declaração pública de voto

meus votos, abertos, para o rio de janeiro, em 2014: dilma, lindberg, romário, jean wyllys, marcelo freixo.

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dilma presidente

dilma presidente

presidenta dilma rousseff — pt 13

site oficial — facebook

o debate de 26ago mudou o meu voto. as performances fracas de dilma e de luciana, e forte de marina, me convenceram de que a dilma precisa mais do nosso voto (ou pode perder) do que a luciana (que já não iria ganhar mesmo).

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lindberg governador 2014

governador lindberg farias — pt 13 (psb-pv-pc do b)

site oficial — facebook

a campanha pra governador no rio de janeiro está uma loucura e uma tristeza. meu candidato seria o tarcísio, do psol, mas ele não ganha. mais importante que um voto simbólico no tarcísio é tentar impedir garotinho, crivella ou pezão no palácio guanabara.

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romario senador 2014 psb

senador romário faria — psb 400 (psb-pv-pc do b)

site oficial — facebook

não gosto do psb, mas acompanhei com cuidado a carreira do romário como deputado federal e me impressionei bastante. além disso, de todos os candidatos com chances reais de vitória, é o melhor. mais importante, o rio merece um senador marrento.

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jean wyllys 5005 – deputado federal

deputado federal jean wyllyspsol 5005

site oficial — facebook

atuação impecável como deputado federal. da última eleição, se não me engano, foi o candidato eleito com menos votos, sendo puxado pelo quociente eleitoral do chico alencar, marcando assim uma das poucas vezes em que o quociente eleitoral foi usado para bem. em 2014, espero que consiga se eleger por conta própria.

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marcelo freixo deputado estadual psol

deputado estadual marcelo freixopsol 50123

site oficial — facebook

eu estava entre o freixo e o minc, do pt, em quem voto há vinte anos para deputado estadual e nunca, nunca me decepcionou. mas acho que o minc se elege de qualquer jeito e quero fortalecer o coeficiente eleitoral do psol na câmara.

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(texto editado em 27ago para trocar o voto para presidenta de luciana para dilma.)

como ganhar a vida dando meu trabalho de graça

nada pode ser mais mesquinho do que dizer “olha, tenho uma coisa legal aqui mas só te mostro se você pagar”.

e, na nossa sociedade capitalista, nada poderia ser mais tristemente comum.

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todos os meus textos estão disponíveis gratuitamente na internet, para quem quiser ler, reler, linkar, distribuir.

todos os meus livros circulam gratuitamente, na forma de ebooks.

na revista fórum, escrevo gratuitamente, sem ganhar nada, por ativismo e por militância, porque a revista é importante para as causas que apóio.

todos os meus encontros têm a opção de entrar gratuitamente: paga somente quem quer, quem gosta de mim, quem acompanha meu trabalho, quem deseja colaborar.

ninguém precisa pagar para usufruir dos frutos do meu trabalho.

para mim, isso é o mais importante. senão, não faria sentido.

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praticar arte de forma mais inclusiva e, ao mesmo tempo, ganhar a vida como artista é um dos grandes dilemas da arte contemporânea.

publicar minha literatura de graça na internet, sempre disponível para todos, e ganhar dinheiro vendendo esse mesmo conteúdo na forma de livros e encontros para quem pode e quer pagar… essa me parece ser uma das formas mais inclusivas de fazer literatura no brasil.

é o que posso fazer.

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hoje, consigo ganhar a vida exclusivamente como escritor, graças à generosidade de cerca de 200 mecenas, entre elas 55 assinantes-pagantes, que contribuem com doações em dinheiro para a minha produção.

são elas que permitem que eu dê o meu trabalho de graça para quem deseja usufruir dele e não pode pagar.

muito, muito obrigado.

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se você gosta do meu trabalho, e se não for fazer falta no leitinho das crianças, por favor, considere fazer uma doaçãohttp://alexcastro.com.br/mecenato/

se quer só acompanhar os meus textos, ler prévias, saber das novidades, assine meu newsletter (não custa nada!): http://alexcastro.com.br/assine

racismo reverso

uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio.

uma camisa “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.

existe uma enorme diferença.

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a partir de agora, quando alguém vier me falar de racismo reverso, vou mostrar esse vídeo. tem legendas em português.

um pouco sobre o encontro “as prisões”

 há doze anos, escrevo sobre as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. são elas:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // sexismo // racismo // monogamia // religião // patriotismo // escolhas // respeito // certezas // os outros // medo // ambição // felicidade // narcisismo

agora, estou promovendo o encontro “as prisões” por todo brasil. o público-alvo são ovelhas negras em busca de interlocutores. o encontro oferece a oportunidade de passarmos o dia inteiro trocando histórias, compartilhando vidas, debatendo perplexidades. ao final, nós, todas as pessoas, estamos exaustas, gastas, esvaziadas. confusas, atarantadas, chacoalhadas. (veja os depoimentos de quem já foi.)

o encontro “as prisões” é independente por ideologia. não possui vínculo institucional algum. é divulgado pela internet de forma alternativa e realizado em praias, parques, quintais, praças. oferece frutas e castanhas para comermos ao longo do dia e tem um intervalo para almoço. começa sempre às nove da manhã de sábado ou de domingo e termina na hora que terminar. muitas vezes, a química é tanta que não queremos ir embora: o encontro mais longo durou 13 horas.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

o encontro é pago. mas negar uma pessoa só porque ela não pode pagar seria dar importância demais a essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro. portanto, algumas pessoas pagam, outras pagam menos, outras não pagam. na prática, as que pagam me possibilitam fazer o encontro para as que não pagam. nada poderia ser mais solidário do que isso. (para saber mais, consulte a política de gratuidades.)

não é auto-ajuda, terapia, coaching. não é palestra, aula, exposição de conteúdo. não tem apostila, powerpoint, frases de efeito pra anotar no moleskine. não oferece respostas, soluções, remédios. não promete uma vida mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

não ajuda em nada. pelo contrário, só atrapalha. às vezes, nos transforma em pessoas ainda mais confusas, desajustadas, perdidas. afinal, ser bem-sucedida e bem-ajustada em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa própria canalhice.

