Por que vendemos nosso perdão tão caro?

Rio de Janeiro, 1878. O preto Ciríaco, acusado de assassinato e julgado como escravo, é condenado a cinquenta açoites e a “conduzir ao pescoço um ferro por espaço de um mês”.
Entretanto, até o final do julgamento, seu “dono” ainda não conseguira produzir a papelada necessária para comprovar seu status de cativo, e a magnânima lei brasileira tinha por princípio sempre errar em prol da liberdade. Ou seja, na ausência de prova da escravidão, Ciríaco foi considerado livre.
Como homem livre, a pena para assassinato era de vinte anos de trabalhos forçados nas galés.

“Alex, como pode uma pessoa como você, agnóstica e cética, “acreditar” em carma?”
Não acho que carma seja algo em que eu “acredito” (realmente não acredito em nada) mas meu entendimento de carma é o seguinte, a partir de uma perspectiva budista secular.
Frase impactante para resumir a premissa e abrir o texto.

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Celebridade segurando nosso produto:
“Fiquei famoso fazendo algo que nada tem a ver com esse produto. Hoje, sou rico demais para consumir um produto desses. Mas você não. Compre esse produto!”
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Pessoas lindas, consumindo nosso produto e se divertindo. Deve haver alguma relação. Compre nosso produto.
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Uma pessoa milionária, que se enquadra no padrão arbitrário de beleza que inventamos, segurando nosso produto. Você pode se enquadrar no nosso padrão arbitrário de beleza também. Compre nosso produto.
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Você fede. Compre nosso sabonete.
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Pessoas magras e de dentes perfeitos, alegres e saciadas, comendo nosso produto alimentício. Close-up de um modelo em isopor do produto. Você está com fome. Tem uma franquia perto de você. Fome. Compre nosso produto.
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Um texto descaralhante e matador em um site descolado. Logotipo piscante da nossa marca antes, depois e em volta do texto. Existe uma relação tênue entre o texto e o produto. Compre nosso produto.
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Um monge budista de pernas cruzadas. Uma paisagem calma. Uma música suave. Você não é como esses consumistas desenfreados por aí. Você é diferente. Você é melhor que eles. Nosso produto é pra você. Compre nosso produto.
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Seja você mesmo. Torne-se mais um entre milhões de consumidores de nossa marca. Afirme sua individualidade. Compre nosso produto.
* * *
Uma frase final só para amarrar o texto.
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Um pedido para as pessoas curtirem página, compartilharem post, seguirem perfil.
Fez diferença? Valeu a pena? Alguém percebeu?
“O que sabe aquele que não foi tentado?”
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O Eclesiástico é o livro mais recente do Antigo Testamento e o único cujo autor conhecemos. Ele foi escrito pelo sábio e escriba Jesus ben Sirá, por volta de 180 antes da Era Comum, em hebraico e provavelmente em Jerusalém.
Relacionamento bem-sucedido é aquele onde gosto da pessoa que eu sou quando estou com a outra pessoa.
O pior relacionamento é aquele que me transforma em alguém que não quero ser.
me deu vontade de escrever sobre a minha rua.
todo mundo tem a sua rua. essa é a minha.
Carnaval em Copacabana: banheiros químicos, foliões bêbados, muito glitter.
Vindo em minha direção, duas meninas. A mais nova repara em algo na calçada, faz cara de nojo, puxa a amiga pra não pisar. Cruzam por mim e escuto, pingando desprezo:
“Era de gente.”

Por todos os lados, vejo pessoas mudando suas vidas, abdicando de seus sonhos, se virando ao avesso, só porque não aguentam mais os constantes comentários, críticas, questionamentos de parentes, colegas, amigas.
Mas talvez exista uma maneira diferente de encarar a questão.

A Autoridade, e todos os seus representantes, sempre tentarão determinar nossa conduta, mandar em nossa vida, julgar nossas escolhas. Não há nada que possamos fazer para calar suas vozes.
Assim como o lado bom da publicidade é que o capitalismo ainda não pode nos obrigar a consumir, esses comentários invasivos e violentos significam que estamos de fato vivendo a vida que gostaríamos de viver.
Quando o pai do ator de teatro infantil critica as escolhas profissionais do filho, este sempre pode pensar, satisfeito e aliviado:
“Sim, estou ouvindo isso, mas hoje sou ator de teatro infantil como eu sempre quis. Pior seria que tivesse feito Direito, como papai mandou, e hoje estaria ouvindo igual, por alguma outra coisa qualquer, por trabalhar no escritório errado ou por ter perdido uma causa, mas nunca teria realizado meu sonho de ser ator de teatro infantil.”
Como não existe a possibilidade de calarmos o mundo, nossa melhor hipótese possível é fazermos o que quisermos de nossas vidas e que o Mundo fale o que quiser.
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Trechinho da Prisão Obediência. Leia o texto completo.
Sempre que menciono que “psicanálise é uma pseudociência” chovem defensores para me xingar de tudo o que é nome.
Pior, presumem todo tipo de inverdade. Por exemplo, que odeio Freud (adoro, é dos meus autores preferidos), que não li nada (li os principais textos psicanalíticos de Freud, assim como muitos de seus discípulos e desafetos), que sou um positivista que coloca ciência acima de tudo (sou artista, a ciência é um saber como tantos outros), etc etc.
O texto abaixo é uma tentativa de reunir em um link só todos os meus textos sobre psicanálise, Freud, ciência. Tem bastante coisa, mas tudo bem separadinho em subseções organizadas, com muitos links para textos e livros externos onde você pode se informar mais.
Então, peço a você: por favor, me ajude a divulgar essa URL, sinta-se livre para deixar comentários, inclusive me xingando, e, se em algum momento enquanto lê, sentir raiva ou frustração, isso é resistência: significa que nosso processo de leitura está funcionando, estamos fazendo progresso. Siga adiante!

Não existe contradição alguma entre achar que psicanálise é uma pseudociência que não faz sentido e considerar Freud um gênio por seus textos não-psicanalíticos, como O mal-estar da civilização, Totem e Tabu, O futuro de uma ilusão e Moisés e o Monoteísmo.
Fui direto na fonte. Li os principais textos psicanalíticos do pai da psicanálise — aliás, um dos meus autores preferidos. Não tinha preconceito algum antes de lê-los. Li para me informar. Depois de ler, formei uma opinião. Aí, li vários outros livros, pró e contra, pra ver se era isso mesmo. Li Fromm, Reich, Jung, Lacan, Rank, Becker, Richard Webster, Norman O. Brown. Alguns, como Fromm, Brown e Becker, também se tornaram favoritos. (Acima e abaixo, as capas dos meus livros favoritos desse trio.) Outros se tornaram alguns dos autores que mais detesto na vida, como Jung e Lacan. Sobre a psicanálise, mantive a mesma opinião, agora mais fundamentada.
Nada disso, entretanto, é o suficiente para que os psicanalistas defensivos me permitam criticar seu bezerro de ouro. Sempre dizem que não li o suficiente. Ou que só pode criticar a psicanálise quem fez curso de formação de psicanalista ou, pior, quem já trabalha como psicanalista. A possibilidade da crítica está sempre um passo mais longe: se tenho críticas à psicanálise, então, é óbvio que não estou abalizado para tê-las. (Se isso não é mentalidade de seita, não sei o que é.)

