Paixonite

Duas pessoas acabaram de se conhecer e se apaixonaram.

Uma delas, muito racional, disse:

“Esse estado de paixonite é completamente ridículo. Não é razoável estarmos assim.”

Respondeu a outra, também muito racional:

“Das duas, uma: ou isso levará a algum lugar, e, então, esses primeiros dias serão mitologizados, celebrados, suspirados, ou isso não levará a lugar algum, e não fará diferença. De um modo ou de outro, o mais razoável é viver plenamente esse estado ridículo.”

“Justo.”

E viveram.

Continue lendo “Paixonite”

Por que fazemos o que fazemos?

O templo zen é cheio de regras de como falar, como andar, como comer.

Não são regras explicadas ou justificadas: elas simplesmente são.

Um dia, uma amiga me disse:

“Poxa, Alex, me admira você, tão libertário e tão rebelde, fazendo tudo isso sem nem saber porquê.”

Mas eu sei  o porquê.

Passo boa parte da minha semana no templo, seguindo regras aparentemente arbitrárias, porque sou uma pessoa vaidosa e egocêntrica, acostumada a sempre interpelar o mundo para exigir o porquê de tudo e que só admitia fazer qualquer coisa se o mundo satisfizesse essa minha incessante demanda por porquês.

Assim, trabalhar em um templo, aceitar as regras e não fazer perguntas é uma parte importante do meu projeto de desapegar desse meu Eu tão tirânico e de me tornar uma pessoa melhor para as outras pessoas à minha volta.

* * *

Outra amiga também perguntou:

“Alex, no templo zen você não se sente reprimido sob o peso de tantas regras? E sua liberdade?”

Em outras épocas, bem mais reativo, eu responderia:

“E você, não se sente presa aí fora, reprimido sob o peso de tantas regras? E sua liberdade?”

Mas hoje só respondo:

“Não me sinto preso, não. Pelo contrário. Aqui me sinto verdadeiramente livre: livre da tirania do meu Eu e livre dos meus desejos insaciáveis, livre da minha necessidade de aparecer e livre da minha compulsão por ser reconhecido. Livre.”

Continue lendo “Por que fazemos o que fazemos?”

vida que segue

ontem de manhã, extraordinariamente, comprei o jornal impresso. estou procurando um apartamento pra alugar e queria ver os classificados. em outro caderno, petrificados em fotos e condensados em resumos biográficos, estavam os mortos do acidente aéreo da air france: o casal de noivos de niterói, o maestro e o príncipe, a família que viajava separada justamente para que todos não morressem juntos, a mãe que perdeu a chance de ver a filha pela última vez pois ficou presa no trânsito. li tudo aquilo com a curiosidade mórbida que caracteriza os humanos, me emocionei, considerei minha própria mortalidade, etc etc, e deixei o jornal respeitosamente à beira da cama, talvez para ler de novo. mais tarde, houve sexo, com sua costumeira desordem viscosa. já de madrugada, antes de dormir, fui arrumar o quarto. em cima do jornal, tinha caído uma camisinha usada: gotas esparsas de sabe lá qual fluido manchavam o rosto do dinâmico chefe de gabinete de um jovem prefeito. dobrei o jornal em volta da camisinha, joguei tudo fora e fui dormir.

(texto de 2009. a referência é a esse acidente.)

do pudor

antigamente, em minha casa, camisinhas e lubrificantes ficavam na gaveta do banheiro, guardadinhos, escondidinhos, como têm que ser.

em dias de sexo espontâneo, porém, um tempo precioso era perdido correndo de lá pra cá: “corre, vai pegar a camisinha!”

moro em um quitinete. durmo em um colchão. praticamente não tenho móveis. muito menos criado-mudo.

aos poucos, as camisinhas e os lubrificantes foram passando tanto tempo ali no chão ao lado da cabeceira que esse acabou sendo consagrado como seu lugar.

no começo, sempre que recebia visitas, me batia uma lufada de pudor.

pensava: guardo tudo? ninguém precisa ver minhas camisinhas, né?

mas, logo depois, vinha a pergunta: pra quê? por quê?

transar não é nem feio nem proibido, nem anti-ético nem nojento. os objetos não estão bagunçados, largados, babados. pelo contrário, as camisinhas estão cuidadosamente eempilhadas, os lubrificantes de pé, tudo limpo e arrumado, ao lado das canetas e dos livros.

que tipo de pessoa poderia se sentir incomodada ou ofendida de simplesmente ver um frasco de lubrificante íntimo e algumas camisinhas? certamente, não o tipo de pessoa que eu gostaria de receber.

em minha casa, sempre estiveram à mostra as marcas de que fumo (cinzeiro na janela) e de que cago (papel higiênico no banheiro), de que como (garfos e talheres) e de que cozinho (panelas e frigideiras).

por que não poderiam também estar expostas as marcas de que transo?

por que seria essa, de todas as atividades humanas realizadas em minha casa, a única que precisa ser completamente escondida e negada?

