elogio aos cães

os cães foram criados pela humanidade, à nossa imagem e semelhança, tão variados entre si como são variadas as pessoas humanas e suas sociedades.

e são talvez nossa melhor, mais nobre criação.

se algum dia a humanidade desaparecer, que seja julgada não por suas bombas atômicas ou obras de arte, mas por essa criação magnífica e transcendental, coletiva e cumulativa, generosa mas interessada, verdadeiramente atemporal e transcultural: o cachorro.

se sumíssemos todas as pessoas, os cachorros seriam a melhor coisa que deixaríamos pra trás.

só que não aceitariam ser deixados para trás: viram junto conosco até o fim, se preciso.

trilhos do trem em nova orleans

oliver nos trilhos do trem, em nova orleans.

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“eu sou a lenda“, com will smith, é um filme ruim baseado em um livro bom, mas vale pelo cachorro.

sozinhos em um mundo pós-apocalíptico, temos uma relação homem-cachorro paradigmática: acordam juntos, caçam juntos, dormem juntos – como tem de ser, em perfeita sintonia.

é a própria essência do companheirismo, uma relação tão primordial que chega a ser atemporal e transcultural: há 10 mil anos, um aborígine africano e seu cão, o que haveria de diferente?

resgata pós-katrina (2)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

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algumas pessoas gostam de se perguntar: “o que jesus faria numa hora dessas?”

eu sempre me pergunto: “o que meu cachorro faria numa hora dessas?”

meu cão, oliver, foi encontrado na favela de rio das pedras em março de 2003. estamos juntos há quase doze anos. enfrentamos o furacão katrina. atravessamos os eua fugindo do furacão gustav. Viajamos o mundo, de carro e barco, trem e avião. vivemos aventuras mais inacreditáveis que tintim e milu. ao longo desses doze anos de vida pública na internet, esse cachorro sem-vergonha amealhou uma legião de fãs.

tantos cachorros se traumatizaram com o katrina, mas oliver continuou tranquilo. adora crianças e tem infinita paciência com tapas na cara e puxadas de bigode. anda pela rua olhando pra cima, fazendo contato visual com todas as pessoas. Éé amigo de todos os cachorros que encontra. não possui objetos que defende com rosnados possessivos. recebe bem todas os muitos invasores em potencial que aparecem na minha casa.

é um cachorro do bem.

oliver & alex na rede

ler na rede com o oliver, minha coisa preferida da  vida.

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sempre que a vida fica pesada, confusa, complicada, eu tento me colocar no lugar do oliver. ver o mundo através das suas prioridades.

o oliver não liga pra dinheiro, prestígio, fama, respeito, vaidade. não tem medo da morte. não fica se admirando no espelho. não deixa seus fãs lhe subirem à cabeça. não tem apego a nenhum objeto. não faz ego search no twitter.

o oliver gosta de comer e de beber. de transar e de lamber pé. de correr e de brincar. de ficar imóvel ao sol por horas a fio. de entrar pulando no mar. de deitar juntinho de quem ele gosta. de seduzir as pessoas com seu olhar doce e sacana.

não é um cachorro perfeito, claro. tem medo de fogos de artifício, não gosta de motoqueiros e, mais do que tudo, não suporta não ser o centro das atenções.

na televisão

estrela da televisão.

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pratico zen.

todo dia, no templo ou em casa, sento em uma almofada redonda e fico voltado para a parede, imóvel, por muitos minutos.

em nova orleans, em uma casa de vários quartos, eu me fechava em um dos aposentos vazios. agora, em copacabana, moro em um quitinete de um só ambiente.

medito junto com o oliver. e ele não tolera. como assim eu não vou dar atenção para ele? nada disso.

oliver rosna. oliver grita. oliver puxa a minha camisa. oliver lambe a minha cara.

e fico lá, imóvel, não coçando a coceira, lembrando as últimas palavras do mestre hakuin:

“meditar no meio da ação é milhões de vezes superior a meditar em meio à placidez.”

obrigado, oliver.

aturando crianças

aturando uma criancinha com toda a paciência do mundo. :)

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perdi minhas maiores batalhas. tentei ser empresário e quebrei. tentei salvar meu casamento e falhei. ainda tento ter uma carreira literária e nada.

e, ainda assim, a pior noite da minha vida foi passada no aeroporto de detroit, véspera do katrina, dormindo sozinho no chão e chorando convulsivamente pelo amigo e companheiro que trouxera comigo do brasil e não conseguira salvar do pior furacão de todos os tempos.

nada nunca chegou perto do que senti essa noite.

na neve em nova orleans

na neve, em nova orleans.

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oliver se recusa a revelar a idade, mas já está velhinho. está comigo há 12 anos e já era adulto quando nos conhecemos.

na semana passada, ele chegou na veterinária com uma leve anemia e uma pequena infecção, mas foi tratado por uma semana inteira… para dor nas costas. e sempre piorando! resultado: uma semana depois, a anemia e a infecção estavam descontroladas!

quarta de manhã, quando o levei em outro veterinário, não conseguia nem ficar de pé.

estava com uma infecção, forte anemia, plaquetas baixíssimas, um terço do volume de sangue.

na quinta, teve quase todo o seu sangue trocado pelo de uma rotweiler fêmea de três anos chamada bones.

depois da dose maciça de sangue de rotweiler, ele já está querendo enfrentar um novo furacão.

agora, vai se recuperando mas ainda está internado.

internado (2)

internado, dezembro de 2014.

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não quero que o oliver viva pra sempre, nem vou tentar estender a existência dele além da sua qualidade de vida. só o que quero mesmo é poder passar 2015 grudado nele, me despedindo, curtindo, e compensando as muitas viagens que fiz em 2013 e 2014.

e ainda existem outras questões. em um mundo tão desigual, com tantas crianças passando fome, o quão ético é gastar fortunas para salvar a vida de um cachorro idoso, especialmente um que já viveu mais aventuras e já viu mais do mundo do que a maioria dos cachorros?

não tenho uma resposta para essa questão, mas estou com ela sempre em mente.

a conta das últimas duas semanas está em quatro mil reais e, se não fossem as pessoas que estão me ajudando financeiramente, não sei onde eu estaria.

mas… qual é o limite?

(aliás, muito, muito obrigado mesmo a todo mundo que ajudou. para ajudar também, clique aqui.)

internado (1)

internado, dezembro de 2014.

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ter um cão significa não apenas uma lição diária sobre os verdadeiros prazeres da existência (afinal, o que são dinheiro e prestígio perto de correr ao sol e lamber quem se ama?), mas também sobre o inevitável ciclo da vida.

ter cachorro é aprender que a nossa juventude acaba mais rápido do que imaginamos e que logo atrás vem a velhice, a decadência física e a morte.

e ter cachorro também, por outro lado, é aprender que a morte pode e deve ser encarada com naturalidade e tranquilidade, com força e com estoicismo.

nessa minha vida cinófila, já perdi três grandes amigos: dolly, 1977-1989, júnior, 1990-1992, átila, 1993-2002. oliver, companheiro atual, de idade desconhecida, está comigo desde março de 2003, quando já era adulto. apareceu em minha vida no mesmo mês em que criei o lll, o blog que mudou minha vida. simbólico?

