileiros a consistentemente tentar mudar isso. Em sua poesia, o homem e a mulher negros são completamente humanos: eles amam e odeiam, buscam vingança e têm dilemas existenciais. Pela primeira vez no cânone literário brasileiro, demonstram iniciativa e autonomia.

Apesar de totalmente imerso na estética romântica então em voga, Castro Alves conseguiu transcendê-la. Seu grande mérito foi conseguir ser, ao mesmo tempo, lírico e político. Nas mãos de outro poeta, o suicídio final dos amantes, em “A Cachoeira de Paulo Afonso“, seria apenas um lugar-comum romântico: em Castro Alves, o ato adquire profundidade existencial e significação política, social e racial: torna-se eminentemente coletivo, não mais individual. Ao contrário de seus contemporâneos, Castro Alves era capaz de politizar o erotismo lírico, dando um sentido social a dramas que outros autores tratariam como simples conflitos pessoais.[56]

Pelas mesmas razões, Antonio Cândido considera “A Cachoeira de Paulo Afonso” o maior poema de Castro Alves. O poeta não apenas representou a pessoa negra como um indivíduo martirizado e explorado, mas também forçou suas leitoras brancas a reconhecer nela uma igual capacidade de amar, sofrer, odiar, perdoar. Colocar “vingança” em lábios escravos era revolucionário, mas não foi o elemento mais revolucionário da poesia de Castro Alves. Pela primeira vez na literatura brasileira, aparece a dignidade humana do indivíduo escravizado; à leitora brasileira do século XIX é finalmente mostrada a vida íntima da pessoa escravizada, seu amor e sua dor, e que ela poderia ser tão profundamente lírica e digna de poesia quanto qualquer pessoa branca. Desse modo, conclui Antonio Cândido, o trágico idílio de Maria e Lucas em “A Cachoeira de Paulo Afonso” desestabiliza a visão de mundo de suas pessoas leitoras de forma mais severa do que os gritos de vingança sangrenta de “Bandido Negro”.[57] A crítica Heloísa Toller Gomes aponta que Castro Alves não apenas denuncia os males da escravidão, mas também mostra a pessoa humana por detrás dos grilhões. Especialmente quando comparadas a outras personagens negras da literatura brasileira do século XIX, as pessoas escravizadas de Castro Alves se destacam por sua capacidade de tomar seus próprios destinos em suas mãos.[58]

A poesia de Castro Alves, algumas vezes imatura, ocasionalmente brilhante, marcada pelos limites de sua época mas também audaciosa e revolucionária, continuará garantindo ao poeta um lugar sempre polêmico no cânone da literatura brasileira. As mesmas pessoas leitoras que suspiram de enfado ao se deparar com um verso mais imaturo (afinal, o poeta mal chegou à idade adulta) logo se impressionam com a audácia política da estrofe seguinte. Algumas o criticam por não ter ido tão longe quanto poderia, outras o elogiam por ter ido mais longe do que todos os seus contemporâneos. Talvez o maior tributo à posição duradoura de Castro Alves no cânone seja uma anedota contada pelo africanista Alberto da Costa e Silva, mais recente biógrafo do poeta.

Na Nigéria, um descendente de retornado (pessoas brasileiras ex-escravizadas que voltaram à África) lhe mostrou uma cópia da primeira edição de Espumas Flutuantes, trazida por seu antepassado brasileiro. Em pleno século XXI, a família ainda honrava aquela relíquia como se fosse um livro sagrado.[59]

Referências

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Vainfas, Ronaldo. Trópico dos Pecados. Moral, Sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

* * *

Esse texto faz parte dos guias de leitura para a segunda aula, Escravistas & escravizados, do meu curso A Grande Conversa, a ideia de Brasil na literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso começou no dia 1º de abril de 2021 — quem se inscrever depois dessa data terá acesso aos vídeos das aulas anteriores.