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calendário completo de encontros “as prisões” em todo o brasil em 2014.

sobre alex castro: bio, clipping, fotos, entrevistas.

dúvidas, questões, desabafos? fale com o alex.

prisões já publicadas: monogamia // patriotismo // dinheiro // trabalho // felicidade // narcisismo

o que você gosta de ouvir?, me perguntou um amigo

eu: mulher rindo. alho refogando. zíper abrindo. ondas quebrando. gemidos de gozo. criança brincando. zumbido de ar-condicionado começando a funcionar. dois sapatos caindo no chão, lentamente, um depois do outro. o apito do sorveteiro que passava pela minha casa. passos descalços no chão frio. “eu te amo, alexandre.” o oliver latindo quando chego em casa. saltos altos no mármore. máquina de escrever elétrica. pisada forte de mulher decidida. apito do recreio. pernas femininas, vestidas de couro ou látex, roçando uma contra a outra enquanto andam. suspiro saciado de prazer. ronco do oliver dormindo profundamente.

ele: não. eu quis dizer de música.

eu: ah.

aquele prazer em reclamar

festival de teatro. por coincidência, sento ao lado da mesma senhora duas vezes.

oi, você não estava ao meu lado na peça tal?

sim, meu filho. que coincidência!

começamos a conversar sobre a peça anterior. ela disse que gostou muito de tudo. o único problema foi o som.

não consegui ouvir nada! veja só você que absurdo!

sim, confesso que me incomodou um pouco no começo, mas rapidamente a gente acostuma o ouvido, né? além disso, — era um festival internacional e a peça tinha legendas — quando eu achava que tinha perdido algo, sempre dava pra conferir o texto. e a montagem, o que a senhora achou?

montagem primorosa, mas esse som, nossa senhora! tinha que ter uma acústica melhor!

bem, gostei muito dos atores…

eu também. são ótimos. pena que não consegui ouvir nada, né? uma peça dessas, de nível internacional, jamais poderia ser encenada numa tenda ao ar livre! o som vai reverberar onde?

sim, claro, mas a senhora reparou na qualidade do texto? as idas e vindas temporais foram muito bem costuradas…

essa companhia é primorosa, meu filho. é o melhor texto teatral do brasil. por isso é imperdoável serem tão levianos com o som. qualquer um saberia que não se pode encenar uma peça ao ar livre a cinquenta metros do cruzamento mais movimentado da cidade, às seis da tarde! a cada buzina que tocava, a cada ônibus que passava, eram diálogos e diálogos que a gente não ouvia.

a conversa foi me deixando tristíssimo. eu queria pegar aquela senhora no colo e, de algum modo, salvá-la de si mesma, mas já aprendi que não dá pra salvar ninguém. especialmente de si mesma.

felizmente, soou a campainha e começou mais uma peça. linda. sensacional. da qual só lembro coisas boas.

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tive uma namorada querida que se dizia cidadã consciente.

ligava pra fábrica do pãozinho e ficava meia hora descascando a moça do atendimento porque tinham vindo sete pães ao invés de oito. mandava sms pra administração do metrô pra avisar que o vagão tal fez uma parada muito brusca. chamava o gerente do mercado pra reclamar que depois das dez da noite nunca tinha ninguém pra cortar o presunto.

às vezes, apontava o dedo na minha cara, ressaltava minha dita passividade e acusava:

é por causa de gente como você que o brasil está assim!

e eu, na época, não dizia nada. porque a amava. porque evito brigar com gente que gosta de briga. e porque, no fundo, desconfiava que talvez pudesse ter razão.

hoje, muitos anos depois, e amando-a como ainda amo todo mundo que já amei, eu diria, com um pouco de tristeza, algum cansaço e um carinho imenso:

não, meu amor. é por causa de gente como você que o mundo está assim.

a boneca de sal

para quem está muito preocupada com sua própria individualidade, em não seguir os outros, em não ser só mais uma, em decifrar seus próprios dilemas existenciais, e em toda essa infindável masturbação mental, sempre recomendo a história da boneca de sal.

a parábola do boneco de sal

“quem é você?”

era uma vez uma boneca de sal. após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu comprendê-lo. perguntou ao mar: “quem é você?”

e o mar respondeu: “sou o mar.”

“mas o que é o mar?”

e o mar respondeu: “o mar sou eu.”

“não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. como faço?”

o mar respondeu: “encoste em mim.”

então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. sentiu que começava a entender mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.

“mar, o que você fez?!”

e o mar respondeu:

“eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. para entender tudo, é necessário dar tudo.”

ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. quanto mais entrava, e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:

“afinal, o que é o mar?”

então, foi coberta por uma onda. em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:

“o mar… o mar sou eu!”

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a história pode ter várias mensagens. uma delas é aprender a não fazer perguntas idiotas. outra, que todo conhecimento tem um custo. também outra, que a verdadeira compreensão só pode se dar de dentro. ou, melhor, que só saindo de si mesma, só através do desapego, é possível uma verdadeira compreensão do outro, do universo, de qualquer coisa.

meu texto acima foi adaptado das versões do frei leonardo boff e do padre jesuíta anthony de mello. apesar das duas fontes cristãs, a história me parece profundamente budista.

e me fez recordar a historinha abaixo.

