Nossa vida no meio do lixo

Pergunta: “Como desapegar das minhas tralhas?”

Ceci Garrett has been helping hoarders, like this one, with Lightening the Load, a hoarding ministry in Spokane. Garrett's mother was a hoarder and they appeared on the show "Hoarders" on A&E. COLIN MULVANY colinm@spokesman.com

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Como lidar com a dor

Pergunta: “Alex, como você lida com a dor?”

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A cruz e o carma

Outro dia, um moço me procurou. Setenta anos, alguns distúrbios mentais, um câncer no cérebro. Estava raivoso, puto, frustrado.

Em um dado momento, me acusou de não estar fazendo nada para ajudá-lo. Que o que ele precisava mesmo era que eu pegasse aquele câncer pra mim. Afinal, por que no cérebro dele e não no meu?!

E eu respondi:

“Se você pudesse pegar o meu diabetes, a minha hipertensão, a minha gota, a minha gastrite, eu pegaria o seu câncer de cérebro.”

cancer battle

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A religião é um espelho

Podemos escolher presumir sempre o melhor: a religião é um espelho onde cada pessoa enxerga aquilo que traz.

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O monge é uma farpa na carne da História

Os monges foram os primeiros revolucionários e os monastérios, as primeiras utopias.

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Desperdício

Em junho, enquanto minha rua explodia em uma guerra civil, a vida me levou, pela primeira vez, a visitar o shopping Village Mall, o mais luxuoso do Rio de Janeiro, palco de lojas como Apple, Cartier, Tiffany, etc.

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Em um dado momento, a pessoa que estava comigo perguntou:

“Alex, você, que já foi rico, que já teve coisas de lojas como essas, como se sente voltando aqui, agora, nessa sua vibe irmão zen minimalista?”

E eu olhava para cada um desses produtos, pensava em tudo que se sacrificou para comprá-los, e me invadia uma tristeza absurda.

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Quanta vida desperdiçada, quanta vida reprimida, quanta vida adiada… para trabalhar mais, para ralar mais, para se vender mais… para poder comprar aqueles produtos inflacionados, o vestido de quinze mil e o sapato de cinco mil, o expresso de vinte reais e o cinema de cinquenta… tudo para manter identidades de pessoas ricas e elegantes, sofisticadas e diferenciadas, capazes de pagar quinze mil num vestido e cinco mil num sapato, vinte num expresso e cinquenta num ingresso… e tudo isso pra quê?

village mall

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Leituras comentadas, agosto de 2017

Um mês de diferentes leituras por diferentes motivos: um livro lido a trabalho, para escrever a orelha; um lido no grupo de estudos sobre Cuidados Contemplativos; três lidos como follow-up de leituras para meu curso de Formação de Instrutor de Meditação; quatro como parte dos meus estudos para um romance em planejamento; uma coletânea de artigos do Gandhi que têm tudo a ver com As Prisões; e, por fim, dois estudos sobre a Ilíada, por puro prazer estético, porque ninguém é de ferro.

1. (71) Santos fortes, Karnal e Fernandes, 2017, português.
2. (72) Being with dying, Halifax, 2009, inglês.
3. (73) João da Cruz, Leloup, 2007, francês.
4. (74) Esperando Foucault, ainda, Sahlins, 1993, inglês.
5. (75) The Western illusion of human nature, Sahlins, 2008, inglês.
6. (76) The knowledge illusion, Sloman e Fernbach, 2017, inglês.
7. (77) The enigma of reason, Mercier e Sperber, 2017, inglês.
8. (78) The desert fathers, c.III-IV, copta. [Trad, org: Waddell, 1936.]
9. (79) The desert fathers, c.III-IV, copta. [Trad,org: Ward, 2003.]
10. (80) Trusteeship, Gandhi, c.1930-1940, inglês.
11. (81) The Iliad, or the poem of force, Weil, 1940, francês.
12. (82) On the Iliad, Bespaloff, 1945, francês.

