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aula 10: burgueses grande conversa

Europa, entre o otimismo e o racismo

A Primeira Guerra Mundial enterra o otimismo do século XIX no progresso e na ciência e efetivamente inaugura a nossa época, mais cínica, mais machucada, mais violenta.

A Primeira Guerra Mundial efetivamente encerra o século XIX, ao matar, destruir, enterrar o otimismo e confiança no progresso que caracterizaram a Europa nesse período e que, hoje, nos parece tão estrangeiro, tão impossivelmente distante. O mundo do pós-guerra, mais cínico, mais desconfiado, mais machucado, mais violento, já é o nosso mundo, a nossa perspectiva, um jeito de pensar que já conseguimos mais reconhecer como nosso. Por isso, ao começar efetivamente a nossa época, também termina o nosso curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura.

Otimismo secular

Ao longo do XIX, a religião perde bruscamente boa parte de sua legitimidade para explicar o mundo e propor soluções. Respostas antigas não funcionam mais. As perguntas eram outras. O peso do novo se faz sentir. Surgem novas idéias, filhas da Revolução Francesa: as mazelas do mundo eram frutos de problemas sociais (não mais eram “como o mundo tinha de ser”, “vontade de Deus”, etc), então, podiam ser resolvidas com soluções políticas.

O período é de otimismo máximo em relação à ciência e ao progresso. Nunca mais a humanidade será tão otimista, tão confiante em si mesma e em suas capacidades. Em Tchecov, podemos ver não só a culminação do realismo na literatura, mas também um grande autor, que viveu toda sua vida nesse período, e que, ao final dele, já pressente que a corda esticada está prestes a se arrebentar. Finalmente, a Primeira Guerra Mundial acaba com a autoconfiança européia de uma maneira tão dramática que jamais conseguiríamos conceber — justamente porque jamais fomos tão confiantes. (A queda de autoconfiança na geração que cresceu sob Lula e virou adulta sob Bolsonaro é pequena na comparação.)

Talvez o auge desse otimismo tenha sido as gigantescas Exposições Universais (ou Mundiais), que começam em 1851, e onde cada país tinha pavilhões onde expunha o melhor que tinha a oferecer. Na exposição de 1900, em Paris, 50 milhões de pessoas circularam entre os estandes. Foi chamada de “o balanço de um século”, “uma feira para fechar o século XIX! Coroamento dos esforços de uma era de invenções! Para mostrar o progresso, as conquistas, o crescimento das nações, o avanço das civilizações!” (O Brasil de D.Pedro II sempre foi um participante entusiasmado e, inclusive fomos anfitriões em 1922, para celebrar nosso centenário. Muitas estruturas famosas ainda hoje do Rio de Janeiro nasceram como pavilhões nacionais dessa exposição: o palacete da ABL, por exemplo, era originalmente o pavilhão da França. O melhor post que encontrei com fotos da exposição.)

Exposicao Nacional de 1922 – Selo Comemorativo

Guerra de estilos

A tendência renascentista de valorizar os clássicos greco-romanos leva, em seu extremo, ao estilo neoclássico do século XVIII. Expectativa era fazer ressurgir as normas artísticas clássicas, valorizando a razão em detrimento da irracionalidade e do misticismo — numa severa desleitura dos gregos, aliás — e também valorizando retratar o mundo de forma objetiva, equilibrada, sóbria, racional. (Podemos ver reflexos dessa postura em nossa poesia do arcadismo, no século XVIII, de Claudio Manoel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga.)

