o dom da leitura

existe gente que “leva jeito” para ler?

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leituras comentadas, dezembro 2015

1. the blind, de maurice maeterlinck, 1891, francês. (trad: maya slater, 1997.) 9dez15.

2. entre o mundo e eu, de ta-nehisi coates, 2015, inglês. (trad: paulo geiger, 2015.) 11dez15.

3. são joão marcos, patrimônio e progresso, de mv serra (org), 2011, português. 13dez15.

4. thinking, fast and slow, de daniel kahneman, 2011, inglês. 14dez15.

5a. fausto I, de johann wolfgang goethe, 1806, alemão. (trad: jenny klabin seagall, 1949.) 20dez15.

5b. fausto II, de johann wolfgang goethe, 1832, alemão. (trad: jenny klabin seagall, 1967.) 22dez15.

5c. faust, parts one and two, de johann wolfgang goethe, 1806-1832, alemão. (trad: george madison priest, 1932)

6. os monumentos do rio de janeiro – inventário 2015, de vera dias, 2015, português. 23dez15.

7a. decameron, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: ivonne benedetti, 2013.) 29dez15-11jan16. releitura.

7b. decameron, dez novelas selecionadas, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: mauricio santana dias, 2013.)

7c. decameron, vols I e II, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: raul de polillo, 1952, atribuída a torrieri guimarães.)

7d. decameron, de giovanni boccaccio, 1353, italiano. (trad: g. h. mcwilliam, 1972.)

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decameron, de boccaccio

notas de leitura sobre o decameron, de boccaccio.

Decameron by Boccaccio, Giovanni.

Decameron by Boccaccio, Giovanni.

em plena erupção da peste negra, um grupo de dez pessoas foge de florença e se isola em uma villa rural.

verdadeiras xerazades medievais, elas mantém a morte afastada contando histórias umas para as outras: dez pessoas, contando dez histórias por dia, durante dez dias. (daí o título decameron.)

nenhuma outra obra da literatura universal acontece sob a sombra de tanta tragédia.

nenhuma outra obra da literatura universal celebra a vida com tanto vigor, com tanta força, com tanta alegria.

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fausto, de goethe

notas de leitura sobre o fausto, de goethe.

faust goethe by harry clarke (35)

fausto, obra-prima da vida de goethe, talvez maior nome da literatura alemã, escrito ao longo de sessenta anos, é a história do homem que vende sua alma ao diabo — nesse caso, mefistófeles.

em seu afã criador e aperfeiçoador, tentando adaptar o mundo a si mesmo, fausto é a própria encarnação do capitalismo, destruindo tudo o que toca.

as duas histórias mais conhecidas são, com justiça, os pontos altos do poema: a “tragédia de gretchen”, na primeira parte, e a “tragédia do colonizador”, ou “colônia de fausto”, no quinto ato da segunda parte.

(filemon e baucis, na primeira cena do quinto ato da segunda parte, são os protótipos daquilo que hoje se tornou lugar-comum: o bondoso casal de velhinhos cuja única função narrativa é ser trucidado e estabelecer além de qualquer dúvida a malvadeza do vilão.)

faust goethe by harry clarke (2)

o poema busca abraçar o mundo, a experiência humana e todo o conhecimento literário e filosófico, teológico e científico da humanidade até então.

ou seja, é tão amplo e descomunal e ambicioso e genial quanto o homem que se dedicou a escrevê-lo.

na verdade, que projeto poderia ser mais literalmente fáustico do que passar sessenta anos escrevendo o fausto?

talvez fosse o final perfeito para um poema tão metalinguístico: fausto, quando fracassa seu projeto colonizador, em vez de morrer, senta-se para começar a escrever o poema que estamos lendo.

faust goethe by harry clarke (13)

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ler mais para saber menos, ler menos para saber mais

Sempre que atualizo minha lista de leituras, várias pessoas me escrevem com uma variação de:

“Aaaah, que inveeeeja, eu queria taaaanto ler mais…”

Mas… por quê?!

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leituras comentadas, novembro 2015

mudei um pouco as coisas nesses posts mensais de leituras comentadas.

a verdade é que preciso mesmo organizar minhas leituras, senão me perco.

(por exemplo, li erich fromm com tanta familiaridade que não sei se é por já ter lido ou apenas porque concordamos em quase tudo!)

então, a partir de agora, além de listar os livros lidos, vou resumir suas ideias principais e compartilhar meus comentários e anotações — que, às vezes, são muito, muito extensos.

ou seja, querida pessoa leitora, esses posts de “leituras comentadas” não serão mesmo para todo mundo. se os livros te interessam, maravilha. se não, pule tudo sem dor na consciência.

para facilitar, já no topo, a lista dos livros lidos em novembro. para os comentários e citações, é só ir descendo.

só queria dizer que demorei quatro dias inteiros escrevendo esse post gigantesco que quase ninguém vai ler. tomara que valha a pena. ao menos, foi delicioso reencontrar todas minhas recentes leituras.

