As quatro grandes peças de Shakespeare: Hamlet, Macbeth, King Lear e Othello | alex castro

As quatro grandes peças de Shakespeare: Hamlet, Macbeth, King Lear e Othello

Shakespeare é um dramaturgo do começo ao fim. Ele precisa ser assistido, não lido.

O Othello de Oliver Parker (1995, com Kenneth Branagh) talvez seja um dos melhores exemplos de porque Shakespeare não pode ser só lido. É uma adaptação bem comportada, fiel, sem grandes invencionices. Mas, por Deus, como dá vida ao texto.

É impressionante, é realmente inacreditável, como pode frases tão truncadas e difíceis de entender na página escrita serem tão facilmente compreensíveis e digeríveis nos lábios de bons atores.

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King Lear, Othello e Macbeth sofrem de um mesmo problema, que eu definiria, para um público contemporâneo, como “síndrome de House of Cards“.

As três peças são maravilhosas, mas seu calcanhar-de-aquiles é que os enredos só funcionam porque todos os personagens, menos os vilões Edmund, Iago e Macbeth, se comportam como completos idiotas, ingênuos, crédulos.

Se Hamlet é superior às três, esse é um dos motivos: em Hamlet, ninguém ninguém age como um imbecil. Todo mundo está no seu melhor.

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Minha cena favorita de Macbeth:

Ele está recebendo os lordes do reino e vê, sentado em sua cadeira, o fantasma de um dos homens que assassinou. Ao falar com o fantasma que somente ele vê, Macbeth naturalmente passa por louco. E sua maravilhosa esposa, esperta e inventiva, imediatamente dá cobertura ao seu companheiro, ao mesmo tempo que lhe dá um esporro:

“Sit, worthy friends. My lord is often thus
And hath been from his youth. Pray you, keep seat.
The fit is momentary; upon a thought
He will again be well. If much you note him,
60You shall offend him and extend his passion.
Feed and regard him not. (aside to MACBETH) Are you a man?”

É por cenas como essa que, desde menino, eu tenho um crush na Lady Macbeth. (Eu sei, eu sei, eu era uma criança estranha.)

Melhor frase inesquecível:

“Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.”

O filme de 2015, com Michael Fassbender e Marion Cottilard, é excelente.

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King Lear talvez seja a minha peça favorita entre as quatro principais.

Em primeiro lugar, Edmund me parece um vilão mais interessante e melhor realizado do que Iago ou Macbeth — que já são, vamos deixar claro, muito interessantes e bem realizados.

Em segundo, o Rei Lear, apesar de se comportar como um idiota, como todos os personagens não-vilões de King Lear, Othello e Macbeth, pelo menos tem a vantagem de contar com o excelente personagem do Bobo, que joga em sua cara tudo o que gostaríamos de jogar:

Lear: Dost thou call me fool, boy?
Fool: All thy other titles thou hast given away that thou wast born with.

Fool: I am better than thou art now. I am a fool. Thou art nothing.

Fool: If thou wert my fool, nuncle, I’d have thee beaten for being old before thy time.
Lear: How’s that?
Fool: Thou shouldst not have been old till thou hadst been wise.

O filme de 2018, com Anthony Hopkins, me pareceu chato demais. Só gostei mesmo de sua explicação para o súbito desaparecimento do Bobo.

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Minha cena favorita de King Lear é a que encerra o terceiro ato: duríssima, o ponto de virada e de inflexão de toda a peça.

Goneril, uma das filhas malvadas do Rei Lear (elas são indistinguíveis como personagens), e seu marido Cornwall acabaram de capturar o nobre Gloucester, um dos poucos nobres que permaneceu ao lado do velho rei. Por motivo algum que não a mais pura vilania, ambos se dedicam a torturar e atormentar o velho cativo que já não tem como se defender.

(Acho estranhamente sexy a cena de Goneril arrancando a barba de Gloucester um fio de cada vez.)

Finalmente, quando estão prestes a arrancar os olhos de Gloucester, um dos criados de Cornwall, homem do povo, simples mas leal, fiel ao seu mestre mas também à sua ética pessoal, intervém:

“Hold your hand, my lord!
I have served you ever since I was a child.
But better service have I never done you
Than now to bid you hold.”

Ou seja, leal à Cornwall, ele queria justamente impedir o mestre de tornar-se um monstro irredimível. Mas é tarde demais: aAmbos lutam, o criado fere Cornwall com a estocada que irá matá-lo mais tarde e, finalmente, morre, apunhalado pelas costas pela malvada Goneril.