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depois de um concerto, a fã aborda a pianista e diz:

“eu daria minha vida para tocar tão bem assim.”

e ela responde, simplesmente:

“eu dei.”

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os próximos encontros “as prisões” são no rio de janeiro e em são paulo. depois, em agosto e setembro, todas as capitais do nordeste.

se essa historinha fala com você, acho que deveria vir. vai ser legal. pode ser bonito.

confira o calendário completo

hoje de manhã, chorei

o encontro “as prisões”, em belém, foi com certeza o mais esquentado e exaltado, mas também o mais aberto e mais emocionante.

nunca vi tantas participantes a beira das lágrimas. nunca tantas participantes se abrirem tanto, se exporem tanto, se sentirem tão livres para compartilhar e contribuir.

hoje de manhã, lendo os depoimentos das pessoas participantes, agarrei a Outra Significativa pela cintura e comecei a chorar.

fui durante muito tempo uma pessoa muito ruim e muito egoísta. provavelmente ainda sou.

não sinto culpa dos pecados passados. culpa nao faz sentido. culpa nao resolve nada.

mas sinto sim uma obrigação de reequilibrar a balança. de devolver um pouco do que recebi. de passar adiante as graças que usufruí.

então, chorei ao ver o impacto das minhas palavras em vocês. ao ver que estou ajudando minimamente.

sem querer salvá-los. sem querer carregá-los. sem querer dar respostas.

só mostrando um jeito diferente de pensar. só dando uma pequena ajuda. como tantas pequenas ajudas que recebi e nunca agradeci.

e que, agora, passo adiante.

muito obrigado.

prisão narcisismo

no encontro as prisões, passamos o dia inteiro conversando sobre todas essas bolas de ferro mentais que arrastamos pela vida. as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. enfim, as prisões.

a última, e a mais importante, a prisão sem a qual toda a discussão anterior não teria sentido, é a prisão narcisismo.

afinal, a maior de todas as prisões somos nós mesmos. nós e nosso imenso narcissismo. sempre só olhando para os nossos umbigos, para os nossos ó-tão-importantes problemas.

abaixo, alguns textos que desenvolvem o conteúdo da prisão narcisismo. são alguns de meus textos mais importantes:

eu não sei o que está acontecendo na líbia // zazen // uma caneca // somos todos fingidores // paradoxo de narciso // cajuína // vou mudar de vida… mas não hoje // o mal é a falta de atenção // a solidão de narciso

como funciona o privilégio

um filme só sobre homens é um filme.

um filme só sobre mulheres é um filme feminino.

um ensaio fotográfico só de mulheres brancas é um ensaio de mulheres.

um ensaio fotográfico só de mulheres negras é um ensaio negro.

um romance sobre um casal hétero é um romance.

um romance sobre um casal homossexual é um romance gay.

quantas vezes não somos nós mesmas, na nossa fala e nas nossas ações, a perpetuar esse tipo de normatização tirânica?

como funciona o machismo

turismo na favela

de uns tempos pra cá, virou moda: turistas vêm ao rio e não querem mais conhecer o corcovado ou o pão de açúcar, mas sim a favela da rocinha e do vidigal. estão as pessoas gringas se aproveitando das faveladas? ou são as pessoas faveladas que estão cambalachando as gringas? o turismo estimula o progresso das favelas ou garante que nunca saiam da mesma estagnação?

o pós-turista

o turismo nas favelas é uma faceta no novo “pós-turismo”.

agora que pessoas de poder aquisitivo cada vez mais baixo já podem visitar os destinos turísticos tradicionais (a classe média sofre com esses pobretões na fila da disney!), as novas pós-turistas, para se distanciar da ralé e reestabelecer a distância original, precisam buscar novas experiências turísticas, mais inusitadas, mais interativas, mais aventureiras, indo a lugares que seriam a antítese do antigo turismo, localidades antes marginais e agora reinventadas e reapropriadas.

em outras palavras, com tantas pessoas pobres agora lotando gallerie laffayette, em paris, suas antigas frequentadoras hoje fazem safari tours em favelas.

a indústria do turismo classifica a pobreza como exótica, a transforma em mercadoria e a vende para turistas que queiram participar dessa “economia de sensações”, onde o que compram é justamente a sensação voyeurítica de poder vivenciar a pobreza e a miséria sem precisar, para isso, serem pobres e miseráveis.

o capitalismo celebra toda a diferença que seja capaz de mercantilizar.

turismo da miséria: prós e contras

eu sou do rio, morei por seis anos em nova orleans e faço pesquisas em havana. são três cidades turísticas (e lindas, diga-se de passagem) onde se faz esse “turismo da pobreza”.

no rio, são as favelas. em nova orleans, é a destruição causada pelo furacão katrina. em havana, são os prédios em ruínas. sempre cercados de belgas bem alimentados, calçando birkenstocks e tirando fotos com máquinas cujo valor alimentaria uma família local.

isso é bom?

para defensores da prática, ela tem as seguintes vantagens:

  • melhorar o desenvolvimento econômico da região;
  • conscientizar turistas;
  • aumentar a autoestima da população;
  • forjar lideranças locais;
  • compartilhar recursos e conhecimento entre pessoas que não teriam se encontrado se não fosse o turismo.

para quem está contra, existiriam dois grandes problemas:

