Dicionário

5 março, 2012 § 5

FaronzadoAdjetivo e substantivo masculino. Aquele que foi ou sofreu faronzamento.

FaronzadorAdjetivo e substantivo masculino. Aquele que pratica o faronzamento, de forma amadora ou profissional.

FaronzamentoSubstantivo. Ato ou ação de faronzar.

FaronzarVerbo intransitivo. Realizar o faronzamento.

FaronzívelAdjetivo de dois gêneros. Que pode ser faronzado.

FaronzoSubstantivo masculino. Brincadeira na qual dicionaristas competem para ver quantos verbetes conseguem compor, todos remetendo uns aos outros, sem nunca revelar o significado da palavra sendo dicionarizada. Ganha quem causar mais suicídios em revisores, tradutores, escritores.

a sensação do trabalho

3 março, 2012 § 1

um colega e eu tínhamos que ler o mesmo romance para uma aula. ele pegou o livro, sentou numa mesa, espalhou cuidadosamente seus marcadores, cadernos, post-its. eu me larguei num sofá, fumando um cachimbo.

perguntei: “não vai querer sentar?”

ele: “não. se fico num sofá e não numa mesa, eu não sinto como se estivesse realmente trabalhando.”

eu: “curioso. é exatamente por isso que eu fico no sofá.”

quem eu era e quem eu sou

1 março, 2012 § 15

há dez anos, em julho de 2002, quando ainda assinava outro nome, criei um site de escritor. seu objetivo era divulgar meu romance mulher de um homem só e meu livro de contos onde perdemos tudo, ambos oferecidos para download gratuito. para falar um pouco de mim, escrevi um “quem sou eu”.

em uma enorme ironia, esse texto sobre arte e originalidade foi copiado e plagiado justamente pelas pessoas que mais gostaram dele e que menos entenderam sua mensagem.

a busca por algumas frases esparsas revela milhares de resultados: “aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho” (9.840), “assunto tende a brochar por aí” (1.870), “não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou” (61.800), “Ser artista independe de fazer arte” (2.430), “Quando me dei conta disso, chutei o balde” (1.230), “Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo” (1.100), “Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida” (3.460), etc. (escrevi sobre isso aqui e aqui.)

o texto foi se modificando ligeiramente ao longo dos dez anos de uso. abaixo, algumas versões:

Quem eu era em 2003

Meu nome é Alexandre Cruz Almeida e tenho 29 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alexandre. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa, à qual me dedicara exclusivamente por três anos, e fui dar aulinhas de inglês em cursinhos vagabundos. Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Leio, escrevo e passeio, exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Recomendo a todos ler meu romance, Mulher de um Homem Só, disponível pra download abaixo. Ele é curtinho, tem 50 páginas, e eu adoraria saber sua opinião. Se tiver tempo e gostar muito do romance, leia também os contos de Onde Perdemos Tudo, mas comece pelo romance.

Esse blog é sobre liberdade e literatura e sobre o processo de libertação pelo qual venho passando desde que chutei meu balde e abracei um estilo de vida diferente. Tudo regado a muito humor e literatura.

Espero que esteja gostando da visita, e que volte ainda muitas outras vezes.

Um grande abraço,

Alexandre Cruz Almeida

Quem eu era em 2006

Meu nome é Alex Castro e tenho 32 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alex. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa e fui dar aulinhas de inglês. Casei e separei. Escrevi e rasguei. Chupei e lambi.

Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Faço pão e fumo cachimbo. Beijo pezinhos e brinco com o cachorro. Leio, escrevo e passeio. Exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Hoje, tenho uma bolsa de estudos no exterior e morro de saudades dos amores que deixei no Brasil. Sou feliz.

O meu blog, Liberal, Libertário e Libertino, é sobre o processo de libertação pelo qual venho passando desde que chutei meu balde e abracei um estilo de vida diferente. Atualizado todo dia, com muito humor e literatura.

O site onde você está agora funciona como o arquivo dos meus melhores textos, sobre diversos assuntos. A maioria dos leitores prefere as prisões. Dê uma passeada e veja o que acha. Depois, me conte.

Por fim, se quiser ler mais, considere comprar meu livro de contos Onde Perdemos Tudo. É baratinho e você vai estar retribuindo um autor batalhador por todas as suas horas prazeirosas (espero!) de leitura aqui no site.

Um grande abraço,

Alex Castro
Nova Orleans, Novembro de 2006

Quem eu era em 2011

Meu nome é Alex Castro e tenho 37 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alex. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa e fui dar aulinhas de inglês. Casei e separei. Escrevi e rasguei. Chupei e lambi.

Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Faço pão e fumo cachimbo. Beijo pezinhos e brinco com o cachorro. Leio, escrevo e passeio. Exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Sou feliz.

Aqui, você pode comprar os livros, ler algumas das resenhas que receberam, conferir as entrevistas que dei e até ler uma palhinha dos contos. Qualquer dúvida, grite.

Um grande abraço,

Alex Castro

Nova Orleans, junho de 2011

* * *

hoje, esse texto já não me não serve. discordo de seus pontos mais fundamentais.

por isso, faço a doação em vida: que passe a pertencer a quem dele se apropriar e que viva eternamente em perfis de sites de namoro e em quem-sou-eus de blogs teens.

abaixo, minha nova biografia. talvez não poética, mas madura.

Quem sou eu em 2012

sou alex castro. por enquanto. em breve, nem isso.

estudei em boas universidades que não menciono para não ser pedante. vivi coisas lindas que não conto pois não vêm ao caso. passei por aventuras perigosas que não revelo para proteger os envolvidos. amei mulheres incríveis que não nomeio pois seria deselegante.

cheguei aos 38 e descobri que minha vida, apesar de vivida em público há tantos anos, tem mais entrelinhas que linhas.

e com razão. proteger quem dividiu comigo sua intimidade é mais importante do que toda a literatura do mundo. que diferença podem fazer meus diplomas? esse site é para divulgar a minha obra, mas pouco importa quem a escreveu.

escrevo. e esses são meus livros.

alex castro

copacabana, março de 2012

deixados pelo caminho

28 fevereiro, 2012 § 8

ontem, recebi uma amiga que não me visitava desde 2002.

nessa época, eu ainda não tinha conhecido o oliver, era casado e morava com a esposa em um quarto e sala em jacarepaguá. uma casa montadinha. cozinha completa. lavadora e secadora. armários. arquivo suspenso. quadros na parede. presentes de casamento.

hoje, os livros na estante e um sobretudo na arara são os únicos objetos remanescentes dessa minha outra vida.

o calor londrino & outros aforismos expatriados

27 fevereiro, 2012 § 0

Na Alemanha, respeita tds as leis. Desembarca no Galeão, aluga jipe & sai dirigindo como vândalo. Liberdade uber alles.