A cena termina com Goneril furando os olhos de Gloucester e expulsando-o do palácio com um comentário irônico-sarcástico digno nas melhores vilãs de novela:

“Go, thrust him out at gates, and let him smell His way to Dover.”

Daí em diante, entretanto, o momentum dos vilões está quebrado. A onda virou.

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Minha frase preferida, inesquecível, de King Lear:

“As flies to wanton boys are we to the gods;
They kill us for their sport.”

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Em Othello, o personagem título é insuportavelmente burro demais para alguém tão experiente nas artes da guerra — que, consiste, entre outras coisas, em não se deixar enganar pelo inimigo.

A estupidez de Othello tornaria a peça insuportável se Iago não fosse um personagem tão deliciosamente maravilhoso em suas tiradas.

Quando Roderigo ameaça se afogar de tanto desgosto amoroso, Iago retruca:

“Come, be a man. Drown thyself? Drown cats and blind puppies!”

Também me chamaram atenção algumas falas protofeministas de Emilia, esposa de Iago:

“They [men] are all but stomachs, and we all but food.
To eat us hungerly, and when they are full,
They belch us.”

“Why, we have galls, and though we have some grace,
Yet have we some revenge. Let husbands know
Their wives have sense like them. They see and smell
And have their palates both for sweet and sour,
As husbands have. What is it that they do
When they change us for others? Is it sport?
I think it is. And doth affection breed it?
I think it doth. Is ’t frailty that thus errs?
It is so too. And have not we affections,
Desires for sport, and frailty, as men have?
Then let them use us well, else let them know,
The ills we do, their ills instruct us so.”

Por fim, o diálogo em que Emilia descobre que foi seu marido que instigou Othello a matar Desdemona é belíssimo.

Imaginem essa cena em perfomance. Emilia é fiel ao seu marido, Iago, mas também à Desdêmona, de quem é criada. Sua ama acabou de ser assassinada, em seu próprio quarto, pelo marido, em um acesso de ciúmes, por uma infidelidade que ela, Emilia, sabe não ser verdade. O corpo de Desdêmona está ali, ainda quente. Othello está chorando, desfeito, desesperado. Emilia, também em choque, quer saber o que aconteceu. E, pelas respostas curtas de Othello, ela compreende, em sua cabeça, todo o enredo da peça que estamos assistindo. Emília entende tudo, de uma vez, diante do corpo de Desdêmona morta.

“Othello
Cassio did top her; ask thy husband else.
O, I were damn’d beneath all depth in hell,
But that I did proceed upon just grounds
To this extremity. Thy husband knew it all.

Emilia
My husband!

Othello
Thy husband.

Emilia
That she was false to wedlock?

Othello
Ay, with Cassio. Nay, had she been true,
If heaven would make me such another world
Of one entire and Perfect chrysolite,
I’ld not have sold her for it.

Emilia
My husband!

Othello
Ay, ’twas he that told me first:
An honest man he is, and hates the slime
That sticks on filthy deeds.

Emilia
My husband!

Othello
What needs this iteration, woman? I say thy husband.”

Essas três repetições de “my husband” sejam literalmente um presente para qualquer atriz. Quanto drama, quando conteúdo, quanta dor, quanta raiva, quanta profundidade estão contidas nessas poucas palavras.

Que dramaturgo, putaqueopariu.

O filme de 1995, com Kenneth Branagh, é uma adaptação perfeita. Iago talvez seja o grande papel de Brannagh.

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Por fim, Hamlet.

Li pela terceira vez. Difícil chegar em Hamlet como se fosse um texto normal, e não um dos ubertextos da nossa cultura.

Vi conexões com a Orestéia, ambas peças sobre vingança filial, ambas começando com falas de vigias, mas com uma importante diferença. A Orestéia é sobre a superação do código de vingança e sobre o começo, digamos, da civilização, do monopólio estatal impessoal sobre a violência. Já Hamlet não oferece nada, nenhuma opção, nenhum alternativa. Não há menção de polícia, juízes, burocracia. Se Hamlet não vingasse o pai, ninguém mais o faria. Uma vez o pai vingado, e o país mergulhado em um banho de sangue, resta apenas uma invasão estrangeira para colocar ordem na casa.

