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aula 09: nações canção de mim mesmo grande conversa

Canção de mim mesmo, de Walt Whitman

Talvez o maior, mais mágico talento de Walt Whitman: ele escreve como se não houvesse literatura. Como se fizesse poesia pela primeira vez.

Uma vez, me perguntaram quais eram meus três poetas favoritos. A resposta: Whitman, Whitman, Whitman.

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Walt Whitman talvez seja meu melhor amigo.

Sei que ele não me conhece, sei que ele morreu há mais de cem anos, sei que apoiou as políticas mais imperialistas de sua época, mas é difícil não imaginar que ele escreveu “Canção de mim mesmo” diretamente pra mim, só pra mim, pra mais ninguém, e que todas as outras pessoas leram de enxeridas.

No momento em que mais precisei, quando a minha vida estava pronta para uma reviravolta, foi Walt Whitman quem me deu o último pontapé na direção desejada.

Ler o velho Walt me energiza. É como se eu enfiasse o dedo na tomasse e sentisse meu corpo se energizando às ondas – eu também canto o corpo elétrico, Walt.

Obrigado.

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Fernando Pessoa dizia que só conseguiu encontrar sua voz de poeta depois de travar luta de morte contra Walt Whitman.

Whitman é infinitamente melhor do que Pessoa. Nada que Pessoa escreveu chega aos pés de “Canção de mim mesmo”.

Mas isso não é demérito algum. Poucas coisas jamais escritas chegaram aos pés de “Canção de mim mesmo”.

O que importa é que Pessoa lutou o bom combate até o fim.

E nos deu as poesias de Alberto Caieiro, que não são de se jogar fora.

(Cito Pessoa de memória. Não consegui achar essa citação. Se alguém sabe onde está, agradeço.)

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Assim como todas as pessoas, não consigo acreditar que eu vá realmente morrer.

No meu caso, é uma consequência lógica de não conseguir acreditar que uma pessoa capaz de escrever o hino à vida que é “Canção de mim mesmo” pudesse simplesmente, puff!, deixar de existir.

Mas, se por acaso for verdade, se Walt Whitman (!) tiver mesmo morrido (!!), se até David Bowie pode ter um câncer e morrer…

Então, sinto muito, é porque todas nós vamos morrer também.

* * *

Em 2011, eu larguei um doutorado, uma carreira, um emprego nos EUA e voltei pro Brasil, com a mão na frente e outra atrás, sem nada por aqui.

Muita gente me perguntou:

“Mas Alex, por que você vai voltar?!”

Minha resposta, escrita na época, foi a seguinte:

Eu vou voltar porque, um dia, um homem que pra mim é como se fosse um deus inalcançável, uma figura mítica e sobre-humana, escreveu assim:

“Eu me celebro e eu me canto // E o que presumo você também vai presumir // Porque cada átomo que pertence a mim também pertence a você. // Vagabundeio e convido minha alma, // À vontade, vagabundeio e me inclino para observar uma haste de grama do verão. … // Eu, agora com trinta e sete anos e em perfeita saúde, começo, // Esperando não parar até morrer.”

“I celebrate myself, and sing myself, / And what I assume you shall assume, / For every atom belonging to me as good belongs to you. // I loafe and invite my soul, / I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. … / I, now thirty-seven years old in perfect health begin, / Hoping to cease not till death.”

E por mais que eu saiba, com uma certeza religiosa, que esse homem não morreu nunca, nem vai morrer jamais, porque ele está aqui, comigo, hoje, eu também sei que ele sofreu um derrame paralisante dezoito anos depois de escrever essas palavras, e viveu o resto dos seus dias inválido.

E eu, hoje, também com trinta e sete anos, também com a saúde perfeita, também planejando não parar até morrer, sei que vai chegar o dia do meu derrame, infarto, câncer, glaucoma. Pois se até esse homem morreu, que esperança eu posso ter? Ele escreveu essas linhas e teve mais dezoito anos. Eu, quantos anos terei?

A vida é curta. Se, no dia do infarto, eu tiver sido escritor (mesmo que fracassado, medíocre, deslido) mas não doutor, minha vida vai ter valido a pena. Se não tiver sido escritor mas sido doutor renomado, crítico celebrado, professor festejado, autor de diversos e sensacionais estudos sobre a obra dos outros, estudos esses escritos em detrimentos da minha, vou morrer triste, desgraçado, fracassado.

Eu sou escritor. Minha língua é o português. Meus leitores estão no Brasil. Minha casa é o Rio. Cada segundo que passo longe é um segundo desperdiçado.

Tenho trinta e sete anos, em perfeita saúde, e não tenho tempo a perder.