* * *

O mineiro Jean Charles foi confundido c/terrorista p/usar casaco pesado em dia quente d verão londrino. Fazia 15º.

* * *

Em Utah, dona-d-casa diz p/faxineira: “felizes são vcs, q tem cultura, cinco d mayo, dia d los muertos, tacos, burritos. Na América, ñ temos nd!”

* * *

Turista holandês na Faria Lima. Roupa cáqui, chapéu d abas moles, mochilona, garrafa d’água. Como se atravessando deserto inóspito.

* * *

Viajou p/Bolívia c/1 iPod q sustentaria 1 família inteira. Foi morto em Cochabamba & sustentou 1 família inteira. Comeram até filé.

* * *

Quis conhecer França. Leu Flaubert, viu Truffaut, namorou a parisiense do consulado. Ficou satisfeito. Agora, China.

* * *

Seleções do meu novo livro, Viagens na terra dos outros — aforismos turísticos & expatriados, 100% inédito, exclusivo para Kindle, só $2,99. Por esse preço, você pode arriscar, né? Compre aqui.

viagens na terra dos outros — aforismos turísticos & expatriados

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a vida, pesada

25 fevereiro, 2012 § 13

aos 38, finalmente entendo quem desiste do amor.

para muitas pessoas, essa decisão pode ser o ponto ótimo de equilíbrio entre uma libido cada vez mais enfraquecida e um acúmulo de más experiências cada vez mais paralisante.

não estou lá ainda — mas agora entendo.

hoje, minha capacidade de amar me parece um velho número de telefone que costumava saber de cor. você não sente a existência dele no seu dia-a-dia, mas quando puxa, ele vem — até o dia em que descobre, muito para sua surpresa, que aquela gaveta mental está vazia. 345 ou 355? já não sabemos mais.

algo com que sempre contei não está mais comigo. algo que pode voltar em dois meses, ou dois dias, ou nunca, me deixando pra sempre um velho tio solteirudo.

e, pior, feliz e satisfeito em sua decisão de desistir do amor.

* * *

“Ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma. E para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa, pois tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros nos vários rebanhos. (…) Há no mundo ódio a exceção e ser si mesmo é ser exceção.” (Roberto Freire, em sua Autobiografia)

* * *

minha vida, que sempre foi tão leve, ficou pesada pela primeira vez — e estou tentando recuperar o homem que sempre fui, um dia de cada vez.

mas ser você-mesmo, ser o você-mesmo-que-você-quer-ser, é um exercício diário, constante, sisifeano. é um contínuo perguntar:

o que o alex-que-eu-quero-ser faria agora?

metas para 2012

25 fevereiro, 2012 § 1

falar mais baixo.

não brigar com a mãe.

Entrevista de Alex Castro à Rachel Glickhouse

24 fevereiro, 2012 § 0

Entrevista concedida a Rachel Glickhouse, do blog RioGringa, a 21 de fevereiro de 2012.

This week, I had a chance to catch up with Alex Castro, 304688606_815f7c6a4b_oone of my favorite Brazilian bloggers. He has a  keen and critical eye for some of the most sensitive social issues in Brazil, including racism, machismo, and domestic workers. After living abroad, he also writes with an fascinating perspective on social differences between the United States and Brazil. He writes his own blog, Liberal Libertário Libertino, as well as contributing to Papo de Homem. He’s also written several books, including short stories and novels. He also was one of the founders of the hit Tumblr Classe Média Sofre, a crowdsourced blog that pokes fun at Brazil’s middle class. It’s become a cultural phenomenon in Brazil, falling somewhere between Lamebook and White Girl Problems, but providing more insight into social idiosyncracies.

We chatted about his return to Brazil from New Orleans, emblematic of Brazil’s increasing reverse brain drain, his various projects, and his thoughts on Brazil’s changing role in the world.

What were you doing abroad?

I was living in New Orleans. I was a Ph.D. candidate at the department of Spanish & Portuguese at Tulane University. As such, part of my duties included teaching classes on the Spanish and Portuguese languages, plus the odd Brazilian literature and culture classes. My dissertation is about slavery (or the lack thereof) in Brazilian 19th century literature.

Can you tell me about why you decided to move back to Rio from New Orleans?‬

I came back because a man who is a living god to me once said: “I celebrate myself, and sing myself, / And what I assume you shall assume, / For every atom belonging to me as good belongs to you. // I loafe and invite my soul, / I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. … / I, now thirty-seven years old in perfect health begin, / Hoping to cease not till death.” And even though he has never died, because he cannot die, I know for a fact that he suffered a stroke 18 years after writing those words.

So, when I turned 37, last year, still in perfect health, and hoping not to cease till death, and not knowing how long would I have before my heart attack, I decided to return home and live the life of a writer. Because if even HE died, what hope can I have? On the contrary, I have to RUN and LIVE. I realized that I was and had always been a Brazilian writer. So even though I had lived in New Orleans for 7 years and could write in English, I had never felt the urge to write to New Orleanians about Rio but, on the contrary, I was always coming up with new things about New Orleans and the U.S. to tell Brazilians. I realized that, in my head, I was always talking and writing to Brazilians. They were my core audience, and so it made no sense to stay away.

Throughout the years, there had always been events and stuff that I was invited to and couldn’t attend because I was in New Orleans. None of them by themselves were a major deal, but the career of a minor independent author is made of baby steps, so I felt my incipient (actually, non-existent) career was at a standstill. Now, for example, I’m going to Belo Horizonte in April for a roundtable about e-books. So I came to Rio and I’m now making a living as a writer, writing and editing for Papo de Homem, translating for Editora Record, and trying to finish my dissertation and my novel.

Tell me about your book, Onde Perdemos Tudo.

It’s actually an old book, written in the early 90s. But I think it withstood the test of time, so here I’m publishing it. It is the only one of my books to be actually published by an actual publishing house. All my other books were self-published. It’s composed of five short stories about loss, all kinds of loss, from losing a friend to losing your wife, or your career.

Why’d you go the self-publishing route with the other books and the publishing house route with this one?