Na verdade, o tema “psicanálise é pseudociência” me parece muito tedioso. Essa afirmação em si é tão autoevidente que não vale a pena ser defendida. Mas pode ser um começo para conversas mais interessantes, que desenvolvo mais abaixo, como:

No texto abaixo, vou tentar responder essas perguntas e desenvolver questões metodológicas e filosóficas relacionadas.
O fato de a psicanálise não ser ciência não quer dizer que ela não seja necessariamente boa, válida, útil, legítima, justamente porque existem muitos saberes, práticas, métodos, conhecimentos extra-científicos que são perfeitamente bons, válidos, úteis, legítimos. Nenhuma atitude pode ser mais conservadora e positivista do que colocar o conhecimento científico acima de todos os outros.
Naturalmente, a psicanálise não é um conhecimento bom, válido, útil e legítimo — não porque não seja científica, mas porque seus conceitos-chave não fazem sentido, são circulares e autorreferentes e levam a práticas terapêuticas possivelmente conservadoras e autoritárias.

Freud é um dos grandes autores de todos os tempos. Tudo o que sei sobre escrever textos argumentativos aprendi com ele e com Darwin: ambos escreviam com carinho e com vigor, sabendo que pisavam em terreno minado, se preparando para defender cada palavra, já antecipando todas as possíveis ressalvas e contraargumentos que poderiam estar passando na cabeça de suas leitores.
(O outro membro da tríade “gênios do século XIX que viraram nosso mundo de cabeça pra baixo” não era um grande escritor nem ensaísta: Marx, hoje, a gente lê pelas ideias. Já Freud e Darwin são deliciosos de ler inclusive pelo estilo.)

Na graduação em História, conheci primeiro o Freud ensaísta da cultura, da religião, da história, autor de quatro obras-primas: O mal-estar da civilização, Totem e Tabu, O futuro de uma ilusão e Moisés e o Monoteísmo. (Ainda são as minhas preferidas. Só por elas ele já seria um dos meus autores favoritos.)
Depois, no mestrado e doutorado em Literatura, conheci o Freud crítico literário, especialmente em O Infamiliar (disponível nessa edição crítica belíssima), mas também Uma lembrança da infância de Leonardo da Vinci, O Moisés de Michelângelo, O humor e Dostoievski e o Parricídio, disponíveis nessa excelente seleção da Autêntica: Freud: arte, literatura e os artistas.
Mais tarde, empolgado, fui ler o resto da obra e levei um banho de água fria ao conhecer o Freud médico, cientista, fundador da psicanálise.
(De Freud no Brasil, recomendo enfaticamente sua obra completa que acabou de ser lançada pelas Companhia das Letras, com tradução de Paulo César de Souza.)

Vejam, sou um blefador profissional, ficcionista desde criança, fofoqueiro por vocação: reconheço meus iguais. Freud oferece hipóteses com base em rigorosamente nada e, na página seguinte, já está tratando suas hipóteses como fatos: pra piorar, como era um ensaísta de gênio, ele vai nos levando, seduzindo, enredando, a tal ponto que é difícil de ver que nada daquilo faz nenhum sentido.
O método psicanalítico é um método de crítica literária: aplicado a uma obra de arte, como Freud fez diversas vezes, é genial. Aplicado a pessoas, nem tanto. Com certeza, não é ciência, como ele afirmava e pretendia. Se a psicanálise funciona, ela funciona da mesma maneira que a confissão católica: ou seja, funciona apesar de si mesma, simplesmente porque conversar funciona. Somos seres que conversam, que se autoelaboram na fala, no diálogo.

Sobre a psicanálise, posso comentar a mesma coisa que um editor disse ao recusar um romance:
“Seu texto é bom e original. Infelizmente, a parte que é boa não é original, e a parte que é original não é boa.”
Não tenho interesse algum em chutar cachorro morto e polemizar sobre psicanálise. Como nós, pessoas brasileiras, vivemos em um dos poucos países onde a psicanálise ainda é universalmente levada a sério (os outros são França e Argentina), às vezes fica difícil de nos darmos conta como ela é uma piada no resto do mundo.
Durante muitos anos, me incomodava não conseguir conciliar o Freud brilhante dos textos ensaísticos com o Freud blefador dos textos psicanalíticos, até que encontrei um livro que resolveu minhas dúvidas, ao detalhar todos os problemas metodológicos da psicanálise: Porque Freud Errou: Pecado, ciência e psicanálise, de Richard Webster, publicado no Brasil pela Record, em 1999. (Mais sobre esse livro abaixo.)
Graças a Webster, fiz as pazes com Freud e, agora, posso apreciar com gozo os seus brilhantes ensaios.

Todos os grandes gênios da humanidade se meteram em vários campos do saber. Inevitavelmente, suas realizações em alguns campos eclipsam suas realizações em outros. Goethe já foi famoso por seus textos sobre botânica e geologia, mas hoje só restou sua fama como escritor e como poeta.
Freud também escreveu sobre vários temas. Imagino que ele teria gostado de ser lembrado como o médico e cientista que criou a psicanálise. Nos poucos países onde a psicanálise ainda é levada a sério, como Brasil, França, Argentina, ele ainda é visto assim. Mas, para o resto do mundo, Freud já é, em larga medida, um grande pensador e ensaísta das ciências humanas que também inventou uma prática pseudocientífica meio ultrapassada chamada psicanálise.

Harold Bloom incluiu Freud em sua seleção dos 100 maiores gênios da humanidade, elogiando-o nos mesmos termos que eu usaria (reparem a frase grifada):
“O gênio de Freud encontra-se, atualmente, obscurecido, porque suas asserções científicas são alvo de críticas, ou mesmo porque é defendido, como cientista, por um minguado número de fiéis seguidores.
Tanto os que o difamam quanto os que o defendem me parecem irrelevantes; atacar Freud pelo seu cientificismo, em última instância, parece tão sem propósito quanto depreciar Goethe por suas pesquisas com plantas e cores.
Ou, variando a analogia, a insistência de Freud de que a psicanálise faria uma contribuição à biologia é, a meu ver, tão interessante quanto as declarações de Dante de que a Divina Comédia é a pura verdade sobre Deus, Inferno, Purgatório e Paraíso. Lemos Dante com admiração e gratidão estética, ao mesmo tempo em que hesitamos diante da teologia do poeta. E assim lemos Freud, maior ensaísta do seu tempo, embora lhe descartemos a tendência de tornar literal as suas próprias metáforas. Freud é tão metafórico quanto Goethe ou Montaigne, e, como eles, é, antes de tudo, um escritor. …
As minguantes sociedades psicanalíticas estarão extintas antes do advento da próxima geração. A expressão “o Freud literário” tomar-se-á redundante, tão estranha quanto dizer “o Montaigne literário” ou “o Goethe literário”. A ciência (ou cientificismo) era a defesa de Freud contra o antisemitismo.”
Sim, psicanálise não é ciência.
Mas, pra começar, por que essa afirmação é vista como crítica?
Afinal, o discurso científico não é o discurso mais precioso, mais valioso, mais importante do mundo. Então, e daí psicanálise não ser ciência?
As melhores coisas da vida não são ciência.
Eu dediquei minha vida à arte: à criação, estudo, ensino de literatura e do teatro. É literalmente a coisa mais importante da minha vida. Arte não é ciência. Literatura não é ciência. Teatro não é ciência. Ninguém nunca disse que eram. Ninguém espera que sejam. Ninguém considera que são menos importantes por não serem.
A segunda coisa mais importante da minha vida talvez seja o zen-budismo. Durante muito anos, trabalhei como voluntário em um templo zen e me formei instrutor de meditação. Zen-budismo e a meditação são profundamente transformadores e, por isso, dediquei tanto tempo a estudá-los, praticá-los, ensiná-los. Zen-budismo não é ciência. Meditação não é ciência. Ninguém nunca disse que eram. Ninguém espera que sejam. Ninguém considera que são menos importantes por não serem.
(Nesse ponto, alguém sempre aponta que existem vários estudos científicos sobre meditação apontando seus benefícios cientificamente comprovados, etc. E, sim, a meditação, enquanto prática, como ser estudada e mensurada pela ciência, mas isso não faz com que ela mesma, a meditação, seja uma ciência. Se fosse assim, sei lá, uma planta seria ciência porque é estudada pela Botânica.)

