Wislawa Szymborska | alex castro

Wislawa Szymborska

Estou absolutamente apaixonado pela poetisa polonesa Wisława Szymborska (Visuáva Chamborska), ganhadora do Nobel de Literatura de 1996.

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Poesia no Brasil

Ela tem dois livros de poesias publicados no Brasil, pela Companhia das Letras: Poemas (2011) e Um amor feliz (2016).

Como sempre, apesar de a editora ser ótima, o mercado editorial brasileiro está mal-servido.

Essas edições têm dois problemas: em primeiro lugar, do alto do meu total desconhecimento de polonês, não fiquei empolgado pelas traduções. Falta… vida? poesia?

Em segundo lugar, mais importante, são edições bilíngues. Eu me pergunto: por quê?

Edição bilíngue é algo que faz sentido quando são de línguas antigas que muitas pessoas ainda tentam aprender, como grego e latim, ou de línguas com muitas falantes entre nós, como inglês ou francês, mas qual o sentido de uma edição bilíngue português-polonês? Quantas, das pessoas que compraram esses livros, vão ler os poemas em polonês?

Na prática, a leitora brasileira paga caro por um livro grosso mas que, na prática, traz poucos poemas. Não vale a pena.

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Poesia em inglês

Szymborska está melhor servida pela tradução de Clare Cavanaugh e Stanislaw Baranczak, belíssima, forte, poética, e vencedora do prêmio PEN de tradução.

Eu tenho dois volumes: Poems, new and collected (1998) e Map, collected and last poems (2016). Muitos poemas aparecem em ambos. Se for comprar só um, recomendo o último.

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Poesia em espanhol

A tradução espanhola talvez seja ainda melhor, levada a cabo por dois autores que são não apenas poetas de mão cheia mas também especialistas em literatura polonesa: o mexicano Gerardo Beltrán e o espanhol Abel Murcia. (Tenho o volume Poesía no completa, de 2002, da excelente editora mexicana Fondo de Cultura Economica.)

As línguas são tão parecidas que a excelência da tradução espanhola só ressalta tudo aquilo que a tradução portuguesa poderia ter sido… e não foi.

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A prosa

Durante anos, Szymborska manteve duas colunas na imprensa polonesa. Uma se chamava “Leituras não-obrigatórias” e eram resenhar curtas e bem-humoradas dos livros recebidos pela redação. A outra, “Correio literária”, se voltava para tirar dúvidas de jovens escritores.

É difícil dizer qual dessas colunas é a mais maravilhosa. Szymborska é tão, mas tão foda que ela é absorvente e envolvente comentando livros poloneses que ninguém nunca ouviu falar. E os conselhos para jovens escritores também conseguem, ao mesmo tempo, ser empáticos e sarcásticos, mordazes e carinhosos.

Nenhum livro coletando essas colunas jamais saiu no Brasil, mas essa matéria na Piauí do ano passado traz alguns “correios literários“. (Só para assinantes, infelizmente.)

As “Leituras não-obrigatórias” foram coletadas em inglês no volume Non-required reading (2002), traduzido por Clare Cavanaugh, mas só está disponível em hardcover, pode sair caro e traz apenas 200 páginas de resenhas. Prefiro o Prosas reunidas (2017), da espanhola Malpaso, que traz 600 páginas de resenhas e é um mundo para se perder.

Já as colunas do Correio Literário, que eu tenha conseguido descobrir, não foram publicadas nem em inglês. Tenho uma edição recém-lançada (2018) da espanhola Nordica: Correo Literario. O cómo llegar a ser (o no llegar a ser) escritor.

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Compartilho com vocês quatro versões do poema que me fez cair de quatro por Szymborska.

(Aliás, esse poema foi postado nos comentários de algum post meu por uma santa pessoa leitora. Depois disso, saí atrás da autora. Muito obrigado a quem fez isso. O maior favor que alguém pode me fazer é me apresentar a uma grande autora.)