* * *

livros lidos em novembro, 2015

  1. free will, de mark balaguer, 2014, inglês. 8nov15.
  2. breakdown of will, de george ainslie, 2001, inglês. nov15.
  3. “autobiografia”, de sigmund freud, 1925, alemão. (trad: paulo césar de souza) 21nov15.
  4. além do princípio do prazer, de sigmund freud, 1920, alemão. (trad: paulo césar de souza) 21nov15.
  5. o eu e o id, de sigmund freud, 1923, alemão. (trad: paulo césar de souza) 21nov15. releitura.
  6. escape from freedom, de erich fromm, 1941, inglês. 18-21nov15.
  7. the whisperer in darkness, de h. p. lovecraft, 1930, inglês. nov15. releitura.
  8. at the mountains of madness, de h. p. lovecraft, 1931, inglês. nov15. releitura.
  9. livro de ruth, anônimo, c.VI-IV aec, hebráico. nov15. releitura.
  10. primeiro livro de samuel, anônimo, c.630–540 aec, hebráico. nov15. releitura.
  11. rosencrantz & guildenstern are dead, de tom stoppard, 1967, inglês. 23nov15.
  12. the man in the high castle, de philip k. dick, 1962, inglês. 25nov15.
  13. strangers to ourselves: discovering the adaptive unconscious, de timothy d. wilson, 2004, inglês. 20nov15.
  14. why freud was wrong: sin, science and psychoanalysis, de richard webster, 1995, inglês. 27nov15.
  15. freud (the great philosophers), de richard webster, 2003, inglês. 30nov15.
  16. santo agostinho em 90 minutos, de paul strathern, 1997, inglês. (trad: maria helena geordane, 1999.) 30nov15.

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minhas leituras, comentadas, em setembro & outubro de 2015

setembro foi um mês que passei na estrada, em são paulo, em belo horizonte e no inhotim. li pouco, quase que somente livros para a prisão liberdade, que estou lutando para escrever.

* * *

para relaxar, li alguns quadrinhos da estante da minha anfitriã paulista, fernanda de cápua.

cachalote, de daniel galera e rafael coutinho, 2010, português. 20set15.

dinâmica de bruto, de bruno maron, 2012, português.

vida de prástico, de ricardo coimbra, 2014, português. set15.

ricardo coimbra é um dos grandes cartunistas em atividade hoje.

* * *

durante a imersão “as prisões” de sete de setembro, li essa deliciosa antologia de literatura russa do século xix editada pela hedra, editora do meu livro autobiografia do poeta-escravo.

os russos, de púchkin, gógol, dostoiévki, tolstói, tchekhov e górki, 2015, russo. (tradução: vários; organização: luis dolhnikoff)

excelente antologia. eu colocaria menos puchkin (que, como me contam os amigos russos, é tipo guimarães rosa, não traduz bem) e mais turgeniev.

* * *

estou lutando para escrever a prisão liberdade, mas os últimos meses têm sido difíceis para mim. enquanto não junto forças para escrever, vou lendo livros específicos sobre o assunto.

freedom evolves, de daniel dennett, 2003, inglês. 17set15.

free will, de sam harris, 2012, inglês. 17set15.

free will, a very short introduction, de thomas pink, 2004, inglês. set15.

a theory of freedom: from the psychology to the politics of agency, de phillip petit, 2001, inglês. 18set15.

darwin’s dangerous idea: evolution and the meanings of life, de daniel dennett, 1995, inglês.

todos foram úteis para o meu objetivo, mas o único que eu realmente recomendaria é o último, simplesmente sensacional, presente da minha amiga querida daniela vaz.

algumas frases, traduzidas por mim:

“um intelectual é só uma maneira de uma biblioteca gerar outra biblioteca.”

“nada que seja complicado o suficiente para ser realmente interessante pode ter uma essência.”

* * *

em outubro, continuei tentando ler para a prisão liberdade, mas com pouco sucesso. continuei triste e disperso, e li um pouco de tudo.