Passei a minha vida inteira “vendendo” literatura e meditação, tentando convencer as pessoas a lerem mais literatura e a meditarem mais, ensinando as pessoas a lerem melhor e meditarem melhor, e nunca, em todos esses anos de convencimento, eu precisei argumentar que literatura ou meditação eram “ciência”.
Por que é tão importante para os psicanalistas se venderem como “ciência”? Por que ficam tão ofendidos quando alguém diz que psicanálise não é ciência?
Sempre que digo isso, me aparecem vários psicanalistas revoltados dizendo coisas como:
“Essa é uma postura estreita e positivista, como se ciência fosse a coisa mais importante do universo.”
Mas vocês percebem que é o oposto?
Eu, aqui, Alex, que acabei de dizer que “psicanálise não é ciência”, não acho nem perto que ciência seja a coisa mais importante do universo e, inclusive, dediquei a vida a práticas e saberes não-científicos.
Mas por que você, que aparentemente não acha que ciência seja a coisa mais importante do universo, está tão ansioso para entrar nesse clubinho? Se esse clubinho é tão sem-valor, por que um psicanalista tão culto e inteligente quanto você está se rebaixando a dar piti sobre isso na internet? Se a ciência é um valor estreito e positivista, e daí que psicanálise não é ciência?
Enfim, a conclusão dessa subseção é a seguinte:
Se você briga para que a psicanálise seja incluída no guarda-chuva das ciências, quem está dando uma importância excessiva ao discurso científico é você.
Só se briga para entrar em um clube se existe um enorme valor, simbólico e concreto, de pertencer a ele.

Quando falo que “psicanálise não é ciência”, algumas pessoas presumem que estou defendendo uma primazia do conhecimento científico sobre todos os outros. Um email representativo que recebi:
“Sou um futuro professor de sociologia, portanto uma disciplina que muito lutou para manter-se como ciencia, mas também uma disciplina que também enaltece que temos muito saberes, apenas devemos considerar a quem realmente importa esse saber, os saberes indígenas sao menores por que nao sao considerados científicos? Sei bastante da imposição da cultura ocidental ao total do globo e o quanto essa cultura pode ter sido nefasta para a humanidade e justamente nessa cultura ocidental esta implícita, a ciência, a branquitude, o racismo e a misoginia, tentando eliminar outros saberes nao considerados hegemônicos, tais como os saberes ameríndios o orientais, mas desprezados pela civilização ocidental fez muito “sucesso e foi importantíssimo enquanto esteve vinculado à suas comunidades locais e de origem.”
Poucos conhecimentos podem ser mais “coisa de homem branco velho morto” do que a psicanálise criada por um austríaco do século XIX e, depois, canonizada pelo establishment branco ocidental. Pior, poucos conhecimentos são mais autoritários e colonizadores do que a psicanálise, pois quando seus praticantes se enrolam na bandeira de seus dogmas, eles literalmente não podem estar errados. Até a contradição mais banal que você aponta é recebida como “resistência” e “sinal de que a psicanálise está funcionando”!
Um trechinho sobre a circularidade da psicanálise, tirado de Que bobagem!: pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi:
“Todo psicanalista desde sempre interpreta os sinais dados pelo cliente– falas, usos de linguagem, gestos, relatos de sonhos– como se fossem evidências da presença de um inconsciente recheado de desejos, memórias e outros tipos de conteúdo reprimido. O sistema todo pressupõe o que deveria demonstrar: é um círculo vicioso. O cliente, por sua vez, colabora, ajudando o analista a construir uma narrativa fantasiosa a respeito do suposto conteúdo do suposto inconsciente e que, superficialmente, “faz sentido”. Assim, “prova” que o analista está no caminho certo e que a doutrina é válida. Se, pelo contrário, o paciente reage negando a fantasia (no linguajar técnico da psicanálise, apresenta “resistência”), isso também prova que o analista está no caminho certo e a doutrina é válida, porque, afinal, o inconsciente não vai entregar seus segredos sem luta, certo? … Levada ao extremo, a doutrina do inconsciente psicodinâmico sugere que os únicos pensamentos autênticos que uma pessoa tem são os que o psicanalista lhe revela: todo o resto não passaria de conteúdo inconsciente disfarçado, sintomas de traumas e desejos reprimidos. O potencial manipulativo e autoritário dessa posição já foi notado por mais de um crítico.”
Então, não, eu jamais insultaria um saber ameríndio insinuando que ele tem o mesmo valor que a psicanálise freudiana. Na pior das hipóteses, o insight de um xamã ameríndio vale tanto quanto o do blefador austríaco. Cada um deve ser avaliado por si só, com base em seus próprios méritos.
Aproveito para recomendar um livro que abriu meus horizontes sobre a filosofia dos povos originários: Metafísicas canibais: Elementos para uma antropologia pós-estrutural, de Eduardo Viveiros de Castro. É denso, difícil, e vale cada linha. Recomendo.

A ciência não é perfeita, completa, insuspeitável: por definição, ela é um projeto em andamento, sempre se autocorrigindo e se reinventando, sempre forçando os limites de sua própria ignorância.
O método científico, enquanto ideologia, é limitado pelas perguntas que fazemos, e essas perguntas, por seu lado, são culturais, e dependem de nossos preconceitos e prioridades, interesses econômicos e valores morais.
(Uma ideologia é o conjunto de ideias, saberes, preconceitos, etc, que nos permite interagir com as outras pessoas e fazer sentido da realidade: são as lentes através das quais percebemos o mundo.)

Por exemplo, uma sociedade que valoriza a beleza física e uma outra que valoriza a santidade da vida vão se utilizar rigorosamente do mesmo conhecimento genético para responder perguntas radicalmente diferentes: a primeira vai tentar mexer no código genético para acabar com rugas e a segunda, para manter o cérebro vivo, mesmo se pouco funcional.
Nenhuma dessas duas empreitadas científicas é por definição mais ou menos científica: tudo depende das nossas prioridades.
Caso uma sociedade decida que sua prioridade é chegar à lua, a ciência pode fornecer uma resposta à pergunta, “como chegar à lua”, mas ela não tem como fornecer as prioridades éticas e culturais (por definição, a-científicas) que fazem com que essa sociedade considere mais importante investir recursos humanos e financeiros em chegar à lua do que, digamos, explorar o fundo dos oceanos ou acabar com a fome.
A ciência tem como responder nossas perguntas, mas não como fornecer essas perguntas: para isso, temos as ciências humanas, as artes, as religiões.
Porque, com as perguntas erradas, o método científico pode facilmente se converter em eugenia racial e bombas nucleares.
* * *
Em meu texto Homeopatia versus método científico, eu falo um pouco mais sobre filosofia da ciência.
Na Prisão Verdade, que abre a série das Prisões, eu falo também sobre questões epistemológicas relacionadas. Afinal, o que é verdade? O que é certeza? Como podemos determinar se realmente “sabemos” algo? O que é saber algo?
Dizer que ciência é uma ideologia não é uma crítica, e também não é um elogio. É um fato: não teria como ela não ser uma ideologia. Desenvolvo esse argumento mais a fundo na Prisão Religião.
Uma das características das pessoas cuja ideologia dominante é o método científico é negar veementemente que o método científico seja uma ideologia. Essa é uma discussão antiga na filosofia da ciência: para quem quiser uma rápida introdução ao debate, recomendo esse link, em inglês.
Para quem quiser se aprofundar, recomendo o delicioso e revolucionário livro A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn.

