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alguns pensamentos esparsos sobre a prática zen.

Aqui existe o vazio

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entropia

a entropia e o tempo

a entropia aumenta com o tempo ou a entropia É o tempo?

aprendemos na escola que o universo favorece à entropia (é mais fácil quebrar uma caneca do que fazer uma caneca) e que tudo caminha em direção à própria dissolução.

ou seja, aprendemos que a entropia aumenta com o tempo.

entretanto, existe outra maneira de ver a coisa: talvez a entropia SEJA o tempo.

pois, afinal, só conseguimos perceber ou medir o tempo através da entropia que percebemos no universo. não há como dissociar entropia do tempo.

em outras palavras, sabemos que o tempo está passando porque podemos ver a rosa progressivamente murchando dia a dia.

mas talvez não seja a entropia da rosa que aumenta com o tempo, mas sim que é o próprio tempo a entropia que destroi a rosa.

ficou claro? (se ficou, então você não entendeu nada.)

* * *

sobre isso: four reasons you shouldn’t exist

* * *

alguns textos entrópicos:

cajuína // eu, que vou morrer, os saúdo, que também vão morrer // você não tem tempo

 

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textos

história de uma caixa de farmácia

farmácia, tarde da noite.

vou até o balcão no fundo, onde o único atendente está conferindo a receita de um freguês. eu espero.

a senhora que estava no caixa percebe e vem correndo, ansiosa, como se me atender fosse a coisa mais legal do mundo, e pergunta o que estou procurando.

plasil, eu digo.

ela faz uma cara de que nunca ouviu falar daquele nome, mas vai procurar pela farmácia mesmo assim. daqui a pouco, ela retorna, dessa vez com uma nova expressão no rosto: sinto tanto, mas tanto por não ter podido ajudá-lo. jê suí dessolê!

e eu penso: plasil é um remédio muito comum, como pode não conhecer?

dentro de mim, sinto os primeiros tremores do velho alex acordando, o alex-godzilla, o alex-mr-hyde, o alex que dizia coisas como, “cara, eu aguento tudo, só não tolero gente incompetente!”

verdadeiro diabinho, o alex-que-eu-era sabe exatamente o que eu deveria dizer para a atendente da farmácia:

“a senhora poderia ir buscar alguém que saiba o que está fazendo, por favor?”

mas o velho alex era um babaca e eu não faço mais o que ele manda.

sorrio para a atendente e agradeço muito. continuo olhando coisas aleatórias pela farmácia até ela se afastar um pouco e, então, sem que ela escute, pergunto ao moço que está atrás do balcão:

por favor, plasil é aí dentro ou cá fora?

ocupado e ranzinza, ele faz um gesto impaciente na minha direção e grita:

dona maria, PLASIL!

ela se aproxima novamente:

eu já procurei, não tem.

ele aumenta o tom:

tem sim, caceta. tá ALI!

imperturbável e sorridente, dona maria se abaixa, encontra o plasil e entrega na minha mão:

aqui está, filho.

e ela me leva até o caixa, onde passa a minha compra.

* * *

aqui dentro de mim, no meu ó-tão-incrível ego, eu continuo sendo aquele horrível menino-criado-feito-um-reizinho cujo primeiro instinto teria sido destratar a dona maria.

quase sempre, consigo me controlar.

às vezes, falo coisas horríveis.

é como o alcoolismo: nunca se está realmente curado.

praticar ser a pessoa-que-queremos-ser nunca é fácil.

* * *

na saída da farmácia, seguro as duas mãos de dona maria e digo:

obrigado, viu? a senhora foi muito, muito gentil.

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textos

quais comentários responder?

de repente, a Outra Significativa levanta a cabeça do seu latptop e pergunta:

“me diz se eu devo responder isso aqui.”

e eu, na lata: “não responde.”

“mas você nem viu.”

“não responde. vai por mim.”

mas ela veio e me mostrou. um babaca criticando uma foto linda só porque a modelo tinha cabelo nas pernas. e eu suspirei:

“ok, responde ao babaca. mas, por favor, da próxima vez, não me mostra o comentário. assim a minha opinião de “não responde” pode ser 100% isenta!”

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textos

como ganhar a vida dando meu trabalho de graça

nada pode ser mais mesquinho do que dizer “olha, tenho uma coisa legal aqui mas só te mostro se você pagar”.

e, na nossa sociedade capitalista, nada poderia ser mais tristemente comum.