átila morreu depois de uma semana de esforços frenéticos para salvá-lo. não o deixamos sozinho nem por um instante. quando finalmente morreu, minha irmã e eu dormimos abraçados ao seu corpo. sentimos o rigor mortis progressivamente ir e vir. no dia seguinte, o enterramos debaixo das flores que ele gostava de cheirar toda manhã. entre as flores, minha mãe colocou uma plaquinha: “canto do átila”.

nenhum herói de filme teve morte mais digna, nenhum guerreiro valente foi mais bravo do que esses três animais ao encararem a própria morte. quem me dera ter essa força, essa tranquilidade, essa segurança.

quem me dera ter um cachorro pra me lamber a mão enquanto morro.

quem me dera ter uma pessoa querida para cuidar dele com amor e carinho depois disso.

internado (3)

internado, dezembro de 2014

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odeio textos piegas. escrevo muitos. quase sempre, tenho a sabedoria de não mostrá-los a ninguém. com uma exceção: textos piegas sobre cachorros. quando falo de cachorros, eu viro uma manteiga derretida sem vergonha alguma.

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mais fotos

resgata pós-katrina (4)

resgata pós-katrina (3)

resgata pós-katrina (1)

resgate do oliver, depois do furacão katrina, em nova orleans.

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rapper

rapper.

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pronto para a viagem

embarcando.

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por do sol

pôr-do-sol.

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papo reto

papo reto.

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oliver & co em são francisco

oliver & co, em são francisco.

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observando as ruas de nova orleans

observando as ruas de nova orleans.

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no seu puff

no seu puff preferido, na casa da sônia.

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no metrô do rio de janeiro

no metrô do rio de janeiro.

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natalino

ho-ho-ho!

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lendo mulher de um homem só

no lançamento de mulher de um homem só.

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lagoas da barra da tijuca

lagoas da barra da tijuca.

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grafitti pós-katrina em nova orleans

grafitti pós-katrina em nova orleans.

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enxerido

enxerido.

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em ubatuba

em ubatuba.

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em paraty

em paraty.

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close up

tímido.

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chegando em nova iorque durante furacão gustav

em newark, new jersey, chegando em nova iorque, fugindo do furacão gustav.

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caminha bang & olufsen

ninguém acredita quando digo que o oliver já teve uma cama bang & olufsen.

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remando com o oliver na baía de guanabara

remando na baía de guanabara.

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oliver faleceu no dia 17 de dezembro de 2014.

zen

alguns pensamentos esparsos sobre a prática zen.

Aqui existe o vazio

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ontem ao assinar o livro de visitas do templo que frequento, escrevi “alex castro”.

alguns minutos depois, quando outro praticante olhou ali o meu nome e me chamou de “alex”, me bateu um estranhamento.

como se fosse esquisito ser chamado pelo meu nome-fantasia em um templo onde faço votos, entre outros, que a realidade é ilimitada e que devemos percebê-la.

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o que há em um nome?

o nome alex castro nasceu em 2005.

nos primeiros anos, ainda havia uma distinção clara entre as duas identidades: só me chamava de “alex” quem tinha me conhecido pela internet.

mas, nos cadastros de loja, nos sites de compras, no ex-libris dos livros que comprava, eu ainda assinava com o outro nome.

agora, já se vão lá quase dez anos de “alex castro” e ele claramente tomou conta.

até minha companheira me chama de “alex”.

(o pedro dória escreveu  uma coluna sobre a minha mudança de nome para a folha. não dá pra saber com certeza se ele está zoando de mim ou não.)

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sempre que menciono essa história, alguém pergunta:

“mas qual é seu nome verdadeiro?”

e me parece uma pergunta tão estranha!

ora, todos os meus nomes são verdadeiros. como não seriam?

mas, se você colocasse uma arma da minha cabeça e me mandasse escolher um, com certeza o meu nome mais verdadeiro, entre tantos nomes pelos quais respondo, é o nome que eu mesmo inventei, que eu mesmo me dei, o nome que a maioria das pessoas que me conhece associa a mim.

alex castro. muito prazer.

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samsara

comecei a praticar o caminho no templo zen de nova orleans (nozt.org) e agora pratico no templo zen de copacabana (sanghazen.com.br), dois lugares fortemente associados a putaria, sexo e turismo sexual.

isso deve querer dizer alguma coisa. não sei bem o quê.

como disse uma moça nas últimas prisões, fazer ecovila de permacultura na serra da mantiqueira é fácil: quero ver fazer na avenida brasil!

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o veneno e o antídoto

promovo os encontros “as prisões” porque eles ajudam alguns seres e porque são uma maneira digna e decente de ganhar a vida.

mas, pessoalmente, eles me fazem um certo mal.

meu principal projeto de vida hoje é o não-ego. sair de mim. ser menos auto-centrado.

e passar todo fim de semana cercado de pessoas que me admiram e, muitas vezes, viajaram longe e pagaram caro para estar comigo, só atrapalha.

encaro esses ossos-do-ofício como o meu atual desafio: promover o encontro “as prisões” sem deixar que ele me suba à cabeça.

para isso, a prática diária do zen é fundamental.

no templo, ninguém sabe quem eu sou, ninguém liga pra mim, ninguém leu meus textos, ninguém quer saber o que tenho a dizer. eu chego, sento, quebro o pão, varro o quintal, vou embora.

ontem, passei vários e vários longos minutos limpando cocô de passarinho do corrimão da escada externa.

e foi bom.

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recomendações de leitura

sempre deixando claro que eu não sei nada sobre zen e não tenho autoridade alguma para me manifestar publicamente sobre zen, esses são os livros básicos e introdutórios que estão disponíveis em português e me ajudaram nos primeiros passos no caminho.

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zen em quadrinhos, tsai chih chung

um dia, uma namorada me deu esse livrinho pra ler, dizendo que muitas dessas histórias pareciam com o meu “jeito”.

esse livro não é trivial. ele é uma quadrinização de alguns dos koans mais importantes do zen. (koan: uma narrativa que contém elementos inacessíveis à razão.)

abaixo, alguns dos meus preferidos.

leia o livro online, gratuitamente.

