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A conquista das Américas e a lenda negra espanhola

Os espanhois cometeram atrocidades ao conquistar as Américas, mas também inventaram os direitos humanos. (Guia de Leitura da Grande Conversa Espanhola.)

A descoberta da América é certamente um dos eventos mais importantes da aventura humana. (Infelizmente, não sabemos nem mesmo quando aconteceu: provavelmente 15 mil anos atrás, mas há controvérsias.)

Já a chegada das primeiras pessoas europeias poderia até ter sido importante, mas os acampamentos vikings no Canadá deixaram poucas consequências históricas.

Para bem ou para mal, a conquista do Novo Mundo pelos espanhois, exatamente em sua época de maior poderio militar e de apogeu cultural, é o evento que vira o mundo de cabeça para baixo.

(A descoberta da América e a lenda negra espanhola serão os temas da quinta aula, Conquista, do curso Grande Conversa Espanhola: do El Cid ao Dom Quixote, a invenção da literatura moderna. O curso começa na quarta agora, 4 de maio: são 14 aulas por apenas R$195. Compre aqui.)

Como descrever hoje o choque e a maravilha que foi a descoberta de que o mundo era povoado de um sem-número de sociedades, com cores, religiões, línguas, costumes, todos diferentes entre si?

Não foram só os europeus que descobriram povos que antes não conheciam, mas esses povos também “descobriram” os europeus e descobriram, através dos europeus, os outros povos que também tinham sido “descobertos”.

Nesse revolucionário processo de descoberta, todos esses povos, opressores e oprimidos, colonizadores e colonizados, que antes viviam existências insulares, em contato somente com seus vizinhos mais próximos, descobriram que faziam parte de uma ampla humanidade, de povos vastamente diferentes, habitando uma enormidade de terras, continentes, países, vegetações.

Os espanhóis não descobrem a América, naturalmente, que já estava descoberta e habitada, mas sim esse novo conceito de humanidade.

Não só isso: a simples existência desses povos já colocava em xeque todo o conhecimento acumulado, e raramente questionado, que os europeus traziam da Bíblia e da Antiguidade clássica e fazia surgirem uma infinidade de novas questões nunca antes formuladas, tanto biológicas quanto éticas, jurídicas e filosóficas, políticas e econômicas.

(Em seu novo livro The dawn of everything, a new history of humanity, que comentamos no curso História do Mundo Enquanto Fofoca, David Graeber argumenta justamente que vieram dos povos originários as ideias pela quais os europeus ficaram famosos nos séculos seguintes: iluminismo, liberdade, democracia.)

No começo do século XVI, antes que a Inquisição e a Contrarreforma abafassem os ventos humanistas que começavam a soprar, a Espanha foi palco de um dos debates filosóficos mais interessantes, importantes e conseqüentes da história da humanidade:

Afinal, essas pessoas, que andavam nuas e comiam umas às outras, que não tinham nem fé, nem lei, nem rei… eram pessoas com alma? Ou eram simples animais em forma de gente? E, se fossem pessoas, que direitos teriam? Teriam direitos inalienáveis pelo simples fato de serem pessoas humanas, independente de serem cristãs ou não?

Entre 1550 e 1551, na cidade de Valladolid, na Espanha, esse debate colocou em pauta questões que até hoje nos afetam e nos mobilizam. No Brasil de 2022, quando alguém diz, a sério, que “direitos humanos só para humanos direitos”, ela está ecoando esse debate.

Nossa leitura será a obra mais popular de Frei Bartolomé de Las Casas, uma denúncia contundente e virulenta dos crimes espanhóis no Novo Mundo. A edição brasileira da L&PM contém um adendo que nos interessa ainda mais que o próprio texto: “Sumário da disputa entre o Bispo Dom Frei Bartolomé de las Casas e o Doutor Sepúlveda” (pp.116-141), um resumo do debate de Valladolid.

Essa obra de Las Casas é acusada, até hoje, de ter originado a “leyenda negra”, ou seja, a ideia de que a Espanha teria sido uma potência imperialista particularmente mais cruel do que as outras.

Se, por um lado, sabemos que a Espanha de fato cometeu crimes terríveis — a obra de Las Casas é uma das primeiras a documentá-los —, as outras potências imperialistas (Portugal, França, Inglaterra, Holanda, Itália) não foram melhores, e todas tiveram intenção e oportunidade de pintar sua inimiga Espanha nas piores cores.

Sim, a prática colonialista espanhola foi bem diferente da sua teoria, mas não deixa de ser digno de nota que somente na Espanha esses debates teóricos aconteceram, e aconteceram a sério, mobilizando a intelectualidade, a aristocracia, a realeza. As outras potências imperialistas europeias cometeram os mesmos crimes sem a mesma capacidade de introspecção e autoquestionamento. O que acontece quando o maior império da Terra, no auge do seu poder, ousa questionar a si mesmo?

Essa será a aula menos literária e mais histórica. Vamos conversar sobre a obra de Las Casas, sobre sua responsabilidade na criação da “leyenda negra” (e como ela continua até hoje influenciando a ideia que o mundo e que a própria Espanha tem sobre si mesma) e sobre sua participação do debate sobre os direitos dos povos originários (e como esse debate continua pautando muito da nossa discussão contemporânea sobre direitos humanos, liberdade, cidadania).

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Leitura

Como ler

Recomendo que leiam a versão em português da editora L&PM (coleção L&PM/História) pois só ela tem o texto mais importante: “Sumário da disputa entre o Bispo Dom Frei Bartolomé de Las Casas e o Doutor Sepúlveda” – são as últimas 25 páginas. Não consegui encontrar outra edição que tivesse esse trecho. Quem preferir, pode ler em espanhol ou inglês, e ler apenas esse trecho da edição brasileira – que também existe em pdf. Bendito Eduardo Bueno, que editou essa maravilhosa coleção.

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Apoio

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a quinta aula, Conquista, do meu curso Grande Conversa Espanhola: do El Cid ao Dom Quixote, a invenção da literatura moderna. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Para comprar o curso, clique aqui.

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