* * *

todos os meus textos estão disponíveis gratuitamente na internet, para quem quiser ler, reler, linkar, distribuir.

todos os meus livros circulam gratuitamente, na forma de ebooks.

na revista fórum, escrevo gratuitamente, sem ganhar nada, por ativismo e por militância, porque a revista é importante para as causas que apóio.

todos os meus encontros têm a opção de entrar gratuitamente: paga somente quem quer, quem gosta de mim, quem acompanha meu trabalho, quem deseja colaborar.

ninguém precisa pagar para usufruir dos frutos do meu trabalho.

para mim, isso é o mais importante. senão, não faria sentido.

* * *

praticar arte de forma mais inclusiva e, ao mesmo tempo, ganhar a vida como artista é um dos grandes dilemas da arte contemporânea.

publicar minha literatura de graça na internet, sempre disponível para todos, e ganhar dinheiro vendendo esse mesmo conteúdo na forma de livros e encontros para quem pode e quer pagar… essa me parece ser uma das formas mais inclusivas de fazer literatura no brasil.

é o que posso fazer.

***

hoje, consigo ganhar a vida exclusivamente como escritor, graças à generosidade de cerca de 200 mecenas, entre elas 55 assinantes-pagantes, que contribuem com doações em dinheiro para a minha produção.

são elas que permitem que eu dê o meu trabalho de graça para quem deseja usufruir dele e não pode pagar.

muito, muito obrigado.

* * *

se você gosta do meu trabalho, e se não for fazer falta no leitinho das crianças, por favor, considere fazer uma doação.

se quer só acompanhar os meus textos, ler prévias, saber das novidades, assine meu newsletter (não custa nada!)

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raça textos

racismo reverso

uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar uma pessoa privilegiada celebrando seu privilégio.

uma camisa “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.

existe uma enorme diferença.

* * *

a partir de agora, quando alguém vier me falar de racismo reverso, vou mostrar esse vídeo. tem legendas em português.

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encontros

um pouco sobre o encontro “as prisões: práticas de atenção”

desde 2002, escrevo sobre as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. são elas:

verdade // dinheiro // trabalho // privilégio // monogamia // religião // patriotismo // obediência // sucesso // autossuficiência // conhecimento// felicidade // eu

agora, estou promovendo o encontro as prisões: práticas de atenção por todo brasil. o público-alvo são ovelhas negras em busca de interlocutores. o encontro oferece a oportunidade de passarmos o dia inteiro trocando histórias, compartilhando vidas, debatendo perplexidades. ao final, nós, todas as pessoas, estamos exaustas, gastas, esvaziadas. confusas, atarantadas, chacoalhadas. (veja os depoimentos de quem já foi.)

o encontro as prisões: práticas de atenção é independente por ideologia. não possui vínculo institucional algum. é divulgado pela internet de forma alternativa e realizado em praias, parques, quintais, praças. oferece frutas e castanhas para comermos ao longo do dia e tem um intervalo para almoço. começa sempre às nove da manhã de sábado ou de domingo e termina na hora que terminar. muitas vezes, a química é tanta que não queremos ir embora: o encontro mais longo durou 13 horas.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.
prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

o encontro é pago. mas negar uma pessoa só porque ela não pode pagar seria dar importância demais a essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro. portanto, algumas pessoas pagam, outras pagam menos, outras não pagam. na prática, as que pagam me possibilitam fazer o encontro para as que não pagam. nada poderia ser mais solidário do que isso. (para saber mais, consulte a política de gratuidades.)

não é auto-ajuda, terapia, coaching. não é palestra, aula, exposição de conteúdo. não tem apostila, powerpoint, frases de efeito pra anotar no moleskine. não oferece respostas, soluções, remédios. não promete uma vida mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

não ajuda em nada. pelo contrário, só atrapalha. às vezes, nos transforma em pessoas ainda mais confusas, desajustadas, perdidas. afinal, ser bem-sucedida e bem-ajustada em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa própria canalhice.

* * *

calendário completo de encontros em todo o brasil

sobre alex castro: bio, clipping, fotos, entrevistas.

dúvidas, questões, desabafos? fale com o alex.

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encontros

próximos eventos

veja quais serão os próximos encontros & assine a newsletter.

