Se beber, vá de táxi

Mas só se o taxista estiver sóbrio.

lamas » leia o texto completo «

e não é que é errado isso?

dirigir no rio com uma haole* é recuperar um pouco de uma noção do absurdo que já perdemos há décadas.

rio de janeiro

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hoje à noite, no cassino da urca

bondes circulam no centro do rio de janeiro.

a febre amarela está de volta.

ministro considerado para o supremo defende “submissão da mulher”.

o lado bom é que a qualquer momento machado de assis deve lançar um novo romance.

Largo-da-Lapa

Nostalgia da pólio

Nunca vi nostalgia alguma que não fosse fundamentada numa sólida ignorância do passado.

rio de janeiro palacio monroe

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diário de uma olimpíada: última semana

durante a rio2016, arrumei um celular, voltei ao facebook e compartilhei por lá minhas experiências em tempo real.

os textos sobre a primeira semana estão aqui. abaixo, escritos no calor do momento e não-editados, alguns trechos sobre a segunda e última semana de jogos.

estampa_2_rio_2016

* * *

mais um ouro para o brasil

entre o parque olímpico e o metrô jardim oceânico, o brt tem somente uma parada: no barrashopping.

infelizmente, em um desses dias olímpicos lotados, esqueceram de informar ao motorista, que passou direto.

a galera veio abaixo, gritando, mandando parar.

ele parou e começou a voltar, devagarinho, dando ré naquele ônibus gigantesco, claramente com muito cuidado e dificuldade.

demorou um tempinho.

quando finalmente conseguiu, a galera veio abaixo de novo, dessa vez batendo palmas e assobiando:

“é ouro! é ouro, brasil!”

sem saber se era sério ou se era sarcasmo, o motorista levantou os braços, agradeceu e seguimos viagem.

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querida correspondente estrangeira

acompanhei com afinco sua cobertura sobre os dias que antecederam a catastrófica rio2016 e, inclusive, confiando no seu conhecimento da realidade brasileira, até cancelei minhas reservas e revendi meus ingressos.

infelizmente, na véspera da calamitosa festa de abertura, passei mal e entrei em coma, do qual acabei de sair, duas semanas depois.

rio2016

agora, quero escrever meu próprio artigo sobre o caos da rio2016, mas estou com dificuldades de encontrar informações abalizadas.

por favor, você poderia me confirmar:

dentre o um milhão de visitantes…

— quantas foram executadas pelos esquadrões da morte das favelas?

— quantas turistas morreram por conta de atentados terroristas?

— quantas atletas contraíram zika?

— quantas iatistas caíram vitimadas pelas águas de esgoto aberto?

— quantas competições tiveram que ser canceladas porque os estádios não ficaram prontos?

— dentre os estádios milagrosamente “finalizados”, quantos desabaram por terem sido construídos de forma corrupta e apressada e incompetente?

— quantos nadadores foram roubados justo na noite em que queriam fugir de outros compromissos?

na certeza de que esses números devem estar na ponta dos seus dedos, fico no aguardo. » leia o texto completo «

diário de uma olimpíada: primeira semana

estou absolutamente feliz com a rio2016: arrumei um celular, voltei ao facebook e estou compartilhando por lá minhas experiências em tempo real.

abaixo, alguns dos menos piores momentos. » leia o texto completo «

manhãs de copacabana

Copacabana-sunrise

adoro acordar com o dia ainda escuro, ver o sol lentamente surgindo por cima do morro do cantagalo, ver as gaivotas sobrevoando a praia de copacabana, sentir o leve cheiro de maresia que vem chegando, sentir o bairro despertando.

adoro acompanhar o movimento do sol dentro da minha casa. primeiro, ele bate na cama, depois, na rede, e vem entrando e entrando, e me empurrando pra dentro de casa, até que, nessa época do ano, lá pelas sete, o único lugar que me sobra na casa é o balcão, para tomar café e trabalhar.

adoro o cheiro de café que vai aparecendo, aqui e ali, de muitos dos 400 apartamentos que me cercam só no meu prédio.

adoro ouvir as crianças chegando, falando, brincando na creche que fica ao lado da minha janela, o solar meninos de luz.

adoro a alegria ensandecida da capitu, cachorra de apenas seis meses de idade, ao perceber que está viva e tem mais um dia pela frente.

adoro o meu café da manhã de café, ovo mexido, torradas com manteiga e fruta, o cheiro de cada uma dessas coisas me confortando, me preenchendo, me deliciando, me colocando já no clima do novo dia.

por fim, adoro um senhor negro, magro e alto que, todo dia, lá pelas onze e pouco, passa pela minha rua gritando “ó o almoço da quentinha”, simbolizando assim o final oficial de mais uma manhã no rio de janeiro.

cada dia mais eu comprovo. minha hora produtiva é a manhã. se já não fiz o meu melhor trabalho até a chegada do moço da quentinha, melhor dormir cedo e tentar de novo no dia seguinte.