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Como escrever um livro

(Ou como completar qualquer outro projeto de longo prazo.)

pessoas felizes pulando na praia

Todo dia, tem uma nova bomba estourando, alguma pendência que precisa ser entregue para ontem, algum problema urgente que precisa ser resolvido hoje, um trabalho que vai pagar a conta de luz do mês que vem ou, pior, a conta de luz que já está vencida. Se nos deixarmos levar, passaremos a vida apagando incêndio.

Nossos projetos de longo prazo, aqueles projetos que demandam trabalho todo dia para que, quem sabe, frutifiquem em 2025 (“claro que não posso pensar nisso agora! E esse boleto aqui, vou pagar como?!”), esses vão sendo eternamente postergados. Seremos como a proverbial jornalista que está escrevendo um romance há vinte anos.

Não existe mágica. O tempo para nossos projetos de longo prazo nunca vai cair, livre e desimpedido, no nosso colo. A vida é uma esteira rolante feita, projetada, pensada para que nunca tenhamos tempo de parar, respirar, olhar em volta. Pessoas ocupadas, estressadas, cansadas consomem mais e questionam menos.

Esse tempo precisa ser efetivamente criado, talhado na rocha da vida, roubado da balbúrdia do mundo.

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Coisas que o capitalismo faz com a nossa cabeça

Nossa cultura capitalista trata a dívida como se fosse uma questão moral.

“Temos que pagar nossas dívidas porque sim, porque somos pessoas honestas, porque é isso que se faz!”

Mas todo o sistema financeiro se baseia justamente no fato de que não precisamos pagar nossas dívidas, que algumas dívidas simplesmente não serão pagas e que é esse risco inerente ao empréstimo que justifica a excrescência imoral que são os juros.

Então, pelo contrário, não só as dívidas não precisam ser pagas como, se todos os devedores pagassem todas as suas dívidas no prazo, o sistema financeiro internacional quebraria no mesmo dia.

grego alemão dívida juros graeber

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A marca do bom relacionamento

Relacionamento bem-sucedido é aquele onde gosto da pessoa que eu sou quando estou com a outra pessoa.

O pior relacionamento é aquele que me transforma em alguém que não quero ser.

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Marketing desperdiçado

Saí do restaurante correndo, tentando segurar o choro, mas não consegui.

Do outro lado da rua, havia uma Fábrica de Bolo.

franquia-fabrica-de-bolos-vo-alzira

Pedi uma fatia, qualquer sabor, muita calda. A atendente já devia estar acostumada, pois disse apenas:

“Vai passar, moço.”

E eu, comendo e chorando, só pensava:

“E não é que daria um um puta slogan? “‘Fábrica de Bolo: Vai Passar’!

uso recreativo

proctoderm é um sabonete líquido específico para a região anal.

na maioria das farmácias, ele está na prateleira dos sabonetes.

em algumas, na dos lubrificantes e preservativos.

essas farmácias são as melhores farmácias.

proctoderm

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Leituras comentadas, julho de 2017

Em julho, mais uma vez, quase todas as minhas leituras foram religiosas: Padres do Deserto, Bíblia, meditação budista e cristã.

1. (58) Noite escura, Cruz, c.1580, espanhol.
2. (59) A Noite Escura segundo João da Cruz, Stinissen, 1990, alemão.
3. (60) Cântico dos Cânticos, circa séc.III/II AEC, hebráico.
4. (61) Cântico dos Cânticos, León, c.1560, espanhol.
5. (62) Religiões em Reforma, 2017, português.
6. (63) Meditation, now or never, Hagen, 2007, inglês.
7. (64) Meditação cristã, Main, 1982, inglês.
8. (65) A orientação espiritual dos Padres do Deserto, Grün, 2002, alemão.
9. (66) O caminho do coração, Nouwen, 1981, inglês.
10. (67) A sabedoria do deserto, Merton, 1960, inglês.
11. (68) The Prophets, Heschel, 1962, inglês.
12. (69) Odisséia, Homero, c.séc.IX AEC, grego.
13. (70) O livro aberto, Lourenço, 2015, português.