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textos

o que você gosta de ouvir?, me perguntou um amigo

eu: gargalhada feminina. batidas rápidas no han simbolizando o começo iminente do zazen. alho refogando. zíper abrindo. ondas quebrando. gemidos de gozo. criança brincando. zumbido de ar-condicionado começando a funcionar. dois sapatos caindo no chão, lentamente, um depois do outro. o apito do sorveteiro que passava pela minha casa. passos descalços no chão frio. “eu te amo, alexandre.” o rabo da capitu batendo na máquina de lavar enquanto estou abrindo a porta de casa. saltos altos estalando no mármore. máquina de escrever elétrica. “ó o biscoito globo, ó o mate leão.” pisada forte de mulher decidida. apito do recreio. pernas femininas, vestidas de couro ou látex, roçando uma contra a outra enquanto andam. o porteiro quando diz: “tem pacote pra você, seu alex.” suspiro saciado de prazer. gemidinhos da capitu sonhando. o sino do jikidô simbolizando o fim do zazen.

ela: não. eu quis dizer de música.

eu: ah.

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entrevistas

“é tudo mentira”, uma entrevista

talvez minha melhor entrevista.

concedida a felipe nascimento, do blog voo subterrâneo.

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textos

aquele prazer em reclamar

festival de teatro. por coincidência, sento ao lado da mesma senhora duas vezes.

oi, você não estava ao meu lado na peça tal?

sim, meu filho. que coincidência!

começamos a conversar sobre a peça anterior. ela disse que gostou muito de tudo. o único problema foi o som.

não consegui ouvir nada! veja só você que absurdo!

sim, confesso que me incomodou um pouco no começo, mas rapidamente a gente acostuma o ouvido, né? além disso, — era um festival internacional e a peça tinha legendas — quando eu achava que tinha perdido algo, sempre dava pra conferir o texto. e a montagem, o que a senhora achou?

montagem primorosa, mas esse som, nossa senhora! tinha que ter uma acústica melhor!

bem, gostei muito dos atores…

eu também. são ótimos. pena que não consegui ouvir nada, né? uma peça dessas, de nível internacional, jamais poderia ser encenada numa tenda ao ar livre! o som vai reverberar onde?

sim, claro, mas a senhora reparou na qualidade do texto? as idas e vindas temporais foram muito bem costuradas…

essa companhia é primorosa, meu filho. é o melhor texto teatral do brasil. por isso é imperdoável serem tão levianos com o som. qualquer um saberia que não se pode encenar uma peça ao ar livre a cinquenta metros do cruzamento mais movimentado da cidade, às seis da tarde! a cada buzina que tocava, a cada ônibus que passava, eram diálogos e diálogos que a gente não ouvia.

a conversa foi me deixando tristíssimo. eu queria pegar aquela senhora no colo e, de algum modo, salvá-la de si mesma, mas já aprendi que não dá pra salvar ninguém. especialmente de si mesma.

felizmente, soou a campainha e começou mais uma peça. linda. sensacional. da qual só lembro coisas boas.

* * *

tive uma namorada querida que se dizia cidadã consciente.

ligava pra fábrica do pãozinho e ficava meia hora descascando a moça do atendimento porque tinham vindo sete pães ao invés de oito. mandava sms pra administração do metrô pra avisar que o vagão tal fez uma parada muito brusca. chamava o gerente do mercado pra reclamar que depois das dez da noite nunca tinha ninguém pra cortar o presunto.

às vezes, apontava o dedo na minha cara, ressaltava minha dita passividade e acusava:

é por causa de gente como você que o brasil está assim!

e eu, na época, não dizia nada. porque a amava. porque evito brigar com gente que gosta de briga. e porque, no fundo, desconfiava que talvez pudesse ter razão.

hoje, muitos anos depois, e amando-a como ainda amo todo mundo que já amei, eu diria, com um pouco de tristeza, algum cansaço e um carinho imenso:

não, meu amor. é por causa de gente como você que o mundo está assim.

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textos

a boneca de sal

para quem está muito preocupada com sua própria individualidade, em não seguir os outros, em não ser só mais uma, em decifrar seus próprios dilemas existenciais, e em toda essa infindável masturbação mental, sempre recomendo a história da boneca de sal.

a parábola do boneco de sal
“quem é você?”

era uma vez uma boneca de sal. após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu comprendê-lo. perguntou ao mar: “quem é você?”

e o mar respondeu: “sou o mar.”

“mas o que é o mar?”

e o mar respondeu: “o mar sou eu.”

“não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. como faço?”

o mar respondeu: “encoste em mim.”

então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. sentiu que começava a entender mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.

“mar, o que você fez?!”

e o mar respondeu:

“eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. para entender tudo, é necessário dar tudo.”

ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. quanto mais entrava, e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:

“afinal, o que é o mar?”

então, foi coberta por uma onda. em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:

“o mar… o mar sou eu!”

* * *

a história pode ter várias mensagens. uma delas é aprender a não fazer perguntas idiotas. outra, que todo conhecimento tem um custo. também outra, que a verdadeira compreensão só pode se dar de dentro. ou, melhor, que só saindo de si mesma, só através do desapego, é possível uma verdadeira compreensão do outro, do universo, de qualquer coisa.

meu texto acima foi adaptado das versões do frei leonardo boff e do padre jesuíta anthony de mello. apesar das duas fontes cristãs, a história me parece profundamente budista.

e me fez recordar a historinha abaixo.

* * *

depois de um concerto, a fã aborda a pianista e diz:

“eu daria minha vida para tocar tão bem assim.”

e ela responde, simplesmente:

“eu dei.”

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textos

hoje de manhã, chorei

o encontro “as prisões”, em belém, foi com certeza o mais esquentado e exaltado, mas também o mais aberto e mais emocionante.

nunca vi tantas participantes a beira das lágrimas. nunca tantas participantes se abrirem tanto, se exporem tanto, se sentirem tão livres para compartilhar e contribuir.

hoje de manhã, lendo os depoimentos das pessoas participantes, agarrei a Outra Significativa pela cintura e comecei a chorar.

fui durante muito tempo uma pessoa muito ruim e muito egoísta. provavelmente ainda sou.

não sinto culpa dos pecados passados. culpa nao faz sentido. culpa nao resolve nada.

mas sinto sim uma obrigação de reequilibrar a balança. de devolver um pouco do que recebi. de passar adiante as graças que usufruí.

então, chorei ao ver o impacto das minhas palavras em vocês. ao ver que estou ajudando minimamente.

sem querer salvá-los. sem querer carregá-los. sem querer dar respostas.

só mostrando um jeito diferente de pensar. só dando uma pequena ajuda. como tantas pequenas ajudas que recebi e nunca agradeci.

e que, agora, passo adiante.

muito obrigado.

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prisão narcisismo

no encontro as prisões, passamos o dia inteiro conversando sobre todas essas bolas de ferro mentais que arrastamos pela vida. as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. enfim, as prisões.

a última, e a mais importante, a prisão sem a qual toda a discussão anterior não teria sentido, é a prisão narcisismo.

afinal, a maior de todas as prisões somos nós mesmos. nós e nosso imenso narcissismo. sempre só olhando para os nossos umbigos, para os nossos ó-tão-importantes problemas.

abaixo, alguns textos que desenvolvem o conteúdo da prisão narcisismo. são alguns de meus textos mais importantes:

eu não sei o que está acontecendo na líbia // zazen // uma caneca // somos todos fingidores // paradoxo de narciso // cajuína // vou mudar de vida… mas não hoje // o mal é a falta de atenção // a solidão de narciso

* * *

para ajudar em nossos esforços para sermos menos narcissistas, eu proponho os exercícios de empatia:

1. praticar um olhar generoso // 2. dar-se conta das pessoas // 3. ver na sua totalidade // 4. ouvir com atenção plena // 5. cultivar o não-conhecimento // 6. exercer a não-opinião // 7. não ser a constante // 8. colocar-se em outra pessoa // 9. escolher agir com empatia // 10. visualizar o privilégio

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textos

como funciona o privilégio

um filme só sobre homens é um filme.

um filme só sobre mulheres é um filme feminino.

um ensaio fotográfico só de mulheres brancas é um ensaio de mulheres.

um ensaio fotográfico só de mulheres negras é um ensaio negro.

um romance sobre um casal hétero é um romance.

um romance sobre um casal homossexual é um romance gay.

quantas vezes não somos nós mesmas, na nossa fala e nas nossas ações, a perpetuar esse tipo de normatização tirânica?

como funciona o machismo

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encontros

tudo o que as prisões não são

sobre o encontro “as prisões”.

não é auto-ajuda, terapia, coaching.

não é palestra, aula, exposição de conteúdo.

não promete respostas, soluções, remédios.

não é fácil, não é mastigado.

não tem apostila, bullets de powerpoint, frases de efeito pra você anotar no seu moleskine.

você não vai te tornar uma pessoa mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

não vai te ajudar em nada.

prisoes sp 23mar14 por flavia totoli

pelo contrário, talvez te atrapalhe.