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introdução ao zen-budismo, d. t. suzuki

depois disso, curioso, comecei a procurar mais e caí nos livros de d. t suzuki, em especial esse introdução ao zen budismo.

suzuki, um japonês leigo que escrevia em inglês, foi o grande introdutor e popularizador do zen no ocidente.

muitos estudiosos consideram que suzuki não só está superado como que distorceu muito do zen para torná-lo mais palatável à sensibilidade ocidental.

mas a verdade é que funcionou: para mim e para muitos, muitos ocidentais, suzuki foi quem nos interessou, empolgou, fisgou para o zen.

linksverbete na wikipedia // pdf em inglês // em português, na saraiva // em inglês, na amazon

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budismo sem crenças, stephen batchelor

suzuki me atiçou o interesse intelectual e comecei a ler mais sobre zen.

naturalmente, ler sobre zen e nada é a mesma coisa. “interesse intelectual” é um outro modo de dizer “capricho intelectual”.

o zen é uma prática.

quem me fez finalmente começar a praticar foi esse livro.

embasado por uma leitura rigorosa dos sutras, batchelor propõe que não é preciso ser religioso, místico ou deísta para praticar o caminho.

para ele, o caminho é agnóstico.

(sutra: escrituras canônicas que são tratadas como registros dos ensinamentos orais de buda gautama.)

naturalmente, as ideias de batchelor são radicais e polêmicas, especialmente entre as muitas e muitas pessoas que consideram o caminho sua religião.

batchelor é polêmico mas respeitado. questionam suas ideias mas o levam a sério. em outras palavras, sua interpretação do caminho é viável e válida.

e, assim, satisfeito que eu não estaria me tornando uma pessoa religiosa por trilhar o caminho, eu visitei um templo zen pela primeira vez e comecei a praticar.

linksem português, na saraiva, ou em inglês, na amazon.

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o que faz você ser budista?, dzongsar jamyang khyentse

por fim, um livro que não foi especialmente importante para mim, mas que é a melhor obra de referência em português, acessível e recente, para explicar budismo para leigos.

quando comecei a frequentar um templo zen e minha família, coitada, não entendeu bulhufas, foi esse livro que dei para eles lerem.

linksna saraiva, em português, ou na amazon, em inglês.

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viver sem esperança

um trechinho do livro sempre zen, de joko beck:

“uma vida vivida sem esperança é pacífica, alegre e compadecida. enquanto nos identificarmos com esta mente e este corpo — e todos fazem isso —esperaremos que aconteçam coisas que, em nossa opinião, tomarão conta de nosso corpo e de nossa mente. esperamos ter sucesso. esperamos ter saúde. esperamos alcançar a iluminação. há todo tipo de coisa que esperamos nos aconteça; e, evidentemente, toda forma de esperança consiste em dimensionar o passado e projetá-lo no futuro. a pessoa que já praticou o sentar, seja qual for o período que durou sua prática, sabe que não existe passado ou futuro, exceto em nossa mente. não há nada além do si-mesmo e o si-mesmo está sempre aí, presente. …

o que de fato queremos é uma vida natural. mas nossas vidas são tão artificiais que essa busca, no começo, é bastante difícil.

apesar de estarmos começando um novo caminho, trazemos as mesmas atitudes que tínhamos anteriormente: não achamos mais que a resposta está em um novo carro de luxo, mas sim em alcançar a iluminação. continuamos na mesma corrida, apenas trocamos o troféu. agora temos um novo “se ao menos”: “se ao menos eu conseguisse entender um pouco melhor o universo, então eu seria feliz”; “se ao menos eu conseguisse atingir uma pequena experiência de iluminação, então eu seria feliz”, etc, etc.

muitas de nós acreditamos que se tivéssemos um carro maior, uma casa mais bonita, férias mais longas, um patrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, nossas vidas seriam muito melhores. não há quem não pense assim.

passamos a vida pensando que existe o “eu” e que existe essa outra coisa separada, “o tudo que não sou eu”, que nos causa alternadamente dor ou prazer. assim, evitamos tudo que nos fere ou desagrada ou causa dor; e buscamos ou toleramos ou aceitamos tudo que nos agrada ou nos envaidece ou nos causa prazer, fugindo de uns e perseguindo outros. sem exceção, todos fazemos isso.

ficamos apartados da vida, olhando para ela de fora para dentro, analisando, fazendo cálculos como “e o que eu ganho com isso? será que vai me trazer prazer ou conforto? será que devo fugir?” sob nossas fachadas agradáveis e amistosas, existe muita ansiedade.

se nosso barco cheio de esperanças, ilusões e ambições (de chegar a algum lugar, de tornar-se espiritual, de ser perfeito, de alcançar a iluminação) vira de cabeça pra baixo, o que é esse barco vazio? o que sobra? quem somos nós?”

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sua vida, de cabeça pra baixo

um trechinho do livro not for happiness, de dzongsar jamyang khyentse, o mesmo autor de o que faz você ser budista:

“esses dias, o objetivo de muitos ensinamentos é fazer as pessoas “se sentirem bem”, validando seus egos e suas emoções. mas é um erro considerar que a prática do caminho vai nos acalmar ou nos ajudar a viver uma vida tranquila. se você só está preocupado em se sentir bem, melhor fazer uma massagem relaxante ao som de uma música new age.

o caminho não é terapia. pelo contrário, ele foi elaborado sob medida para expor nossas falhas e virar nossa vida de cabeça pra baixo.

aliás, se você pratica o caminho mas sua vida ainda não virou de cabeça pra baixo, então sua prática não está funcionando.”

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o zen enquanto paliativo consumista

hoje em dia, no ocidente rico (inclui o eixo morumbi-leblon), onde pessoas brancas ricas e bem-educadas morrem de culpa de seus níveis insustentáveis de consumo, uma meditaçãozinha com uma ioguinha, uma bananinha orgânica fair trade com um ovinho free-range, fazem com que pessoas politicamente alienadas pensem que estão fazendo alguma coisa para ajudar o mundo.

como disse o zizek, você tem o prazer de comprar o produto e ainda compra junto a redenção da sua culpa consumista. é perfeito.

sob esse aspecto, o zen ocidental pode ser considerado sintoma de uma sociedade doente.

nada disso é razão para deixarmos de praticar. mas não podemos ignorar nosso contexto cultural.

(um artigo e uma palestra do zizek: from western marxism to western buddhism & , parodiando weber, the buddhist ethic and the spirit of global capitalism.)

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as cinco lembranças

- adoecer faz parte da minha natureza. adoecer é uma lembrança da presença do mundo em mim.

- envelhecer faz parte da minha natureza. envelhecer é o ornamento da minha impermanência.

- morrer faz parte da minha natureza. morrer é uma dádiva da impermanência.

- tudo aquilo que amo ou odeio (objetos, parentes, pessoas amigas e inimigas) também compartilham da mesma natureza impermanente e passageira.

- somente as minhas ações são os meus pertences verdadeiros. não posso fugir às suas consequências. minhas ações são o chão que fazem o meu caminho.

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minhas poesias zen favoritas.