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o que você gosta de ouvir?

o que você gosta de ouvir?, me perguntou uma amiga

eu: gargalhada feminina. batidas rápidas no han simbolizando o começo iminente do zazen. alho refogando. zíper abrindo. ondas quebrando. gemidos de gozo. criança brincando. zumbido de ar-condicionado começando a funcionar. dois sapatos caindo no chão, lentamente, um depois do outro. o apito do sorveteiro que passava pela minha casa. passos descalços no chão frio. “eu te amo, alexandre.” o rabo da capitu batendo na máquina de lavar enquanto estou abrindo a porta de casa. saltos altos estalando no mármore. máquina de escrever elétrica. “ó o biscoito globo, ó o mate leão.” pisada forte de mulher decidida. apito do recreio. pernas femininas, vestidas de couro ou látex, roçando uma contra a outra enquanto andam. o porteiro quando diz: “tem pacote pra você, seu alex.” suspiro saciado de prazer. gemidinhos da capitu sonhando. o sino do jikidô simbolizando o fim do zazen.

ela: não. eu quis dizer de música.

eu: ah.

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Meninas que saem da água

Qual é o primeiro espaço de onde as meninas são expulsas?

mulheres expulsas da praia

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carnéades

o filósofo grego carnéades foi a roma em missão oficial.

diante do senado romano, ele deu uma palestra onde, através de argumentos precisos, lógicos e apaixonados, demonstrou as virtudes da justiça.

no dia seguinte, carnéades voltou ao senado romano e deu uma nova palestra onde, através de argumentos precisos, lógicos e apaixonados, demonstrou que não existia justiça, que ela não era necessariamente virtuosa e que servia apenas como uma convenção para manter a ordem social.

e voltou para a grécia.

os romanos, que de bobos não tinham nada, proibiram o exercício da filosofia.

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Odisseia, de Homero

A Odisseia, de Homero, é a primeira grande história de aventuras da tradição ocidental. Indispensável para qualquer pessoa interessada em literatura.

Mas prefiro a Ilíada.

odisseia cia das letras lourenço

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Os Padres do Deserto

Foram talvez os últimos cristãos verdadeiros, os últimos iconoclastas que escolheram seguir os ensinamentos da pessoa Jesus em detrimento das ordens da instituição criada por Paulo.

padres do deserto

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Por quê?

Um tipo de pergunta que me fazem muito:

“Alex, no templo zen, por que vocês meditam de frente para a parede? Ou se prostram para o altar? Ou andam em ângulos retos?” etc etc.

question everything why

E só tenho uma resposta:

“Não sei. Por toda a minha vida, sempre fui a pessoa que queria saber o porquê de tudo. Hoje, minha prática zen é desapegar do meu ego questionador e aprender a fazer as coisas sem precisar saber seus porquês.”

Você e eu não temos direito a nada

Temos como suprir toda necessidade, só não temos como suprir toda ganância:

“Somos ladrões. Se pego algo que não preciso para uso próprio e imediato, e guardo essa coisa comigo, então estou roubando-a de outra pessoa. … É uma lei fundamental da natureza, sem exceção, que ela produz o suficiente para nossas necessidades do dia a dia, e se todos pegassem somente o suficiente para si e nada mais, não haveria mais miséria nesse mundo, não haveria ninguém morrendo de fome nesse mundo. Mas, enquanto tivermos tanta desigualdade, teremos também essa roubalheira. … Na Índia, temos três milhões de pessoas que precisam se contentar com uma refeição por dia … Você e eu não temos direito a nada que possuímos até que esses três milhões estejam melhor vestidos e alimentados.”

Gandhi, sobre Trusteeship.

gandhi na cinelândia