  • os benefícios gerados vão em grande parte para as pessoas proprietárias das agências e não revertem em melhorias e investimentos nas comunidades;
  • mais que conscientização e mobilização social, essas visitas gerariam um certo voyeurismo diante da pobreza e do sofrimento.

quem é a turista da miséria?

em seu livro gringo na laje, a socióloga bianca freire-medeiros traçou um interessante estudo do turismo na favela da rocinha, falando com moradoras, turistas, guias de passeio e proprietárias de agência.

segundo suas pesquisas, a principal característica dessa turista seria sua ansiedade de se diferenciar:

  • das moradores; afinal, o turismo na favela não deixa de ser uma maneira de darem mais valor aos confortos materiais de casa.
  • das turistas convencionais, que só vão aos pontos turísticos previsíveis e jamais teriam coragem de encarar uma favela.
  • das turistas voyeurs e pouco engajadas, que visitam as favelas do jeito errado, como abutres, sem contribuir, sem ajudar, etc.
  • da elite local, preconceituosa e com medo de conhecer sua própria cidade.

mais do que tudo, essas turistas estão buscando por uma mítica “experiência verdadeira”, uma certa “realidade nua e crua” a qual teoricamente não têm mais acesso em casa – como se suas vidas afluentes e confortáveis na europa fossem menos reais e menos verdadeiras do que as vidas dos favelados da rocinha.

e saem do passeio com a sensação de terem desfrutado de uma experiência completamente inalcançável e intransferível, seja aos turistas comuns, seja às elites locais.

essa busca ansiosa pela ilusória “mediação não mediada” baseia-se na crença de que existem experiências turísticas “autênticas” que podem acontecer sem a mediação da indústria do turismo, sem serem produtos culturais prontos e pré-fabricados.

ou seja, é a miragem de que o produto “passeio de um dia na favela da rocinha”, vendido por uma agência de turismo, é intrinsecamente mais autêntico do que o produto “passeio de um dia no corcovado”, vendido pela mesmíssima agência.

para que a visita à favela sirva seu objetivo, a turista precisa se convencer que a sua visita, ao contrário das das outras turistas voyeurs, é um ato ético e solidário.

a experiência não deixa de trazer consigo uma certa ansiedade: afinal, como uma praia deserta, se todas a visitarem, ela deixa de ser deserta.

nesse ponto, o valor da favela está em ser exclusiva e fora do mainstream; quanto mais turistas a visitarem, menos desejável ela se torna como fator de diferenciação.

fica claro que, nessa economia de sensações do turismo da miséria, o que está sendo vendido à turista é principalmente uma certa sensação de superioridade moral e intelectual.

o que pensam as moradoras das favelas

a principal ilusão das turistas é que seus passeios trazem algum benefício à comunidade.

de fato, as agências são operadas de fora da favela e os lucros vão para suas proprietárias. quando muito, comerciantes da favela tem um pequeno aumento de vendas, mas a maioria diz que turistas só querem saber de tirar fotos e comprar água.

em muitas ocasiões, fica claro que as turistas querem apenas uma confirmação de sua própria imagem mental da favela. conta uma moradora:

“uma vez, quando meu filho era mais novo, [algumas turistas] quiseram tirar foto dele, mas quando cheguei com ele [que é branco], eles não quiseram, porque eles queriam um neguinho.”

na verdade, como disse um comerciante, as turistas dão somente uma pequena ajuda nos lucros, mas seu maior valor está em tirar a impressão de lugar violento que a favela tem. por isso, grande parte das pessoas moradoras vê esse tipo de turismo de modo positivo.

para as moradoras, a questão não é nem tanto se o turismo na favela deveria existir ou não, mas de que maneira ele poderia beneficiar a comunidade. a maioria das turistas pensa estar ajudando a comunidade simplesmente ao participar do passeio, mas as moradoras têm outra ideia do que constituiria ajuda:

“os turistas … às vezes … só passam pelos lugares mais ricos… [s]e eles fossem lá… onde o pessoal é mais necessitado, talvez eles pudessem se inspirar em limpar o lugar, talvez alguém se interessasse em ajudar os moradores… alguém poderia trazer dinheiro, consertar um cano. isso iria beneficiar a galera lá, porque ia incentivar os moradores a consertar as casas, tirar a lama, tirar o lixo.”

a questão do cheiro

o cheiro ruim é essencialmente subversivo. ele não pode ser banido, controlado, pasteurizado, estetizado.

se a fotografia permite que a miséria mais degradante transforme-se em objeto estético (oi, sebastião salgado), o cheiro não se presta a isso.

a vala aberta, o esgoto imundo, o lixo ao sol, o rato morto, nenhum deles pode ser tão facilmente domesticado, empacotado, vendido e distribuído ao mundo como uma bela foto de uma menina pobre e remelenta.

o cheiro exige ser confrontado: ou você fala sobre ele, ou você fica calado. não existe meio termo.

e, não por acaso, os relatos sobre visitas às favelas abundam em fotos, mas contém muito poucas referências ao cheiro.

nós também fazemos parte do problema

essa história não tem mocinhas nem vilãs. as faveladas não são pobres coitadas incapazes de pensar criticamente sua situação. as estrangeiras não são babacas ou iludidas ou ingênuas. as guias de turismo e donas de agência não estão explorando a favela.

senão, podemos acabar falando coisas assim:

“cabe a nós, elite ilustrada não-favela, defender as pessoas faveladas dessas turistas desalmadas e voyeuristas que as veem como animais em jaulas.”

na verdade, nosso papel nessa história é outro.

quando as turistas se gabam de visitar a favela, um lugar onde a preconceituosa elite local se recusa a ir… é de nós que estão falando.

quando as moradoras dizem que o maior benefício do turismo é quebrar a invisibilidade social da favela e ajudar a refutar os estigmas de violência e miséria… é de nós que estão falando, nós que criamos essa invisibilidade, nós que perpetuamos esse estigma.

e então? o que nós vamos fazer?