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o que aprendi na prática zen

assim que assumo a posição de meia-lótus, cruzo as pernas e pouso as mãos em frente ao umbigo, é nessa hora que meu nariz coça.

primeiro, vem a negação, imediatamente seguida pela revolta. caralho, não acredito que meu nariz escolheu coçar justo agora. putaqueopariu.

quanto mais tento esvaziar a mente, mais a coceira aumenta. em breve, a coceira está do tamanho do mundo. a coceira é maior do que eu, do que a vida, do que kafka, do que o sol, do que a vacuidade, dp que a morte.

a coceira é o universo. ali. na ponta do meu nariz.

mas não posso me mexer.

aí, vem a barganha.

que besteira!, penso. ninguém vai me ver. estão todos sentados, voltados pra parede, concentrados na prática. e, afinal, o que tem de mais coçar o nariz? o nariz não está coçando mesmo? não sou livre? não estou no templo praticando zen por vontade própria? não posso me levantar e ir embora a qualquer momento? por que não poderia coçar o nariz?

mas não. vai fazer barulho. o cotovelo vai estalar. o tecido da minha roupa vai farfalhar. naquele silêncio absoluto, esses sons seriam quase ensurdecedores.

então, a coceira some.

como tudo no universo, como nossas vidas, como as árvores, como o próprio sol, a coceira também passa.

porque se eu sinto coceira e não preciso coçar, então eu posso sentir fome e não preciso comer. posso sentir cansaço e não preciso sentar. posso sentir ira e não preciso gritar. posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

porque a fome, o cansaço, a ira, o desprezo também passam.

a entropia e o tempo

a entropia aumenta com o tempo ou a entropia É o tempo?

aprendemos na escola que o universo favorece à entropia (é mais fácil quebrar uma caneca do que fazer uma caneca) e que tudo caminha em direção à própria dissolução.

ou seja, aprendemos que a entropia aumenta com o tempo.

entretanto, existe outra maneira de ver a coisa: talvez a entropia SEJA o tempo.

pois, afinal, só conseguimos perceber ou medir o tempo através da entropia que percebemos no universo. não há como dissociar entropia do tempo.

em outras palavras, sabemos que o tempo está passando porque podemos ver a rosa progressivamente murchando dia a dia.

mas talvez não seja a entropia da rosa aumenta com o tempo mas que é o próprio tempo que seja a entropia que destroi a rosa.

ficou claro? (se ficou, então você não entendeu nada.)

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sobre isso: four reasons you shouldn’t exist

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alguns textos entrópicos:

cajuína // eu, que vou morrer, os saúdo, que também vão morrer // você não tem tempo

 

história de uma caixa de farmácia

farmácia, tarde da noite.

vou até o balcão no fundo, onde o único atendente está conferindo a receita de um freguês. eu espero.

a senhora que estava no caixa percebe e vem correndo, ansiosa, como se me atender fosse a coisa mais legal do mundo, e pergunta o que estou procurando.

plasil, eu digo.

ela faz uma cara de que nunca ouviu falar daquele nome, mas vai procurar pela farmácia mesmo assim. daqui a pouco, ela retorna, dessa vez com uma nova expressão no rosto: sinto tanto, mas tanto por não ter podido ajudá-lo. jê suí dessolê!

e eu penso: plasil é um remédio muito comum, como pode não conhecer?

dentro de mim, sinto os primeiros tremores do velho alex acordando, o alex-godzilla, o alex-mr-hyde, o alex que dizia coisas como, “cara, eu aguento tudo, só não tolero gente incompetente!”

verdadeiro diabinho, o alex-que-eu-era sabe exatamente o que eu deveria dizer para a atendente da farmácia:

“a senhora poderia ir buscar alguém que saiba o que está fazendo, por favor?”

mas o velho alex era um babaca e eu não faço mais o que ele manda.

sorrio para a atendente e agradeço muito. continuo olhando coisas aleatórias pela farmácia até ela se afastar um pouco e, então, sem que ela escute, pergunto ao moço que está atrás do balcão:

por favor, plasil é aí dentro ou cá fora?

ocupado e ranzinza, ele faz um gesto impaciente na minha direção e grita:

dona maria, PLASIL!

ela se aproxima novamente:

eu já procurei, não tem.

ele aumenta o tom:

tem sim, caceta. tá ALI!

imperturbável e sorridente, dona maria se abaixa, encontra o plasil e entrega na minha mão:

aqui está, filho.

e ela me leva até o caixa, onde passa a minha compra.

* * *

aqui dentro de mim, no meu ó-tão-incrível ego, eu continuo sendo aquele horrível menino-criado-feito-um-reizinho cujo primeiro instinto teria sido destratar a dona maria.

quase sempre, consigo me controlar.

às vezes, falo coisas horríveis.

é como o alcoolismo: nunca se está realmente curado.

praticar ser a pessoa-que-queremos-ser nunca é fácil.

* * *

na saída da farmácia, seguro as duas mãos de dona maria e digo:

obrigado, viu? a senhora foi muito, muito gentil.

quais comentários responder?

de repente, a Outra Significativa levanta a cabeça do seu latptop e pergunta:

“me diz se eu devo responder isso aqui.”

e eu, na lata: “não responde.”

“mas você nem viu.”

“não responde. vai por mim.”

mas ela veio e me mostrou. um babaca criticando uma foto linda só porque a modelo tinha cabelo nas pernas. e eu suspirei:

“ok, responde ao babaca. mas, por favor, da próxima vez, não me mostra o comentário. assim a minha opinião de “não responde” pode ser 100% isenta!”

como ganhar a vida dando meu trabalho de graça

nada pode ser mais mesquinho do que dizer “olha, tenho uma coisa legal aqui mas só te mostro se você pagar”.

e, na nossa sociedade capitalista, nada poderia ser mais tristemente comum.

* * *

todos os meus textos estão disponíveis gratuitamente na internet, para quem quiser ler, reler, linkar, distribuir.

todos os meus livros circulam gratuitamente, na forma de ebooks.

na revista fórum, escrevo gratuitamente, sem ganhar nada, por ativismo e por militância, porque a revista é importante para as causas que apóio.

todos os meus encontros têm a opção de entrar gratuitamente: paga somente quem quer, quem gosta de mim, quem acompanha meu trabalho, quem deseja colaborar.

ninguém precisa pagar para usufruir dos frutos do meu trabalho.

para mim, isso é o mais importante. senão, não faria sentido.

* * *

praticar arte de forma mais inclusiva e, ao mesmo tempo, ganhar a vida como artista é um dos grandes dilemas da arte contemporânea.

publicar minha literatura de graça na internet, sempre disponível para todos, e ganhar dinheiro vendendo esse mesmo conteúdo na forma de livros e encontros para quem pode e quer pagar… essa me parece ser uma das formas mais inclusivas de fazer literatura no brasil.