* * *

pós-escrito

quando foi publicado pela primeira vez, esse texto causou muita polêmica e diversas manifestações de ódio. li e reli o texto. não encontrei nada de errado nele. pelo contrário, o assunto do texto é JUSTAMENTE essa resposta extremada e raivosa: por que o sexo é tão tabu? por que podemos deixar à mostra os objetos que usamos, por exemplo, para fumar mas não para transar? por que até mesmo falar nisso já desperta tanta raiva, tanto ódio, tanta ojeriza? afinal, por que o sexo (especialmente o sexo praticado pelo Outro) ofende tanto? se o texto levantou essas questões, então cumpriu o seu papel.

Jamais saberei

Casa de sucos. A balconista Érica está passando meu cartão. De repente, olha por cima do meu ombro e emudece, paralizada.

Sigo seu olhar. Atrás de mim, do outro lado da rua, um ônibus acaba de parar no ponto.

Depois de manter a mirada no ônibus por alguns segundos, seu olhar sobe, se amplia, se expande, ganha o horizonte.

Em poucos segundos, porém, o ônibus sai do ponto e o encanto se quebra.

“Crédito ou débito?”, diz ela, como se nada tivesse acontecido.

Pergunto se está tudo bem, se gostaria de conversar, mas Érica me olha assustada, sem entender minha oferta.

Parece não ter percebido que passou trinta segundos viajando dentro de si mesma no meio de uma interação comercial.

O que aconteceu?

Pela minha cabeça, passam mil teorias. Viu alguém que conhecia? Rememorou toda uma história de vida com essa pessoa? Ou estava somente pensando no jantar?

Minha única certeza, entretanto, é que não sei. Jamais saberei. Cada pessoa é um universo que se estende eternamente além do meu olhar.

Continue lendo “Jamais saberei”

Usar pessoas

Não existe nada mais libertador do que parar de usar as pessoas.

Já tive minhas épocas de empresário, empreendedor, freelancer. De viver sempre para o próximo negócio e para a próxima oportunidade. De fazer contatos e networking.

Além de exaustivo, era desagradável. Eu não gostava da pessoa que eu era.

Na prática, eu passava mais tempo “trabalhando”, adulando, azeitando as pessoas que podiam, talvez, quem sabe, ser de utilidade para mim… do que efetivamente curtindo, conversando, cuidando das pessoas que eu gostava.

Deixar de ser essa pessoa foi um processo longo e tortuoso: o primeiro passo, há muito tempo, foi decidir parar de aceitar caronas na volta de festas. Eu me sentia sujo aturando pessoas que eu não queria aturar só para economizar vinte reais do táxi.

O último passo, o passo que me libertou, foi passar a viver da generosidade das minhas mecenas (hoje, 750) e, em retribuição, oferecer tudo o que faço de graça.

Ou seja, não sobrou mais nada para eu querer das pessoas. As mecenas me sustentam justamente, entre outras coisas, para eu poder me libertar dessa mentalidade aquisitiva e interesseira, e poder ajudar qualquer pessoa sem pedir nada em troca.

Minha casa está aberta para pessoas do mundo inteiro, que me visitam, falam de suas vidas, buscam ajuda. Meus textos estão todos na internet.

Se uma pessoa achar que estou aturando ela só porque quero que venha ao meu evento…

Bem, não seja por isso, venha de graça.

Ou não venha.

Tá tudo bem.

* * *

Uma amiga leu esse texto e comentou:

“Poxa, Alex, que pessoa horrível você era. Ainda bem que nunca fui assim.”

E fico pensando cá com meus botões, tentando não julgar:

“Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

Longe de mim achar que todo mundo compartilha das minhas muitas falhas de caráter, mas, agora que parei de usar as pessoas, passo boa parte do meu dia ouvindo histórias de vida. E reparei uma coisa:

Quase sempre quando alguém fala de outra pessoa com os olhinhos brilhando…. está falando de algo que acha que aquela outra pessoa pode fazer por ela.

Nada nos empolga mais em uma pessoa (não sua bondade, não seu caráter, nada!) do que pensar que, talvez, quem sabe, em breve ela pode nos fornecer sexo ou prestigio, dinheiro ou emprego — o que quer que estejamos buscando.

* * *

Tenho uma amiga que é muito, muito importante em um campo de atuação que não tem nada a ver com o meu.

Então, de vez em quando, as pessoas vêm me perguntar:

“Caralho, você é amigo da Fulana? Da FULANA, que é isso e aquilo e tal outro?”

E fica implícito:

“Da FULANA que pode validar minha carreira, publicar meu livro, liberar meu prédio, aprovar meu projeto?!”

E eu respondo:

“Pra mim, ela é só a Fulana.”

Às vezes, estamos tomando um chocolate quente ou assistindo um filme bobo, enquanto seu telefone não pára de tocar e de vibrar, pessoas importantes de todo Brasil querendo coisas da minha querida amiga…

…e sinto um certo prazer iconoclasta e subversivo de saber que eu, do fundo da minha alma, sinceramente, só quero dela um chocolate quente e um filme bobo.

Amizade, para ser amizade, precisa ser desinteressada.

Senão, é “contato”, é “conhecido”, é “aposta para o futuro”.

Qualquer coisa menos amizade.

Continue lendo “Usar pessoas”