Em resposta, eclode o romantismo, que propunha justamente romper esses limites e barreiras, valorizava a absoluta individualidade e subjetividade do homem, o sensível sobre o inteligível, a intuição sobre a razão, etc. Para os românticos, a totalidade do mundo era maior do que as partes visíveis e racionalmente apreensíveis. Se os neoclássicos valorizavam a arquitetura, a dominação do homem sobre a natureza, os românticos valorizam a natureza ancestral, profunda, misteriosa, primordial. (São eles que recuperam a Idade Média, depois de ela passar todo o Renascimento sendo desvalorizada: O corcunda de NotreDame, de Victor Hugo, é parte desse processo de revalorização.) Tanto Os Miseráveis, que lemos na oitava aula, quanto O Guarani e as poesias de Gonçalves Dias, que leremos na primeira aula da Grande Conversa Brasileira, são obras bem representativas do estilo e das prioridades românticas.

Em resposta a isso, começam a surgir obras mais realistas, que abandonam esses extremos e se dedicam a tentar apreender a realidade em todos os seus aspectos. Os românticos não tinham nada contra os subterrâneos da vida — vide a jornada de Jean Valjean pelos esgotos — mas suas obras preferiam os extremos: Victor Hugo se dedicava a mostrar o grotesco e o sublime. Autores mais realistas, como os precursores Balzac e Flaubert, pelo contrário, se atraem pelo meio, pelas pessoas ditas normais e comuns, nem grotescas, nem sublimes, apenas pessoas. Tchecov será a culminação máxima, pra não dizer, o limite desses esforços.

Guerra de verdade

A queda da religião como critério explicativo pede por novas explicações. Como explicar que, do ponto de vista dos europeus, algumas sociedades fossem tão claramente inferiores às deles — aliás, do ponto de vista deles, todas? Sem a religião para explicar a diferença como vontade de Deus, a partir da ascensão da teoria da evolução de Darwin, alguns pensadores correm para aplicar a “competição das espécies” para “a competição das raças” ou dos “países”, o chamado “Darwinismo Social”, uma corrupção das teorias de Darwin. Agora, fala-se de “sobrevivência do mais apto” no contexto de raças e nações, um discurso justificado por toda uma classificação racial pretensamente cientifica, onde medidas antropométricas detalhadas determinariam uma escala entre as raças — naturalmente, a “raça” que inventou o método, que escolheu as métricas e que fez as medições era superior a todas as outras. (Claro! Se não fosse, teria inventado tudo isso? Era quase uma tautologia.) Raças inferiores naturalmente gerariam sociedades inferiores. Como saber quais raças eram inferiores? Bem, bastava olhar quais sociedades eram inferiores, ora. Qual era o critério? Bem, o critério também era tautológico: os europeus decidiram que eles eram superiores, logo, eles eram a medida de superioridade, e as sociedades eram tão mais superiores quanto mais se pareciam com eles, naturalmente.

No Brasil, essas idéias terão muito influência e balizam todos nossos esforços branqueadores entre a Abolição da escravatura e a publicação de Casa Grande & Senzala. Vamos falar bastante sobre isso no curso Grande Conversa Brasileira, quando formos ler os romances naturalistas de fim do século XIX que são o sintoma desse processo, como O Cortiço, A carne e Bom Crioulo, pra não falar das poesias de Augusto dos Anjos; depois, Os Sertões, que é a culminação dessa ideologia na nossa literatura, e finalmente Casa Grande & Senzala, que, apesar de muito criticado, é quem efetivamente enterra esse debate.

Durante boa parte do século XIX, colonialismo era para países europeus atrasados, como Portugal e Espanha. Uma crise econômica em 1870 faz com que os capitalistas dos países mais economicamente fortes da Europa busquem por novos mercados. Nessa época, com as ideologias racista e nacionalista já firmes, era natural que esses países buscassem expandir seus mercados conquistando as nações ditas inferiores, ou melhor, altruisticamente levando sua civilização a elas. A partir dessa época, tem inicio uma corrida colonial e, em poucas décadas, quase todos os países da África estarão sob o comando de nações européias, sempre governando em nome do “progresso” e da “humanidade”. (Alguns grandes autores apoiaram esse projeto sem questionar, como Kipling, enquanto outros, apesar de imersos nesse contexto, conseguiam ver seus aspectos imorais e criminosos, como Conrad.)