Então, ok, se não tem problema a psicanálise não ser ciência, por que ela é pseudociência?
Muitos saberes bons, válidos, inestimáveis não são científicos, e tudo bem. Não existe hierarquia de saberes e, se existisse, o saber científico não estaria no topo.
Mas não é isso que pensam os defensores das pseudociências — ou não se esforçariam tanto para reclamar o rótulo de “ciência” para suas práticas não-científicas. Ou seja, de novo, quem coloca o saber científico acima de todos os outros são justamente os praticantes das pseudociências.
Para o filósofo Sven Hansson, citado nesse artigo de Daniel Gontijo:
“Pseudociências são doutrinas que, embora careçam de confiabilidade, são defendidas como se fossem confiáveis. Em outras palavras, os principais proponentes de uma pseudociência tentam passar a impressão de que seu sistema de ideias tem credibilidade e/ou é apoiado por boas evidências.”
Não faz diferença se os praticantes das pseudociências agem assim por ignorância ou má-fé. Também não faz diferença se eles efetivamente, articuladamente reivindicam o status de ciência. Na verdade, basta que se posicionem na mídia, nas universidades, nos livros como se fossem cientistas.
“Se a doutrina é apresentada como se descrevesse confiavelmente o funcionamento da mente, isso basta para que ela seja avaliada como científica ou pseudocientífica. E o fato é que, desde o nascimento da psicanálise, essa atitude presunçosa vem sendo identificada – e criticada.”
Os vendedores de colchão vestindo jalecos nunca afirmam que são médicos… porque não precisa. Somente o fato de estarem vestidos de médicos já basta para enganar nossos cérebros e lhes dá uma aura de confiabilidade que certamente não merecem.

Ninguém nunca acusou Arte, ou Astrologia, ou Zen-Budismo, etc, de serem pseudociências, justamente porque artistas, astrólogos e zen-budistas nunca sentiram a necessidade de validar suas práticas tomando para si o rótulo de “ciência”.
Ações falam mais alto que palavras.
E, não, psicanálise não precisaria se vender como ciência para ser levada a sério.
Para entender como um saber terapêutico não precisa reivindicar o status de ciência para existir e ser levado a sério, tratar pacientes e melhorar a vida das pessoas, podemos pegar como “grupo de controle” a somaterapia. Ela se apresenta assim em seu site oficial:
“A Somaterapia ou apenas Soma é um processo terapêutico em grupo, com ênfase na articulação entre o trabalho corporal e o uso da linguagem verbal. Foi criada no Brasil pelo escritor e terapeuta Roberto Freire, a partir da obra de Wilhelm Reich e sua psicologia corporal e política. Utiliza ainda os conceitos de organização vital da Gestalterapia; os estudos sobre a comunicação humana da Antipsiquiatria e a arte-luta da Capoeira Angola. Eles servem como ferramentas que auxiliam as pessoas na elaboração de vidas mais livres e afirmativas. O grupo funciona como um micro-laboratório social, no qual desenvolvemos uma analítica libertária do comportamento de cada um e sua relação junto ao outro. O processo dura até um ano e meio, com encontros periódicos (são quatro sessões mensais). A originalidade da Soma como terapia libertária está na vivência das práticas de liberdade como contraponto às relações sociais hierarquizadas e sua produção de subjetividades adoecidas.”
Apesar de ser um saber terapêutico sério e consolidado, com décadas de prática e milhares de pacientes, a somaterapia jamais busca pra si o rótulo de ciência. Mais importante, nunca passaria pela cabeça de um somaterapeuta que seria um demérito para a somaterapia não ser considerada “científica”. Acuse um somaterapeuta de praticar pseudociência e a reação mais comum será risadas.
Aliás, uma das diferenças mais salientes entre a psicanálise e a somaterapia diz respeito justamente ao conformismo perante as normais sociais.
Para Sigmund Freud, a civilização só se mantinha ao custo da repressão de nossos instintos mais selvagens. Infelizmente, essa repressão tão necessária explodia em neuroses que nos fodiam a vida. O papel da psicanálise era “curar” essas neuroses para que, então, pudéssemos conviver melhor, aceitar melhor nossa inevitável repressão. O ideal de Freud era um reprimido bem ajustado. (Sua obra mais brilhante, O mal-estar na civilização, é sobre isso.)
Já Roberto Freire, o fundador da somaterapia, era médico psiquiatra. Uma vez, ao tratar um paciente homossexual, ele se deu conta de que nada adiantava curar os danos psíquicos que a sociedade homofóbica fizera àquela pessoa somente para depois soltá-la no mesmo mundo homofóbico que tinha lhe adoecido. De uma maneira bem real, a única maneira de curar a doença daquele único paciente era curar a doença de toda a sociedade. Esse é o objetivo da somaterapia, libertária e anarquista na sua origem. (Um texto meu sobre Roberto Freire, com os melhores trechos de algumas de suas obras.)
Também recomendo esse meu texto sobre o conformismo inerente a muitas terapias mentais, A normalidade é uma camisa-de-força.