* * *

Depois de escrever essas palavras, seis anos atrás, eu já desenvolvi pressão alta, diabetes, gastrite.

Mas passei esses seis anos ganhando a vida como escritor e, como resultado tangível dos meus esforços, publiquei quatro livros, um deles no exterior.

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A grande mágica de Whitman, o motivo de ele ser pra mim uma figura quase mitológica, mística, religiosa, é q ele escreve como se não houvesse literatura. Ele é o anti-literatura. O anti-arte. O anti-artifício.

(Naturalmente, ele não é nada disso. Aliás, Harold Bloom enfatiza muito toda a sutileza e artesanato da arte de Whitman, que se revela em diversos níveis. Mas minha impressão inicial, e repetida a cada leitura, foi essa.)

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Whitman é o xamã da América: como todo xamã, ele é necessariamente conflituado, necessariamente ambíguo, e difícil de distinguir do divino.

É irônico que tenha sido adotado como poeta nacional dos EUA um poeta tão absurdamente individualista e autocentrado, tão celebratório de si mesmo e tão pouco observador dos outros à sua volta.

Whitman é o primeiro poeta a instigar em alguns leitores um medo real de certos aspectos do experimento democrático estadunidense: que uma das conseqüências possíveis da democracia era esse derrubar de barreiras sexuais e sociais, essa quebra total da economia burguesa de controle de corpos. Muitas das primeiras e maiores críticas do livro foram por esse lado.

Mas Whitman é o poeta estadunidense por definição porque ele modifica e amplia a própria definição que a nação e seus cidadãos tinham de si mesmos.

Em quase todos os poetas, coexistem celebração e angústia, mas só em Whitman temos autocelebração e autoangústia convivendo e coexistindo em tamanha intensidade e proximidade.

(Referência: Bloom, Cânone Ocidental)

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Whitman serviu como enfermeiro em DC durante os cinco anos de guerra civil, já como um poeta mundialmente famoso e celebrado. Que outro grande homem de letras, antes ou depois, fez tanto, abriu mão de tanto? A guerra (ou a idade) quebram Whitman: considera-se que seu último grande poema é a celebração da morte de Abraham Lincoln. Ele começa a guerra como um poeta relativamente jovem que celebrava a si mesmo e a termina já com toda a autoridade e gravitas da persona que vai assumir: a do “grey poet”, sério e sapiencial. A intensidade da experiência, de certo modo, quebra o Whitman poeta, nunca mais capaz de tanta energia individualista, mas salva o Whitman pessoa.

A metáfora das Folhas de relva: na Bíblia, toda carne é grama, efêmera, passageira; na poesia, em Homero, Dante, Virgílio, Spenser, Milton, etc, folhas caindo são símbolo das vidas humanas individuais que vão passando. Whitman mescla ambas as imagens: vidas humanas que passam nas folhas, carne na relva.

O paradoxo de Whitman é atingir uma total e absoluta universalidade — ao mergulhar total e absolutamente no seu Eu.

Muitos associam a “Canção de mim mesmo” aos transcendentalistas norte-americanos, como Emerson e Thoreau, mas seu antepassado mais imediato e intenso talvez seja Lucrécio.

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Whitman publica Folhas de Relva em 1855, no meio da década mais conturbada, caótica, violenta, polarizada da história dos EUA.

Em 1860, começa a Guerra Civil, que é a culminação, a consequência lógica e quase necessária dos erros, conflitos e desencontros que a década de 1850 não conseguiu resolver.

Uma Guerra Civil nada mais é do que uma maneira extremada de uma coletividade decidir quem ela realmente é, quais são seus valores, seus ideais, suas prioridades. Como não conseguiram por bem, vai por mal.

No meio de tudo isso, Whitman oferece ao país as suas revolucionárias Folhas de Relva.

E não imagino que seja difícil de entender porque, nesse momento tão difícil de definição nacional, uma parcela significa e crescente das pessoas pegou esses poemas belíssimos e disse:

“É isso! É isso que somos! É isso que nos representa! Não somos um país de escravocratas se matando pra decidir em quais estados pode escravizar pessoas e em quais não pode! De jeito nenhum! Isso é um acidente de percurso! Pelo contrário, o que somos realmente, o que somos de raiz, é essa beleza, essa união, essa força, essa vitalidade!”

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a nona aula, Nações, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso aconteceu entre julho de 2020 e março de 2021 — quem se inscrever depois dessa data tem acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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Canção de mim mesmo, de Walt Whitman é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 25 de março de 2021, disponível na URL: alexcastro.com.br/cancao-de-mim-mesmo-de-walt-whitman // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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