é o que posso fazer.

***

hoje, consigo ganhar a vida exclusivamente como escritor, graças à generosidade de cerca de 200 mecenas, entre elas 55 assinantes-pagantes, que contribuem com doações em dinheiro para a minha produção.

são elas que permitem que eu dê o meu trabalho de graça para quem deseja usufruir dele e não pode pagar.

muito, muito obrigado.

* * *

se você gosta do meu trabalho, e se não for fazer falta no leitinho das crianças, por favor, considere fazer uma doação.

se quer só acompanhar os meus textos, ler prévias, saber das novidades, assine meu newsletter (não custa nada!)

racismo reverso

uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio.

uma camisa “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.

existe uma enorme diferença.

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a partir de agora, quando alguém vier me falar de racismo reverso, vou mostrar esse vídeo. tem legendas em português.

um pouco sobre o encontro “as prisões”

 há doze anos, escrevo sobre as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. são elas:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // sexismo // racismo // monogamia // religião // patriotismo // escolhas // respeito // certezas // os outros // medo // ambição // felicidade // narcisismo

agora, estou promovendo o encontro “as prisões” por todo brasil. o público-alvo são ovelhas negras em busca de interlocutores. o encontro oferece a oportunidade de passarmos o dia inteiro trocando histórias, compartilhando vidas, debatendo perplexidades. ao final, nós, todas as pessoas, estamos exaustas, gastas, esvaziadas. confusas, atarantadas, chacoalhadas. (veja os depoimentos de quem já foi.)

o encontro “as prisões” é independente por ideologia. não possui vínculo institucional algum. é divulgado pela internet de forma alternativa e realizado em praias, parques, quintais, praças. oferece frutas e castanhas para comermos ao longo do dia e tem um intervalo para almoço. começa sempre às nove da manhã de sábado ou de domingo e termina na hora que terminar. muitas vezes, a química é tanta que não queremos ir embora: o encontro mais longo durou 13 horas.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

o encontro é pago. mas negar uma pessoa só porque ela não pode pagar seria dar importância demais a essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro. portanto, algumas pessoas pagam, outras pagam menos, outras não pagam. na prática, as que pagam me possibilitam fazer o encontro para as que não pagam. nada poderia ser mais solidário do que isso. (para saber mais, consulte a política de gratuidades.)

não é auto-ajuda, terapia, coaching. não é palestra, aula, exposição de conteúdo. não tem apostila, powerpoint, frases de efeito pra anotar no moleskine. não oferece respostas, soluções, remédios. não promete uma vida mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

não ajuda em nada. pelo contrário, só atrapalha. às vezes, nos transforma em pessoas ainda mais confusas, desajustadas, perdidas. afinal, ser bem-sucedida e bem-ajustada em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa própria canalhice.

* * *

calendário completo de encontros “as prisões” em todo o brasil em 2014.

sobre alex castro: bio, clipping, fotos, entrevistas.

dúvidas, questões, desabafos? fale com o alex.

prisões já publicadas: monogamia // patriotismo // dinheiro // trabalho // felicidade // narcisismo

o que você gosta de ouvir?, me perguntou um amigo

eu: mulher rindo. alho refogando. zíper abrindo. ondas quebrando. gemidos de gozo. criança brincando. zumbido de ar-condicionado começando a funcionar. dois sapatos caindo no chão, lentamente, um depois do outro. o apito do sorveteiro que passava pela minha casa. passos descalços no chão frio. “eu te amo, alexandre.” o oliver latindo quando chego em casa. saltos altos no mármore. máquina de escrever elétrica. pisada forte de mulher decidida. apito do recreio. pernas femininas, vestidas de couro ou látex, roçando uma contra a outra enquanto andam. suspiro saciado de prazer. ronco do oliver dormindo profundamente.

ele: não. eu quis dizer de música.

eu: ah.

aquele prazer em reclamar

festival de teatro. por coincidência, sento ao lado da mesma senhora duas vezes.

oi, você não estava ao meu lado na peça tal?

sim, meu filho. que coincidência!

começamos a conversar sobre a peça anterior. ela disse que gostou muito de tudo. o único problema foi o som.

não consegui ouvir nada! veja só você que absurdo!

sim, confesso que me incomodou um pouco no começo, mas rapidamente a gente acostuma o ouvido, né? além disso, — era um festival internacional e a peça tinha legendas — quando eu achava que tinha perdido algo, sempre dava pra conferir o texto. e a montagem, o que a senhora achou?

montagem primorosa, mas esse som, nossa senhora! tinha que ter uma acústica melhor!

bem, gostei muito dos atores…

eu também. são ótimos. pena que não consegui ouvir nada, né? uma peça dessas, de nível internacional, jamais poderia ser encenada numa tenda ao ar livre! o som vai reverberar onde?

sim, claro, mas a senhora reparou na qualidade do texto? as idas e vindas temporais foram muito bem costuradas…

essa companhia é primorosa, meu filho. é o melhor texto teatral do brasil. por isso é imperdoável serem tão levianos com o som. qualquer um saberia que não se pode encenar uma peça ao ar livre a cinquenta metros do cruzamento mais movimentado da cidade, às seis da tarde! a cada buzina que tocava, a cada ônibus que passava, eram diálogos e diálogos que a gente não ouvia.

a conversa foi me deixando tristíssimo. eu queria pegar aquela senhora no colo e, de algum modo, salvá-la de si mesma, mas já aprendi que não dá pra salvar ninguém. especialmente de si mesma.

felizmente, soou a campainha e começou mais uma peça. linda. sensacional. da qual só lembro coisas boas.

* * *

tive uma namorada querida que se dizia cidadã consciente.

ligava pra fábrica do pãozinho e ficava meia hora descascando a moça do atendimento porque tinham vindo sete pães ao invés de oito. mandava sms pra administração do metrô pra avisar que o vagão tal fez uma parada muito brusca. chamava o gerente do mercado pra reclamar que depois das dez da noite nunca tinha ninguém pra cortar o presunto.

às vezes, apontava o dedo na minha cara, ressaltava minha dita passividade e acusava:

é por causa de gente como você que o brasil está assim!

e eu, na época, não dizia nada. porque a amava. porque evito brigar com gente que gosta de briga. e porque, no fundo, desconfiava que talvez pudesse ter razão.

hoje, muitos anos depois, e amando-a como ainda amo todo mundo que já amei, eu diria, com um pouco de tristeza, algum cansaço e um carinho imenso:

não, meu amor. é por causa de gente como você que o mundo está assim.

a boneca de sal

para quem está muito preocupada com sua própria individualidade, em não seguir os outros, em não ser só mais uma, em decifrar seus próprios dilemas existenciais, e em toda essa infindável masturbação mental, sempre recomendo a história da boneca de sal.

a parábola do boneco de sal

“quem é você?”

era uma vez uma boneca de sal. após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu comprendê-lo. perguntou ao mar: “quem é você?”

e o mar respondeu: “sou o mar.”