It wasn’t a choice. Nobody wanted to publish the other ones. For Onde Perdemos Tudo, I had a publisher interested in my work and an able literary agent who got her interested. Still, unless you’re a best seller, one can make a lot more money self-publishing.

How has the book been received?

It’s very hard to break through. It has been positively reviewed in blogs here and there, but nothing in the mainstream press. It’s as if the book has never existed. But I have a loyal following of readers, and so it keeps selling. It can be frustrating, but it’s the only way. Baby steps, as I always say. But at least now I’m here to network and promote the books.

In Papo de Homem and your blog Liberal Libertário Libertino, you write a lot about racism and machismo with a critical eye. Why are these issues important to you?

That’s a very good question. I really don’t know. I guess I had a very very privileged, sheltered upbringing, something that I only realized very late in my adult life. So I felt the need to…. give back? Finally look at other people other than myself? That sort of thing. Also, the American academic environment was the main catalyst, that’s for sure. If I had stayed, maybe I’d be reading Veja. I remember I rather liked Diogo Mainardi, if you can believe that.

You have a really unique perspective that’s sometimes hard to find in Brazil, particularly with racism. How did your views on that issue evolve?

People say that I’m bringing racial conflct into Brazil and I argue, Yes! We need more racial confrontation! One of the major problems in Brazil is the fact that we never “confront” the issues.

You’ve also written quite a bit about domestic workers, which is also something of a taboo topic in Brazil. What got you interested in this?

Well, actually it was my interest in slavery. I think domestic workers, as the profession has established itself in Brazilian culture, is a direct relic of slavery. Only a former unapologetically slave-owning country such as we are could ever have such a slavery-like institution as our live-in maids. So it is a bit of the past alive in our daily lives up to today.

On the subject of your blogs, given your perspective and knowledge of these issues, why is it more important for Brazilians to be your audience, rather than an international one?

It’s the other way around. It’s not that talking to Brazilians is more important than talking to an international audience, but rather that I feel I have something to tell, teach, show to a Brazilian audience that I don’t have to an international one.

Let’s talk about Classe Média Sofre, but I noticed you don’t seem to have your name on the blog, at least not very visibly. Is there a reason for that?

Well, for starters, it is a collective and collaborative enterprise, so it’s not mine per se but I’m one of the founders and co-creators. Since then, everyone else has left, other people have gotten involved and left again, and now, pretty much, I’m the only one left managing the business. But the site still depends of the anonymous collaboration of hundreds of people every day. I’m more of a curator than anything else. I try to keep it faithful to its original vision, but mostly the only reason I’m the visible face of it is because I’m a writer, so I need the visibility and it does help me to sell some books. Actually, if it weren’t for that, the site would either still be 100% anonymous or, more likely, I’d have gotten bored and left with everyone else. Still, it’s the one thing I’ve done that I’m actually proud of.

Can you tell me about how the blog got started, and why you thought it would be worthwhile?

Its major inspiration was White Whine and Louis C K, when he says something like this. So a friend and I had the idea, and we started looking for examples. They were so numerous that it took us a day to fill several pages, and two days later we were already receiving more contributions than we could handle. On day 4, I kid you not, on day FOUR, we got our first complaint that the tumblr was no longer as good as it once was.

It caught on pretty fast.

Yes, it was amazing. And people were already self-censoring their worst bullshit pretty fast too. It was inspiring.

The blog’s been featured around the web and it’s literally become a cultural reference. Why do you think it hit a nerve?

Well, on one hand, lots of people feel really really defensive about it. They take the site as a personal attack to them. On the other hand, for several other people, the blog gave them their first way to vent their frustration at some of the most whiny, elitist comments their friends make. You can bet people will say that there’s nothing more classe media sofre than giving this interview in English! I especially love it when people accuse us of being “middle class too,” and of course we are. What did they think we were? Millionaires? Favelados?

What’s the absolute worst thing you’ve posted on there?

There can be no worst. You can always sink lower.

Ok, so your favorite?

“Pior dia da minha vida: acabou o chocolate.” [Worst day of my life: the chocolate is gone.] Simple yet perfect.

Can you tell me your thoughts on the complexo de vira-lata and the obsession with everything foreign/in English?

Brazilians are obssessed with Brazil to an extent that only Americans are obssessed with the U.S. We are truly kindred peoples, yours and mine. I’m pretty sure, given the power, Brazilians would have done every single thing Americans have. Brazilians are as proud, egocentric, and naive as Americans. We have our own version of manifest destiny (the Bandeirantes), etc.

I’ve never seen any people as interested about what people are saying about them abroad. In a way, in Classe Média Sofre, we talk about both sides of this coin. So, in a very schizophrenic way, what comes from abroad can seem very important or not at all important. And of course, I’m guilty as charged, because I travelled, and I studied abroad, and I could have studied anything, I could have dedicated myself to ancient Greece or pure mathematics, but here I am thinking about Brazil and writing about Brazil. It’s kind of a curse, but it was also my choice, so I don’t in any way exclude myself from this. I’m part of it.

Brazil is undergoing so many changes in terms of its place in the world. Is there a chance it could become more insular and inward looking like in the U.S., or is this fascination with other countries here to stay?

I think Brazil is in fact getting more powerful as a country, so other countries will tend to seek Brazil’s opinion or support more often, and consequently, Brazilian politicians and statesmen will be forced to be more versed in international affairs than their predecessors, and consequently, the Brazilian voter as well. You can see that starting. These past years, Honduras, Cuba and Iran were more talked about, even during elections, than I had ever seen before. In elections before 2010, foreign affairs had never had any relevance at ALL.

When I started teaching Portuguese in the U.S. in 2005, most of my students were there because they had a Brazilian signficant other, or a Brazilian parent, or liked bossa nova and City of God. Period. When I left, in 2011, most of my students were actually seeking employment, business or research opportunities in Brazil. There were lawyers and business majors; most of them had not watched City of God, but they knew about Petrobras, pre-salt and biofuel. It was a complete revolution in less than 6 years. Several  of my former students are now either working and living in Brazil, or living in the U.S. but working as “Brazilian liasons” with companies that do business in Brazil.

I think it’s exciting and I’m a part of it. I’m part of a large reverse migration of Brazilians coming back from abroad these last few years, exactly because of all these opportunities, but it’s important not to let this go to our heads.

Why’s that?