* * *

meu companheiro de estrada e outros contos, de maksim górki, 1894-1923, russo. 4out15. (tradução de bóris chnaidermann, 1961.)

depois de ler a antologia da hedra, em setembro, fiquei com tesão de ler mais górki e comprei essa antologia traduzida e organizada pelo bóris, uma das pessoas mais incríveis que já conheci.

quem me fez ler górki foi henry miller e serei sempre grato. poucas vozes na literatura mundial são tão cheias de vigor e vida quanto górki,

górki nunca é perfeito (talvez só na trilogia autobiográfica, sua obra-prima) mas todos os seus defeitos e falham emanam das suas grandes qualidades, do seu humanismo, da sua empatia, da sua expansividade.

dos grandes russos (puchkin, gogol, turgeniev, tolstoi, dostoievski, tchecov) ele é, ao mesmo tempo, o menor e o maior, o mais falho e o mais necessário.

é engraçado que eu já li e amo essa turma toda mas, a medida que vou envelhencendo, é ao górki que continuo voltando, mais que a todos os outros.

* * *

górki também é o poeta da força. dois contos desse livro, talvez os meus preferidos, têm esse tema.

em caim e artiom, o valentão da vila é salvo por homenzinho fracote e covarde, e passa a protegê-lo. em poucos dias, entretanto, ele acaba confessando que simplesmente não consegue respeitar a fraqueza do outro e que não vai mais protegê-lo.

em meu companheiro de estrada, que dá título ao livro, górki, então vagabundo andarilho, faz uma longa caminhada ao lado de um aristocrata que se perdeu da família e está sem dinheiro. ao longo de toda a viagem, o aristocrata faz pouco e humila o vagabundo que o está ajudando, mas górki simplesmente se recusa a ser humilhado. do seu ponto de vista, o aristocrata é como se fosse uma criança, incapaz de seu cuidar e sem saber o que fala. em outras palavras, górki se considera tão acima do homem que pretensamente está tentando humilhá-lo que nem ao mesmo responde e, pelo contrário, continua tratando-o com carinho.

é uma tática que venho usando por toda a minha vida com as pessoas que tentam me humilhar e me atacar.

obrigado, górki.

(para ler górki na internet, em inglês, clique aqui e aqui.)

* * *

nietzsche, de jean granier, 2009, francês. 5out15.

um dos meus planos pros próximos meses é encarar a obra completa de nietzsche, relendo os que já li e lendo os que faltavam.

aí, estava na baratos da ribeiro, o melhor sebo do mundo, tinha crédito na praça, porque sempre vendo livros pra eles, e encontrei um desses livrinhos explicando nietszche. livrinho francês. traduzido pela denise bottman. (pensei, pelo menos, não vou me irritar com a tradução, já é um bom começo.)

na introdução, página 23, o explicador explica que nietszche é um filósofo complexo, cuja obra foi vilipendiada e distorcida depois dele morto, e que, por isso, deveríamos sempre tomar cuidado com citações da obra póstuma de nietsche e nos basear mais nos escritos publicados em vida.

ok, isso eu já sabia. basta ler o verbete do nietszche na wikipedia.

o capítulo imediatamente seguinte, página 31, é sobre o conceito de niilismo em nietszche.

adivinhem: o capítulo inteiro é totalmente baseado e cita quase que apenas justamente o livro póstumo de nietszche inventado por sua irmã: vontade de potência.

e eu, quase gritando em pleno saguão do aeroporto santos dumont:

“colega, você tá fazendo exatamente o que vc mandou não fazer cinco páginas atrás!!”

isso é que dá ler mastigadores.

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ecce homo. como alguém se torna o que é, de friedrich nietzsche, 1888, alemão. 6out15. (tradução de paulo cesar de souza, 1985.)

traumatizado pelo livro acima, li ecce homo na praia de copacabana e foi lindo.

alguns trechos:

“Erro … não é cegueira, erro é covardia… Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo… … O homem do conhecimento deve poder não somente amar seus inimigos, como também odiar seus amigos.” (Prólogo, §3, §4.)

“A noção de “pecado” [foi] inventada justamente com o seu instrumento de tortura, a noção de “livre-arbítrio”, para confundir os instintos, para fazer da desconfiança frente aos instintos uma nova natureza.” (Por que sou um destino, §8.)

“Paga-se muito caro ser imortal: é então forçoso morrer muitas vezes em vida. Há uma coisa que chamo rancor da grandeza; tudo quanto é grande, seja obra, seja acção, uma vez que se realiza, volta-se contra o seu autor. Só pelo facto de ter realizado, torna-se o autor inerme perante o que fez, já não lhe é dado olhá-lo de frente. E é como se tivéssemos atrás de nós alguma coisa que nunca desejámos fosse tal qual foi, alguma coisa que fica ligada ao próprio destino da humanidade – e de que nunca mais nos podemos separar!… É um peso incessante que quase nos esmaga… O rancor da grandeza!…” (Assim falou Zaratrusta, §5.)