“mas o que é o mar?”

e o mar respondeu: “o mar sou eu.”

“não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. como faço?”

o mar respondeu: “encoste em mim.”

então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. sentiu que começava a entender mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.

“mar, o que você fez?!”

e o mar respondeu:

“eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. para entender tudo, é necessário dar tudo.”

ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. quanto mais entrava, e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:

“afinal, o que é o mar?”

então, foi coberta por uma onda. em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:

“o mar… o mar sou eu!”

* * *

a história pode ter várias mensagens. uma delas é aprender a não fazer perguntas idiotas. outra, que todo conhecimento tem um custo. também outra, que a verdadeira compreensão só pode se dar de dentro. ou, melhor, que só saindo de si mesma, só através do desapego, é possível uma verdadeira compreensão do outro, do universo, de qualquer coisa.

meu texto acima foi adaptado das versões do frei leonardo boff e do padre jesuíta anthony de mello. apesar das duas fontes cristãs, a história me parece profundamente budista.

e me fez recordar a historinha abaixo.

* * *

depois de um concerto, a fã aborda a pianista e diz:

“eu daria minha vida para tocar tão bem assim.”

e ela responde, simplesmente:

“eu dei.”

* * *

os próximos encontros “as prisões” são no rio de janeiro e em são paulo. depois, em agosto e setembro, todas as capitais do nordeste.

se essa historinha fala com você, acho que deveria vir. vai ser legal. pode ser bonito.

confira o calendário completo

hoje de manhã, chorei

o encontro “as prisões”, em belém, foi com certeza o mais esquentado e exaltado, mas também o mais aberto e mais emocionante.

nunca vi tantas participantes a beira das lágrimas. nunca tantas participantes se abrirem tanto, se exporem tanto, se sentirem tão livres para compartilhar e contribuir.

hoje de manhã, lendo os depoimentos das pessoas participantes, agarrei a Outra Significativa pela cintura e comecei a chorar.

fui durante muito tempo uma pessoa muito ruim e muito egoísta. provavelmente ainda sou.

não sinto culpa dos pecados passados. culpa nao faz sentido. culpa nao resolve nada.

mas sinto sim uma obrigação de reequilibrar a balança. de devolver um pouco do que recebi. de passar adiante as graças que usufruí.

então, chorei ao ver o impacto das minhas palavras em vocês. ao ver que estou ajudando minimamente.

sem querer salvá-los. sem querer carregá-los. sem querer dar respostas.

só mostrando um jeito diferente de pensar. só dando uma pequena ajuda. como tantas pequenas ajudas que recebi e nunca agradeci.

e que, agora, passo adiante.

muito obrigado.

prisão narcisismo

no encontro as prisões, passamos o dia inteiro conversando sobre todas essas bolas de ferro mentais que arrastamos pela vida. as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. enfim, as prisões.

a última, e a mais importante, a prisão sem a qual toda a discussão anterior não teria sentido, é a prisão narcisismo.

afinal, a maior de todas as prisões somos nós mesmos. nós e nosso imenso narcissismo. sempre só olhando para os nossos umbigos, para os nossos ó-tão-importantes problemas.

abaixo, alguns textos que desenvolvem o conteúdo da prisão narcisismo. são alguns de meus textos mais importantes:

eu não sei o que está acontecendo na líbia // zazen // uma caneca // somos todos fingidores // paradoxo de narciso // cajuína // vou mudar de vida… mas não hoje // o mal é a falta de atenção // a solidão de narciso

* * *

para ajudar em nossos esforços para sermos menos narcissistas, eu proponho os exercícios de empatia:

1. praticar um olhar generoso // 2. dar-se conta das pessoas // 3. ver na sua totalidade // 4. ouvir com atenção plena // 5. cultivar o não-conhecimento // 6. exercer a não-opinião // 7. adaptar-se ao meio // 8. colocar-se em outra pessoa // 9. fingir o não-narcisismo

como funciona o privilégio

um filme só sobre homens é um filme.

um filme só sobre mulheres é um filme feminino.

um ensaio fotográfico só de mulheres brancas é um ensaio de mulheres.

um ensaio fotográfico só de mulheres negras é um ensaio negro.

um romance sobre um casal hétero é um romance.

um romance sobre um casal homossexual é um romance gay.

quantas vezes não somos nós mesmas, na nossa fala e nas nossas ações, a perpetuar esse tipo de normatização tirânica?

como funciona o machismo

turismo na favela

de uns tempos pra cá, virou moda: turistas vêm ao rio e não querem mais conhecer o corcovado ou o pão de açúcar, mas sim a favela da rocinha e do vidigal. estão as pessoas gringas se aproveitando das faveladas? ou são as pessoas faveladas que estão cambalachando as gringas? o turismo estimula o progresso das favelas ou garante que nunca saiam da mesma estagnação?

o pós-turista

o turismo nas favelas é uma faceta no novo “pós-turismo”.

agora que pessoas de poder aquisitivo cada vez mais baixo já podem visitar os destinos turísticos tradicionais (a classe média sofre com esses pobretões na fila da disney!), as novas pós-turistas, para se distanciar da ralé e reestabelecer a distância original, precisam buscar novas experiências turísticas, mais inusitadas, mais interativas, mais aventureiras, indo a lugares que seriam a antítese do antigo turismo, localidades antes marginais e agora reinventadas e reapropriadas.

em outras palavras, com tantas pessoas pobres agora lotando gallerie laffayette, em paris, suas antigas frequentadoras hoje fazem safari tours em favelas.

a indústria do turismo classifica a pobreza como exótica, a transforma em mercadoria e a vende para turistas que queiram participar dessa “economia de sensações”, onde o que compram é justamente a sensação voyeurítica de poder vivenciar a pobreza e a miséria sem precisar, para isso, serem pobres e miseráveis.

o capitalismo celebra toda a diferença que seja capaz de mercantilizar.

turismo da miséria: prós e contras

eu sou do rio, morei por seis anos em nova orleans e faço pesquisas em havana. são três cidades turísticas (e lindas, diga-se de passagem) onde se faz esse “turismo da pobreza”.

no rio, são as favelas. em nova orleans, é a destruição causada pelo furacão katrina. em havana, são os prédios em ruínas. sempre cercados de belgas bem alimentados, calçando birkenstocks e tirando fotos com máquinas cujo valor alimentaria uma família local.

isso é bom?

para defensores da prática, ela tem as seguintes vantagens:

  • melhorar o desenvolvimento econômico da região;
  • conscientizar turistas;
  • aumentar a autoestima da população;
  • forjar lideranças locais;
  • compartilhar recursos e conhecimento entre pessoas que não teriam se encontrado se não fosse o turismo.

