Frankenstein, um romance sobre masculinidade tóxica | alex castro

Frankenstein, um romance sobre masculinidade tóxica

Frankenstein (1818), foi escrito por Mary Shelley, então uma menina de dezenove anos, orfã de uma mãe famosa que morreu em seu parto, Mary Wollstonecraft. Talvez por isso seja um romance sem nenhuma mãe.

A autora cresceu na casa de um homem famoso (seu pai, William Godwin) e cercada de outros homens famosos (seu futuro marido e já pai de seu primeiro filho, Shelley; Byron, etc), que morreram jovens e salpicaram filhos pela vida. Talvez por isso seja um romance sobre masculinidade tóxica e, mais especificamente, paternidade.

O protagonista-título, Victor Frankenstein, é vaidoso, autocentrado, chiliquento, inerte, complacente.

Primeiro, ele dá origem um ser vivo e, prontamente, o abandona. Depois, quando dá merda, ele até se culpa, mas pela coisa errada: por ter dado origem à criatura mas nunca por tê-la abandonado.

Um pouco de amor e carinho, educação e presença, e nenhuma das tragédias teria acontecido.

Mas isso Frankenstein jamais consegue ver.

Na hora de falar, ele sabe falar grosso, ameaça, jura vingança. Na hora de agir, ele cai prostrado, doente, inerte. Na hora de avisar seus entes queridos do perigo no qual os colocou, ele cala, envergonhado.

Nas últimas páginas, a diferença entre criador e criatura não poderia ser mais nítida:

Quando os marinheiros imploram para voltar rumo ao sul caso consigam se livrar do gelo que os prende, um pedido que não poderia ser mais racional, o criador usa seus poderes retóricos para convencê-los a arriscar suas vidas e ficar… somente para que possa prosseguir em sua fútil e máscula busca por vingança.

Já a criatura, diante da morte do criador, demonstra dor, arrependimento, contrição. Enquanto o criador só se refere à ela nos piores termos, ignorando totalmente seu pendor para o bem, a criatura se refere a ele com palavras muito mais generosas do que merece, palavras que nós, ao final do romance, sabemos serem amplamente mentirosas: “generous and self-devoted being!” Rá, rá, ok.

Por fim, em uma situação delicada onde um acesso de fúria poderia destruir o navio e decretar a morte de todos, a criatura não causa nenhum dano e, solitária, ruma em direção à morte, prometendo nunca mais ferir ninguém.

E ficam no ar gelado suas últimas palavras: por que condenamos suas ações (que são de fato crueis) mas não condenamos todos aqueles que lhe abandonaram e rejeitaram?

* * *

Deixo vocês com o canalhíssimo discurso de Victor Frankenstein aos marinheiros:

“What do you demand of your captain? Are you then so easily turned from your design? Did you not call this a glorious expedition? Not because the way was smooth and placid as a southern sea, but because it was full of dangers and terrors; because, at every new incident your fortitude was to be called forth, and your courage exhibited; because danger and death surrounded, and these dangers you were to brave and overcome. For this was it a glorious, for this was it an honourable undertaking. You were hereafter to be hailed as the benefactors of your species; your name adored, as belonging to brave men who encountered death for honour and the benefit of mankind. And now, behold, with the first imagination of danger, or, if you will, the first mighty and terrific trial of your courage, you shrink away, and are content to be handed down as men who had not strength enough to endure cold and peril; and so poor souls, they were chilly, and returned to their warm firesides. Why, that requires not this preparation; ye need not have come thus far and dragged your captain to the shame of a defeat merely to prove yourselves cowards. Oh! Be men, or be more than men. Be steady to your purposes and firm as a rock. This ice is not made of such stuff as your hearts may be; it is mutable and cannot withstand you if you say that it shall not. Do not return to your families with the stigma of disgrace marked on your brows. Return as heroes who have fought and conquered and who know not what it is to turn their backs on the foe.”

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