* * *

rio de janeiro. histórias de vida e morte, de luiz eduardo soares, 2015, português. 4out15.

livro desigual. alguns capítulos brilhantes, outros me peguei pulando. adoro tudo que o luiz eduardo escreve, sobre essa nossa cidade tão amada, tão clichê.

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voces de chernóbil: crónica del futuro, de svetlana alexievich, 1997, russo. 12out15. (tradução: ricardo san vicente, 2006.)

tenho me interessado mais e mais por história oral e é incrível ver uma praticante ganhar o nobel de literatura.

vou fazer o maior elogio que um escritor pode fazer: é um livro que eu gostaria de ter escrito.

não sobre chernobil, mas sobre nossas muitas tragédias próximas.

quem sabe sobre as tragédias cariocas narradas pelo luiz eduardo, no livro acima.

quem sabe, talvez eu ainda escreva.

(um outro texto que escrevi sobre esse livro fantástico.)

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a slight trick of the mind, de mitch cullin, 2005, inglês. 15out15.

não satisfeito em ser magneto e gandalf, ian mckellen agora também é sherlock holmes. um holmes idoso, de 93 anos, lidando com sua decadência física e mental.

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seu novo filme, que acabou de sair, “mr holmes”, 2015, de bill condon, é adaptação desse romance.

ambos são bem diferentes, mas o filme é superior, tanto por contar com dois atores que fazem a diferença (o próprio mckellen e a laura linney) como por clarificar e enfatizar alguns temas que ficam meio soltos em um livro que às vezes é excessivamente sutil.

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obedience to authority: an experimental view, de stanley milgram, 1974, inglês. 23out15.

em 1961, o psicólogo stanley milgram conduziu um famoso experimento, no qual pessoas recebiam recomendações de dar choques elétricos cada vez mais fortes em outras pessoas.

foram realizadas várias versões do experimento. em todas, a maior parte das pessoas deu o choque máximo.

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eu já conhecia o experimento, mas não sabia que milgram tinha escrito todo um livro para apresentá-lo, com todos os detalhes metodológicos e com muitas reflexões fundamentais.

li por recomendação da minha amiga diana goldemberg e foi uma das leituras mais importantes da minha vida.

muito que ainda estava solto na minha cabeça sobre obediência finalmente começou a fazer sentido. vai ser uma referência fundamental no livro das prisões.

para atiçar minha curiosidade, a diana mandou esse trecho:

“Many of the people studied in the experiment were in some sense against what they did, and many protested even while they obeyed. But between thoughts, words, and the critical step of disobeying a malevolent authority lies another ingredient, the capacity for transforming beliefs and values into action. Some subjects were totally convinced of the wrongness of what they were doing but could not bring themselves to make an open break with authority. Some derived satisfaction from their thoughts and felt that – within themselves, at least – they had been on the side of the angels. What they failed to realize is that subjective feelings are largely irrelevant to the moral issue at hand so long as they are not transformed into action. …

Predictably, subjects excused their behavior by saying that the responsibility belonged to the man who actually pulled the switch. This may illustrate a dangerously typical situation in complex society: it is psychologically easy to ignore responsibility when one is only an intermediate link in a chain of evil action but is far from the final consequences of the action. (…) The person who assumes full responsibility for the act has evaporated. Perhaps this is the most common characteristic of socially organized evil in modern society. (…) Beyond a certain point, the breaking up of society into people carrying out narrow and very special jobs takes away from the human quality of work and life. A person does not get to see the whole situation but only a small part of it, and is thus unable to act without some kind of over-all direction. He yields to authority but in doing so is alienated from his own actions.”

afinal, de nada adiantam bons sentimentos que não se transformam em boas ações: o que importa é o que a gente faz.

* * *

tentei escolher alguns dos meus sublinhados mas foi impossível: meu livro está TODO sublinhado.

(sobre o experimento de milgram.)

* * *

a mesma ressalva de sempre

fazer listas de livros reforça uma ideia que considero muito problemática:

que “ler é bom”, que todas deveríamos “ler mais”, que ler é uma atividade intrinsecamente melhor do que a maioria das outras, etc.

mas ler um livro não é mérito, não é vantagem alguma, não é algo para se gabar.

mais importante, simplesmente ter lido um livro não significa que a pessoa leitora o entendeu, que tirou dele qualquer coisa de relevante, bela, prazeirosa ou útil.

listar os livros que eu li faz tanto sentido quando listar os vagões de metrô que eu viajei. (aliás, quase sempre, o 1022 e o 1026, que operam na linha um e são os últimos vagões de suas composições.)

e daí, não?

apesar disso, incrivelmente, as pessoas pedem e perguntam.

enfim, a verdade é que trabalho com livros. para mim, pessoalmente, esse tipo de lista é relevante e me ajuda a sistematizar as leituras.

então, apesar do efeito negativo de divulgar listas assim, aqui vão alguns dos livros que eu li em setembro e outubro de 2015.