The United States was once a country that was actually a beacon of democracy and of high ideals, before it stated having imperial dreams and conquering Mexico, the Phillipines, Cuba, etc. Brazil was an actual empire-empire once. People were afraid of us in the 19th century (my main area of knowledge). Brazil used to topple Uruguyan presidents in the 19th century the same way Americans did to Central American ones in the 20th century. Besides, we do tend to be overconfident and overindulgent. Raising people from poverty should continue to be number one priority.

So you don’t want history to repeat itself, in other words.

Actually, that particular history has no chance of repeating itself, I think. But we can be stupid and overconfident in several new ways now.

What are your hopes for the future now that you’re back in Brazil?

My main priority is being a writer. That’s all I know how to do. Write, write, write, until I die. That’s my only ambition. Get some writing done. Publication will take care of itself, or not. But time is running out and I need to get some books out of me. That’s it.

16 anos

16 fevereiro, 2012 § 8

menino de 16 anos, namorando menina de 14, relacionamento super complicado, brigas com pai dela, maior drama, e eu ouvindo aquilo tudo, e ele me pede um conselho, “alex, o que eu faço? me diz!” e eu, deus que me perdoe, mas, sinceramente, a única coisa que conseguir dizer foi, “não tenha 16 anos. ter 16 anos é uma merda“.

* * *
hoje faço 38. recomendo.

o bom nome das brasileiras & outros aforismos de turismo sexual

6 fevereiro, 2012 § 2

Formou-se bióloga em Goiânia. Nunca conseguiu emprego na área. Virou puta na Espanha.

* * *

Era puta em Copacabana. Conseguiu bolsa d estudos p/mulheres negras latinas. Virou doutora na Inglaterra.

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Vem ao BR a cd 3 meses. Traz presentes. Namoram, saem, transam. Diz q 1 dia vão casar & morar em Greenville USA. Tá.

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Namora gringo gay, mas só p/sustentar família. Se diz Homem c/H. Gringo é padrinho d seu filho, traz presentes p/sua esposa, mete no seu cu.

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P/gringo, é unbelievable trabalho q dá manter aquele belo Brazilian cock. O + sexy é ele ser tão machinho, se dizer até Homem c/H.

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Jineteira. Do verbo “jinetear” ou “montar cavalos”. Cubanas q montam nos turistas & carinhosamente lhes extraem dólares.

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Estudou engenharia na Univ d Habana. Pós-graduada, 3 línguas. Passa verões no Malecón, jineteando canadenses.

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Estudou engenharia na Univ of Ontario. Pós-graduado, 3 línguas. Passa verões no 3º mundo, namorando mulatas.

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P/ela, turistas eram fonte d dinheiro fácil. P/ele, mulatas eram fonte d sexo fácil. Quem estava enganando quem?

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Ele se aproximou dela p/sua beleza latina; ela, p/seus dólares canadenses. Vejamos o q acaba primeiro.

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É d Ipanema & odeia oportunistas q vão p/Europa & sujam bom nome das brasileiras: “sou estudante d pós, sou honesta, ñ sou dessas, ñ!”

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É da Pavuna & odeia moralistas q vão p/Europa & lhe criticam p/trabalhar duro: “ñ conheci pai, ñ fiz univ, tenho filho p/criar!”

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Moscou. Discurso d brasileira no bar: “vcs acham q BR é só samba, sol, sexo, mas temos Petrobras, Fiocruz, Embrapa!” Russo: “bela bunda”.

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lei da brasilidade performática

2 fevereiro, 2012 § 1

Alemã q tinha tesão p/brasileiros queria mãos calosas & pele morena, samba & MPB, não ruivice & palidez, Nelson Freire & Ana Botafogo.

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Aprendeu a ser brasileiro na Espanha. Sambou, comeu feijoada, foi à missa. Em SP, ouvia jazz, era ateu, vegano.

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Roma. Mostrou à namorada italiana sua música brasileira preferida. “Manuel”, d Ed Motta. Ficou indignada: “isso ñ é música brasileira!”

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Lei da brasilidade performática: maiores vantagens vão p/imigrante q melhor interpreta a brasilidade q nunca teve em casa.

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viagens na terra dos outros — aforismos turísticos & expatriados

30 janeiro, 2012 § 2

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sou ateu porque preciso

18 janeiro, 2012 § 14

Confesso: eu acredito viver no melhor universo possível.

Não suportaria existir em um universo regido por uma força divina misteriosa e caprichosa.

Não suportaria saber que minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos, e com base em critérios inescrutáveis.

Não suportaria saber que vou seguir nascendo e renascendo, quase que infinitamente, mas sem lembrar de nada!

Se existe deus, então a vida não tem nenhum sentido. Quem tem sentido é deus e o nosso sentido provém dele. Não somos mais do que suas cobaias, manipulados daqui pra lá, correndo como hamsters naquelas rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros propósitos. Ao seu bel-prazer, somos mortos, escravizados, santificados, até mesmo afogados em massa, quando falha o experimento.

Se existe deus, então todos os esforços da humanidade para se entender e se auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada valem. Se existe deus, então não existe ética ou moralidade: somente adequção ou não às regras impostas pela divindade.

Se existe deus e temos o livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e pode ser tirada tão facilmente quanto.

Já disseram que, se deus não existe, então tudo é permitido. Mas se deus existe, por outro lado, então não vale a pena fazer nada, pois nada faz sentido.

Um leitor questiona:

“Para mim, a grande questão não é se deus existe ou não, mas se nós vamos de alguma maneira continuar existindo depois da morte. Eu acredito que vamos continuar, de alguma maneira. Tenho que acreditar. Porque se não vamos, o que é essa vida senão um sonho? Aí é que ela vida não tem mesmo sentido, propósito nenhum. Se não há sentido para quê continuar? Por que não dar um tiro na cabeça daqui a cinco minutos(quando terminar o café)?”

Eu não dou um tiro na cabeça agora porque (além de não ter uma arma) quero saber o fim da novela, porque ainda há uns dois mil livros que eu quero ler e umas cem mulheres que quero comer, porque eu quero assistir os próximos filmes do Almodóvar pra saber o que esse louco vai aprontar, porque ainda falta eu escrever no mínimo uma dúzia de livros que tenho dentro de mim, e etc etc. Será que tudo isso não é motivo suficiente pra não se enfiar uma bala na cabeça?

Talvez deus realmente exista. Sinto calafrios com essa possibilidade mas, sim, talvez sejamos todos somente marionetes em seu projeto cósmico.