Por que então psicanálise não é ciência?
Entre outras coisas, porque nenhum de seus postulados é observável, comprovável, falsificável.
Existe mesmo inconsciente, libido, pulsão de morte, ego, id, superego? As meninas têm mesmo inveja do pênis masculino? Os meninos têm mesmo o desejo de matar o pai e se casar com a mãe? É verdade que as lembranças dolorosas de um trauma podem ser reprimidas no inconsciente e essa repressão causar sintomas e neuroses?
Essas afirmações são tão insustentáveis, tão impossível de comprovar ou demonstrar, que elas não estão nem mesmo erradas. Já é espantosa a cara-de-pau de Freud de fazer essas afirmação na cara dura, como se fossem ciência observável e mensurável.
Mesmo se Freud tivesse podido comprovar, digamos, que todos os meninos que ele atendeu, na Viena da virada do século, tinham demonstradamente o desejo de matar o pai e casar com o mãe, como saltar daí para intuir, afirmar ou mesmo sugerir que isso seja verdade para todos os meninos do mundo em todas as épocas?
Não quero entrar muito fundo nesse assunto, então, recomendo às pessoas interessadas que leiam o capítulo sobre psicanálise do excelente Que bobagem!: pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi. Todas as citações dessa subseção são desse capítulo.
Talvez o maior problema das teorias psicanalíticas seja a absoluta circularidade da sua aplicação:
“Vamos olhar, por exemplo, para a evidência pertinente à teoria da gravidade: fatos como os de que objetos caem em direção ao centro da Terra, ou de que os planetas giram em torno do Sol, podem ser confirmados mesmo por quem nunca ouviu falar em Isaac Newton. A gravidade os explica, mas esses não são fatos derivados da teoria, precedem- na. Já a suposta “evidência” que estaria na base da teoria psicanalítica (como a alegada existência de memórias reprimidas) carece dessa independência– é a aplicação da teoria que produz as narrativas que a própria teoria, depois, vai interpretar como memórias resgatadas do inconsciente. Tal circularidade– uma teoria embasada em evidências que só se manifestam para quem já a utiliza e acata de antemão– é típica das religiões e estranha ao ethos científico.”
Então, se as teorias de base já são precárias, a circularidade com que são aplicadas é assustadora:
“Segundo a doutrina psicodinâmica, esse inconsciente tem poder: sem que percebamos, seus prisioneiros influenciam, quando não controlam, nossos pensamentos e ações conscientes. Sinais dessa presença fantasmagórica afluiriam à consciência em sonhos, lapsos de linguagem, na livre associação de ideias, na produção artística e em outras manifestações mais ou menos acidentais. O psicanalista seria o profissional capaz de interpretar esses sinais (sonhos, lapsos, o produto de associações livres etc.) e trazer o conteúdo inconsciente à luz, o que livraria o paciente dos sintomas causados pela repressão. Se esse inconsciente psicodinâmico não está lá, então todo o empreendimento psicanalítico faz tanto sentido quanto hepatoscopia, a arte de prever o futuro examinando o fígado de animais sacrificados. E que motivos temos para acreditar que esteja lá? A palavra dos psicanalistas e de alguns de seus clientes: a falácia da “experiência clínica”. O que é exatamente o mesmo nível de evidências que existe a favor da hepatoscopia: gerações incontáveis de áugures e sacerdotes, de imperadores romanos, generais etruscos e chefes tribais de diversas partes do globo poderiam oferecer testemunhos brilhantes a favor da prática.”
(Os psicanalistas parecem aqueles cristãos que dizem que Deus existe porque está escrito na Bíblia que ele existe.)
A evidência clínica, que os psicanalistas alegam como sendo a base de todas as suas teorias, também é notoriamente precária:
“Como fonte de evidência, a experiência clínica é insuficiente, inconclusiva e, no limite, inválida– porque dificilmente será representativa: os pacientes insatisfeitos não voltam, os mortos não falam; a memória é seletiva, os vieses (e a vaidade) do profissional filtram aquilo em que prestará mais atenção ou considerará mais importante. Pior: a inclinação teórica pessoal do terapeuta influenciará sua leitura dos resultados. No Brasil, a crise da fosfoetanolamina sintética, em meados da década passada, e o número espantoso de médicos que se deixou seduzir pelos “resultados positivos” da cloroquina e da ivermectina na pandemia de covid- 19 mostraram de forma eloquente como é fácil cair nesses alçapões.”
Os psicanalistas respondem que, sim, são ciência, mas uma ciência diferente, uma ciência que não pode ser medida do mesmo jeito. Mas:
“Os autores poloneses Tomasz Witkowski (psicólogo) e Maciej Zatonski (médico), por sua vez, lembram que “o ônus cabe aos criadores de uma terapia (assim como ao inventor de um fármaco) de desenvolver uma metodologia ou abordagem que possa demonstrar, sem ambiguidades, o desfecho positivo de uma terapia (ou sua ausência)”.”
Enfim, não estou de modo nenhum dizendo que essas sacadas de Freud não tenham sido brilhantes, fecundas, geniais. Ele é, afinal, um dos meus autores favoritos. Mas nenhuma delas pode ser considerada, de nenhuma maneira, uma hipótese científica comprovável, mensurável, repetível.
Não é à toa que Freud é até hoje estudado e celebrado nos estudos literários. A psicanálise nada mais é do que um brilhante método de crítica literária, mas aplicado não a personagens fictícios (”Bentinho sentia ciúme do adultério que imaginou entre Capitu e Escobar”) e sim a pacientes reais (”A Paulinha tem inveja do pênis do pai”).
Mais abaixo, na subseção “Por que Freud errou”, eu comento vários trechos da obra de Richard Webster explorando em detalhes exatamente quais são os problemas da psicanálise.

Essa interpelação é muito feita, em tom de desafio, por defensores da psicanálise, como se ela fosse não apenas uma ciência, mas uma ciência libertária e inconformista, dizendo que o rei está nu e expondo todos os podres que a sociedade quer esconder!
Nada poderia estar mais distante da verdade, claro. Como vimos acima, um dos principais objetivos da psicanálise é que o paciente volte a funcionar cuidadosamente dentro da repressão social que a civilização exige. O método terapêutico anarquista e contestador é a somaterapia, que nunca se afirmou ciência, que nunca acusou ninguém de ter medo dela.
Enfim, para ilustrar como essa interpelação normalmente acontece, cito um trecho representativo de uma defesa da psicanálise publicada pelo Le Monde:
“Freud já apareceu na história do Ocidente trazendo certos desconfortos. É preciso lembrar que ele não é apenas o pai da psicanálise: é um dos marcos em nossa tradição de pensamento, um dos chamados pensadores da suspeita, influenciou e influencia toda a nossa cultura. Um exemplo disso são os termos psicanalíticos já incorporados em nosso vocabulário: narcisismo, complexo de édipo, repressão etc. Quando Freud surgiu ele mesmo nos explicou que sabia que a psicanálise poderia ferir o narcisismo da humanidade, já que nos faz ver que não somos senhores de nós mesmos; desejamos frequentemente algo que não poderíamos desejar. O inconsciente é uma noção que apareceu para confrontar a ideia de que seria possível a nós, humanos, sermos racionais o tempo todo. Não é à toa que em certa ocasião, durante visita aos Estados Unidos, Freud teria afirmado algo como: “eles não sabem, mas viemos trazer a peste”.
É preciso um desconhecimento abissal da história do pensamento humano para realmente considerar que essas foram as contribuições originais de Freud. Nunca, em nenhum momento da humanidade, o ser humano se considerou senhor de si mesmo. Não é preciso ser muito lido para perceber isso. Está em qualquer peça grega, em qualquer linha escrita por Agostinho, em qualquer verso da Divina Comédia. Duzentos anos antes de Freud, Leibniz já estava escrevendo sobre os nossos processos mentais que aconteceriam abaixo da limiar do consciência — ou seja, sobre o inconsciente.
A grande contribuição de Freud foi dar roupagem científica, aceitável ao público contemporâneo, a ideias e conceitos que já existiam há milênios.
Na verdade, algumas das pretensas grandes invenções da psicanálise de Freud, como o fato de nosso inconsciente influenciar nossas vidas, e a divisão de nossa psique em ego, super-ego e id, não passam de velho senso-comum rearticulado em linguagem pseudocientífica para o século XX: que o ser hunano está preso em uma batalha constante entre sua consciência moral e seus instintos mais básicos.
É importante lembrar que as críticas mais fortes à psicanálise não vêm de cientistas que acham que ela não é científica o suficiente. Sinceramente, esse ponto é tão óbvio que seria até tedioso prová-lo. Quem mais critica a psicanálise são pensadores das humanidades, como eu, que não conseguem deixar de ver que ela não se sustenta em pé.
Pasternak e Orsi resumem assim:
“As críticas mais contundentes à psicanálise vêm justamente do coração das humanidades – da Filosofia, que lida com o problema da demarcação e da validade das diferentes metodologias adotadas pelas ciências; da História, que põe em xeque, por meio de testemunhos e documentos, a lisura e a credibilidade das narrativas canônicas usadas pelos psicanalistas para justificar sua prática. Por fim, da própria Psicologia científica, que cobra evidências mais robustas para embasar tanto as alegações teóricas sobre estrutura e funcionamento da mente quanto as de sucesso clínico. A aplicação do método científico na produção de conhecimento psicológico – em oposição à reverência à palavra de supostos “gênios fundadores”, como Freud, ou à mera introspecção – já permitiu grandes avanços em áreas como a psicologia social, análise de comportamento, neuropsicologia e, no contexto clínico, nas terapias de base cognitivo-comportamental.”
Enfim, afinal, quem tem medo da psicanálise?
A resposta, sinceramente, é ninguém. Pelo menos não em pleno 2026.