* * *

convenções da lista: título, autor, data da escritura, idioma original. (organizador, tradutor, data da organização e/ou tradução) data da leitura.

leituras, agosto 2015

meus livros lidos no último mês.

sempre com a ressalva que ler livros é um hobby como outro qualquer.

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eu alterno fases de ler e de escrever. em agosto, li muito até o dia 20. depois, do dia 20 em diante, não li mais nada, só escrevi.

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beyond psychology, de otto rank, 1939, inglês, 1ago15.

recomendado por ernest becker, em denial of death e escape from evil, livros que ele não só dedica ao rank, como diz que não passam de tentativas de sistematizar e apresentar ao grande público as ideias de rank.

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preconceito linguístico. o que é, como faz, de marcos bagno, 1999, português. releitura, 4ago15.

um daqueles livros que muda a vida de uma pessoa. mudou a minha. sempre releio.
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psicologia da transferência, de carl jung, 1946, alemão, 5-6ago15. (trad: maria teresa appy.)

psychology of transference, de carl jung, 1946, alemão, 5-6ago15. (trad: r. f. c. hull, 1969.)

estou tentando entender melhor o conceito de transferência. esse livro foi muito bem recomendado por ernest becker, nos dois livros citados acima. tentei ler em duas traduções diferentes, achando que talvez os problemas fossem culpa da tradução. mas não deu. jung é esotérico demais pra mim, em todas as acepções do termo.

* * *

o mal-estar da civilização, de sigmund freud, 1930, alemão. (trad: paulo césar de souza) 8ago15. releitura.

totem e tabu, de sigmund freud, 1913, alemão. (trad: paulo césar de souza) 9ago15. releitura.

duas releituras de freud. talvez alguns dos meus livros favoritos. em termos médicos, muitas das ideias de freud já foram superadas. mas o freud cientista social ainda é um dos tesouros da humanidade.

* * *

o moisés de michelângelo, de sigmund freud, 1914, alemão. (trad: paulo césar de souza) 9ago15.

uma recordação da infância de leonardo da vinci, de sigmund freud, 1910, alemão. (trad: paulo césar de souza) 15ago15.

temerário, freud analisa psicanaliticamente duas grandes figuras do passado, leonardo da vinci e michelângelo, com base em quase nada.

aparentemente, cometeu erros enormes que, já de saída, invalidam todas as suas análises: confundiu uma passagem bíblica no moisés e uma palavra egípicia no leonardo.

mas parte da mágica de freud, para mim, é ser genial mesmo quando está errado.

posso reconhecer seus erros e, ainda assim, apreciar seu humor, sua prosa, a progressão do seu argumento.

* * *

introdução ao narcisismo, de sigmund freud, 1914, alemão. (trad: paulo césar de souza) 9ago15.

para as prisões.

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contribuição à história do movimento psicanalítico, de sigmund freud, 1914, alemão. (trad: paulo césar de souza) 15ago15.

esse texto, escrito em primeira pessoa e traçando uma rápida história dos começos da psicanálise, é o equivalente ao líder de uma turma de meninos de escola escrevendo sobre como a sua turma mais legal do que as outras turmas bobobas.

altamente polêmico, criticado por todos, eu achei terna a autodescrição heroica de um jovem freud que se via, erroneamente ou não, em esplêndido isolamento, sozinho contra tudo e contra todos.

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“teoria da libido e narcisismo”; “a transferência”; “a terapia analítica”, em conferências introdutórias à psicanálise, de sigmund freud, 1917, alemão. (trad: sergio telarolli) 19ago15.

considerações atuais sobre a guerra e a morte, de sigmund freud, 1915, alemão. (trad: paulo césar de souza) 20ago15.

moisés e o monoteísmo, de sigmund freud, 1939, alemão. (trad: maria aparecida moraes rego) 20ago15.

como dá pra ver, estou passando o mês com freud, relendo textos antigos, conhecendo novos.

estou gostando tanto das traduções do paulo cézar de souza que já decidi que vou esperar para ler a interpretação dos sonhos em sua tradução, assim que sair.

sobre freud, está acontecendo uma coisa que mencionei mês passado em relação à foucault.

li totem e tabu aos 25 anos. reli agora, aos 41. é impressionantes quantas ideias, frases, formulações, que venho repetindo pelos últimos 15 anos, que eu jurava que eram minhas, já estão ali, não só escritas, mas sublinhadas por aquele menino de 25.

nosso cérebro é um urso esfaimado e onívoro, comendo tudo o que passa pela frente.

a melhor cura para nossos delírios de criatividade é reler os trabalhos que nos influenciaram nos anos formativos.