O poema abaixo foi escrito por Kipling em 1899 para celebrar a tomada das Filipinas pelos EUA:

O Fardo do Homem Branco

Tomai o fardo do Homem Branco –

Envia teus melhores filhos

Vão, condenem seus filhos ao exílio

Para servirem aos seus cativos;

Para esperar, com arreios

Com agitadores e selváticos

Seus cativos, servos obstinados,

Metade demônio, metade criança.

Tomai o fardo do Homem Branco –

Continua pacientemente

Encubra-se o terror ameaçador

E veja o espetáculo do orgulho;

Pela fala suave e simples

Explicando centenas de vezes

Procura outro lucro

E outro ganho do trabalho.

Tomai o fardo do Homem Branco –

As guerras selvagens pela paz –

Encha a boca dos Famintos,

E proclama, das doenças, o cessar;

E quando seu objetivo estiver perto

(O fim que todos procuram)

Olha a indolência e loucura pagã

Levando sua esperança ao chão.

Tomai o fardo do Homem Branco –

Sem a mão-de-ferro dos reis,

Mas, sim, servir e limpar –

A história dos comuns.

As portas que não deves entrar

As estradas que não deves passar

Vá, construa-as com a sua vida

E marque-as com a sua morte.

Tomai o fardo do homem branco –

E colha sua antiga recompensa –

A culpa de que farias melhor

O ódio daqueles que você guarda

O grito dos reféns que você ouve

(Ah, devagar!) em direção à luz:

“Porque nos trouxeste da servidão

 Nossa amada noite no Egito?”

Tomai o fardo do homem branco –

Vós, não tenteis impedir –

Não clamem alto pela Liberdade

Para esconderem sua fadiga

Porque tudo que desejem ou sussurrem,

Porque serão levados ou farão,

Os povos silenciosos e calados

Seu Deus e tu, medirão.

Tomai o fardo do Homem Branco!

Acabaram-se seus dias de criança

O louro suave e ofertado

O louvor fácil e glorioso

Venha agora, procura sua virilidade

Através de todos os anos ingratos,

Frios, afiados com a sabedoria amada

O julgamento de sua nobreza.

* * *

The White Man’s Burden

Take up the White Man’s burden–

Send forth the best ye breed–

Go bind your sons to exile

To serve your captives’ need;

To wait in heavy harness,

On fluttered folk and wild–

Your new-caught, sullen peoples,

Half-devil and half-child.

Take up the White Man’s burden–

In patience to abide,

To veil the threat of terror

And check the show of pride;

By open speech and simple,

An hundred times made plain

To seek another’s profit,

And work another’s gain.

Take up the White Man’s burden–

The savage wars of peace–

Fill full the mouth of Famine

And bid the sickness cease;

And when your goal is nearest

The end for others sought,

Watch sloth and heathen Folly

Bring all your hopes to nought.

Take up the White Man’s burden–

No tawdry rule of kings,

But toil of serf and sweeper–

The tale of common things.

The ports ye shall not enter,

The roads ye shall not tread,

Go mark them with your living,

And mark them with your dead.

Take up the White Man’s burden–

And reap his old reward:

The blame of those ye better,

The hate of those ye guard–

The cry of hosts ye humour

(Ah, slowly!) toward the light:–

“Why brought he us from bondage,

Our loved Egyptian night?”

Take up the White Man’s burden–

Ye dare not stoop to less–

Nor call too loud on Freedom

To cloke your weariness;

By all ye cry or whisper,

By all ye leave or do,

The silent, sullen peoples

Shall weigh your gods and you.

Take up the White Man’s burden–

Have done with childish days–

The lightly proferred laurel,

The easy, ungrudged praise.

Comes now, to search your manhood

Through all the thankless years

Cold, edged with dear-bought wisdom,

The judgment of your peers!