Muitos psicanalistas se defendem jogando fora o bebê junto com a água. Dizem coisas como:
“Peralá, Freud foi só o inventor da psicanálise. Depois dele, vieram vários outros que refinaram a teoria. Além disso, uma sessão de terapia psicanalítica é uma conversa livre, que pode ir para qualquer lugar, e onde o profissional é somente informado por parte da teoria psicanalítica que ele acha relevante naquele momento. Eu não preciso “aplicar” o complexo de Édipo a todo menino que entra no meu consultório.”
Sim, é verdade. Ser marxista não quer dizer necessariamente concordar com cada opinião que Marx jamais emitiu e é perfeitamente possível um marxista de hoje ter se formado mais em diálogo com marxistas contemporâneos do que com as teorias clássicas de Marx em si.
Mas, por outro lado, se não concordo ou não trabalho com conceitos-chave do marxismo como luta de classes, materialismo histórico, alienação, mais-valia, fetichismo de mercadoria, etc, então, em que sentido ainda posso me dizer marxista? Ou, virando a questão ao avesso, estou me afirmando marxista por quê? Para quê? O que efetivamente ganho me agarrando a esse rótulo “marxista” com um nojinho tão visível por aquilo que ele representa?

Igualmente, se não concordo ou não trabalho com conceitos-chave da psicanálise como inconsciente, libido, pulsão de morte, ego, id, superego, repressão, inveja do pênis, complexo de Édipo, etc, então, em que sentido ainda posso me dizer psicanalista? Estou me afirmando psicanalista por quê? Para quê? O que efetivamente ganho me agarrando a esse rótulo “psicanalista” com um nojinho tão visível por aquilo que ele representa?
Querer ser um psicanalista que não “acredita” em Complexo de Édipo, ou que não usa o conceito de “repressão” em sua clínica, etc, é como se dizer cristão, mas, ó, acho que Jesus foi só um cara legal, um grande sábio, não o filho de Deus!, claro que não!
Ok, parceiro, cada um acredita no que quer, mas ser cristão não é isso. Existem muitas discordância dentro da comunidade cristã, mas também existe um pacote básico de crenças em volta do qual a comunidade se organiza. Se você não quer comprar o pacote completo, tudo bem, mas talvez então seja desonesto de se dizer cristão.
É insincero e hipócrita uma pessoa querer se afirmar psicanalista (se aproveitando assim tanto da respeitabilidade pública da psicanálise quanto do apoio da comunidade de psicanalistas) e não querer sair manchada pelos polêmicos, antiquados, ultrapassados, enlouquecidos conceitos-chave do criador da psicanálise.
Infelizmente, não dá para os psicanalistas jogarem fora as teorias de Freud, porque, sem elas, não sobre literalmente. Nas palavras de Pasternak e Orsi:
“As falsificações e os fracassos de Freud têm especial relevância para a validade geral da psicanálise (e das demais doutrinas e terapias psicodinâmicas que derivam dela) porque o edifício psicodinâmico foi todo construído sobre a fundação da prática clínica freudiana: a teoria e a terapia psicanalítica apresentam- se ao mundo como resultado de uma construção lógica feita a partir do trabalho de Freud com seus pacientes e das reflexões e hipóteses derivadas desse trabalho.”
Simone Weil, minha pensadora preferida e uma mulher ética em todos os seus comportamentos, nasceu judia e passou a vida fascinada pelo cristianismo. Ela queria muito se converter e se batizar, mas tinha dúvidas a respeito exatamente dos conteúdo do pacotão que estaria comprando.
Seu livrinho Cartas a um religioso são as perguntas que ela enviou ao seu padre. Dependendo das respostas, ela se converteria ou não. As perguntas são belíssimas, contestadoras e razoáveis, curiosas mas nunca impertinentes, feitas de coração aberto por uma mulher sensível e inteligentíssima, que conhecia a Bíblia de cabo a rabo e queria sinceramente se converter. Vale a pena ler.
Mais ética do que muitos dos psicanalistas que ganham a vida com a psicanálise enquanto tapam o nariz às teorias de Freud, Simone Weil nunca se converteu ao catolicismo.

No epílogo de Que bobagem!: pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi, eles tentam responder essa pergunta, e eu não teria podido colocar melhor:
“Certa vez, em uma festinha infantil, um de nós (Natalia), envolveu-se numa discussão com outros pais e mães sobre alergias em crianças. Logo, alguém sugeriu: “Sabe o que é bom para isso? Homeopatia”! Natalia então perguntou se todos ali sabiam o que era homeopatia, no que se baseava, quais eram os princípios, a lógica que seguia. E explicou. Depois de ouvir, uma das mães reagiu, chocada: “Mas, então, não tem nada lá? É só água? Mas que bobagem!” A semente deste Que bobagem! está aí. Não se trata de desqualificar ou demonizar gente que acredita em práticas de saúde sem comprovação científica ou que tem ideias exóticas (e demonstravelmente falsas) sobre a história humana ou a própria natureza da realidade.”
Minha mãe, uma mulher cultíssima formada em Belas Artes, acreditava que homeopatia era um tipo de remédio como qualquer outro.
Ela também me colocou em terapia, aos nove anos de idade, com uma caríssima psicanalista freudiana recomendada pelo meu médico endocrinologista: “o problema dele não é glandular”, disse o médico, na minha frente. Fiz psicanálise freudiana por nove anos, três vezes por semana, até completar 18 e eu mesmo me dar alta. O neto da minha psicanalista ainda deve morar na casa comprada com o nosso dinheiro.
Hoje, olhando em retrospecto depois de uma vida de leituras sobre Freud e psicanálise, eu enxergo que eu não tinha problema psicológico nenhum que justificasse uma intervenção tão radical. Eu apenas já era a pessoa que sou hoje e que você presumivelmente gosta de ler: desobediente, rebelde, questionador. Do ponto de vista do meu endocrinologista, meu “problema mental” era que eu, aos nove anos, me recusava a seguir a dieta alimentar restritiva que ele queria me impor. Entendo o quão difícil foi criar um menino voluntarioso como eu, mas minha desobediência e rebeldia não eram problemas psicológicos a serem resolvidos na terapia.
É importante ressaltar que não tenho nenhuma má experiência a reclamar da minha psicanalista. Na falta de problemas reais, ficávamos conversando sobre cultura e literatura. Eu, entre os nove e os dezoito anos, já lia muito e não tinha interlocutores de verdade para falar sobre minhas leituras. Ela assumiu esse papel.
Além disso, o maior valor da psicanálise na História da minha vida foi me tirar, três vezes por semana, do opressor deserto cultural de um condomínio de luxo da Barra da Tijuca e me levar para um Leblon urbano e cosmopolita. Nunca vou esquecer a sensação de esfuziante liberdade que senti andando sozinho, pela primeira vez, pelas ruas do Leblon.
Do ponto de vista da minha família, o único malefício foi um gasto literalmente abissal de tempo e de dinheiro em troca de uma terapia que nunca existiu para um problema que também não era esse. A única vantagem possível é que “saber” que eu estava nas mãos de uma psicanalista cara e famosa pode ter aliviado algumas das ansiedades maternais da minha mãe.
Então, não, não acho que psicanálise e homeopatia, e outras pseudociências, devam ser proibidas.
Acho, em primeiro lugar, que não devem ser bancadas por dinheiro público.
Mais ainda, acho que as pessoas que escolhem livremente usar esses serviços devem ser informadas que eles não têm respaldo científico algum.
Porque minha mãe, apesar de ser uma mulher tão inteligente e uma mãe tão cuidadosa, acreditou nos médicos que receitaram homeopatia para sua família e psicanálise freudiana para seu filho.
Como quem acredita no vendedor de colchão vestido de jaleco.