talvez te transforme em uma pessoa ainda mais confusa, desajustada, perdida.

talvez você saia do encontro incapaz de conviver em sociedade, de tolerar o mundo, de conversar com sua família.

ou, pior, muito pior… talvez nem isso.

de qualquer modo, o encontro “as prisões” não vende nada e não promete nada.

venha por sua conta e risco. sem expectativas.

ficamos juntas um dia inteiro e, ao final, estamos todas exaustas, gastas, esvaziadas. confusas, atarantadas, chacoalhadas.

não se sinta mal se não quiser encarar. eu entendo.

só não deixe de vir por falta de dinheiro — temos uma política de gratuidades bem ampla.

deixe de vir só por falta de coragem mesmo.

talvez não seja mesmo pra você.

depoimentos de quem já foi // política de gratuidades // calendário de encontros para todo o brasil em 2014

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encontros

parecia que não queríamos ir embora

alguns encontros “as prisões” são realmente especiais.

ontem, em bh, começamos às nove da manhã, almoçamos no bolão e deveríamos ter acabado às seis da tarde.

deveríamos.

quando nos expulsaram do teatro onde estávamos realizando o evento, às sete da noite, depois de uma hora de atraso, ainda faltavam cinco das vinte e três pessoas participantes de apresentarem.

então, fomos para a praça santa tereza, ali do lado, e continuamos conversando, ouvindo, conhecendo umas às outras até às dez.

finalmente, depois de eu ter encerrado o evento com a prisão felicidade e prisão narcissismo, fechamos a noite comendo pizzas na parada do cardoso.

parecia que não queríamos nos separar. tínhamos ouvido histórias inesquecíveis, conhecido pessoas sensacionais. tínhamos nos dado, nos compartilhado.

poucas coisas aproximam tanto as pessoas quanto simplesmente ouvi-las com todo nosso carinho, com toda nossa atenção.

prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.
prisões, bh, 18mai. pç santa tereza. foto: claudia regina.

* * *

foi o terceiro encontro “as prisões” em bh.

as pessoas participantes dos dois primeiros ficaram amigas, companheiras, amantes. saem para piqueniques, botecagens, passeios. que eu saiba, dois casais já se formaram, talvez mais.

fico muito, muito feliz.

* * *

nos novos encontros “as prisões”, eu cada vez falo menos e as pessoas participantes, cada vez mais.

o objetivo do encontro não é “passar o conteúdo” das “minhas ideias”. não é aula. não é palestra. nada disso.

tudo o que tenho a dizer pode ser lido nos meus textos, disponíveis gratuitamente pela internet. ninguém precisa sair de casa pra saber o que eu penso.

os encontros “as prisões” são para aprendermos a ser melhores ovelhas negras.

para que aquelas pessoas, tão acostumadas a serem sempre as “esquisitas” da família e as “maluquinhas” do escritório, finalmente estejam em meio às suas iguais.

para encontrarmos nossas interlocutoras.

e é minha honra, minha alegria, meu privilégio poder ser o catalizador desse encontro.

* * *

ninguém precisa pagar para vir nesses encontros.

seria um absurdo impensável negar uma pessoa só porque ela não tem dinheiro. seria dar importância demais à essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro.

quem pode pagar, paga. e eu agradeço. vivo disso e não tenho outra renda.

quem não pode pagar, não paga. e eu agradeço pela oportunidade de ajudar.

na prática, as-pessoas-que-podem-pagar pagam pelas pessoas-que-não-podem-pagar e nada poderia ser mais lindo e mais justo e mais solidário do que isso.

quanto a mim, se sobrar o suficiente para eu cobrir a passagem, o aluguel do espaço e as comidinhas, já está bom demais.

se eu quisesse ganhar dinheiro e ficar rico, com certeza não estaria aqui escrevendo sobre as prisões, essas bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida, essas ideias pré-concebidas, essas tradições mal-explicadas, esses costumes sem-sentido.

* * *

esse ano, vou levar as prisões para todo o brasil. o calendário completo está aqui. veja também a política de gratuidades e os depoimentos de quem já foi.

prisões, bh, 18mai. pç st tereza. foto: claudia regina.
prisões, bh, 18mai. pç st tereza. foto: claudia regina.
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leituras

Listinhas literárias

Pessoas autoras vivas favoritas:
Alexievich, Houellebecq, Lobo Antunes.

Autoras mulheres favoritas:
Alexievich, Brontë, Chopin, Morrison, Murdoch, Woolf, La Fayette, Weil, Lispector.