* * *

Castro Alves é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 17 de abril de 2021, disponível na URL: alexcastro.com.br/castro-alves // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: NewsletterInstagramFacebookTwitterGoodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

* * *

Notas

[1]
 

 As esparsas menções a Gregório podem ser encontradas nas seguintes biografias de Castro Alves: Carvalho, p.72; Haddad, p.86; Costa e Silva, pp.64, 153.

[2]

 Originalmente publicada em Produções em Prosa e Verso Recitadas em Varias Occasiões no Anno de 1861 Pelos Alumnos do Gymnasio Bahiano e por Alguns Distinctos Poetas que se Dignaram de Honrar suas Festas Litterarias. (Salvador, 1861). OC, 861.

[3]

 Utilizamos informações das Obras Completas, organizadas por Eugênio Gomes para a Aguilar, 1960.

[4]

 “A Primavera”, n°1, Recife, 17 de maio de 1863. OC 823.

[5]

 17 de julho de 1863. OC 845.

[6]

 Jornal O Liberal Acadêmico, Recife, 17 de agosto de 1865.

[7]

 Costa e Silva, 17.

[8]

 Citado em Haberly, 55.

[9]

 Carvalho, 105.

[10]

 Haddad, 73-74.

[11]

 Publicada no Diário do Rio de Janeiro, 5 de março de 1868.

[12]

 Carneiro, 32, 63-64, Carvalho, 114

[13]

 Maestri, 35

[14]

 Publicado pela primeira vez no jornal literário O Miosótis, do Rio de Janeiro, em 1869

[15]

 Costa, 28-29.

[16]

 Queiroz, 1982, 24.

[17]

 Conrad, 24.

[18]

 Carvalho, 80.

[19]

 Costa, 49.

[20]

 Haddad, 199.

[21]

 Barbosa, 627-647

[22]

 Cunha, 1966, 423

[23]

 Citado em Maestri, 62.

[24]

 Citado em Maestri, 65.

[25]

 Bernd, 51-61.

[26]

 Essa, entre outras, é uma das principais críticas de Flávio Kothe a Castro Alves em seu O Cânone Imperial (2000).

[27]

 Publicado pela primeira vez em Bosquejo Literário a Propósito do Decenário do Castro Alves, Bahia, 1881.

[28]

 Kothe,  315-383

[29]

 Kothe, 337

[30]

 Kothe, 339

[31]

Kothe, 352, 374

[32]

 Kothe, 352, 370-371

[33]

Cunha, 1955, 825

[34]

Carneiro, 81-83

[35]

Kothe, 285

[36]

Gomes, 68

[37]

 Remetemos as leitoras a Ficções de Fundação. Os Romances Nacionais da América Latina, de Doris Sommer (BH: Ed. UFMG, 2004), e Comunidades Imaginadas. Reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo, de Benedict Anderson (SP: Cia das Letras, 2008), que exploram e desenvolvem essas questões mais a fundo.

[38]

Kothe, 394-396, Haberly, 61-64

[39]

Haberly, 60-64

[40]

Kothe, 388-396

[41]

 Sant’Anna, 47-48

[42]

 Carneiro, 100

[43]

 Cândido, 276

[44]

 Haberly, 1983, 54-55

[45]

 Haddad, 168

[46]

 Haddad, 73-74, 176

[47]

 Carvalho, 74-76

[48]

 Tese de Doutorado em História de Marialva Barbosa, defendida na UFF em 1996, “Imprensa, Poder e Público: Os Diários do Rio de Janeiro, 1880-1920. Não publicada. Citada por Maestri, 68-69.

[49]

Haddad, 206-208.

[50]

 Haddad, 206-208. Apesar dessas dificuldades, e atuando com o auxílio de advogados locais, Gama conseguiu explorar brechas na lei para libertar centenas de pessoas ilegalmente escravizadas.

[51]

 Kothe, 303.

[52]

 Cândido, 272.

[53]

 Cândido, 270

[54]

 Cândido, 274.

[55]

 Citado em Mott, 15.

[56]

  Sant’Anna, 59-60

[57]

 Cândido, 276

[58]

 Gomes, 75-77

[59]

 Costa e Silva, 174.

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