Mas, se não podemos ter liberdade, melhor a ilusão da liberdade do que nada.

Sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das evidências empíricas, que não existe base factual para sustentar a existência de deus.

Sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser humano em um universo sem deus.

Sou ateu porque preciso.

* * *

O texto acima foi originalmente publicado em janeiro de 2005, como parte da Prisão Religião, e foi posteriormente tirado do ar. Hoje, descobri, para minha surpresa, que ele é muito popular e já foi republicado por dezenas de blogs. Então, coloco no ar de novo, para que exista uma versão, digamos, “original”.

o lado cômico do edifício master

31 dezembro, 2011 § 0

Aprendi muito sobre natureza humana durante o documentário Edifício Master.

Os entrevistados contaram coisas sérias e profundas, expuseram suas vidas frente às câmeras. E a platéia riu.

Quando não eram gargalhadas, era aquele silêncio de tsc tsc, aquele silêncio de coitadinha, aquele silêncio de que moça iludida. A empatia (sic?) do público oscilava entre escárnio e pena, sem meios-termos.

Edificio MasterFace ao estranho e ao novo, face às idiossincrasias de pessoas comuns, seus erros de gramática, suas ilusões e seus medos, o público ria de se descabelar, como se diante de um novo personagem do Casseta & Planeta: primeiro o Massaranduba, depois o Seu Creysson, agora a moça agorafóbica, com problemas mentais aparentemente sérios, que fala de modo muito estranho, nunca olha pra câmera e faz poemas em inglês aliás perfeito. A platéia parecia uma claque, de tanto que ria: ficaram faltando só os aplausos quando o personagem entra em cena e, claro, um bordão. Mais um novo personagem pro imaginário popular, tão engraçado quanto o Capitão Gay ou o Professor Raimundo.

A medida que a moça falava, entretanto, o riso foi se abafando, como se baixasse a convicção incômoda de que ih não, ela é de verdade, agora que lembrei, não posso rir, não tem graça. Uma das pessoas que estava comigo até comentou que só se sentiu mal mesmo de ter rido dessa moça. Mas riu. E não riu sozinha.

O humor se baseia em surpresa, inversão de expectativas e, principalmente, crueldade. Um dos axiomas do humor é que, pro público gargalhar, alguém tem que se estar dando mal. Não existe gargalhada do bem.

A grande diferença é que essa moça não é um quadro da Praça É Nossa. Ela é real, e não estava contando algo pra fazer rir, estava falando do seu namorado, de seus poemas, de Nova Orleans, de sua vida e do seu futuro.

Os artistas se expõem, por dever de ofício, ao escárnio público. Ou à glória pública. Ou ao mais absoluto descaso público. O artista é aquele pobre coitado da quermesse, que coloca sua cara no buraco e se expõe às tortas dos visitantes atiram. E quem lhe acertar bem no nariz, ainda ganha um ursinho. O artista que surtar quando seu trabalho for ridicularizado deveria ter estudado odontologia, como seu avô queria.

O artista sabe o quanto está se expondo.

Os entrevistados do Edifício Master sabiam?

Acho que não. Falaram com uma simplicidade e uma sinceridade que não dedicamos nem aos nossos psicanalistas. Falaram de coisas sérias e profundas e, com certeza, nunca lhes ocorreu que aquelas coisas sérias e profundas, ditas com seriedade e profundidade, seriam ouvidas com algo que não fosse seriedade e profundidade. Falaram sério e esperaram ser levados a sério. Será que ouviram as gargalhadas?

O diretor Eduardo Coutinho disse ter feito o possível, durante a edição, para minimizar o patético, pra não expor ao ridículo aquelas pessoas que, com ingenuidade até, haviam se aberto tanto pra ele. Eu acredito. O filme, hora alguma, estimula o patético ou enfatiza o risível. Mas, mesmo assim, no lugar dele, eu teria ficado desesperado.

Eu teria levantado no meio da sessão, parado tudo, mandado acender as luzes. E ficaria gritando, pregando no deserto, desesperado, dizendo não, gente, não é assim, não é isso que eu quis mostrar, isso não tem graça, essa velhinha é uma pessoa maravilhosa, o que ela falou é sério, muito sério, vocês não vêem?

Iriam rir dele também.

(Originalmente publicado em 2002.)

a nódoa da escravidão

15 novembro, 2011 § 1

Um dia, enquanto passeava com o Oliver aqui pelo meu bairrinho universitário classe média em Nova Orleans, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:

The South Will Rise Again (“O Sul se Erguerá de Novo”)

Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.

E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.

Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo “O Brasil Crescerá” despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.

Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas… por que não? A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul dos EUA teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.

Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.

diálogo nas escadas

24 outubro, 2011 § 2

Descendo as escadas do meu prédio, encontro uma senhora sentada nos degraus, fumando.

“Boa noite!”, eu digo.

Empolgada, ela responde automaticamente:

“Boa noite!”

Mas logo depois pensa um pouco e se corrige:

“Boa tarde, na verdade!”

Ao ouvir aquilo, me dou conta que são onze da manhã e falo:

“Na verdade verdadeira, bom dia! Mas tudo bem, domingo é mesmo o dia de esquecer da rotina, dos dias, das horas.”

E ela:

“Hoje é sábado.”

“Então realmente não sei mais porra nenhuma.”

E desci.

cada coisa na sua hora

18 outubro, 2011 § 0

Existem fases na vida em que as experiências se acumulam com tanta velocidade e intesidade que é impossível conseguir tempo e paz para escrever sobre elas.

Existe fases na vida onde o tédio é tão absoluto que não há outro modo de tornar a vida tolerável a não ser escrevendo.

Se na primeira fase você se forçar a parar de viver para sentar e escrever, você não terá experiências sobre as quais escrever.

Se na segunda fase você se forçar a tirar o pijama e ir ver o sol brilhar lá fora, você nunca conseguirá escrever sobre as experiências que viveu.

amor silencioso

17 outubro, 2011 § 1

Na última parada antes da ponte Rio-Niterói, entra um casal no ônibus.

A menina vem se sentar no mesmo banco que eu. Baixa, branca, bonita. Pintinha nos lábios e flor nas sandálias.

O menino fica em pé ao seu lado. Negro, alto, bonito. Camiseta branca e boné vermelho.

Ambos surdos-mudos, ambos claramente apaixonados. Eles se beijam, se tocam, se gesticulam, totalmente absortos um no outro.