O terrorista, ele observa
(Tradução brasileira de Regina Przybycien)

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar;
Alguns de sair.

O terrorista já passou para o outro lado da rua.
A distância o livra de todo mal
E a vista, bom, é como no cinema:

Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta,
E aquele mais alto entra.

Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.
Só que aquele ônibus a encobre de repente.

Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se foi tola de entrar ou não.
Vai se saber quando os carregarem para fora.

Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Aliás, um gordo careca sai.
Mas remexe os bolsos como se procurasse algo.
E às treze e vinte menos dez segundos
Ele volta para buscar a droga das luvas.

São treze e vinte.
O tempo, como ele se arrasta.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.

* * *

O terrorista… olha
(Tradução portuguesa de Júlio Sousa Gomes)

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.

O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A que distância ficará livre de perigo
e, quanto à vista, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo… entra.
Um homem de óculos… sai.
Rapazes de jeans… conversam.

Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.

Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba… explode

* * *

The Terrorist, He’s watching
(Tradução inglesa de Stanislaw Baranczak & Claire Cavanagh)

The bomb in the bar will explode at thirteen twenty.
Now it’s just thirteen sixteen.
There’s still time for some to go in,
and some to come out.

The terrorist has already crossed the street.
The distance keeps him out of danger,
and what a view – just like the movies:

A woman in a yellow jacket, she’s going in.
A man in dark glasses, he’s coming out.
Teen-agers in jeans, they’re talking.
Thirteen seventeen and four seconds.
The short one, he’s lucky, he’s getting on a scooter,
but the tall one, he’s going in.

Thirteen seventeen and forty seconds.
That girl, she’s walking along with a green ribbon in her hair.
But then a bus suddenly pulls in front of her.
Thirteen eighteen.
The girl’s gone.
Was she that dumb, did she go in or not,
we’ll see when they carry them out.

Thirteen nineteen.
Somehow no one’s going in.
Another guy, fat, bald, is leaving, though.
Wait a second, looks like he’s looking for something in his pockets and
at thirteen twenty minus ten seconds
he goes back in for his crummy gloves.

Thirteen twenty exactly.
This waiting, it’s taking forever.

Any second now.
No, not yet.
Yes, now.
The bomb, it explodes.

* * *

Un terrorista: él observa
(Tradução espanhola de Abel A. Murcia)

La bomba explotará en el bar a las trece veinte.
Ahora apenas son las trece y dieciséis.
Algunos todavía tendrán tiempo de salir.
Otros de entrar.

El terrorista ya se ha situado al otro lado de la calle.
Esta distancia lo protege de cualquier mal
y se ve como en el cine:

Una mujer con una cazadora amarilla: ella entra.
Un hombre de anteojos oscuros: él sale.
Unos chicos con vaqueros: ellos Hablan.
Trece diecisiete y cuatro segundos.
EL más bajo tiene suerte y sube a una moto,
el más alto entra.

Trece diecisiete y cuarenta segundos.
Una niña: ella camina con una cinta verde en pelo.
Sólo que de repente ese autobús la tapa.

Trece dieciocho.
Ya no está la niña.
Habrá sido tan tonta como para entrar, o no,
eso ya se verá cuando los vayan sacando.

Trece diecinueve.
Y ahora como que no entra nadie.
En vez de entrar, aún hay un gordo calvo que sale.
Pero parece que busca algo en sus bolsillos y
a las trece y veinte menos diez segundos
vuelve a buscar sus miserables guantes.

Son las trece veinte.
Qué lento pasa el tiempo.
Parece que ya.
Todavía no.
Si, ahora.
Una bomba: la bomba explota.

* * *

Para quem quer ler mais, Eneida Favre, que traduziu o Correio literário ao português (ainda não publicado), teve a gentileza de colocar nos comentários dois links de traduções suas de poemas de Szymborska inéditos em português, no Suplemento Pernambuco e na Qorpus.

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