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o texto que você acabou de ler é um resumo e uma paráfrase do livro gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística, de bianca freire-medeiros, publicado pela editora fgv em 2009, e disponível em uma edição de bolso baratinha. recomendo com ênfase.

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aviso sobre linguagem e gênero

o texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. por favor, avisem e vou corrigir. para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.

esses textos que mudam nossas vidas

acontece muito: a pessoa me escreve efusivamente, agradece por um texto, diz que mudou sua vida, etc.

eu respondo agradecendo os elogios e pedindo que ela, se puder, se não for fazer falta, realize uma doação em dinheiro de um valor proporcional ao bem que o texto lhe fez. afinal, sou um artista independente, vivo disso e ela leu de graça o texto que mudou sua vida.

e a pessoa não responde nem nunca faz a doação.

ou seja, o texto que mudou sua vida não vale nada. ou vai ver vendem muito barato suas vidas.

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eu trabalho duro para escrever os textos que vocês leem. não tenho outra atividade. só faço isso.

muita gente acha os textos blé. entendo, aceito e respeito.

mas, se você gosta, se repassa pras amigas, se cita os meus argumentos em conversas, se fica com as minhas palavras em sua cabeça, então, por favor, considere a possibilidade de remunerar a pessoa que trabalha duro para criar essas palavras.

um grande beijo em todas vocês.

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para doar, visite minha página de mecenato.

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esse é o último texto que vêm gerando esse tipo de elogio. talvez você goste: prisão trabalho.

em cuba, atrás do poeta-escravo

em poucos meses, será publicada pela editora hedra minha tradução anotada da autobiografia do poeta-escravo afrocubano juan francisco manzano, escrita em 1836.

agora, estamos em cuba, buscando pelos traços de sua existência.

em havana, na biblioteca nacional josé martí, pedimos permissão (ainda não concedida) para consultar o manuscrito original.

a casa onde o poeta viveu, em havana velha, na esquina de o’reilly com brasil, foi completamente reformada pela oficina do historiador de havana. desde 2008, é o “hotel marquês de prado ameno”, nome da família que foi proprietária do poeta. as suítes e aposentos do hotel tem muitos nomes derivados da vida do poeta. o salão de reuniões se chama “salão manzano”.

ainda em havana, um funcionário aposentado da empresa que administra o hotel, e que já havia escrito diversos estudos sobre a vida do poeta afrocubano, nos forneceu importantes mapas para nos ajudar a encontrar o engenho “el molino” ou “los molinos”, em matanzas, onde o poeta também viveu e onde mais sofreu.

em matanzas, graças à ajuda do historiador da cidade, toda a equipe do museu provincial palacio de junco nos abriu as portas do museu (que estava fechado) para vermos tanto a lápide da primeira proprietária de manzano (famosa por ser a primeira escritora de cuba) como também um “tronco”, original e autêntico, utilizado para punir os escravos de matanzas na mesma época em que o poeta viveu.

claudia fotografando a casa-grande de los molinos 2 - Cópia

por feliz coincidência, a irmã de uma das seguranças do museu mora no terreno do engenho “los molinos”. ela havia chegado a viver em uma das casas-grandes, demolida em 1972. sua casa atual, e outras duas, repousam sobre as fundações da casa-grande.

da varanda, pode-se ver e ouvir os rios san juan e san agustín, em cujas margens o poeta pescava e compunha.

ao lado, ainda sobrevivem de pé as paredes, os muros e as fundações da antiga casa-grande, construída de pedra e provavelmente remanescente da época de manzano.

como em cuba tudo se reaproveita, a casa-grande onde aquela criança escravizada seguia sua senhora como um cachorrinho hoje é uma fábrica de gelo.

fabrica de gelo em los molinos - Cópia

em todas nossas pesquisas em matanzas, contamos com a ajuda, com a companhia e com a amizade do historiador urbano martínez, autor de dezenas de livros — entre eles, uma biografia do literato cubano que promoveu a coleta que comprou a liberdade do poeta-escravo.

depois, passamos por bayamo, manzanillo, cabo cruz, pilón, marea del portillo e, agora, estamos em santiago, no outro extremo da ilha de havana, cidade mais caribenha de cuba.

daqui, passaremos por guantanamo, baracoa e, então, a longa volta até havana.

claudia fotografando a casa-grande de los molinos - Cópia

só faz sentido escrever para ser do contra

às vezes, me perguntam: você é sempre do contra?

não, claro que não. a maioria das minhas opiniões é igual à opinião da maioria das pessoas. mas de que serve escrever sobre isso? se saiu o filme x e ele é uma unanimidade de crítica e público, todo mundo adorando o filme, e eu também adorando o filme… de que adianta eu escrever mais um texto dizendo que o filme é lindo e reforçando o que todo mundo já sabe e já acha?

de que adianta escrever para confirmar as opiniões e afagar o ego das pessoas leitoras?

então, não é que sou sempre do contra, mas que acho que só faz sentido escrever se for para ser do contra. se for para mostrar à leitora um novo ângulo. se for para sacudir suas certezas. para questionar suas ideias.

tomo o maior cuidado para nunca criticar pessoas vivas, para nunca acusar ninguém de nada, para nunca apontar dedos, mas é natural que algumas pessoas se sintam atacadas.