para quem está contra, existiriam dois grandes problemas:

  • os benefícios gerados vão em grande parte para as pessoas proprietárias das agências e não revertem em melhorias e investimentos nas comunidades;
  • mais que conscientização e mobilização social, essas visitas gerariam um certo voyeurismo diante da pobreza e do sofrimento.

quem é a turista da miséria?

em seu livro gringo na laje, a socióloga bianca freire-medeiros traçou um interessante estudo do turismo na favela da rocinha, falando com moradoras, turistas, guias de passeio e proprietárias de agência.

segundo suas pesquisas, a principal característica dessa turista seria sua ansiedade de se diferenciar:

  • das moradores; afinal, o turismo na favela não deixa de ser uma maneira de darem mais valor aos confortos materiais de casa.
  • das turistas convencionais, que só vão aos pontos turísticos previsíveis e jamais teriam coragem de encarar uma favela.
  • das turistas voyeurs e pouco engajadas, que visitam as favelas do jeito errado, como abutres, sem contribuir, sem ajudar, etc.
  • da elite local, preconceituosa e com medo de conhecer sua própria cidade.

mais do que tudo, essas turistas estão buscando por uma mítica “experiência verdadeira”, uma certa “realidade nua e crua” a qual teoricamente não têm mais acesso em casa – como se suas vidas afluentes e confortáveis na europa fossem menos reais e menos verdadeiras do que as vidas dos favelados da rocinha.

e saem do passeio com a sensação de terem desfrutado de uma experiência completamente inalcançável e intransferível, seja aos turistas comuns, seja às elites locais.

essa busca ansiosa pela ilusória “mediação não mediada” baseia-se na crença de que existem experiências turísticas “autênticas” que podem acontecer sem a mediação da indústria do turismo, sem serem produtos culturais prontos e pré-fabricados.

ou seja, é a miragem de que o produto “passeio de um dia na favela da rocinha”, vendido por uma agência de turismo, é intrinsecamente mais autêntico do que o produto “passeio de um dia no corcovado”, vendido pela mesmíssima agência.

para que a visita à favela sirva seu objetivo, a turista precisa se convencer que a sua visita, ao contrário das das outras turistas voyeurs, é um ato ético e solidário.

a experiência não deixa de trazer consigo uma certa ansiedade: afinal, como uma praia deserta, se todas a visitarem, ela deixa de ser deserta.

nesse ponto, o valor da favela está em ser exclusiva e fora do mainstream; quanto mais turistas a visitarem, menos desejável ela se torna como fator de diferenciação.

fica claro que, nessa economia de sensações do turismo da miséria, o que está sendo vendido à turista é principalmente uma certa sensação de superioridade moral e intelectual.

o que pensam as moradoras das favelas

a principal ilusão das turistas é que seus passeios trazem algum benefício à comunidade.

de fato, as agências são operadas de fora da favela e os lucros vão para suas proprietárias. quando muito, comerciantes da favela tem um pequeno aumento de vendas, mas a maioria diz que turistas só querem saber de tirar fotos e comprar água.

em muitas ocasiões, fica claro que as turistas querem apenas uma confirmação de sua própria imagem mental da favela. conta uma moradora:

“uma vez, quando meu filho era mais novo, [algumas turistas] quiseram tirar foto dele, mas quando cheguei com ele [que é branco], eles não quiseram, porque eles queriam um neguinho.”

na verdade, como disse um comerciante, as turistas dão somente uma pequena ajuda nos lucros, mas seu maior valor está em tirar a impressão de lugar violento que a favela tem. por isso, grande parte das pessoas moradoras vê esse tipo de turismo de modo positivo.

para as moradoras, a questão não é nem tanto se o turismo na favela deveria existir ou não, mas de que maneira ele poderia beneficiar a comunidade. a maioria das turistas pensa estar ajudando a comunidade simplesmente ao participar do passeio, mas as moradoras têm outra ideia do que constituiria ajuda:

“os turistas … às vezes … só passam pelos lugares mais ricos… [s]e eles fossem lá… onde o pessoal é mais necessitado, talvez eles pudessem se inspirar em limpar o lugar, talvez alguém se interessasse em ajudar os moradores… alguém poderia trazer dinheiro, consertar um cano. isso iria beneficiar a galera lá, porque ia incentivar os moradores a consertar as casas, tirar a lama, tirar o lixo.”

a questão do cheiro

o cheiro ruim é essencialmente subversivo. ele não pode ser banido, controlado, pasteurizado, estetizado.

se a fotografia permite que a miséria mais degradante transforme-se em objeto estético (oi, sebastião salgado), o cheiro não se presta a isso.

a vala aberta, o esgoto imundo, o lixo ao sol, o rato morto, nenhum deles pode ser tão facilmente domesticado, empacotado, vendido e distribuído ao mundo como uma bela foto de uma menina pobre e remelenta.

o cheiro exige ser confrontado: ou você fala sobre ele, ou você fica calado. não existe meio termo.

e, não por acaso, os relatos sobre visitas às favelas abundam em fotos, mas contém muito poucas referências ao cheiro.

nós também fazemos parte do problema

essa história não tem mocinhas nem vilãs. as faveladas não são pobres coitadas incapazes de pensar criticamente sua situação. as estrangeiras não são babacas ou iludidas ou ingênuas. as guias de turismo e donas de agência não estão explorando a favela.

senão, podemos acabar falando coisas assim:

“cabe a nós, elite ilustrada não-favela, defender as pessoas faveladas dessas turistas desalmadas e voyeuristas que as veem como animais em jaulas.”

na verdade, nosso papel nessa história é outro.

quando as turistas se gabam de visitar a favela, um lugar onde a preconceituosa elite local se recusa a ir… é de nós que estão falando.

quando as moradoras dizem que o maior benefício do turismo é quebrar a invisibilidade social da favela e ajudar a refutar os estigmas de violência e miséria… é de nós que estão falando, nós que criamos essa invisibilidade, nós que perpetuamos esse estigma.

e então? o que nós vamos fazer?

* * *

o texto que você acabou de ler é um resumo e uma paráfrase do livro gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística, de bianca freire-medeiros, publicado pela editora fgv em 2009, e disponível em uma edição de bolso baratinha. recomendo com ênfase.

* * *

aviso sobre linguagem e gênero

o texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. por favor, avisem e vou corrigir. para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.

esses textos que mudam nossas vidas

acontece muito: a pessoa me escreve efusivamente, agradece por um texto, diz que mudou sua vida, etc.

eu respondo agradecendo os elogios e pedindo que ela, se puder, se não for fazer falta, realize uma doação em dinheiro de um valor proporcional ao bem que o texto lhe fez. afinal, sou um artista independente, vivo disso e ela leu de graça o texto que mudou sua vida.

e a pessoa não responde nem nunca faz a doação.

ou seja, o texto que mudou sua vida não vale nada. ou vai ver vendem muito barato suas vidas.