Livros preferidos de todos os tempos:
Bíblia, Declínio e queda do Império Romano, Ilíada

Melhores romances escritos nas Américas no século XIX:
Cecilia Valdés, Dom Casmurro, Moby Dick.

Livros para entender o Brasil:
Casa grande & senzala, Quarto de despejo, Os sertões.

Pessoas autoras russas fundamentais que não são nem Tolstoi, nem Dostoievski, nem Tchecov:
Turgeniev, Gorki, Gogol.

Melhores romances brasileiros:
Dom Casmurro, Grande sertão: veredas, Hora da estrela, Água viva.

Melhor romanção romântico do séc.XIX:
Os miseráveis, de Hugo.

Melhor romanção realista do séc.XIX:
Fortunata y Jacinta, de Galdós.

Romanções que ainda pretendo ler ou terminar de ler:
Ulisses, Montanha mágica, Homem sem qualidades, Em busca do tempo perdido, Tristam Shandy, Eneida, Ana Karenina, Fivina comédia.

Melhor best-seller internacional brasileiro que as pessoas brasileiras insistem em ignorar:
Quarto de despejo, Jesus.

Melhores pessoas historiadoras:
Fraginals, Freyre, Gibbon, Thompson.

Três pessoas poetas essenciais:
Whitman, Whitman, Whitman.

Melhores romances apesar do final frouxo:
Lord Jim, Morro dos ventos uivantes, Crônica da casa assassinada.

Melhores obras inacabadas:
O castelo, O processo, O romance da pedra do reino, Eneida, O cemitério dos vivos.

Melhor pessoa autora em língua portuguesa, todos os tempos:
Lispector.

Melhor grupo para ir tomar uns gorós em Viena:
Freud, Schnitzler, Zweig.

Melhores contistas:
Borges, Kafka, Machado, Maupassant, Tchecov.

Melhor romance pós-moderno escrito antes da pós-modernidade:
Manuscrito encontrado em Saragoça, de Potocki.

Melhor morte da literatura:
Capitu, em Dom Casmurro.

Melhores livros da Bíblia:
Gênesis, Samuel/Reis, Eclesiastes, Jó, Apocalipse de Esdras.

Melhores autores hermanos:
Borges, José Hernández, Sábato, Saer.

Melhores personagens de séries de literatura de entretenimento:
Alatriste, Fletch, Lupin, Wolfe.

Melhores autores claramente podólatras:
José de Alencar, Dostoievski, Kafka, Antonio Torres, Edmund Wilson.

Melhores obras nas quais rigorosamente nada acontece:
O jardim das cerejeiras, Princesa de cleves, Paixão segundo G. H.

Melhores mulheres malvadas da literatura:
Ayesha (Ela, de Haggard), Cathy (A leste do éden, de Steinbeck), Milady (Três mosqueteiros, de Dumas), Jadis, a feiticeira branca (Leão, feiticeira, guarda-roupa, Lewis), Marquesa de Merteuil (Relações perigosas, Laclos), Xenia (Noiva ladra, Atwood).

Melhor livro de não-ficção no qual não se pode confiar em nada:
Peregrinação, de Mendes Pinto.

Melhor final de romance:
As últimas sessenta páginas de Moby Dick.

Melhor romance chato:
Moby Dick.

Melhor livro sobre pessoas pobres escrito por burguesinho rico:
Memórias de um caçador, de Turgueniev.

Meu irmão de coração:
Agostinho de Hipona.

Livro que eu tenho mais vergonha de gostar:
A nascente, de Rand.

Minha deusa-guia mor:
Weil.

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rio de janeiro

turismo na favela

de uns tempos pra cá, virou moda: turistas vêm ao rio e não querem mais conhecer o corcovado ou o pão de açúcar, mas sim a favela da rocinha e do vidigal. estão as pessoas gringas se aproveitando das faveladas? ou são as pessoas faveladas que estão cambalachando as gringas? o turismo estimula o progresso das favelas ou garante que nunca saiam da mesma estagnação?

o pós-turista

o turismo nas favelas é uma faceta no novo “pós-turismo”.

agora que pessoas de poder aquisitivo cada vez mais baixo já podem visitar os destinos turísticos tradicionais (a classe média sofre com esses pobretões na fila da disney!), as novas pós-turistas, para se distanciar da ralé e reestabelecer a distância original, precisam buscar novas experiências turísticas, mais inusitadas, mais interativas, mais aventureiras, indo a lugares que seriam a antítese do antigo turismo, localidades antes marginais e agora reinventadas e reapropriadas.