Há tempos eu procurava um bom livro que mostrasse o outro lado das polêmicas Freudianas. Encontrei Why Freud was wrong: sin, science and psychoanalysis, de Richard Webster, de 1995, publicado no Brasil como Por que Freud errou.
Na esteira, li também Freud (Grandes filósofos) (2003), do mesmo autor, que é um resumão do primeiro e está disponível baratinho no Kindle, só R$11, em português. Fiquei tão empolgado que acabei fazendo uma coisa que raramente faço: parei tudo.
Ao longo de dois dias, eu literalmente não fiz mais nada a não ser ler esse livro: não saí de casa, não li mais nada, não naveguei na internet, desmarquei compromissos, dormi pouco.
É um livro amplo, generoso, ambicioso, que vai muito além de Freud, e cujo tema é a própria busca pelo conhecimento através da razão.
Livro bom antes de tudo, é aquele que confirma nossos preconceitos e intuições: eu sempre amei Freud como escritor, crítico literário e cientista social, mas também sempre me pareceu autoevidente que tudo aquilo que ele apresentava como “ciência comprovada por observações empíricas” era tão ficcional quanto qualquer história que eu inventasse.

Naturalmente, isso não tira o poder de suas muitas sacações, mas modifica a maneira como deve ser lido. (Para mim, Freud e Schnitzler, médicos judeus vienenses, literatos e observadores da mente humana, estão no mesmo nível de grandeza — amo ambos profundamente.)
Nesse aspecto, o que Webster faz, enciclopedicamente, é fornecer subsídios históricos, factuais, empíricos para desmontar completamente todo o edifício pseudocientífico construído por Freud e seus continuadores.
Seria realmente impossível resumir o alcance desse livro. Minha cópia está toda sublinhada mas, como li em papel, eu teria que praticamente redigitar o livro inteiro para compartilhar minhas notas com vocês.
Webster faleceu em 2011 e, até pouco tempo atrás, estavam disponíveis em seu site o prefácio e a introdução do livro, que antecipam algumas das teses que ele tentará demonstrar. (Meus agradecimentos ao site Internet Archive que preservou os links acima.) As citações abaixo vêm ou dos links acima [wfww] ou do livrinho Freud, da coleção The great philosophers [f(tgp)], que é naturalmente bem inferior.