nesse caso, digo a elas: o texto não era sobre você, mas se você vestiu a carapuça e se sentiu atacada… então, é porque era.

o segredo de beleza dos homens

outro dia, uma amiga me perguntou, a sério:

ai, alex, qual é o segredo de beleza dos homens, pra eles envelhecerem tão bem, tão maduros e enxutos, enquanto as mulheres vão ficando umas dragas?

e fui obrigado a contar a ela o nosso grande segredo:

simples. basta nascer em uma cultura machista, que vê o homem mais velho como progressivamente mais maduro e com mais valor, e a mulher mais velha como progressivamente mais inútil e com menos valor, e, assim, os mesmíssimos sinais de velhice no rosto de ambos serão interpretados e lidos de forma positiva no caso dos homens e negativa no caso das mulheres.

portanto, o jeito de resolver o problema não é com hidratantes, mas com educação. ou com uma revolução. o que vier primeiro.

feminismo para homens: um curso básico

spoilers

eu não aviso sobre spoilers. avisos sobre spoilers são sempre redundantes.

quem não quer saber o final de moby dick não deve ler textos sobre moby dick.

spoiler alert!
qualquer texto de valor sobre uma obra narrativa, qualquer texto com insight, reflexão e scholarship, vai necessariamente conter vários exemplares daquilo que as pessoas hoje chamam de spoiler.

um texto sobre uma obra narrativa que não contenha spoilers é o seu press-release. é um texto vazio, promocional, de divulgação. é um texto que não se propõe a dizer nada novo sobre a obra.

sempre que me proponho escrever sobre uma obra narrativa é porque acredito que tenho algo novo a acrescentar à discussão dessa obra. e é impossível fazer isso sem spoilers.

o fetiche da surpresa é uma maneira muito simplista de consumir arte. existem mil maneiras de desfrutar uma obra de arte e nem todas passam pelo enredo, e muito menos pela surpresa em relação ao enredo.

se você não quer saber o final de um filme antes de assisti-lo, eu respeito. mas então, por favor, não leia nada sobre o filme.

alguns textos sobre cinema, todos cheios de spoilers: “Até a chuva”, um filme para quem gosta de ajudar // “Na Estrada”: você está lendo isso errado // A menina sonhadora feliz cabeça-de-vento // Por que precisamos destruir nossos ídolos?

polisingularidade

o filme ela, de spike jonze, é sobre um homem que se apaixona por um sistema operacional. lá pelo fim, ele fica inseguro e pergunta com quantas pessoas ela está falando naquele exato momento.

“oito mil trezentas e dezesseis”, responde ela.

a próxima pergunta é inevitável: “e você está apaixonada por alguma outra pessoa?”

“seiscentas e quarenta uma”, e ela ainda acrescenta, “mas isso não muda nada nos meus sentimentos, não influencia no quanto estou loucamente apaixonada por você!”

“então, você não é minha”, ele diz.

“eu sou sua”, ela responde, “e também não sou sua.”

agora ficou ESTRANHO!

naturalmente, ele dá um piti. o cara estava de boa em “namorar” e fazer sexo virtual com um software incorpóreo que era basicamente sua escrava e sua stalker. mas se ela (que é um pedaço de código, vamos lembrar) está apaixonada por outras seiscentas pessoas, opa, peralá, agora ficou estranho!

o que é a singularidade // meu texto sobre poliamor: a monogamia é uma prisão // minhas próximas oficinas “prisão monogamia”.

é com uma alegria tão profunda

acabei de reler a hora da estrela. talvez pela quinta ou sexta vez.

sim.

* * *

um dia, eu morei no exterior, como clarice também e machado nunca, e ensinei português e literatura brasileira, e tive a honra e o prazer e o privilégio de fazer com que algumas dezenas de estrangeiros lessem dom casmurro e a hora da estrela, e sei que esse karma positivo será sempre meu, e, sejamos francos, se você é um estrangeiro e já leu dom casmurro e a hora da estrela, já conheceu o que temos de melhor a oferecer, pode seguir viagem, pode ir ler kafka e tchecov, conrad e hugo.

como podem dois romances serem tão insuportavelmente perfeitos? mesmo entre os grandes mestres, kafka era um inconcluso, conrad se perdia, hugo era piegas. posso até imaginar algumas correções a fazer em memórias póstumas de brás cubas e em paixão segundo g.h., mas em dom casmurro e a hora da estrela não sobra nada, não falta nada. como conseguiram? (para não ser injusto, um artista da fome e os grandes contos e peças de tchecov também são intoleravelmente perfeitos.)

às vezes, não sei onde termina meu amor por clarice e hora da estrela, por machado e dom casmurro, e onde começa meu amor pelo rio de janeiro.

amo o rio de janeiro por ser o contexto cultural desses dois romances gigantescos, cósmicos, humanos? amo esses romances por serem tão quintessencialmente cariocas, em tudo o que temos de mais lindo e mais mesquinho?

uma cidade que tenha nos dado a hora da estrela e dom casmurro é uma cidade que já está no mapa da literatura humana, uma cidade que já cumpriu sua obrigação, uma cidade que já disse: “eu existo”.

talvez tenhamos fundado essa cidade nessa baía (não é uma hipótese descabida) só para que, um dia, pudessem existir dom casmurro e a hora da estrela.