em outras palavras, com tantas pessoas pobres agora lotando gallerie laffayette, em paris, suas antigas frequentadoras hoje fazem safari tours em favelas.

a indústria do turismo classifica a pobreza como exótica, a transforma em mercadoria e a vende para turistas que queiram participar dessa “economia de sensações”, onde o que compram é justamente a sensação voyeurítica de poder vivenciar a pobreza e a miséria sem precisar, para isso, serem pobres e miseráveis.

o capitalismo celebra toda a diferença que seja capaz de mercantilizar.

turismo da miséria: prós e contras

eu sou do rio, morei por seis anos em nova orleans e faço pesquisas em havana. são três cidades turísticas (e lindas, diga-se de passagem) onde se faz esse “turismo da pobreza”.

no rio, são as favelas. em nova orleans, é a destruição causada pelo furacão katrina. em havana, são os prédios em ruínas. sempre cercados de belgas bem alimentados, calçando birkenstocks e tirando fotos com máquinas cujo valor alimentaria uma família local.

isso é bom?

para defensores da prática, ela tem as seguintes vantagens:

  • melhorar o desenvolvimento econômico da região;
  • conscientizar turistas;
  • aumentar a autoestima da população;
  • forjar lideranças locais;
  • compartilhar recursos e conhecimento entre pessoas que não teriam se encontrado se não fosse o turismo.

para quem está contra, existiriam dois grandes problemas:

  • os benefícios gerados vão em grande parte para as pessoas proprietárias das agências e não revertem em melhorias e investimentos nas comunidades;
  • mais que conscientização e mobilização social, essas visitas gerariam um certo voyeurismo diante da pobreza e do sofrimento.

quem é a turista da miséria?

em seu livro gringo na laje, a socióloga bianca freire-medeiros traçou um interessante estudo do turismo na favela da rocinha, falando com moradoras, turistas, guias de passeio e proprietárias de agência.

segundo suas pesquisas, a principal característica dessa turista seria sua ansiedade de se diferenciar:

  • das moradores; afinal, o turismo na favela não deixa de ser uma maneira de darem mais valor aos confortos materiais de casa.
  • das turistas convencionais, que só vão aos pontos turísticos previsíveis e jamais teriam coragem de encarar uma favela.
  • das turistas voyeurs e pouco engajadas, que visitam as favelas do jeito errado, como abutres, sem contribuir, sem ajudar, etc.
  • da elite local, preconceituosa e com medo de conhecer sua própria cidade.

mais do que tudo, essas turistas estão buscando por uma mítica “experiência verdadeira”, uma certa “realidade nua e crua” a qual teoricamente não têm mais acesso em casa – como se suas vidas afluentes e confortáveis na europa fossem menos reais e menos verdadeiras do que as vidas dos favelados da rocinha.

e saem do passeio com a sensação de terem desfrutado de uma experiência completamente inalcançável e intransferível, seja aos turistas comuns, seja às elites locais.

essa busca ansiosa pela ilusória “mediação não mediada” baseia-se na crença de que existem experiências turísticas “autênticas” que podem acontecer sem a mediação da indústria do turismo, sem serem produtos culturais prontos e pré-fabricados.

ou seja, é a miragem de que o produto “passeio de um dia na favela da rocinha”, vendido por uma agência de turismo, é intrinsecamente mais autêntico do que o produto “passeio de um dia no corcovado”, vendido pela mesmíssima agência.

para que a visita à favela sirva seu objetivo, a turista precisa se convencer que a sua visita, ao contrário das das outras turistas voyeurs, é um ato ético e solidário.

a experiência não deixa de trazer consigo uma certa ansiedade: afinal, como uma praia deserta, se todas a visitarem, ela deixa de ser deserta.

nesse ponto, o valor da favela está em ser exclusiva e fora do mainstream; quanto mais turistas a visitarem, menos desejável ela se torna como fator de diferenciação.

fica claro que, nessa economia de sensações do turismo da miséria, o que está sendo vendido à turista é principalmente uma certa sensação de superioridade moral e intelectual.

o que pensam as moradoras das favelas

a principal ilusão das turistas é que seus passeios trazem algum benefício à comunidade.

de fato, as agências são operadas de fora da favela e os lucros vão para suas proprietárias. quando muito, comerciantes da favela tem um pequeno aumento de vendas, mas a maioria diz que turistas só querem saber de tirar fotos e comprar água.