Enquanto isso, o surgimento de um novo e poderoso país no centro da Europa deu início a uma corrida armamentista inédita. A Alemanha, recém-surgida e já poderosa, naturalmente queria um lugar à mesa das grandes nações, ao lado de França, Reino Unido, Rússia, Império Austro-Húngaro. Para isso, ela começa a se armar. Em resposta, os outros países começam a se armar também. Sob o domínio de teorias de darwinismo social e esquecidos da realidade de uma guerra continental (a ultima tinha sido com Napoleão, em 1815, quase cem anos antes) alguns teóricos sociais e militares começam a especular que guerras não são tão ruins assim, pois são como as nações fortes sobrevivem e as mais fracas são absorvidas, etc. Ao mesmo tempo, um novo sistema de alianças militares fixas, que antes não existia, restringe a liberdade de ação de cada país em caso de uma guerra. Finalmente, em Saravejo, o estopim. Um país declara guerra a outro. Um terceiro se vê obrigado a declarar guerra ao primeiro, para defender o segundo, e assim sucessivamente.

Em um primeiro momento, as pessoas vão à guerra felizes. O nacionalismo era um fenômeno recente, os cidadãos estavam felizes em defender suas abstrações nacionais, em provar que sua abstração era melhor que as dos vizinhos, tinham confiança na tecnologia e no progresso, acreditavam que a guerra seria curta. Nunca tantas pessoas foram à guerra tão felizes e confiantes. Infelizmente, justamente a tecnologia em quem tanto confiavam fez com que a guerra fosse muito mais mortífera do que antes. A união de táticas de guerra cavalheirescas do XIX (onde era importante “lutar de peito de aberto” e se expor corajosamente ao fogo inimigo etc) com tecnologias de guerra do XX causou uma mortandade nunca antes vista, ou imaginada, que matou toda uma geração de europeus — os nascidos entre 1885 e 1895.

A Primeira Guerra Mundial efetivamente encerra o século XIX, ao matar, destruir, enterrar o otimismo e confiança no progresso que caracterizaram a Europa nesse período e que, hoje, nos parece tão estrangeiro, tão impossivelmente distante. O mundo do pós-guerra, mais cínico, mais desconfiado, mais machucado, mais violento, já é o nosso mundo, a nossa perspectiva, um jeito de pensar que já conseguimos mais reconhecer como nosso.

Por isso, ao começar efetivamente a nossa época, também termina o nosso curso.

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Esse texto faz parte dos guias de leitura para a décima aula, Burgueses, do meu curso Introdução à Grande Conversa: um passeio pela história do ocidente através da literatura. Esses guias são escritos especialmente para as pessoas alunas, para responder suas dúvidas e ajudar em suas leituras. Entretanto, como acredito que o conhecimento deve ser sempre aberto e que esses textos podem ajudar outras pessoas, também faço questão de também publicá-los aqui no site. Todos os guias de leitura das aulas estão aqui. O curso aconteceu entre julho de 2020 e março de 2021 — quem se inscrever depois dessa data tem acesso aos vídeos das aulas anteriores.

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A Europa, entre o otimismo e o racismo é um texto no site do Alex Castro, publicado no dia 28 de março de 2021, disponível na URL: alexcastro.com.br/europa-otimismo-racismo // Sempre quero saber a opinião de vocês: para falar comigo, deixe um comentário, me escreva ou responda esse email. Se gostou, repasse para as pessoas amigas ou me siga nas redes sociais: Newsletter, Instagram, Facebook, Twitter, Goodreads. // Todos os links de livros levam para Amazon Brasil. Clicando aqui e comprando lá, você apoia meu trabalho e me ajuda a escrever futuros textos. // Tudo o que produzo é sempre graças à generosidade das pessoas mecenas. Se gostou, considere contribuir: alexcastro.com.br/mecenato

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