Junto com eles, entra também um mendigo de muletas, absolutamente imundo, incrivelmente fedido, definitivamente bêbado.

Senta-se do outro lado do corredor, em frente à menina, e começa a gritar impropérios sem dono. A zoeira é tanta que não consigo nem mesmo ler. À minha volta, todos estão visivelmente contrariados e incomodados. Rangem os dentes, tapam os narizes.

Enquanto o ônibus atravessa a belíssima baía de Guabanara, o mendigo gritando e os passageiros sofrendo, o casal se beija completamente impermeável ao mundo lá fora. Fechados em uma bolha de silêncio e amor.

multidão de boa-vontade

13 outubro, 2011 § 0

hoje, na marquês de abrantes, em frente ao senac.

uma senhora está falando ao telefone e, de repente, seus joelhos fraquejam e ela cai bem devagar. todos a volta correm até ela.

segundo me disseram, era uma funcionária do próprio senac e tinha acabado de ser informada. o menino de camisa branca, andando pela calçada na hora errada no local errado, morto pela explosão da manhã, era seu sobrinho.

fiz menção de ajudar, mas não foi necessário. ela foi lentamente levada de volta ao senac, amparada por uma verdadeira multidão de boa vontade.

sangue e morte na noite de natal – um conto de terror

6 setembro, 2011 § 2

I

A Fantasia

SEU NICANOR APERTOU O máximo que pôde a barriga.

— Força, Nicanor! — Disse dona Gracila — Está quase entrando!  Só mais um pouquinho!

— Se eu respirar, essa calça arrebenta!

— Sshh!  Pronto, entrou!

— Tudo pelos netos! — Ele disse, suspirando.

— Agora falta a barba.

— Por que você não me arranjou uma fantasia maior, hein Gracila?

— Foi só o que eu consegui, assim de última hora.   Fica quieto, senão a barba não pára no lugar.

— Tá pinicando. — Ele reclamou.

— Tudo pelos netos, você mesmo quem disse.

— Tudo pelos netos! — Ele repetiu.

— Os meninos vão adorar, Nicanor!

— Grande consolo…

— Está perfeito.  Não falta nada.  Você se lembra de tudo?

— Claro.  Não posso respirar fundo, senão a calça rasga.

— Não é isso!  Assim que eu bater na porta, você sai pelo quintal, sobe até o telhado, bota a escada dentro da chaminé e desce.  Entendeu?

— Perfeitamente.

— Então tchau.

Saiu e foi pra sala com o resto da família.

Seu Nicanor, cansado da batalha contra a roupa, pegou a Manchete da semana que estava jogada em um canto e começou a folhear a revista.  Passou direto pela reportagem de capa, sobre os crimes do natal.

O artigo listava vários casos acontecidos no natal passado e, como estes permaneciam insolúveis, se perguntava se eles voltariam a acontecer este ano.  Dentre eles, o mais pacífico era o do assaltante que se fantasiava de Papai Noel para invadir casas e roubá-las, e o pior, o do louco não identificado que chacinava qualquer um fantasiado de Papai Noel.  Nos últimos anos, dezoito Papais Noéis haviam sido mortos.

Mas para seu Nicanor, o natal não é época de se pensar em crimes.  Pulou a tal reportagem e começou a ler outra, ilustrada com fotos coloridas, sobre o natal em Copenhague.

Suspirou.

 

 

II

A Chaminé

Sobre a mesa, as rabanadas estavam no fim, devoradas pelas crianças.  Os adultos, em sua maior parte, se concentravam nos bolinhos de bacalhau e nas frutas gordurosas.  O peru, o pernil e o presunto, segundo ordem inabalável de dona Póvoa, eram proibidos até a meia-noite.

Seu Heliberto, o dono da casa, perguntou para a esposa se o Papai Noel ainda demoraria muito.

— Não sei de nada. — Respondeu dona Póvoa — Mamãe é que está cuidando disso.

Dona Gracila, vinda dos quartos, foi capturada por seu Heliberto:

— Tudo bem com seu Nicanor? — Ele perguntou.

— Tudo.

— Como é que ele vai descer pela chaminé?

— Usando a escada.

— As crianças não vão ver a escada?!

— Não se a gente ficar em frente à lareira.

— Ah, entendi… — Consultou o relógio — São onze e quarenta.  Está ficando tarde…

— O Nicanor vai descer às dez pra meia-noite.  Ele só está preocupado se a lareira não está suja por dentro.

Seu Heliberto riu.

— Não tem problema nenhum.  O Ladislau limpou ela anteontem.  Eu verifiquei!

— Maravilha então!  Vai dar tudo certo, com certeza.

 

 

III

O Retrato

— Pára de enfiar essa mão cheia de dedo por debaixo da minha saia, por favor!

— Ah…

— Eu grito.

— Tá bom!  Tá bom!  É que eu não aguento te ver assim!

— Se não aguenta, avisa que eu vou embora.

— Fica.  A festa está boa.

— É que eu não conheço ninguém, Beraldo.

— Eu  não sirvo?  E é melhor que passar o natal na sua casa.

Fréia parou um pouco para pensar em seus pais, mas não muito, para não estragar a noite.

— Tem razão. — Concordou, de cabeça arriada.  Depois, mudou de assunto: — De quem é aquele quadro ali na parede?

Beraldo estava esperando a pergunta.  O quadro brilhava sob o luar, que o atingia em cheio, ficando ainda mais imponente.

— É o meu bisavô, Pompílio.  Foi ele que construiu essa casa aqui em Capivara, muitos anos atrás.  Depois ela passou pros meus avós, e quando morreram, ficou com meus tios.

— Ele tem uma cara estranha, não é?  Parece meio mau… — Na verdade, o que Fréia queria dizer é que era um dos quadros mais assustadores que ela já vira.

— Deve ser por causa da maldição… — Deixou escapar Beraldo, assim como quem não quer nada.

— Maldição?! — Exclamou Fréia, bem feminina.  Ele teve vontade de agarrá-la ali mesmo, mas era melhor acabar a história primeiro.

— Ele não gosta de gente demais na casa dele.

Fréia olhou em volta.

— Como hoje?

— Como hoje.

— Mas aí o que acontece? — Fréia, em um gesto inocente, colocou a mão na coxa dele.

Beraldo sorriu.

— Ele sai do quadro e alguém morre.

— Isso já aconteceu antes?

