Não por acaso, o primeiro ano da grande pandemia também foi o ano em que mais li. Abaixo, alguns comentários sobre as minhas leituras em 2020. Antes, alguns avisos. Para quem tiver pressa, a lista está no fim do texto.
Categoria: textos
A Tempestade (nem tragédia, nem comédia, mas um “romance”, termo vago que caracteriza as últimas peças de Shakespeare) é uma obra onírica e indistinta, esfumaçada e sonolenta, de enredo solto e elíptico, onde ninguém morre nem se machuca.
Cada obra de arte só pode ser julgada e fruida em relação a si mesma, suas premissas, seus objetivos.
Gil Vicente e Camões, além de serem dois dos maiores artistas da língua portuguesa, também representam perfeitamente as estruturas de pensamento em confronto no século XVI.
Dez romances preferidos
Perguntaram a vários escritores. Aqui vão os meus.
Todo grande romance é cósmico: ele parte da especificidade das situações cotidianas e, a partir delas, abraça a totalidade da existência.
Primeiro, cinco romances simplesmente perfeitos, que nunca poderiam deixar de estar nessa minha lista:
- Moby Dick (EUA, 1851), de Herman Melville
- Miseráveis (França, 1862), de Victor Hugo
- Guerra e paz (Rússia, 1867), de Liev Tolstoi
- Grande sertão: veredas (Brasil, 1956), de João Guimarães Rosa
- Cem anos de solidão (Colômbia, 1967), de Gabriel Garcia Márquez
E outros cinco quase tão perfeitos quanto:
- Manuscrito encontrado em Saragoça (Polônia, 1815), de Jan Potocki
- Corcunda de Notre-Dame (França, 1831), de Victor Hugo
- Cecília Valdés (Cuba, 1882), de Cirilo Villaverde
- Hora da estrela (Brasil, 1977), de Clarice Lispector
- Querida Konbini (Japão, 2016), de Sayako Murata.
Quais são os seus?
As ditas “heresias cristãs” só são heresias do ponto de vista do cristianismo hegemônico ortodoxo que as derrotou. Durante séculos, porém, foram religiões viçosas e vigorosas, tão reais quanto quaisquer outras.
O misticismo é uma comunhão direta com a totalidade da vida, um acesso direto à transcendência cósmica sem a mediação de textos, palavras, ensinamentos. Por isso, justamente por não depender da mediação de palavras, a experiência mística não é transmissível por palavras: ela só pode ser vivenciada, nunca explicada.
No dia de Natal, celebra-se o nascimento convencionado de Jesus: é um dia de as pessoas aturarem famílias abusivas e violentas das quais, provavelmente, já teriam se libertado há muito tempo se não fosse o doentio fetiche pró-família de nossa cultura.
Ironicamente, dos grandes pensadores e líderes espirituais da Humanidade, poucos atacaram o conceito de família tão ferozmente quanto o próprio Jesus.
Pois, na verdade, ele defendia um novo conceito de família, mais amplo e mais belo.
(Quero muito saber sua opinião. Para falar comigo, é só responder esse email ou deixar um comentário.)
Sempre que vejo uma artista celebrando tantos anos de carreira, penso:
“Que lindo, mas por onde começaram a contar?”
Assim como não sei com quantas pessoas transei porque não consigo definir o que é sexo, também não saberia marcar o início da minha carreira.
Tersites é tudo que os herois homéricos não são, que ninguém mais é, que até então não existia. Tersites é uma figura que acaba de surgir na história humana: agitador popular e revolucionário marxista, um revoltado e um silenciado, o primeiro anarquista e o primeiro protestante. Um criador de caso que não sabe o seu lugar, um homem do povo que diz que o rei está nu. Um teórico da conspiração, um herói da classe trabalhadora. Tersites é aquilo que somente então se torna concebível.
Jerusalém está cercada pelos babilônios de Nabucodonosor e parece não haver esperança para os israelitas. O próprio rei implora a Jeremias por boas notícias (Jer 38), mas infelizmente todos os oráculos são negativos: o reino será mesmo conquistado e seus habitantes, exilados. Felizmente, contudo, o inimigo está a serviço do Deus dos israelitas:
A Bíblia é meu livro preferido e, dentro dela, um de meus favoritos é o Livro de Samuel. A história de Faltiel é um dos motivos.
Atos humanos, de Han Kang
Human acts, romance da sul-coreana Han Kang, me deixou absolutamente destruído, derrubado. Eu, que durmo cedo, só fui desabar às sete da manhã, na lona. Poucas vezes apanhei tanto de um romance em toda a minha vida.
Que livro. Que mulher. Que artista.
Os bons alemães
As pessoas do futuro vão nos julgar muito duramente.
Na verdade, espero que julguem.
Significa que melhoraram.
Pior será se forem iguais a nós.
“Escritor” e outros rótulos vazios
Alguém me perguntou:
“Alex, você é budista?”
Sou? Não sou? O quê sou?
A força da correnteza
Quando estamos remando a favor da corrente, descendo o rio, sendo tudo aquilo que a sociedade espera de nós, a viagem é tranquila e agradável, o mundo parece livre e florido, a vida não exige esforço algum.
Respeito é uma via de mão dupla
Quando escrevo sobre obediência, muitas pessoas respondem com uma variação de:
“Eu obedeço meu pai/meu professor/minha esposa/etc… por respeito!”
“Ai, Alex, não sei como você pode ser ateu. Jura que você acha que é só isso? Que não tem nada depois? Morreu, acabou?”
“Tem tudo depois. Nada acaba. Toda a matéria do meu corpo já esteve em outros seres vivos, toda a matéria do meu corpo estará de novo em outros seres vivos. Nem um pedacinho do meu corpo vai se perder ou deixar de existir. Se isso não é mágico e transcendental, eu não sei o que é.”
A função do macho
Algumas espécies de rotíferos
são compostas só por fêmeas.
Os raros machos,
quando surgem,
(nascer não é a palavra)
não tem boca nem estômago,
são incapazes de sobreviver
por mais de algumas horas,
e se concentram apenas
na única tarefa:
foder.
E
então
morrem.
Elogio ao rebelde de fim-de-semana
Se o meu filme ou livro preferido é sobre largar tudo e ir morar no mato, mas nunca larguei tudo e fui morar no mato… o que isso diz sobre mim?
Quem perpetrou os piores crimes e os maiores massacres da história? Os obededientes ou os desobedientes? De qual lado queremos estar?