posso imaginar, milênios e milênios no futuro, quando a língua portuguesa já estiver extinta, quando esse chão que me viu nascer já estiver abandonado, submerso, esquecido, talvez em outros planetas onde continuem existindo homo sapiens, pessoas vão ler dom casmurro e a hora da estrela, e talvez nem lembrem mais em que língua foram escritos, talvez sejam lidos em traduções das traduções para línguas que ainda nem existam, e pessoas que ainda não nasceram vão ler sobre macabéa morando na rua do acre e trabalhando na rua do lavradio, sobre capitu passando a lua-de-mel na tijuca e escobar morrendo afogado na praia de botafogo, e vão chorar e se emocionar, como eu chorei hoje e me emocionei hoje, e vão saber que um dia existiu um lugar chamado rio de janeiro, onde pessoas choravam e se emocionavam, assim como a dublin de joyce & a buenos aires de borges não vão desaparecer jamais.

e, apesar disso, existimos, e foi tão tudo tão real e concreto, e houve um dia, um dia real, em technicolor, um dia que um dia foi um dia ao vivo, em que uma mulher chamada clarice, judia e nordestina, foi à feira de são cristóvão com sua amiga olga, onde ela ia para comer comidas que lembravam sua infância no recife, e a feira ainda está lá, e essa mulher viu de relance uma moça nordestina e, no mesmo instante, tão real era a clarice, meu deus!, ela largou tudo, sentou num banco e escreveu, ali mesmo, enquanto comia beijus com rapadura, cinco páginas de notas, e eu posso ver isso também, clarice, com as mãos gordurosas da manteiga do beiju, criando macabéa em um banco na feira dos paraíbas, e é lindo.

houve uma época em que não existia a hora da estrela, até que clarice disse: sim.

* * *

todo artista precisa travar uma batalha de morte com seus antecessores. não faz sentido sentar para produzir literatura se não for para fazer melhor do que clarice e machado.

mas como?

é preciso pelo menos tentar. se você não se propõe tentar, então, não vale a pena nem começar. melhor ir vender seguros e ser apenas um bom leitor. borges já dizia que a literatura precisa de mais leitores que escritores. e estava certo.

o artista não tem como produzir arte comportando-se como tiete boquiaberta dos titãs.

os titãs precisam ser mortos a cada geração.

fernando pessoa dizia que só conseguiu encontrar sua voz de poeta depois de travar luta de morte contra walt whitman.

whitman é infinitamente melhor do que pessoa. nada que pessoa escreveu chega aos pés de song of myself. mas isso não é demérito algum. poucas coisas jamais escritas chegaram aos pés de song of myself. o que importa é que pessoa lutou o bom combate até o fim.

todo dia, eu acordo, ligo o computador e travo minha própria luta de morte contra clarice lispector.

às vezes, releio a hora da estrela só para fazer um reconhecimento do campo de batalha, para ver contra quem estou lutando, para conferir o tamanho do exército inimigo.

então, um contra um milhão, eu avanço de lança em punho contra as hordas clariceanas, sem esperança alguma de triunfar.

* * *

se você ainda não leu algum desses dois livros, por favor, pare tudo e leia agora. são curtos, menos de cem páginas cada um, fáceis de encontrar, baratos. você lê na internet ou encontra em qualquer sebo pelo preço de um café. o investimento de tempo e de dinheiro é baixíssimo. em um domingo, você lê os dois.

leia. e, se ler por minha causa, me conte. karma bom nunca é demais.

eu não sou ninguém

um grupo de estudantes pediu para me entrevistar e, logo na primeira pergunta, tascaram:

“quem é alex castro?”

“ninguém,” respondi.

era a única resposta verdadeira possível.

mais tarde, na apresentação à entrevista, eles escreveram:

“segundo ele mesmo, ninguém. alex castro, como definido em seu site pessoal, é “alex castro por enquanto. em breve, nem isso.” esse desapego ao ego revela uma face muito importante para sua literatura: O mundo a sua volta é muito mais interessante para ele do que o nosso mundo para nós que temos o costume de olhar o umbigo.”

a entrevista completa.

* * *

alex castro é comum

um moço que foi no primeiro encontro “as prisões” de curitiba me elogiou… por ser tão banal!

nas palavras dele:

“acho que é normal, quando a gente conhece alguém à distância que fala abertamente sobre nossos ideais mais profundos, aquilo que passamos a vida perseguindo, conferir a essa pessoa uma certa figura de autoridade. junto com isso, criamos uma série de expectativas sobre ela, sobre como ela deve ser sensacional, como sua presença deve ser marcante, como a mera possibilidade de ouvi-la ou tocá-la deve ser como uma pequena bênção…

inevitavelmente, levei essas expectativas comigo quando conheci o alex na apresentação da palestra as prisões, em curitiba, no último agosto. mas a pessoa que eu conheci não correspondia em nada à imagem que eu inventei dela. ele não tinha nada daquilo que estamos acostumados a imaginar numa pessoa que julgamos ser especial. ele não mostrou um sorriso hipnotizante, ele não usou de uma retórica refinada, ele não portou trajes de conotação hierárquica, ele não vendeu uma fórmula mágica. ele não era um super-homem, um profeta, um ser que irradiava qualquer tipo de energia transformadora. ele era um cara comum.

mas foi aí que eu me senti realmente tocado. se um cara comum como o alex pode ser uma pessoa tão sensível, tão empática, tão aberta, por que eu, outro cara comum, não posso? Se ele não é melhor do que eu, o que me impede, se não minha própria preguiça, de buscar ser uma pessoa mais amiga, mais acolhedora, mais humana?

obrigado, alex, por ter me motivado – mais do que isso, me desafiado – através de sua mais absoluta normalidade.”