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vida e obra de sigmund freud, de ernest jones, 1961, inglês. (org: lionel trilling e steven marcus; trad: marco aurélio de moura mattos) 9ago15.

esse livro me foi emprestado, talvez vinte anos atrás, por uma ex-psicóloga do meu pai, que foi minha fiadora no único apartamento que aluguei em meu nome, e com quem depois perdi o contato, annette trzcina. uma vergonha ficar com ele até hoje, ainda mais sendo um livro claramente de valor sentimental, com dedicatória escrita antes de eu nascer, mas estou finalmente lendo! assim que terminar, ligo pra ela, marco um café e devolvo.

o autor, ernest jones, era o cão de guarda de freud, um dos poucos que lhe ficou fiel até o fim, grande popularizador de sua obra no mundo anglófono, autor dessa monumental e subserviente biografia que documenta até os peidos do grande homem. a biografia original tem três volumes, mas essa tradução é da versão em volume único, resumida por lionel trilling.

o enorme amor de jones por freud é ao mesmo tempo a principal qualidade e o maior defeito dessa biografia.

não dá pra confiar, nem minimamente, em uma biografia escrita com tanto, tanto amor.

mas dá pra ler, com muito gosto: jones se despe, se expõe de tal maneira em seu enorme amor por freud que dá vontade de abraçá-lo. (de abraçar os dois, na verdade.)

sempre fecho o livro com um enorme carinho pelo dr ernest jones.

quero agora ler a biografia de peter gay, 1988, recentemente relançada pela companhia das letras. se alguém tiver e quiser me dar, agradeço.

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the wendigo, de algernon blackwood, 1910, inglês. 13ago15.

novela de suspense e fantasia. li por ser apreciada por lovecraft — de quem estou lendo, desde o mês passado, uma edição anotada. não é ruim, mas não me empolgou.

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convenções da lista: título, autor, data da escritura, idioma original. (organizador, tradutor, data da organização e/ou tradução) data da leitura.

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uma ressalva

fazer listas de livros reforça uma ideia que considero muito problemática:

que “ler é bom”, que todas deveríamos “ler mais”, que ler é uma atividade intrinsecamente melhor do que a maioria das outras, etc.

mas ler um livro não é mérito, não é vantagem alguma, não é algo para se gabar.

mais importante, simplesmente ter lido um livro não significa que a pessoa leitora o entendeu, que tirou dele qualquer coisa de relevante, bela, prazeirosa ou útil.

listar os livros que eu li faz tanto sentido quando listar os vagões de metrô que eu viajei. (aliás, quase sempre, o 1022 e o 1026, que operam na linha um e são os últimos vagões de suas composições.)

e daí, não?

apesar disso, incrivelmente, as pessoas pedem e perguntam.

enfim, a verdade é que trabalho com livros. para mim, pessoalmente, esse tipo de lista é relevante e me ajuda a sistematizar as leituras.

então, apesar do efeito negativo de divulgar listas assim, esses foram os livros que eu li em agosto de 2015.

leituras, julho 2015

meus livros lidos no último mês.

sempre com a ressalva que ler livros é um hobby como outro qualquer.

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listinhas literárias

pessoas autoras vivas favoritas:

alexievich, houellebecq, lobo antunes.

autoras mulheres favoritas:

alexievich, brontë, chopin, morrison, murdoch, woolf, la fayette, weil, lispector.

livros preferidos de todos os tempos:

bíblia, declínio e queda do império romano, peregrinação, ilíada, manuscrito encontrado em saragoça, os miseráveis, guia do estilo de vida do bodhisatva.

melhores romances escritos nas américas no século XIX:

cecilia valdés, dom casmurro, moby dick.

livros para entender o brasil:

casa grande & senzala, quarto de despejo, os sertões.

pessoas autoras russas fundamentais que não são nem tolstoi, nem dostoievski, nem tchecov:

turgeniev, gorki, gogol.

melhores romances brasileiros:

dom casmurro, grande sertão: veredas, hora da estrela, água viva.

melhor romanção romântico do séc.XIX:

os miseráveis, de hugo.

melhor romanção realista do séc.XIX:

fortunata y jacinta, de galdós.

romanções que ainda pretendo ler ou terminar de ler:

ulisses, montanha mágica, homem sem qualidades, em busca do tempo perdido, garganta e pantagruel, tristam shandy, eneida, odisséia, guerra e paz, ana karenina, divina comédia.

melhor best-seller internacional brasileiro que as pessoas brasileiras insistem em ignorar:

quarto de despejo, jesus.

melhores pessoas historiadoras:

fraginals, freyre, gibbon, thompson.

três pessoas poetas essenciais:

whitman, whitman, whitman.

melhores romances apesar do final frouxo:

lord jim, morro dos ventos uivantes, crônica da casa assassinada.

melhores obras inacabadas:

o castelo, o processo, o romance da pedra do reino, eneida, o cemitério dos vivos.