— Não sei, talvez sim, mas há muito tempo. — Disse ele, puxando no suspense — Meus avós estavam dando uma festa barulhenta, gente falando alto, tumulto etc.  O bisavô se irritou, saiu do quadro e um dos convidados, quando viu o retrato vazio, teve um ataque cardíaco e morreu — o que acaba com qualquer festa.  Missão cumprida, o bisavô voltou para o quadro e há quem diga que ele estava sorrindo e com os olhos brilhando…

— Ainda bem que ninguém está fazendo barulho.

— É.

— Dá pra tirar essa mão da minha coxa, por favor?!

 

 

IV

O Marambaia

— Ai, — Disse dona Póvoa, calçando as luvas — estou preocupadíssima com o Heliberto.  Não consigo nem dormir direito!

— Como assim? — Perguntou dona Sena.

— É esse trabalho de maluco dele! — Desligou o forno — Acho que ele se dedica demais, e acaba se metendo em confusão…  Estou morta de medo!

— O Heliberto sabe se cuidar, Póvoa.  Ele é muito responsável.

— Não é isso, Sena! — Tirou o arroz à grega do forno e passou-o à cunhada — É esse Marambaia que me apavora!

— Marambaia?

— Você não lembra, menina?!  Aquele psicopata horroroso que matou a família toda a golpes de pá, e que o Heliberto condenou!

— Ah!

— Pois você acredita que o homem fugiu da prisão?!

Dona Sena estremeceu e quase deixou cair a jarra de sangria que estava segurando.

— Eu não li nada—

— A polícia quis manter o assunto fora dos jornais pra não apavorar a população, mas o Heliberto foi informado através da promotoria.  E ainda recusou a proteção policial!

— O Marambaia não tinha jurado se vingar do Heliberto?

— Sena, você acha que eu estou preocupadíssima por quê?  Ele disse que ia pegar o Heliberto e arrancar todos os seus dedos das mãos e dos pés a dentadas.  E nós temos crianças aqui e tudo!  Como é que ele me recusa a proteção policial?!

Dona Sena se recostou na pia da cozinha.

— Agora quem está nervosa sou eu!

 

 

V

O Caxambu

Tacinho veio pulando para cima de seu tio.

— Tio Beto, cadê o Caxambu?

Ele sabia que a pergunta era inevitável.  O sobrinho sempre fora afeiçoado ao cachorro e não iria deixar de notar sua ausência.  Tentou explicar:

— O Caxambu foi embora, Tacinho.  Pro céu dos cachorros.

— Embora?

— É.  Ele estava cansado e precisava descansar um pouco.  Papai do céu chamou ele.

— Mas eu queria tanto ver o Caxambu!

— Não fica triste não, Tacinho.  A gente compra outro cachorro igualzinho ao Caxambu.

— Eu não quero outro cachorro.  Eu quero o Caxambu.  Ele é meu amigo.

Antes que Heliberto soltasse mais uma pérola da psicologia infantil, Beraldo se interpôs entre o tio e o irmão:

— Mamãe tá te chamando lá na cozinha, Tacinho.

Feliz em se esquecer do cachorro fora de seu alcance, Tacinho trotou até a cozinha.

— É verdade que o Caxambu morreu? — Perguntou Beraldo, quando seu irmãozinho estava longe.

— Encontramos ele no quintal ontem de manhã.

— Poxa, que chato.  O que foi que houve?

— A gente acha que uma onça pegou ele.  Sabe como é, os fundos da casa dão pra floresta e às vezes aparece uma.  O Caxambu estava todo estraçalhado no quintal, meio comido até.

— Que horrível!

— Tinha umas pegadas em volta, marcas de garra, mas os fiscais do Ibama disseram que era grande demais pra ser de onça.  Havia tufos de pêlo preto por todo lado também, só que como o Caxambu era bem branquinho, isso complicou ainda mais a situação.  O pior é que outros bichos foram atacados pela redondeza nos últimos dias e ninguém sabe o que pode ser…

Beraldo, entristecido pela perda do cachorro de que também gostava, foi se debruçar na janela da casa e ficou ali, admirando a lua cheia que brilhava no céu.

 

 

VI

O Homem no Quintal

Seu Nicanor, ainda lendo a Manchete e suando dentro da sua nada tropical fantasia, ouviu as batidinhas na porta do quarto.  Era a sua deixa.  Saiu correndo pelos fundos da casa.

O homem que estava no jardim, surpreso pela súbita aparição do Papai Noel, se escondeu atrás de uma árvore.  Observou seu Nicanor com atenção enquanto este arrumava o saco de presentes em suas costas e começava a subir a escada em direção ao telhado.

Com cuidado para não ser visto pelo velho, o homem se aproximou cauteloso da escada e quando Papai Noel estava quase lá em cima, o homem segurou-a com firmeza e começou a balançá-la.

 

 

VII

Os Brincos

— Quer parar, por favor, Beraldo?!

— É que você tem uns pezinhos tão bonitinhos…

— Faz cócegas e eu não gosto.  Que mania!

— Bem, — Disse ele — você acabou encontrando com o seu pai hoje?

— Eu não queria não, mas é véspera de natal e não teve jeito de fugir.

— Quando é que vocês vão resolver esse problema?

— Pelo visto, nunca.  Agora, depois que tudo mais falhou, ele está tentando me comprar.

— Como assim?

— Precisa ver o presente que ele me deu hoje. — Afastou os cabelos para que Beraldo pudesse observar o lóbulo de sua orelha.

— São brincos lindos!  Devem ter custado uma nota!

Ela fez cara de desprezo.

— Vê-se logo que você não conhece meu pai.  Eu sei bem a história desses brincos.  Li sobre eles na Marie Claire.

— História?

Levantou de novo os cabelos:

— Apresento-lhe os famosos Brincos Dourados da Morte, como foram apelidados pela imprensa marrom brasileira.

— Acho que eu ouvi falar.  Não é aquele que todos os donos— Se calou de súbito.

— Pode dizer, eu não tenho medo.  Todos os donos morrem violentamente.  E agora… são meus!

— Tira isso, Fré!

— E você ainda fala que custou uma nota!  Será que meu pai acha que não leio jornal?!  Ontem foi o leilão do espólio da última dona desses brincos, que teve a cabeça esmigalhada em um acidente de bicicleta.  Ninguém quer essas porcarias, vai ver pagaram pro meu pai levar eles embora!