* * *

foto: um típico nascer-do-sol em copacabana, por aaron frutman. acreditem ou não, tem um desses aqui todo dia. eu não canso.

em linhas gerais, na praia de copacabana o sol pode ser visto nascendo do outro lado da baía de guanabara, atrás das montanhas de niterói, e, na de ipanema, se pondo atrás do morro dois irmãos.

meu apartamento é voltado para a praia de copa, que está a três quarteirões de distância, mas não tem vista para o mar: eu só vejo suas gaivotas, sinto seu cheiro, adivinho sua presença.

 

tudo o que você precisa saber sobre o capitalismo, em uma livraria

moro entre dois bairros cheios de livrarias, inclusive algumas muito badaladas e gigantescas, como a livraria da travessa de ipanema.

como não tenho internet em casa, quando quero um livro, eu ligo pra uma meia dúzia de livrarias e pergunto.

e, apesar de todas essas livrarias, é sempre uma pequena livraria na esquina da minha rua que tem tudo o que eu quero.

com um problema.

chego lá e o jardim das aflições, magnus opum do vilósofo olavo de carvalho, lançado quinze anos atrás, está permanentemente exposto em lugar de honra, como se tivesse sido lançado ontem por uma editora que pagou caro pelo espaço na vitrine.

além disso, a obra está sempre ladeada de escudeiros: o novo livro do constantino, a biografia do lobão, o último lançamento da três estrelas, todos exibidos com destaque.

mas aí, outro dia eu estava buscando por uns livros obscuros do paulo freire, sabe quem é?, aquele comunista que as pessoas do leblon fazem passeata contra?, e eles tinham uma estante inteira com dezenas de obras do paulo freire, obras que não tinham em nenhuma das outras livrarias pra-frentex do bairro.

(não em destaque como as obras do olavão, claaaaro, mas estavam lá.)

aí, semana passada, decidi reler foucault, que eu tinha lido em xerox, e, de novo, a única livraria do bairro que tinha todas as obras do foucault que eu estava procurando, sabe quem é?, o filósofo careca pervertido gay que a igreja impediu de virar cátedra na puc?, foi essa livraria olavete.

(ok, de novo, não em destaque, mas estavam todos lá – e são muitos.)

essa pequena livraria olavete em copacabana simboliza tudo o que o capitalismo tem de melhor e de pior:

ele é o único sistema cuja ganância é tamanha que incorpora, aceita e coopta até mesmo o discurso que prega a sua própria destruição – desde que possa lucrar com isso – tudo sob o manto de uma democracia de fachada – que sempre vai só até certo ponto, e olhe lá.

enfim, virei freguês.

o que o faxineiro disse ao porteiro

entreouvida em copacabana:

“hoje, dona míriam, do 802, veio me dar bom-dia, perguntou meu nome, disse que era a primeira vez que me via ali… rá! primeira vez que ela repara em mim, né? porque ela me vê todo dia aqui varrendo a portaria.”

distópicas e luditas

de repente, na rua, alguém fala comigo.

abro a boca para responder…

e a pessoa passa por mim como se eu fosse um fantasma:

estava apenas falando em seu fone bluetooth, totalmente imersa em seus próprios problemas, tratando a rua pública como se fosse uma esteira rolante por onde desliza fantasmagoricamente, sem estar realmente presente, enquanto resolve suas questões virtuais com pessoas virtuais através de uma tecnologia virtual.

errado sou eu de achar que a rua é um espaço público para interação concreta entre pessoas de carne e osso.

* * *

infelizmente, não aprendo. meus instintos ainda são totalmente antiquados, completamente século XIX:

sempre levanto os olhos otimista, achando que estão falando comigo, achando que estou prestes a embarcar em mais uma interação humana…

sempre abaixo os olhos cabisbaixo, sem conseguir reprimir uma inexplicável pontada de desamor e solidão.

* * *

outro dia, em copacabana, aconteceu de novo.

levantei os olhos para o moço, mas ele não estava falando comigo.

entretanto, pasmem!, conferi uma orelha, verifiquei a outra: nenhum fone!

era um maluco à moda antiga, falando sozinho pelas esquinas do bairro.

ninguém entende, mas aquilo me trouxe tanta esperança.

turismo na favela

de uns tempos pra cá, virou moda: turistas vêm ao rio e não querem mais conhecer o corcovado ou o pão de açúcar, mas sim a favela da rocinha e do vidigal. estão as pessoas gringas se aproveitando das faveladas? ou são as pessoas faveladas que estão cambalachando as gringas? o turismo estimula o progresso das favelas ou garante que nunca saiam da mesma estagnação?

o pós-turista

o turismo nas favelas é uma faceta no novo “pós-turismo”.

agora que pessoas de poder aquisitivo cada vez mais baixo já podem visitar os destinos turísticos tradicionais (a classe média sofre com esses pobretões na fila da disney!), as novas pós-turistas, para se distanciar da ralé e reestabelecer a distância original, precisam buscar novas experiências turísticas, mais inusitadas, mais interativas, mais aventureiras, indo a lugares que seriam a antítese do antigo turismo, localidades antes marginais e agora reinventadas e reapropriadas.