 

melhor pessoa autora em língua portuguesa, todos os tempos:

lispector.

melhor grupo para ir tomar uns gorós em viena:

freud, schnitzler, zweig.

melhor romance pós-moderno escrito antes da pós-modernidade:

manuscrito encontrado em saragoça, de potocki.

melhor morte da literatura:

capitu, em dom casmurro.

melhores livros da bíblia:

gênesis, samuel/reis, eclesiastes, jó, apocalipse de esdras.

melhores autores hermanos:

borges, josé hernández, sábato, saer.

melhores personagens de séries de literatura de entretenimento:

capitão alatriste, nero wolfe, arsene lupin, fletch.

melhores autores claramente podólatras:

josé de alencar, kafka, dostoievski, antonio torres, edmund wilson.

melhores obras nas quais rigorosamente nada acontece:

o jardim das cerejeiras, princesa de cleves, paixão segundo g. h.

melhores mulheres malvadas da literatura:

ayesha (ela, de haggard), cathy (a leste do éden, de steinbeck), milady (três mosqueteiros, de dumas), jadis, a feiticeira branca (leão, feiticeira, guarda-roupa, lewis), marquesa de merteuil (relações perigosas, laclos), xenia (noiva ladra, atwood).

melhor livro de não-ficção no qual não se pode confiar em nada:

peregrinação, de mendes pinto.

melhor final de romance:

as últimas sessenta páginas de moby dick.

melhor romance chato:

moby dick.

melhor livro sobre pessoas pobres escrito por burguesinho rico:

memórias de um caçador, de turgueniev.

meu irmão de coração:

agostinho de hipona.

livro que eu tenho mais vergonha de gostar:

a nascente, de rand.

minha deusa-guia mor:

weil.

(lista atualizada em 8jan17.)

é com uma alegria tão profunda

acabei de reler a hora da estrela. talvez pela quinta ou sexta vez.

sim.

* * *

um dia, eu morei no exterior, como clarice também e machado nunca, e ensinei português e literatura brasileira, e tive a honra e o prazer e o privilégio de fazer com que algumas dezenas de estrangeiros lessem dom casmurro e a hora da estrela, e sei que esse karma positivo será sempre meu, e, sejamos francos, se você é um estrangeiro e já leu dom casmurro e a hora da estrela, já conheceu o que temos de melhor a oferecer, pode seguir viagem, pode ir ler kafka e tchecov, conrad e hugo.

como podem dois romances serem tão insuportavelmente perfeitos? mesmo entre os grandes mestres, kafka era um inconcluso, conrad se perdia, hugo era piegas. posso até imaginar algumas correções a fazer em memórias póstumas de brás cubas e em paixão segundo g.h., mas em dom casmurro e a hora da estrela não sobra nada, não falta nada. como conseguiram? (para não ser injusto, um artista da fome e os grandes contos e peças de tchecov também são intoleravelmente perfeitos.)

às vezes, não sei onde termina meu amor por clarice e hora da estrela, por machado e dom casmurro, e onde começa meu amor pelo rio de janeiro.

amo o rio de janeiro por ser o contexto cultural desses dois romances gigantescos, cósmicos, humanos? amo esses romances por serem tão quintessencialmente cariocas, em tudo o que temos de mais lindo e mais mesquinho?

uma cidade que tenha nos dado a hora da estrela e dom casmurro é uma cidade que já está no mapa da literatura humana, uma cidade que já cumpriu sua obrigação, uma cidade que já disse: “eu existo”.

talvez tenhamos fundado essa cidade nessa baía (não é uma hipótese descabida) só para que, um dia, pudessem existir dom casmurro e a hora da estrela.

posso imaginar, milênios e milênios no futuro, quando a língua portuguesa já estiver extinta, quando esse chão que me viu nascer já estiver abandonado, submerso, esquecido, talvez em outros planetas onde continuem existindo homo sapiens, pessoas vão ler dom casmurro e a hora da estrela, e talvez nem lembrem mais em que língua foram escritos, talvez sejam lidos em traduções das traduções para línguas que ainda nem existam, e pessoas que ainda não nasceram vão ler sobre macabéa morando na rua do acre e trabalhando na rua do lavradio, sobre capitu passando a lua-de-mel na tijuca e escobar morrendo afogado na praia de botafogo, e vão chorar e se emocionar, como eu chorei hoje e me emocionei hoje, e vão saber que um dia existiu um lugar chamado rio de janeiro, onde pessoas choravam e se emocionavam, assim como a dublin de joyce & a buenos aires de borges não vão desaparecer jamais.