— Tá bom, tá bom, agora tira esse troço!

Fréia riu para ele:

— Ora, ora, se não é o mesmo Beraldo que quinze minutos atrás estava tentando me assustar com uma história ridícula sobre um homem que sai de um quadro…

— É verdade! — Insistiu ele.

— Pois eu vou provar que a maldição do brinco não é!  Só de pirraça!  E também, — Acrescentou em um tom de voz meigo, mas cheio de amargura — não seria certo deixar de usar o presente de meu querido “papai”…

 

 

VIII

O Jardineiro

— Quem está aí?! — Perguntou seu Nicanor, assustado com os sacolejos — Não tem graça nenhuma!

— Ô seu Nicanor, sou eu, Ladislau, o jardineiro.  Tava vindo do Bar Bitúrcio pra desejar feliz natal, vi o senhor aí, nessa fantasia, e quis pregar um susto.  Desculpa.

— Tudo bem, Ladislau.  Natal é natal, tem que perdoar.  Feliz natal pra você e pra sua família.

— Pra sua também, seu Nicanor.  Os netos é que vão gostar da fantasia, hein?  Mas não está muito quente pra esse tipo de roupa, não?

Papai Noel balançou a cabeça em afirmação e exclamou, mais uma vez:

— Tudo pelos netos!

 

 

IX

O Papai Noel

A escada desceu pela chaminé com o maior cuidado para não fazer barulho.  Em frente à lareira, seu Heliberto, dona Póvoa e dona Gracila conversavam sobre política, enquanto dona Sena, Beraldo e Fréia, do extremidade oposta da sala, tentavam distrair as crianças e fazê-las olhar para o outro lado.

Então, com um ruído seco, Papai Noel chegou.

Por um segundo ele ficou ali, imóvel, sem dizer uma palavra, e dona Gracila, tensa por causa de certos artigos no jornal, também se calou, fazendo o silêncio reinar na sala.

Meu deus!, ela pensou, não é o Nicanor!  Esse Papai Noel não é o meu marido!

Dona Gracila estava prestes a gritar para todos a apavorante verdade quando o bom velhinho piscou para ela, soltando sua inconfundível pigarreada.

Era mesmo seu Nicanor, pensou, aliviada, enquanto as crianças avançavam ferozes em direção a ele.  Chegaram perto, o abraçaram, puxaram sua barba e sentaram em seu colo, maravilhadas.

Lelinho, o mais velho, chegou a comentar, de maneira meio suspeita:

— Pena que o vovô não está aqui, não é?

 

 

X

A Metralhadora Laser

Era a hora dos presentes.  Dezinha, de três anos, ganhou um cone de pano que quando apertava, fazia desabrochar um palhaço.  Tacinho, de sete, ganhou uma metralhadora laser, que ficava vermelha, soltava faíscas e fazia um barulho infernal.  E Lelinho, de oito, ganhou um boneco de algum super-herói japonês para a sua enorme coleção.

Depois das crianças, foi a vez de Papai Noel entregar os presentes dos adultos.  Beraldo recebeu dois CDs e Fréia, uma agenda.  Dona Póvoa ganhou um novo liquidificador e seu Heliberto, uma gravata de seda.  Dona Gracila recebeu um belíssimo livro de arte sobre os impressionistas e seu Nicanor, um par de meias de lã in absentia.

— Tudo bem, Beraldo? — Perguntou Fréia.

— Claro, claro. — Ele estava com os olhos fixos no retrato do bisavô, enquanto Tacinho fazia a maior barulheira possível com sua metralhadora laser.

Será que de tanto contar essa história, ele acabou acreditando?, pensou Fréia.  Então, percebeu que os olhos do bisavô tinham começado a brilhar.

Sufocou um grito e agarrou o braço de Beraldo, que também estava hipnotizado pela cena.  No quadro, a figura do bisavô ficava cada vez mais fraca, quase sumindo.

— Pára com essa barulheira, Tacinho! — Interpelou seu Heliberto — Está tarde!  Amanhã de manhã você brinca no jardim!

Contrariado, o menino jogou a metralhadora no chão e saiu da sala.

Beraldo e Fréia despencaram no sofá.  O retrato do bisavô continuava como antes.

 

 

XI

O Estrondo

A mesa estava liberada.  Papai Noel havia desaparecido e seu Nicanor se juntara à família, sob os olhares suspeitos de Lelinho.  Comiam, entre conversas e felicitações.

Foi necessário um estrondo, como de algo grande e peludo se chocando contra a porta, para mais uma vez interromper a festa.

— Meu deus, o que foi isso? — Perguntou dona Sena.

Seu Heliberto riu.

— Nada não, Sena.  Aqui em Capivara venta muito e a porta está meio solta.  De vez em quando ela bate.  É assim  mesmo.

— Mas tão forte?  Parecia alguém tentando arrombar…

— Deixa que eu te mostro.

Andou em direção à porta e dona Póvoa gritou:

— Heliberto, não abre essa porta!

Ele fez pouco:

— Besteira!

E abriu a porta.  Não havia nada lá fora.

 

 

XII

O Fim

Depois de saciada a fome, foram todos sentar na sala pra jogar conversa fora.  Papearam sossegados até o sono chegar.  As crianças, em seus quartos, ficaram acordadas um bom tempo, fascinadas com seus novos brinquedos.

Nossa história termina aqui.  Sem horrores, mortes ou sangue.  Tudo isso pode ficar para outro dia, para outro conto.

Afinal, hoje é noite de natal.

 

 

XIII

— Quer tirar a mão do meu peito, por favor?!  Olha que eu grito, hein?!

* * *

Direto da pilha dos rejeitados. Contos legais mas que não passaram no último crivo de qualidade para serem publicados.

Escrito na véspera de natal de 1987, quando eu tinha treze anos e estava empenhado em ler e devorar e deglutir e imitar e reproduzir os contos de terror de H. P. Lovecraft e Stephen King. Quase tudo o que escrevi na época é lixo e vale apenas como exercício (<em>treze anos, gente!</em>), mas esse aqui, em alguma medida, se mantém.

Possui uma voz própria que já dá pra reconhecer como minha. Não é bom, não é publicável, mas já é meu. Não é pastiche de ninguém.

Naturalmente, a mão narrativa é bem pesada e o desfecho me parece bem óbvio (<em>treze anos, gente!</em>) mas fico feliz de ver que sempre tive um bom ouvido pra clichês e lugares comuns.