em muitas ocasiões, fica claro que as turistas querem apenas uma confirmação de sua própria imagem mental da favela. conta uma moradora:

“uma vez, quando meu filho era mais novo, [algumas turistas] quiseram tirar foto dele, mas quando cheguei com ele [que é branco], eles não quiseram, porque eles queriam um neguinho.”

na verdade, como disse um comerciante, as turistas dão somente uma pequena ajuda nos lucros, mas seu maior valor está em tirar a impressão de lugar violento que a favela tem. por isso, grande parte das pessoas moradoras vê esse tipo de turismo de modo positivo.

para as moradoras, a questão não é nem tanto se o turismo na favela deveria existir ou não, mas de que maneira ele poderia beneficiar a comunidade. a maioria das turistas pensa estar ajudando a comunidade simplesmente ao participar do passeio, mas as moradoras têm outra ideia do que constituiria ajuda:

“os turistas … às vezes … só passam pelos lugares mais ricos… [s]e eles fossem lá… onde o pessoal é mais necessitado, talvez eles pudessem se inspirar em limpar o lugar, talvez alguém se interessasse em ajudar os moradores… alguém poderia trazer dinheiro, consertar um cano. isso iria beneficiar a galera lá, porque ia incentivar os moradores a consertar as casas, tirar a lama, tirar o lixo.”

a questão do cheiro

o cheiro ruim é essencialmente subversivo. ele não pode ser banido, controlado, pasteurizado, estetizado.

se a fotografia permite que a miséria mais degradante transforme-se em objeto estético (oi, sebastião salgado), o cheiro não se presta a isso.

a vala aberta, o esgoto imundo, o lixo ao sol, o rato morto, nenhum deles pode ser tão facilmente domesticado, empacotado, vendido e distribuído ao mundo como uma bela foto de uma menina pobre e remelenta.

o cheiro exige ser confrontado: ou você fala sobre ele, ou você fica calado. não existe meio termo.

e, não por acaso, os relatos sobre visitas às favelas abundam em fotos, mas contém muito poucas referências ao cheiro.

nós também fazemos parte do problema

essa história não tem mocinhas nem vilãs. as faveladas não são pobres coitadas incapazes de pensar criticamente sua situação. as estrangeiras não são babacas ou iludidas ou ingênuas. as guias de turismo e donas de agência não estão explorando a favela.

senão, podemos acabar falando coisas assim:

“cabe a nós, elite ilustrada não-favela, defender as pessoas faveladas dessas turistas desalmadas e voyeuristas que as veem como animais em jaulas.”

na verdade, nosso papel nessa história é outro.

quando as turistas se gabam de visitar a favela, um lugar onde a preconceituosa elite local se recusa a ir… é de nós que estão falando.

quando as moradoras dizem que o maior benefício do turismo é quebrar a invisibilidade social da favela e ajudar a refutar os estigmas de violência e miséria… é de nós que estão falando, nós que criamos essa invisibilidade, nós que perpetuamos esse estigma.

e então? o que nós vamos fazer?

* * *

o texto que você acabou de ler é um resumo e uma paráfrase do livro gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística, de bianca freire-medeiros, publicado pela editora fgv em 2009, e disponível em uma edição de bolso baratinha. recomendo com ênfase.

* * *

aviso sobre linguagem e gênero

o texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. por favor, avisem e vou corrigir. para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.

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esses textos que mudam nossas vidas

acontece muito: a pessoa me escreve efusivamente, agradece por um texto, diz que mudou sua vida, etc.

eu respondo agradecendo os elogios e pedindo que ela, se puder, se não for fazer falta, realize uma doação em dinheiro de um valor proporcional ao bem que o texto lhe fez. afinal, sou um artista independente, vivo disso e ela leu de graça o texto que mudou sua vida.

e a pessoa não responde nem nunca faz a doação.

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eu trabalho duro para escrever os textos que vocês leem. não tenho outra atividade. só faço isso.

muita gente acha os textos blé. entendo, aceito e respeito.

mas, se você gosta, se repassa pras amigas, se cita os meus argumentos em conversas, se fica com as minhas palavras em sua cabeça, então, por favor, considere a possibilidade de remunerar a pessoa que trabalha duro para criar essas palavras.

um grande beijo em todas vocês.

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esse é o último texto que vêm gerando esse tipo de elogio. talvez você goste: prisão trabalho.