e, apesar disso, existimos, e foi tão tudo tão real e concreto, e houve um dia, um dia real, em technicolor, um dia que um dia foi um dia ao vivo, em que uma mulher chamada clarice, judia e nordestina, foi à feira de são cristóvão com sua amiga olga, onde ela ia para comer comidas que lembravam sua infância no recife, e a feira ainda está lá, e essa mulher viu de relance uma moça nordestina e, no mesmo instante, tão real era a clarice, meu deus!, ela largou tudo, sentou num banco e escreveu, ali mesmo, enquanto comia beijus com rapadura, cinco páginas de notas, e eu posso ver isso também, clarice, com as mãos gordurosas da manteiga do beiju, criando macabéa em um banco na feira dos paraíbas, e é lindo.

houve uma época em que não existia a hora da estrela, até que clarice disse: sim.

* * *

todo artista precisa travar uma batalha de morte com seus antecessores. não faz sentido sentar para produzir literatura se não for para fazer melhor do que clarice e machado.

mas como?

é preciso pelo menos tentar. se você não se propõe tentar, então, não vale a pena nem começar. melhor ir vender seguros e ser apenas um bom leitor. borges já dizia que a literatura precisa de mais leitores que escritores. e estava certo.

o artista não tem como produzir arte comportando-se como tiete boquiaberta dos titãs.

os titãs precisam ser mortos a cada geração.

fernando pessoa dizia que só conseguiu encontrar sua voz de poeta depois de travar luta de morte contra walt whitman.

whitman é infinitamente melhor do que pessoa. nada que pessoa escreveu chega aos pés de song of myself. mas isso não é demérito algum. poucas coisas jamais escritas chegaram aos pés de song of myself. o que importa é que pessoa lutou o bom combate até o fim.

todo dia, eu acordo, ligo o computador e travo minha própria luta de morte contra clarice lispector.

às vezes, releio a hora da estrela só para fazer um reconhecimento do campo de batalha, para ver contra quem estou lutando, para conferir o tamanho do exército inimigo.

então, um contra um milhão, eu avanço de lança em punho contra as hordas clariceanas, sem esperança alguma de triunfar.

* * *

se você ainda não leu algum desses dois livros, por favor, pare tudo e leia agora. são curtos, menos de cem páginas cada um, fáceis de encontrar, baratos. você lê na internet ou encontra em qualquer sebo pelo preço de um café. o investimento de tempo e de dinheiro é baixíssimo. em um domingo, você lê os dois.

leia. e, se ler por minha causa, me conte. karma bom nunca é demais.

os livros que mais me marcaram

não necessariamente os livros que gosto mais. ou mesmo os livros que admiro.

mas os livros que mais me marcaram mesmo, que mudaram meu jeito de ser, de pensar, de escrever, de contar histórias, de ler.

biblia
declinio e queda do império romano, gibbon
agua viva, lispector
a hora da estrela, lispector
memórias de um caçador, turgeniev
folhas de relva, whitman
walden, thoreau
lord jim, conrad
os miseráveis, hugo
ficções, borges
cecilia valdés, villaverde
manual dos inquisidores, antunes
os trópicos, miller

* * *

ninguém lê do mesmo jeito depois de ler ficções. água viva e manual dos inquisidores me ensinaram que eu podia fazer muito mais com a língua portuguesa do que imaginava possível. a bíblia e gibbon me ensinaram tudo o que sei sobre a arte de contar histórias. os trópicos e folhas de relva me ensinaram um amor pela vida além de todas as fronteiras e de toda a lógica. walden e lord jim me ensinaram, pelo contrário, um certo autocontrole e uma sobriedade que são tão importantes quanto. cecília valdés me mostrou como os horrores da escravidão podem virar grande literatura. hora da estrela, miseráveis e memórias do caçador me ensinaram como escrever e como abordar as histórias das pessoas humildes e marginalizadas.

* * *

não entraram na lista meus dois autores preferidos, que me marcaram pela enormidade da obra e não por nenhum livro específico: tchecov e kafka.

* * *

meus autores preferidos.

aquelas velhas listas de pessoas autoras

minhas pessoas autoras preferidas, de todas as áreas: as que mais me deram prazer, me colocaram para pensar, me fizeram viajar.

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