A vegetariana, de Han Kang | alex castro

A vegetariana, de Han Kang

A vegetariana (2007), da autora sul-coreana Han Kang, foi uma das minhas leituras de ficção mais impressionantes dos últimos meses.

A protagonista é desde cedo descrita como uma mulher que recusa os padrões socialmente impostos de feminilidade, desde seus sapatos sem-graça até sua recusa de usar sutiã, passando pelo fato de trabalhar em quadrinhos e não ter filhos. Quando decide parar de comer cadáveres, porém, essa contravenção vai longe demais: seu pai lhe agride, seu marido lhe estupra e lhe abandona. Mais tarde, ao dessexualizar seu corpo e sua nudez, não é nem mais considerada capaz de viver em sociedade e é internada. Finalmente, desiste da vida, ou, pra ser mais específico, da vida animal, e decide tornar-se planta, outra escolha naturalmente inaceitável.

Sua irmã, enquanto isso, é a mulher ideal: corpo mais delineado, obediente aos pais, casada e com um filho e dona do próprio negócio – não por acaso, no mercado de “feminilidade” por definição: cosméticos.

Ao final do livro, a irmã desobediente está à beira da morte, estuprada, agredida, destruída. Já a irmã obediente também está em cacos: desiludida pela maternidade, traída pelo marido manipulador, abandonada pela família – e, de certo modo, até pela irmã.

Se eu tivesse que resumir em uma frase, A vegetariana é um romance sobre o alto custo de qualquer decisão que vá contra o script da sociedade e, mais especificamente, como as mulheres pagam um custo impossivelmente alto até mesmo por seguir o script.

Ao lado do também impressionante Canção de ninar (2016), da franco-argelina Leila Slimani, são dois romances fundamentais para entender o que é ser mulher no mundo de hoje.

A faceta mais chocante da recepção de A vegetariana são as resenhas escritas por homens que parecem ter quase que propositalmente invisibilizado todos os aspectos femininos do texto. (Talvez não tenham nem percebido que a autora era mulher.)

Em geral, não confio em traduções brasileiras mas, nesse caso, a tradução de Jae Hyung Woo é infinitamente melhor que a inglesa de Deborah King – que causou uma treta absurda por “melhorar” o livro muito mais do que uma tradutora tem direito de fazer, inventando muitas vezes frases inteiras e dando um tom mais exagerado e floreado à narrativa seca de Kang.

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