em outras palavras, com tantas pessoas pobres agora lotando gallerie laffayette, em paris, suas antigas frequentadoras hoje fazem safari tours em favelas.

a indústria do turismo classifica a pobreza como exótica, a transforma em mercadoria e a vende para turistas que queiram participar dessa “economia de sensações”, onde o que compram é justamente a sensação voyeurítica de poder vivenciar a pobreza e a miséria sem precisar, para isso, serem pobres e miseráveis.

o capitalismo celebra toda a diferença que seja capaz de mercantilizar.

turismo da miséria: prós e contras

eu sou do rio, morei por seis anos em nova orleans e faço pesquisas em havana. são três cidades turísticas (e lindas, diga-se de passagem) onde se faz esse “turismo da pobreza”.

no rio, são as favelas. em nova orleans, é a destruição causada pelo furacão katrina. em havana, são os prédios em ruínas. sempre cercados de belgas bem alimentados, calçando birkenstocks e tirando fotos com máquinas cujo valor alimentaria uma família local.

isso é bom?

para defensores da prática, ela tem as seguintes vantagens:

  • melhorar o desenvolvimento econômico da região;
  • conscientizar turistas;
  • aumentar a autoestima da população;
  • forjar lideranças locais;
  • compartilhar recursos e conhecimento entre pessoas que não teriam se encontrado se não fosse o turismo.

para quem está contra, existiriam dois grandes problemas:

  • os benefícios gerados vão em grande parte para as pessoas proprietárias das agências e não revertem em melhorias e investimentos nas comunidades;
  • mais que conscientização e mobilização social, essas visitas gerariam um certo voyeurismo diante da pobreza e do sofrimento.

quem é a turista da miséria?

em seu livro gringo na laje, a socióloga bianca freire-medeiros traçou um interessante estudo do turismo na favela da rocinha, falando com moradoras, turistas, guias de passeio e proprietárias de agência.

segundo suas pesquisas, a principal característica dessa turista seria sua ansiedade de se diferenciar:

  • das moradores; afinal, o turismo na favela não deixa de ser uma maneira de darem mais valor aos confortos materiais de casa.
  • das turistas convencionais, que só vão aos pontos turísticos previsíveis e jamais teriam coragem de encarar uma favela.
  • das turistas voyeurs e pouco engajadas, que visitam as favelas do jeito errado, como abutres, sem contribuir, sem ajudar, etc.
  • da elite local, preconceituosa e com medo de conhecer sua própria cidade.

mais do que tudo, essas turistas estão buscando por uma mítica “experiência verdadeira”, uma certa “realidade nua e crua” a qual teoricamente não têm mais acesso em casa – como se suas vidas afluentes e confortáveis na europa fossem menos reais e menos verdadeiras do que as vidas dos favelados da rocinha.

e saem do passeio com a sensação de terem desfrutado de uma experiência completamente inalcançável e intransferível, seja aos turistas comuns, seja às elites locais.

essa busca ansiosa pela ilusória “mediação não mediada” baseia-se na crença de que existem experiências turísticas “autênticas” que podem acontecer sem a mediação da indústria do turismo, sem serem produtos culturais prontos e pré-fabricados.

ou seja, é a miragem de que o produto “passeio de um dia na favela da rocinha”, vendido por uma agência de turismo, é intrinsecamente mais autêntico do que o produto “passeio de um dia no corcovado”, vendido pela mesmíssima agência.

para que a visita à favela sirva seu objetivo, a turista precisa se convencer que a sua visita, ao contrário das das outras turistas voyeurs, é um ato ético e solidário.

a experiência não deixa de trazer consigo uma certa ansiedade: afinal, como uma praia deserta, se todas a visitarem, ela deixa de ser deserta.

nesse ponto, o valor da favela está em ser exclusiva e fora do mainstream; quanto mais turistas a visitarem, menos desejável ela se torna como fator de diferenciação.

fica claro que, nessa economia de sensações do turismo da miséria, o que está sendo vendido à turista é principalmente uma certa sensação de superioridade moral e intelectual.

o que pensam as moradoras das favelas

a principal ilusão das turistas é que seus passeios trazem algum benefício à comunidade.

de fato, as agências são operadas de fora da favela e os lucros vão para suas proprietárias. quando muito, comerciantes da favela tem um pequeno aumento de vendas, mas a maioria diz que turistas só querem saber de tirar fotos e comprar água.

em muitas ocasiões, fica claro que as turistas querem apenas uma confirmação de sua própria imagem mental da favela. conta uma moradora:

“uma vez, quando meu filho era mais novo, [algumas turistas] quiseram tirar foto dele, mas quando cheguei com ele [que é branco], eles não quiseram, porque eles queriam um neguinho.”

na verdade, como disse um comerciante, as turistas dão somente uma pequena ajuda nos lucros, mas seu maior valor está em tirar a impressão de lugar violento que a favela tem. por isso, grande parte das pessoas moradoras vê esse tipo de turismo de modo positivo.