* * *

alex castro é normal

uma moça que foi a um encontro “as prisões” no rio percebeu que as coisas mais legais nos eventos são justamente as que não sou eu que falo:

“‘você só sente a correnteza quando nada contra ela’, foi uma das pérolas do dia. soltada pelo alex? não. mesmo sendo tão foda e incrível, não é alex que reina nas prisões. ele abre espaço pra tudo o que você sinta vontade de contar, e vai guiando a “palestra” (veja os outros depoimentos, todos concordam que é muito mais pra um debate), sobrepondo seu ponto de vista sobre cada prisão em cima das histórias de quem foi lá. cheguei meio incerta, sem saber o que esperar. mas é assim mesmo. você chega devagarinho e em meia hora já se sente, de alguma forma, em casa. não pelo lugar onde está, mas pelas pessoas que te cercam. que falam, ouvem (ouvem mesmo), respondem. o alex merece tudo por proporcionar esse encontro. mas não tem como eu te fazer entender como é. você precisa ver, falar e ouvir por si próprio.”

* * *

alex castro é narciso

quando eu era mais jovem, eu me achava especial. que tinha um destino. que realizaria grandes feitos.

os anos passaram, a vida aconteceu, e me dei conta que eu era apenas mais um bichinho sem alma, nessa pedra girando pelo espaço, sem nada que me distinguisse.

entretanto, em nossa época narcisista, cercado de pessoas que se acham a última coca-cola do deserto, cada um protagonista do filme da sua vida, todos brigando por mais amigos no facebook, me dei conta que nada pode ser mais especial do que alguém que sabe sinceramente que é apenas mais um.

* * *

alex castro não importa

eu não importo. eu sou normal. eu sou banal. eu não sou ninguém.

meu mérito é estar cercado por vocês.

estou aqui para ser um conduite das suas histórias.

viver cercado de pessoas interessantes

em meu último texto no papodehomem, “a solidão de narciso“, alguém me perguntou:

“Alex, você faz propaganda das suas palestras. E penso eu que esse espaço aqui no PdH [a caixa de comentários] simule, com certa proporção, o que ocorre nelas. Ou seja, você introduz um assunto e há espaço para posterior discussão. Mas agora vai a minha pergunta: se você não participa nos comentários dos seus textos, como é a dinâmica das suas palestras? Você declama seu discursos e então vira as costas e vai embora? E daí outras pessoas fazem o papel de discutir com a platéia?”

e respondi:

olá. não pude responder antes, pois estava na palestra “as prisões” do rio.

(aliás, “palestra” é um nome que eu dou por falta de nome melhor, é mais uma grande conversa.)

pra você ter uma ideia, ontem, começamos às 13h e as pessoas participantes ficaram se apresentando e compartilhando suas histórias de vida até às 18:15. só então eu comecei de fato a, digamos, palestrar, o que foi só até às 19:30h.

(não faz sentido eu “falar” muito: tudo o que tenho a dizer já está nos textos que publico gratuitamente na internet, textos esses que a maioria das pessoas participantes inclusive já leu.)

depois disso, algumas pessoas ainda foram lá pra casa e ficamos conversando e tomando vinho até cerca de meia noite. e aí é que surgiram as melhores e mais interessantes confidências e histórias de vida.

eu ganho muito pouco (ontem, foram quase 60% de gratuidades e, dos pagantes, poucos pagaram o preço cheio) mas vale muito a pena. estou conhecendo algumas das pessoas mais interessantes e bonitas do brasil e tendo a oportunidade de ouvir suas histórias e aprender com elas. isso não tem preço.

depois que saíram as últimas pessoas, a Outra Significativa (minha companheira) virou pra mim e disse que, antigamente, quando saía com os “amigos” (e fez aspas com as mãos), ela sempre acabava, em algum momento da noite, depois do vigésimo comentário elitista, machista, racista, etc, se perguntando, “caralho, o que é que estou fazendo aqui!” e que agora ela nunca mais sente isso.

e nem eu.

* * *

para quem tiver curiosidade, na minha página “depoimentos“, tem várias opiniões de pessoas participantes das minhas palestras e oficinas. por acaso, o primeiro depoimento, na primeira linha, já diz:

“dizer palestra dá a impressão de que se fica lá 7 horas sentado ouvindo alguém falar ininterruptamente. não é isso o que acontece nas prisões. é um dia inteiro de conversa, troca de experiência, quebra de valores, sacudida nas certezas, risadas etc. sem contar que tem várias paradas pra lanche durante a palestra e dá pra conhecer todo mundo um pouco melhor. rs uma das coisas que eu achei mais fantásticas na experiência das prisões é que no fim, todo mundo que está ali se sente, de uma forma ou de outra, a ovelha negra, o diferente, o do contra… e acaba sendo uma experiência totalmente acolhedora encontrar tanta gente parecida. você percebe que não é estranho. ou pelo menos que não é o único estranho. não é um life coaching. não se descobre a verdade absoluta sobre a vida e o mundo. mas mexe com a gente. tive a oportunidade de participar de duas e posso dizer que cada palestra é única. a experiência põe seu mundo de cabeça para baixo, mas abre portas e te mostra caminhos. voltarei sempre que tiver a chance. recomendo para todos. é lindo.”

* * *

durante um tempo, eu não li nem respondi os comentários do papodehomem, por achar que é um ambiente bem tóxico e agressivo. aliás, ainda acho. agora, a pedidos do guilherme, o editor-chefe do site, voltei a ler os comentários e vou responder aqueles que eu achar que foram feitos de forma educada e polida, e que eu tenha algo positivo e produtivo a acrescentar na resposta.