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Amadís de Gaula, uma introdução

Não tem como entender o Quixote sem passar pelo Amadis de Gaula, o ídolo q satiriza, homenageia, interpela. Um guia de leitura da Grande Conversa Espanhola.

O personagem Amadís de Gaula é o cavaleiro perfeito e paradigmático, vivendo aventuras completamente artificiais em um mundo totalmente fantástico. Ele é como uma purificação, o mínimo denominador comum do romance de cavalaria arturiano, agora sem a traição de Lancelot, sem o misticismo da busca pelo Graal, sem as loucuras amorosas de Tristão, sem qualquer defeito ou mácula.

(O Amadis de Gaula será uma de nossas leituras na terceira aula do curso Grande Conversa Espanhola: do El Cid ao Dom Quixote, a invenção da literatura moderna. O curso está saindo com desconto só até 6 de março. Compre aqui.)

No século XV, a prosa consegue finalmente se separar da historiografia, rompendo uma associação (prosa=verdade e poesia=ficção) que já durava séculos. Antes, até a Idade Média, a literatura servia basicamente uma função didática. Nos dois textos da terceira aula, a função didática ainda é predominante  na Celestina, na quarta aula, se tornará enfim mero pretexto.

A novela sentimental será, ao lado das novelas de cavalaria, o gênero dominante de ficção em prosa do século XV: nossas leituras, o Cárcere do Amor e o Amadis de Gaula são suas duas obras-primas, os exemplares do gênero mais lidos, falados, comentados, imitados do século. Não deixa de ser sintomático que justamente no século marcado por mais conflitos entre a burguesia que tenta nascer e a aristocracia que tenta se manter seja o auge tanto da literatura sentimental quanto cavalheiresca.

Amadis de Gaula  é tão pouco espanhol que não se sabe nem com certeza onde foi escrito: a versão mais antiga que temos está em espanhol, mas ela afirma ser uma refundação de histórias anteriores, que não sabemos nem onde nem quando foram escritas: talvez Portugal, talvez França.

Dom Quixote, quando se arma cavaleiro andante, está emulando seu ídolo, Amadis de Gaula, que será incessantemente citado e referenciado no romance nossa leitura das últimas duas aulas. Normalmente lido como sátira ou paródia ao Amadis de Gaula, e aos romances de cavalaria, o Dom Quixote também pode ser lido como a culminação do gênero, como o mais perfeito, honesto, bondoso, generoso de todos os cavaleiros andantes. Seja o Dom Quixote sátira aos livros de cavalaria ou o mais perfeito livro de cavalaria, não tem como realmente ler, entender, gostar, se engajar com o Dom Quixote sem ter antes passado pelo Amadis de Gaula. Esse é um dos motivos dele estar aqui, como uma de nossas leituras.

A novela sentimental, aqui representada pelo Cárcere do Amor, é como uma variação da novela de cavalaria: onde as novelas de cavalaria apresentavam aventuras fantasiosas, vividas por cavaleiros andantes perfeitos, que sofriam por suas belas damas sans merci (sem piedade), as novelas sentimentais mantêm somente essas convenções do amor romântico cortesão e abdicam das aventuras fantasiosas.

A popularidade do Amadis de Gaula explica até mesmo a nossa colonização. A America já estava imaginada antes de ser encontrada. Quando portugueses e espanhois invadem as Américas e começam a colonizá-la, os primeiros colonos e conquistadores ainda vivem, em seu imaginário, a realidade fabulosa dos cavaleiros andantes e da Reconquista contra os mouros. Em seu universo mental, a América era apenas mais uma entre tantas terras míticas citadas no Amadis de Gaula e, cada soldado, fantasiava a si mesmo como um novo Amadis. Não por acaso muitos dos topônimos americanos saíram direto da obra: Amazonas, Califórnia, Patagônia, etc. (A colonização da América será tema da quinta aula.)

Existem poucas maneiras melhores de conhecer o espírito de uma época do que lendo suas obras primas mais amadas, mais lidas, mais comentadas, mais imitadas, mais parodiadas. O Amadis de Gaula envelheceu mal, mas ainda vale a pena ler ou a versão resumida em português ou trechos da versão espanhola. O ciclo arturiano nos legou a tradição de heróis falhos e adúlteros (sempre mais interessantes) mas o Amadis de Gaula ainda vive em todo herói puro, perfeito e idealizado. Quem é o Super-Homem senão o nosso atual Amadis? Já o Cárcere de Amor, com todos seus exageros, é uma obra que ainda hoje se lê com prazer, escrita em belíssimo estilo e com fortes imagens.

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Leituras

Como ler

Cárcere de amor: Recomendo ler na edição bilíngue em catálogo no Brasil, consultando as notas do pdf da Editorial CríticaAmadís de Gaula: por ser gigantesco, não tem como ler tudo: em espanhol, recomendo ler os trechos selecionados das antologias do Instituto Cervantes ou da Penguin; em português, a edição brasileira, em catálogo, resume tudo em 170pp e está disponível em pdf.

Espanhol

Português

  • —> Cárcere de Amor, de Diego de San Pedro [150pp, Imprensa Oficial SP, trad. C. Giordano. Bilíngue.]
  • —> O Romance de Amadis, de Garci Rodriguez de Montalvo [133pp, Martins Fontes, trad. Afonso Lopes Vieira.] (pdf)

Inglês

Áudiolivro

Site

  • Portal de “livros de cavalaria” no Instituto Cervantes (site)

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a terceira aula, Cavalaria, do meu curso Grande Conversa Espanhola: do El Cid ao Dom Quixote, a invenção da literatura moderna. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Para comprar o curso, clique aqui.

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