para as moradoras, a questão não é nem tanto se o turismo na favela deveria existir ou não, mas de que maneira ele poderia beneficiar a comunidade. a maioria das turistas pensa estar ajudando a comunidade simplesmente ao participar do passeio, mas as moradoras têm outra ideia do que constituiria ajuda:

“os turistas … às vezes … só passam pelos lugares mais ricos… [s]e eles fossem lá… onde o pessoal é mais necessitado, talvez eles pudessem se inspirar em limpar o lugar, talvez alguém se interessasse em ajudar os moradores… alguém poderia trazer dinheiro, consertar um cano. isso iria beneficiar a galera lá, porque ia incentivar os moradores a consertar as casas, tirar a lama, tirar o lixo.”

a questão do cheiro

o cheiro ruim é essencialmente subversivo. ele não pode ser banido, controlado, pasteurizado, estetizado.

se a fotografia permite que a miséria mais degradante transforme-se em objeto estético (oi, sebastião salgado), o cheiro não se presta a isso.

a vala aberta, o esgoto imundo, o lixo ao sol, o rato morto, nenhum deles pode ser tão facilmente domesticado, empacotado, vendido e distribuído ao mundo como uma bela foto de uma menina pobre e remelenta.

o cheiro exige ser confrontado: ou você fala sobre ele, ou você fica calado. não existe meio termo.

e, não por acaso, os relatos sobre visitas às favelas abundam em fotos, mas contém muito poucas referências ao cheiro.

nós também fazemos parte do problema

essa história não tem mocinhas nem vilãs. as faveladas não são pobres coitadas incapazes de pensar criticamente sua situação. as estrangeiras não são babacas ou iludidas ou ingênuas. as guias de turismo e donas de agência não estão explorando a favela.

senão, podemos acabar falando coisas assim:

“cabe a nós, elite ilustrada não-favela, defender as pessoas faveladas dessas turistas desalmadas e voyeuristas que as veem como animais em jaulas.”

na verdade, nosso papel nessa história é outro.

quando as turistas se gabam de visitar a favela, um lugar onde a preconceituosa elite local se recusa a ir… é de nós que estão falando.

quando as moradoras dizem que o maior benefício do turismo é quebrar a invisibilidade social da favela e ajudar a refutar os estigmas de violência e miséria… é de nós que estão falando, nós que criamos essa invisibilidade, nós que perpetuamos esse estigma.

e então? o que nós vamos fazer?

* * *

o texto que você acabou de ler é um resumo e uma paráfrase do livro gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística, de bianca freire-medeiros, publicado pela editora fgv em 2009, e disponível em uma edição de bolso baratinha. recomendo com ênfase.

* * *

aviso sobre linguagem e gênero

o texto acima fez uma valente tentativa de ser unissex e usar uma linguagem de gênero sempre neutra. todas as explicações e argumentos, sem exceção, se aplicam igualmente a homens e mulheres, pessoas cis e trans*, pessoas hétero, homo e bissexuais. se alguma frase ou construção pareceu excluir essa ou aquela identidade, sexo, gênero ou orientação, foi descuido meu. por favor, avisem e vou corrigir. para mais detalhes sobre como utilizar uma linguagem menos sexista, por favor, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua.

pino arriado

agora à noite. saindo do lançamento da paula abreu, na argumento do leblon. o céu subitamente despenca sobre o rio de janeiro.

entre a água que cai, mal e mal vislumbro um milagroso táxi lívre e faço sinal desesperado. o carro encosta quase em frente à livraria e corremos até ele, ficando completamente ensopados por menos de dez segundos de exposição às baldadas d’água.

lentamente, quase sem visibilidade nenhuma, passando com cuidado por cada cruzamento, vamos vadeando em direção à copacabana.

toca o telefone, ele atende:

“oi, meu amor. é, tá caindo um toró aqui também. eu sei, eu sei. eu tinha acabado de encostar pra ver a novela e esperar a chuva passar, mas um casal invadiu aqui o táxi. vou deixar eles em copacabana e depois eu páro. eu juro. de pino arriado.”

gentileza em copacabana

morei por vários anos no exterior (esse imenso e estranho lugar que inclui são paulo, os estados unidos e marte), mas finalmente consegui voltar ao rio de janeiro. hoje, vivo em copacabana.

quando o escritor luiz biajoni, paulista de americana, teve receio de escrever o romance elvis e madona, ambientado no bairro, sem conhecer nada dele, eu o tranquilizei. copacabana é como paris ou nova iorque: ela é plástica, mutável, literária. a copacabana de verdade não existe. a copacabana inventada é que é a real.

de copacabana, eu esperava, e ainda espero, tudo. o melhor e o pior que podem oferecer cento e cinquenta mil seres humanos apertados entre o mar e as montanhas.

o que não esperava é que fosse um bairro tão gentil.