Vi conexões com Moby Dick: ambas narrativas maravilhosas, provavelmente longas demais, lidando com esperas, longas e proteladas esperas, mas esperas muito diferentes: Ahab caça, procura, corre atrás; Hamlet espera, hesita, questiona. Tudo termina igual: em um banho de sangue.

De resto, a experiência cultural mais interessante de adentrar um monumento como Hamlet é perceber que ele sempre fez parte da sua vida: que expressões que você usa, que cenas que lhe são familiares, etc, todas têm sua origem ali. A graça de consumir a obra é justamente tomar contato com elas, vê-las em seu contexto original.

O Hamlet de Kenneth Branagh é sensacional, recomendo demais. O texto completinho da peça está lá.

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Como ler Shakespeare

Em primeiro lugar, leia em inglês, se puder.

Shakespeare antes de tudo era um poeta. Ele é lido não só pelos seus enredos mirabolantes (que ele pegou de outras fontes, aliás) mas principalmente por sua linguagem, pelo que fez com a língua inglesa, pelo que contribuiu à cultura ocidental.

Naturalmente, é difícil de ler.

O consolo é que fica mais fácil.

Qualquer leitura de uma “nova língua”, seja ela o inglês antiquado e poético de Shakespeare ou o português de Guimarães Rosa, causa estranhamento a princípio mas o nosso cérebro rapidamente se acostuma.

Ou seja, vale a pena ler várias peças na sequência. A primeira será mais difícil; a segunda, um pouco mais fácil, e assim sucessivamente.

De qualquer modo, Shakespeare é para ser assistido. Se estiver muito difícil, ou se sentir que não está aproveitando, assista os bons filmes, talvez com a peça aberta em sua frente, acompanhando.

Por fim, temos excelentes traduções em português, como as do Millôr e da Bárbara Heliodora.

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Shakespeare e eu

Decidi ler Shakespeare. Em setembro, li ou reli as quatro peças consideradas as mais importantes (Hamlet, Othello, King Lear, Macbeth) e agora estou começando as greco-romanas. Troilo e Cressida já se tornou minha peça preferida do bardo, sobre a qual falarei mais tarde. Na sequência, planejo ler Julius Caesar, Titus Andronicus, Coriolanus e Anthony & Cleopatra. A primeira eu já tinha lido, na escola, e as duas primeiras já tive a felicidade de ver no palco, em montagens excelentes.

Uma das coisas pelas quais sou grato, muito grato, é pela excelente e privilegiadíssima educação que tive. Na escola, tive oportunidade de ler, no original, as seguintes peças de Shakespeare: Hamlet, Twelfth Night, Romeo and Juliet, Julius Caesar.

Além disso, outras felicidades do privilégio, tinha na estante de casa a coleção Brittanica Great Books, que inclui as obras completas de Shakespeare. Por fim, também ganhei de presente, criança ainda, uma edição de Shakespeare em quadrinhos, por Gianni de Luca, que ainda é um dos tesouros da minha vida, um dos melhores exemplares de literatura gráfica que conheço. (São as ilustrações desse texto que você está lendo.)

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Abaixo, algumas adaptações cinematográficas de Shakespeare:

Othello (2001), com Christopher Eccleston, adaptado por Andrew Davies e dirigido por Geoffrey Sax.
Othello (1995), com Kenneth Branagh, dirigido por Oliver Parker.

Coriolanus (2011), com Ralph Fiennes, adaptado por John Logan e dirigido por Ralph Fiennes.

King Lear (2018), com Anthony Hopkins, adaptado e dirigido por Richard Eyre.
King Lear (2008), com Ian McKellen, dirigido por Trevor Nunn

Titus (1999), com Anthony Hopkins, adaptado e dirigido por Julie Taymor.

Tempest (1979), adaptado e dirigido por Derek Jarman
Tempest (2010), com Helen Mirren, dirigido por Julie Taymor.

Julius Caesar (1953), com Marlon Brando.
Caesar must die (2012).

Macbeth (2015), com Michael Fassbender.

O Romeo + Juliet (1996) do Baz Luhrman é um dos meus filmes prediletos. Pode até não ser pra todo mundo mas é, em minha humilde opinião, um dos grandes filmes da minha vida e umas das melhores adaptações de qualquer obra literária no cinema. Poucas vezes vi um filme fazer tão bom uso de todos os truques e ferramentas disponíveis a um cineasta. Que filmaço.

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Tenho quatro livros à venda. Comprando direto na minha mão, você me dá a possibilidade de escrever novos livros e de ler outros tantos. E eu te agradeço.

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