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aquele prazer em reclamar

é por causa de todos nós que o brasil está assim.

festival de teatro. por coincidência, sento ao lado da mesma senhora duas vezes.

oi, você não estava ao meu lado na peça tal?

sim, meu filho. que coincidência!

começamos a conversar sobre a peça anterior. ela disse que gostou muito de tudo. o único problema foi o som.

não consegui ouvir nada! veja só você que absurdo!

sim, confesso que me incomodou um pouco no começo, mas rapidamente a gente acostuma o ouvido, né? além disso, — era um festival internacional e a peça tinha legendas — quando eu achava que tinha perdido algo, sempre dava pra conferir o texto. e a montagem, o que a senhora achou?

montagem primorosa, mas esse som, nossa senhora! tinha que ter uma acústica melhor!

bem, gostei muito dos atores…

eu também. são ótimos. pena que não consegui ouvir nada, né? uma peça dessas, de nível internacional, jamais poderia ser encenada numa tenda ao ar livre! o som vai reverberar onde?

sim, claro, mas a senhora reparou na qualidade do texto? as idas e vindas temporais foram muito bem costuradas…

essa companhia é primorosa, meu filho. é o melhor texto teatral do brasil. por isso é imperdoável serem tão levianos com o som. qualquer um saberia que não se pode encenar uma peça ao ar livre a cinquenta metros do cruzamento mais movimentado da cidade, às seis da tarde! a cada buzina que tocava, a cada ônibus que passava, eram diálogos e diálogos que a gente não ouvia.

a conversa foi me deixando tristíssimo. eu queria pegar aquela senhora no colo e, de algum modo, salvá-la de si mesma, mas já aprendi que não dá pra salvar ninguém. especialmente de si mesma.

felizmente, soou a campainha e começou mais uma peça. linda. sensacional. da qual só lembro coisas boas.

* * *

tive uma namorada querida que se dizia cidadã consciente.

ligava pra fábrica do pãozinho e ficava meia hora descascando a moça do atendimento porque tinham vindo sete pães ao invés de oito. mandava sms pra administração do metrô pra avisar que o vagão tal fez uma parada muito brusca. chamava o gerente do mercado pra reclamar que depois das dez da noite nunca tinha ninguém pra cortar o presunto.

às vezes, apontava o dedo na minha cara, ressaltava minha dita passividade e acusava:

é por causa de gente como você que o brasil está assim!

e eu, na época, não dizia nada. porque a amava. porque evito brigar com gente que gosta de briga. e porque, no fundo, desconfiava que talvez pudesse ter razão.

hoje, muitos anos depois, e amando-a como ainda amo todo mundo que já amei, eu diria, com um pouco de tristeza, algum cansaço e um carinho imenso:

não, meu amor. é por causa de gente como você que o mundo está assim.