* * *

antes de me mudar, fui a uma agência de banco perto da minha futura casa tentar resolver um daqueles típicos e infernais problemas bancários de quem volta a morar no brasil.

quando cheguei, a gerente estava atendendo, com infinita paciência e muito tato, uma velhinha surda e grosseira que não entendia o funcionamento do cheque especial e nem tinha noção de como estava gritando. depois, na minha vez, com uma boa vontade que me comoveu, ficou quase duas horas comigo, que nem era correntista daquela agência, resolvendo um problema exótico e raro.

só por causa dela, transferi minha conta para lá, pensando:

essa moça é a melhor gerente de banco do mundo!

* * *

meu prédio tem dez andares e cerca de quarenta apartamentos por andar. é uma pequena cidade, habitada por recém-casados, garotas de programa, velhinhos ranzinzas, estrangeiros deslumbrados… e eu.

o porteiro-chefe e sua equipe fizeram toda a reforma de quatro meses do meu apartamento, que basicamente teve que ser refeito do chão ao teto. enquanto lidava com os mil e um problemas que surgem em qualquer obra, ele era constantemente abordado, abusado, às vezes quase agredido por moradores grossos e impacientes, velhinhos com tempo livre demais nas mãos e controle de menos nos nervos.

ele respondia a todos com enorme paciência e infalível sorriso, sempre bonachão, calmo, tranquilo. e eu pensava:

esse homem é o melhor porteiro do mundo!

* * *

tem uma biblioteca municipal a um quarteirão do meu prédio. é onde estou agora escrevendo. venho muito trabalhar aqui.

a biblioteca tem duas coisas que não disponho em casa e que às vezes fazem falta: mesas e cadeiras, e ausência de internet. meus livros estão expostos na estante de lançamentos e é gostoso ver que nunca param quietos, a fileira de carimbos nos cartões só aumentando.

tecnicamente, é uma biblioteca infantil, mas estamos em copacabana: 90% do público é de velhinhos. e eles não querem nem ler jornal, nem olhar as estantes: exigem serviço! quais são as novidades? onde estão os lançamentos? rápido! rápido! e por que pararam de abrir sábado, hein?

e, incrivelmente, a bibliotecária, uma funcionária pública com estabilidade no emprego, não manda todos tomarem no cu. pelo contrário, demonstra imenso carinho, sabe seus nomes, conhece seus gostos, lembra seus hábitos: chegou o novo mário prata, a senhora não queria o último do joão ubaldo?, saiu um livro sobre a revolução francesa. às vezes, empurra até os meus: esse romance é daquele moço que está ali.

e eu, tentando escrever textos como esse que você está lendo e prestando atenção em tudo, pensava:

essa moça é a melhor bibliotecária do mundo!

* * *

até que finalmente caiu a ficha, né?

sem querer desmerecer os três profissionais citados acima, todos também moradores de copacabana, eles não são os únicos. poderia falar o mesmo de garçons e atendentes, caixas de supermercado e barbeiros. imagino que os profissionais que não tenham uma paciência especial para lidar com velhos rudes e sem noção acabam naturalmente saindo do bairro e aceitando outros empregos.

sobra então a força de trabalho mais gentil do mundo.

quando decidi que iria morar em copacabana, nunca imaginei que a melhor coisa do bairro fosse ser justamente… a gentileza.

* * *

uma amiga leu a primeira versão desse artigo e comentou:

“alex, você é muito engraçado mesmo. percebe que escreveu esse texto todo pra dizer que copacabana é o lugar mais gentil do mundo, mas o texto serviria igualmente dizer que é o lugar mais grosseiro? afinal, em cada história que você contou, além do profissional agindo de forma paciente e gentil, existem outras pessoas sendo rudes e exigentes. por que não escrever um texto dizendo que em nenhum outro lugar você viu tantos velhos mal-educados destratando as pessoas atenciosas que os serviam?”

e lembrei de uma pintora que foi estuprada três vezes ao longo de sua vida. quando perguntaram como ela se recuperou e o que fez para voltar a ter relações saudáveis com homens, ela respondeu:

“em um dado momento, temos que escolher quem permitimos que nos influencie. eu poderia me permitir ser influenciada pelos três homens que me foderam contra a vontade, ou podia escolher ser influenciada por van gogh. escolhi van gogh.”

pois bem. escolho a gentileza.

* * *

praia de copacabana, vista do leme.

tirada em 29 de novembro de 2013, do caminho dos pescadores, no leme. ao fundo, o morro dois irmãos, a pedra da gávea, o corcovado. clique para ver em tamanho maior. outros textos meus sobre copacabana.

mais uma história de horror, crime e violência no rio de janeiro

uma mesa de estudantes de direito. acabaram de sair de uma prova na estácio de sá da raul pompéia e vieram desanuviar na casa de sucos da minha esquina.

papo vai, papo vem, começam a falar da onda de violência no rio de janeiro. diz uma senhora muito bem arrumada:

“não dá mais pra andar na rua, não! outro dia de manhã, vocês nem sabem, eu fico arrepiada só de pensar, eu estava andando ali pelo leblon, em frente ao shopping leblon, sabe?, maior solzão, quando vi um grupo de uns quinze pivetes vindo na minha direção, tudo pequenininho, e eu já fiquei tensa, eu estava com um iphone num bolso e o ipad no outro, e fiquei pensando, quando me assaltarem, qual eu dou?, ipad ou iphone?, iphone ou ipad?, mas aí lembrei que um amigo meu, coronel da pm, me recomendou sempre encarar esses moleques, sabe?, mostrar que eu vi, que estou ligada, que estou atenta, porque eles são todos medrosos, só atacam em bando, então, eu fiz isso, fechei a cara e fiquei encarando, encarando, e eles lá, nada, passaram por mim e não tiveram coragem de me roubar, graças a deus, mas foi por muito pouco, deus me livre, essa cidade está impossível!”

e eu tive vontade de ir lá, cutucar seu ombro e perguntar:

“hmm. quer dizer que sua terrível história para ilustrar a onda de violência do rio de janeiro… é que você cruzou com um grupo de crianças em uma manhã de sol e olhou feio pra elas?”

* * *

um link: como morrem as jovens negras norte-americanas

1711: eneida carioca

canto as lutas e o varão que,
forçado a fugir da pátria,
partiu das águas da guanabara
e subiu a serra rumo ao sertão.
muito o maltrataram
as forças humanas e divinas,
as chuvas e as ciladas,
os trovões e os tiros,
o ódio dos franceses huguenotes e
a covardia de um governador pusilânime.

vamos, ó ilustre hóspede, pedimos nós,
conta-nos, desde o princípio,
tuas desgraças e peregrinações,
da armadilha urdida pelos franceses e
da queda da mui-leal são sebastião,
e de como encerrou-se na américa
o domínio lusitano e católico.

calados, todos voltaram-se,
atentos, para o varão,
que do seu alto leito,
emocionado assim narrou:

manda-me, ó senhora, renovar um sofrimento nefando. ao relatar a queda do rio de janeiro e do seu reino pelos portugueses, dolorosos fatos que eu próprio vi e dos quais muito participei, qual marinheiro normando ou até mesmo o próprio tão cruel duguay-trouin não haveria de lançar dos olhos mares d’água? a noite úmida já desce do céu e os astros cadentes convidam ao sono. mas, se tanto deseja conhecer os nossos infortúnios e ouvir um breve relato da suprema desgraça lusa, ainda que me cause horror relembrar tais dores e que até hoje eu tenha fugido a esse sofrimento, começarei.

quebrantados por sua fracassada invasão do ano anterior e batidos pelo insucesso, decidem os franceses armar nova expedição contra a mui-leal e católica cidade de são sebastião do rio de janeiro.

* * *

trechinho de uma noveleta que estou escrevendo.

a narrativa faz um pastiche do segundo canto da eneida, de virgílio (um dos pontos altos da literatura ocidental, que conta a história da queda de tróia e da fuga de enéias), e se passa na noite de 21 de setembro de 1711, quando o rio de janeiro foi abandonado diante da invasão francesa.

como não leio latim, utilizei como base as traduções de domingos paschoal cegalla, tassilo orpheu spalding, manuel odorico mendes & joão franco barreto.

moro onde você passa férias

é um privilégio morar em uma cidade turística, mas talvez não pelas razões que você pensa.

quando escrevi o texto comparando rio e são paulo, muitos paulistas disseram que parte da fama de preguiçoso do rio vinha do fato que eles mesmos, os paulistas, não conseguiam imaginar alguém trabalhando o dia inteiro ao lado de uma bela praia.

economia aquecida.

já eu levo esse estranhamento um pouco mais além: realmente, não consigo imaginar alguém trabalhando oito horas por dia, fechado em um escritório, por nada desse mundo, em nenhuma cidade! como essas pessoas aguentam?

mas não, as praias não atrapalham o trabalho de ninguém e, pelo contrário, movimentam uma parcela grande da economia da cidade: em 2010, r$ 7 bi e 200 mil pessoas.

transporte turístico lá e cá

cresci na barra da tijuca.

em algum ponto da década de oitenta, a prefeitura criou as jardineiras : um ônibus aberto, de bancos de madeira, que fazia todo o circuito da orla, levando turistas e surfistas. várias vezes, peguei a jardineira pra ir ao trabalho ou para a universidade.

o privilégio é justamente estar vivendo minha vida e fazendo minhas tarefas cotidianas, pensando no trabalho, na reunião, na aula, mas cercado de pessoas muito felizes, que pagaram caro para estar ali em minha volta, animadas, conversando, tirando fotos, vendo a beleza nos menores detalhes, encontrando a maravilhas em paisagens que para mim já eram comuns, constantemente me relembrando a olhar a vida por novos ângulos.

jardineira, na orla do rio, cerca de 1985.

jardineira, na orla do rio, cerca de 1985.

no século seguinte, morei por seis anos em nova orleans, outra cidade linda e decadente, hospitaleira e turística, sexy e carnavalesca. e praticamente sem transporte público. a linha de bondes de carrollton, a mais antiga linha de bonde em funcionamento contínuo do mundo (desde 1833!), é uma entre tantas atrações turísticas da cidade.