* * *

eu trabalho duro para escrever os textos que vocês leem. não tenho outra atividade. só faço isso.

muita gente acha os textos blé. entendo, aceito e respeito.

mas, se você gosta, se repassa pras amigas, se cita os meus argumentos em conversas, se fica com as minhas palavras em sua cabeça, então, por favor, considere a possibilidade de remunerar a pessoa que trabalha duro para criar essas palavras.

um grande beijo em todas vocês.

* * *

para doar, visite minha página de mecenato.

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esse é o último texto que vêm gerando esse tipo de elogio. talvez você goste: prisão trabalho.

em cuba, atrás do poeta-escravo

em poucos meses, será publicada pela editora hedra minha tradução anotada da autobiografia do poeta-escravo afrocubano juan francisco manzano, escrita em 1836.

agora, estamos em cuba, buscando pelos traços de sua existência.

em havana, na biblioteca nacional josé martí, pedimos permissão (ainda não concedida) para consultar o manuscrito original.

a casa onde o poeta viveu, em havana velha, na esquina de o’reilly com brasil, foi completamente reformada pela oficina do historiador de havana. desde 2008, é o “hotel marquês de prado ameno”, nome da família que foi proprietária do poeta. as suítes e aposentos do hotel tem muitos nomes derivados da vida do poeta. o salão de reuniões se chama “salão manzano”.

ainda em havana, um funcionário aposentado da empresa que administra o hotel, e que já havia escrito diversos estudos sobre a vida do poeta afrocubano, nos forneceu importantes mapas para nos ajudar a encontrar o engenho “el molino” ou “los molinos”, em matanzas, onde o poeta também viveu e onde mais sofreu.

em matanzas, graças à ajuda do historiador da cidade, toda a equipe do museu provincial palacio de junco nos abriu as portas do museu (que estava fechado) para vermos tanto a lápide da primeira proprietária de manzano (famosa por ser a primeira escritora de cuba) como também um “tronco”, original e autêntico, utilizado para punir os escravos de matanzas na mesma época em que o poeta viveu.

claudia fotografando a casa-grande de los molinos 2 - Cópia

por feliz coincidência, a irmã de uma das seguranças do museu mora no terreno do engenho “los molinos”. ela havia chegado a viver em uma das casas-grandes, demolida em 1972. sua casa atual, e outras duas, repousam sobre as fundações da casa-grande.

da varanda, pode-se ver e ouvir os rios san juan e san agustín, em cujas margens o poeta pescava e compunha.

ao lado, ainda sobrevivem de pé as paredes, os muros e as fundações da antiga casa-grande, construída de pedra e provavelmente remanescente da época de manzano.

como em cuba tudo se reaproveita, a casa-grande onde aquela criança escravizada seguia sua senhora como um cachorrinho hoje é uma fábrica de gelo.

fabrica de gelo em los molinos - Cópia

em todas nossas pesquisas em matanzas, contamos com a ajuda, com a companhia e com a amizade do historiador urbano martínez, autor de dezenas de livros — entre eles, uma biografia do literato cubano que promoveu a coleta que comprou a liberdade do poeta-escravo.

depois, passamos por bayamo, manzanillo, cabo cruz, pilón, marea del portillo e, agora, estamos em santiago, no outro extremo da ilha de havana, cidade mais caribenha de cuba.

daqui, passaremos por guantanamo, baracoa e, então, a longa volta até havana.

claudia fotografando a casa-grande de los molinos - Cópia

só faz sentido escrever para ser do contra

às vezes, me perguntam: você é sempre do contra?

não, claro que não. a maioria das minhas opiniões é igual à opinião da maioria das pessoas. mas de que serve escrever sobre isso? se saiu o filme x e ele é uma unanimidade de crítica e público, todo mundo adorando o filme, e eu também adorando o filme… de que adianta eu escrever mais um texto dizendo que o filme é lindo e reforçando o que todo mundo já sabe e já acha?

de que adianta escrever para confirmar as opiniões e afagar o ego das pessoas leitoras?

então, não é que sou sempre do contra, mas que acho que só faz sentido escrever se for para ser do contra. se for para mostrar à leitora um novo ângulo. se for para sacudir suas certezas. para questionar suas ideias.

tomo o maior cuidado para nunca criticar pessoas vivas, para nunca acusar ninguém de nada, para nunca apontar dedos, mas é natural que algumas pessoas se sintam atacadas.

nesse caso, digo a elas: o texto não era sobre você, mas se você vestiu a carapuça e se sentiu atacada… então, é porque era.

o segredo de beleza dos homens

outro dia, uma amiga me perguntou, a sério:

ai, alex, qual é o segredo de beleza dos homens, pra eles envelhecerem tão bem, tão maduros e enxutos, enquanto as mulheres vão ficando umas dragas?

e fui obrigado a contar a ela o nosso grande segredo:

simples. basta nascer em uma cultura machista, que vê o homem mais velho como progressivamente mais maduro e com mais valor, e a mulher mais velha como progressivamente mais inútil e com menos valor, e, assim, os mesmíssimos sinais de velhice no rosto de ambos serão interpretados e lidos de forma positiva no caso dos homens e negativa no caso das mulheres.

portanto, o jeito de resolver o problema não é com hidratantes, mas com educação. ou com uma revolução. o que vier primeiro.

feminismo para homens: um curso básico

spoilers

eu não aviso sobre spoilers. avisos sobre spoilers são sempre redundantes.

quem não quer saber o final de moby dick não deve ler textos sobre moby dick.

spoiler alert!
qualquer texto de valor sobre uma obra narrativa, qualquer texto com insight, reflexão e scholarship, vai necessariamente conter vários exemplares daquilo que as pessoas hoje chamam de spoiler.

um texto sobre uma obra narrativa que não contenha spoilers é o seu press-release. é um texto vazio, promocional, de divulgação. é um texto que não se propõe a dizer nada novo sobre a obra.

sempre que me proponho escrever sobre uma obra narrativa é porque acredito que tenho algo novo a acrescentar à discussão dessa obra. e é impossível fazer isso sem spoilers.

o fetiche da surpresa é uma maneira muito simplista de consumir arte. existem mil maneiras de desfrutar uma obra de arte e nem todas passam pelo enredo, e muito menos pela surpresa em relação ao enredo.

se você não quer saber o final de um filme antes de assisti-lo, eu respeito. mas então, por favor, não leia nada sobre o filme.

alguns textos sobre cinema, todos cheios de spoilers: “Até a chuva”, um filme para quem gosta de ajudar // “Na Estrada”: você está lendo isso errado // A menina sonhadora feliz cabeça-de-vento // Por que precisamos destruir nossos ídolos?