o bonde era notoriamente não-confiável e os habitantes quase nunca usavam. eu, por exemplo, morava a meia hora a pé do trabalho: quando queria ir de bonde, só para garantir não atrasar, precisava sair de casa uma hora antes.

mas valia a pena. só para ver, enquanto preparava minhas aulas, tanta gente tão feliz e tão rosada, fotografando os shotguns e as mansões sulistas, apontando para os beads pendurados nos enormes carvalhos .

tanta alegria era contagiante. eu já chegava em sala de aula renovado.

pelo menos eles raramente atropelam alguém

os condutores de bonde, aliás, eram uma espécie a parte.

uma vez, apesar do bonde nem estar cheio, o condutor desistiu de parar nos pontos. simplesmente passava direto e apontava pra trás: “peguem o próximo”.

para um carioca, era experiência comum ver um ônibus passar a toda pelo ponto, enquanto pobres cidadãos quase levantavam voo de tanto abanar os braços. em nova orleans, também: alguns passageiros reviraram os olhos e só. continuamos a viagem e voltei ao meu livro.

O bonde de Nova Orleans.

então, depois de um tempo, para minha surpresa, sinto o bonde parando.

pela porta da frente, entram duas moças lindas, uma loira e uma negra, com mapas e guias embaixo dos braços, e o condutor prontamente faz uma mesura com seu boné e começa a oferecer dicas turísticas da cidade.

“welcome to new orleans”, ele disse, e eu pensei, cá com os meus botões, que não era à toa que esse carioca desterrado se sentia tão em casa na capital do jazz.

todo dia nublado é uma pequena tragédia

a fotógrafa claudia regina (autora do incrível texto como se sente uma mulher) se mudou para o rio há pouco tempo. em uma de suas visitas anteriores, foi ao cristo em um dia nublado. uma velhinha saiu do elevador, procurou a estátua… e não viu nada:

“imaginei a velhinha juntando dinheiro a vida toda pra visitar o rio de janeiro. que o sonho de sua juventude era ver a estátua do cristo. que aquele era seu último dia e que logo voltaria para düsseldorf, onde morreria sem nunca ter realizado seu maior sonho.

faz poucos meses que vim morar na cidade maravilhosa. em curitiba, quando o dia amanhecia chuvoso, eu só ficava com preguiça de sair da cama. agora, penso sempre que deve haver uma pobre velhinha que gastou todas suas economias para vir pegar chuva no rio.”

(leia o texto completo: morar em uma cidade turística)

cadê?

cadê?

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um texto sobre o rio e são paulo: rio e são paulo, duas arrogantes

dois textos sobre nova orleans: geladeiras distópicas na nova orleans pós-katrina e a importância de um restaurante na nova orleans pós-katrina

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canga do biscoito globo: "é a melhor"

praia de copa. pergunto o preço de uma canga do biscoito globo. trinta e cinco reais. todas as outras eram vinte.

por que essa é a única mais cara?, pergunto.

porque é a melhor.

Duas profissões esquecidas do Rio antigo

Revista Pesquisa FAPESP edição 205 de março de 2013Catava esterco

Ao contrário de tantos pretos, não andava cantando sua ocupação. Puxava a carroça em silêncio, repicando um pequeno sino de cobre. Tinha pudor.

Caminhava sempre pelas mesmas ruas, no mesmo horário, todos os dias. As mucamas já o conheciam: esperavam sua passagem e ficavam no aguardo do sino.

Ninguém queria contato. Tudo era muito rápido. A mucama saía porta afora com o balde de esterco quente nas mãos, ele abria o tampão da carroça, ela despejava ali a carga e voltava correndo para dentro. Não falavam com ele.

Havia sempre respingos. Ao final da tarde, estava salpicado pela própria mercadoria.

Os tigres eram mais dignos. Temidos, até. O próprio nome impunha respeito. Eram escravos fortes, que carregavam nos ombros os dejetos de suas casas. Não passavam o dia lidando com os excrementos dos outros. Despejavam tudo na lagoa mais próxima e já voltavam para cuidar de outras atividades.

Pensava muito nisso. Que ali, no barril do tigre, misturados aos dejetos dos sinhôs e das sinhás, das mucamas e dos moleques, estavam também os seus. O tigre carregava o próprio excremento. De algum modo, aos seus olhos, isso lhes conferia dignidade.

Mas nem toda casa tinha escravos. Então, ele ainda era útil.

Gostava mesmo era de uma mulatinha da rua da Ajuda. Era sempre ela que trazia o balde. Mas nunca teve coragem de lhe falar. O esterco os separava. Um dia, não apareceu mais e ele não teve coragem de perguntar por ela. Ficou a lembrança daqueles dentes brancos. Tinha todos. Era lindo.

Ao final do trajeto, ele percorria a rua do Aljube até a Prainha. As barcaças recolhiam os dejetos da Corte e os levavam para os engenhos do outro lado da baía, onde não havia gente para produzir tanto estrume.

Os galegos pagavam quase nada pelo esterco. Só valia a pena se enchesse a carroça até a borda. Afinal, era recolhido de graça. Conseguiria mais mendigando, era o conselho que recebia.

Mas gostava de saber que deixava a Corte mais limpa. Que o esterco que recolhia se transformava em açúcar. Que tudo se transformava em outra coisa. Que ele, que era tão baixo, tão preto, tão feio quanto seu esterco, um dia também talvez virasse açúcar.

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 Soltava passarinhos

Frequentava as quermesses e procissões. Sempre em feriados religiosos.

Carregava uma gaiola quase maior que ela. Tinha seis compartimentos independentes, cada um com sua portinha. Nunca mais perderia a viagem soltando todos os bem-te-vis ao mesmo tempo.

Era conhecida dos penitentes. Só não abordava os brancos ricos. Quem já vivia cheio de graça não precisava da graça adicional de soltar uns passarinhos.

Preferia os desgraçados e os desafortunados, os moleques e as mucamas, os mutilados e os coxos, os culpados e os esperançosos, os tísicos e os leprosos, os pretos e os pardos. Os seus.

Muitos não entendiam. Quando a menina levantava a gaiola, já gesticulavam seu desinteresse. E ela esclarecia, não vendo passarinho, não, moço. Eu solto.

Alguns continuavam sem entender: vou lá pagar para soltar passarinho, menina?

E ela dizia, Deus ajuda quem liberta suas criaturinhas. É graça para o ano inteiro. O senhor reza comigo a prece de São Francisco de Assis, escolhe um bem-te-vi e deixa voar. Deus proverá.

Escolhiam quase sempre os passarinhos mais vistosos. Será que Deus prefere que os belos sejam livres?, se perguntava a menina.

A velha lavadeira foi o oposto. Demorou longos minutos. Estudou bichinho por bichinho. Quis a certeza de soltar o mais velho e mais fraco, o mais feio e mais cansado.

Seus dedos mal funcionavam. Mãos escurecidas e descoloradas de bater roupa em pedra. Mas fez questão de ela mesma destravar o ferrolho. Não era fácil. O preto Sebastião construíra a gaiola especialmente para a menina, levando em conta seus dedos ainda finos e ágeis.

Finalmente, o bem-te-vi saiu cambaleando pelo ar.

Ao cair da tarde, a menina foi até um matinho próximo, abriu as portinhas da gaiola e assoviou. Um por um, todos voltaram. Menos o velho passarinho. No feriado seguinte, a lavadeira também não apareceu. A menina gostava de pensar que estavam juntos.

Em casa, braços cansados de carregar a gaiola, acomodou seus tostões e vinténs (nem uma pataca hoje) em um latão na despensa. A sinhá era generosa: lhe dava todos os dias santos e ainda lhe permitia guardar tudo o que ganhasse.

Deu boa-noite para a sinhá e se dispôs na esteira aos pés da cama. Sonhou que voava.

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 A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto menciona barcos chineses onde passarinhos e peixes eram soltos no ar e na água, em troca de esmola, para “serviço de Deus” (capítulo 98). Um texto chinês do século XVI, mesmo século no qual Mendes Pinto esteve na China, detalha um dos muitos rituais budistas que devem acompanhar o ato de libertação (“Freeing Animals from Bondage” em Buddhist scriptures, Penguin, 2004). No Brasil, a única menção que encontrei, que pode ou não ter relação com o budismo, está em uma crônica da juventude de Machado de Assis, que teria testemunhado essa prática durante a procissão dos ossos da Misericórdia (O Futuro, 15 de dezembro de 1863). Entretanto, em diversas ocasiões (o conto “O segredo do bonzo”, de 1882, ou o ensaio “Instinto de nacionalidade”, de 1873), Machado demonstrou ser leitor atento da Peregrinação. Terá o episódio sido apenas uma glosa de Mendes Pinto? Mera invenção do Bruxo? De Machado, pode-se esperar tudo.

Por coincidência, no mesmo capítulo 98, a Peregrinação também menciona os “mercadores de esterco” da China. Existe ampla documentação sobre os catadores de esterco do Rio antigo, como La Blanchardière, em 1748 (em Visões do Rio de Janeiro colonial, 1531-1800), e Schlichthorst, em 1824 (em O Rio de Janeiro como é – Uma vez e nunca mais, cap. IX). No Segundo Reinado, com o avanço das regulações sanitárias, a prática deve ter desaparecido. A última menção que encontrei foi no capítulo 4 de Mulheres e costumes do Brasil (1863), mas o sempre tão crítico Expilly menciona a atividade sem deixar claro se a testemunhou ou apenas ouviu falar. Finalmente, em 1864, foi inaugurado o serviço de esgoto da Corte.

Desnecessário acrescentar que esse é um conto de ficção.

Alex Castro, 39, é autor de Mulher de um homem só (2009, romance) e Onde perdemos tudo (2011, contos).

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Originalmente publicado na Revista Pesquisa FAPESP, edição 205, de março de 2013. (link)

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enseada da glória. antigo prédio da varig. visto do mam. janeiro de 2013