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Uma das teses principais de Webster: o pensamento freudiano (e também o marxismo, existencialismo, etc) é basicamente uma remixagem do pensamento judaico-cristão, onde apenas o vocabulário foi atualizado e cientifizado para tornar-se mais palatável ao mundo contemporâneo:
“The confident assumption which is generally made by modern rationalist thinkers is that the propositions about human nature which are contained in such theories as Marxism, psychoanalysis, existentialism, functionalism, and structural anthropology, are of a quite different order to the propositions about human nature which are contained within the Judaeo-Christian theory which they effectively replace. Whatever judgement may be passed on particular theories, it is at least generally assumed that modern thinkers have succeeded in freeing themselves from the superstitious and theological modes of thought which dominated those intellectuals who belonged to an era of faith. It is, however, just this assumption which needs to be questioned. For although such secular theories as psychoanalysis and structural anthropology have evidently shed the theism of Christianity, it is not at all clear that they have repudiated the view of human nature which was once associated with creationist theology, and with Judaeo-Christian doctrines of sin and redemption. Modern theorists of human nature, indeed, trapped as they are within a culture which has systematically mystified its own strongest traditions, are rather in the position of the mariner who sets out to sea without a chart. When he lands at a different point on the same continent from which he originally set sail, there is always the danger that he may fail to recognise this, and announce instead that he has discovered a new world. In the last hundred years such thinkers as Marx, Freud, Sartre and Lévi-Strauss have, I believe, repeatedly made just such a voyage. Setting out from a culture alienated from its traditional beliefs, disconsolately counting the small change of its new spiritual poverty, they have returned richly laden with belief and certainty in order to announce the discovery of the Brave New Worlds of dialectical materialism, of psychoanalysis, of existentialism and of structuralism. Many thinkers have greeted these discoveries with relief and enthusiasm. But because of their profound lack of familiarity with the orthodoxies of their own culture, they have often failed to recognise that the New Worlds in question are in reality but part of the old religious continent which was once their own, and that what they have embraced are not fresh theories of human nature but Judaeo-Christian orthodoxies which have been reconstructed in a secular form, safe from the attacks of science precisely because they are presented as science. Any culture which is founded upon the internalisation of a body of sacred doctrine, but which allows that body of doctrine to fall into obscurity, is always in danger of recreating old errors in new secular forms, and of allowing unexamined forms of irrationalism to determine its very definition of rationality. It is to this danger that our own culture has succumbed over and over again during the past century. [wfww]
Again and again Freud has been hailed … as the bringer of cultural and intellectual liberation. Yet if Freud has indeed established himself as one of the most significant messianic figures in modern intellectual culture this is perhaps itself a reason for preserving our scepticism about his mission. For from the time of Moses to the time of Marx it has been one of the characteristics of messianic prophets that their apparent willingness to attack established authorities has concealed a deeper adherence to orthodoxy than their followers have ever suspected. Frequently, indeed, the movements of liberation which they have led have actually ended by redoubling the very forms of repression they have ostensibly opposed. [wfww]
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O maior mérito de Freud foi reconhecer a existência da imaginação humana em toda a sua complexidade emocional:
“If psychoanalysis has attracted some of the most lively intellectuals of the twentieth century it is not, I believe, because of the truth which psychoanalytic theories contain, or their explanatory value. It is perhaps because psychoanalysis is, with the increasingly fragile exception of literary criticism, the only branch of the human sciences which even begins to recognise the existence of the human imagination in all its emotional complexity. In this respect it might well be said that the incorrect theory elaborated by Freud has been infinitely preferable to no theory at all, and in the vast desert of twentieth-century rationalism it is scarcely surprising that many have seen, in the drop of imaginative water which is contained in Freud’s theories, a veritable oasis of truth.” [wfww]
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Webster cita vários e vários exemplos da tendência de Freud de construir hipóteses com base em nada, forçá-las goela abaixo das pessoas pacientes e, daí em diante, tratar essas hipóteses como fatos comprovados e observados cientificamente.
No caso Dora:
“Freud … is able to convince himself that when Dora says ‘no’, her very vehemence indicates that she really wants to say ‘yes’. He subsequently decides that his patient is suffering from the effects of masturbation, and claims that her catarrh confirms this. … Freud forces Dora to confess that she had been a bed-wetter. When he puts pressure on her to solve the enigma of her illness ‘by confessing that she had masturbated, probably in childhood’, Dora is unable to comply, saying that she can remember no such thing. A few days later, however, Freud notices that she is fingering her reticule and immediately construes this as a ‘step towards the confession’: “Dora’s reticule, which came apart at the top in the usual way, was nothing but a representation of the genitals, and her playing with it, her opening it and putting her finger in it, was an entirely unembarrassed yet unmistakable pantomimic announcement of what she would like to do with them – namely, to masturbate.” Although Freud’s conclusion that Dora had masturbated in childhood is based purely on ill-informed medical conjecture, and on a speculative interpretation of a common form of fidgeting, he now proceeds to talk about ‘the occurrence of masturbation in Dora’s case’ as something which has been ‘verified’.” [f(tgp)]
No caso do homem-lobo, onde é criticado até por seu admirador, Erich Fromm:
The classic example of Freud’s technique of reconstruction is provided by the case of the Wolf Man. The primal scene which Freud describes, according to which his parents woke him from his slumbers by repeatedly having sexual intercourse in front of him, clearly has its origins in Freud’s theoretical preconceptions. It bears no discernible relationship to the dream from which Freud purports to derive it, and the links and interpretations by which he claims to do so are forced and implausible. It may be noted, indeed, that this particular reconstruction has stretched beyond breaking-point the credulity even of some of Freud’s followers. As the psychoanalyst Erich Fromm has written: ‘To form a hypothesis about what actually happened when the boy was one-and-a-half from a dream which says nothing more than that the boy saw some wolves, seems to be an example of obsessional thinking with complete disregard for reality.’ Even Fromm’s judgement is too generous, however. For, although the primal scene is indeed a hypothesis, the crucial factor is that Freud himself treats it as though it were an established fact and makes it into the keystone of the entire analysis. When Freud builds on this foundation by claiming that, at a late stage of the analysis, ‘there emerged timidly and indistinctly, a kind of recollection that at a very early age … [the patient] must have had a nursery-maid who was very fond of him’, his very language gives rise to suspicion, as does his claim that the case was now rapidly resolved. … Even Erich Fromm has recognised Freud’s habit of effectively constructing ‘facts’. He writes that the account of the Wolf Man’s dream ‘is actually a testimony to Freud’s capacity and inclination to build up reality out of a hundred little incidents either surmised or gained by interpretation, torn out of context and used in the service of arriving at conclusions that fit his preconceived idea’. [f(tgp)]
Sobre a interpretação dos sonhos:
A similar observation might be made of Freud’s techniques of dream interpretation, which depended on construing all dreams as cryptic forms of wish-fulfilment. As Fliess manipulated numbers, so Freud juggled with symbols until even the most frustrating or tragic dream could be interpreted as secretly fulfilling some wish or desire of the dreamer – usually, though not always, a sexual wish. Freud thus argues that whenever steps, staircases and ladders appear in dreams, they are ‘unquestionably’ symbols of copulation: It is hard not to discover the basis of the comparison: we come to the top in a series of rhythmical movements and with increasing breathlessness, and then, with a few rapid leaps, we can get to the bottom again. Thus the rhythmical pattern of copulation is reproduced in going upstairs.48 The fact that this argument could be applied to practically any form of rhythmical muscular exercise, from paddling a canoe to polishing a floor, is ignored. When Freud goes on to write that women’s hats ‘can very often be interpreted with certainty as a genital organ (usually a man’s)’, that the same is true of overcoats and ties, and that not only tools and weapons but all forms of luggage and some kinds of relatives (particularly sons, daughters and sisters) frequently symbolise genitals, as do noses, eyes, ears and mouths, it is difficult not to suspect a kinship between Freud’s interpretive strategies and Fliess’s arithmetic.[f(tgp)]
Na prática, Freud criou uma teoria que lhe permitia inventar o que bem entendesse sobre a vida íntima de seus pacientes:
One of the reasons that the data of psychoanalysis sometimes appears to be so persuasive is that Freud, enraptured by his theories, had devised a method which, to a considerable extent, allowed him to create his own data. Instead of theories being based on observations, ‘observations’ were sometimes derived from theories.[f(tgp)]
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Algumas das grandes invenções de Freud, como o fato de nosso inconsciente influenciar nossas vidas, e a divisão de nossa psique em ego, super-ego e id, não passam de velho senso-comum rearticulado em linguagem pseudocientífica para o século XX:
Freud’s belief that he was constructing a genuine science remains crucial to any understanding of how psychoanalysis developed. For it was his relentless and reductive scientism which, coupled with his compulsive need for fame, led him deeper and deeper into a labyrinth of error. It is quite true that Freud pointed to the poets as the precursors of psychoanalysis. But the whole point of this claim was to suggest that psychoanalysis had succeeded in translating ‘poetic’ insights into human nature into a ‘hard’ scientific register. In practice such insights were incorporated into psychoanalysis only after they had been both technicalised and medicalised. Again and again Freud strangled in false science the very poetic truths he had glimpsed in imaginative literature. When it comes to psychological insight, the common wealth of our literary tradition remains richer by far than psychoanalysis, and this should be recognised more widely than it is. [f(tgp)]
Yet, partly because of the way in which he used the aura of science and medicine to gain intellectual authority for his theories, Freud sometimes seems to be regarded as the only possible source for any deep insight into human nature. Although the idea that human motives are often unconscious is an ancient one, Freud is persistently credited with this ‘discovery’. [f(tgp)]
When, in 1923, Freud revised his theory of personality by adding to it his tripartite division of the mind into ‘id’, ‘ego’ and ‘superego’, the undoubted appeal of these hypothetical entities arose directly from concepts which were already well established. In practice Freud was doing little more than reformulating in technical terms the idea that the human self is wrought out of a conflict between the conscience and unbridled instincts. Indeed, Freud himself was obliged to recognise the objection which was most commonly made against his ego psychology – that it ‘comes down to nothing more than taking commonly used abstractions literally, and in a crude sense, and transforming them from concepts to things’ [f(tgp)]
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Na prática, muitas das ideias de Freud, como o complexo de Édipo e o malvado id tentando nos dominar, etc, não passam de novas roupagens da velha teoria do pecado original, de Agostinho:
Rooted as he was in the rationalism of the Judaeo-Christian tradition, which has always upheld the supremacy and the divine origin of reason, Freud remained passionately committed to a secularised version of the same rationalism. ‘We have no other means of controlling our instinctual nature but our intelligence,’ he wrote; ‘… the psychological ideal [is] the primacy of the intelligence.’ ‘Our mind,’ he observed, ‘… is no peacefully self-contained unity. It is rather to be compared with a modern State in which a mob, eager for enjoyment and destruction, has to be held down forcibly by a prudent superior class.’51 [f(tgp)]
Freud genuinely believed that he was using science to sweep away superstition and introduce a new view of human nature. His real achievement in creating psychoanalysis, however, was to hide superstition beneath the rhetoric of reason in order to reintroduce a very old view of human nature. By portraying the unconscious or the ‘id’ as a seething mass of unclean instincts, and seeing men and women as driven by dark sexual and sadistic impulses and a secret love of excrement, Freud in effect reinvented, for a modern scientific age, the traditional Christian doctrine of Original Sin. At the same time, through psychoanalysis, he offered to all who followed him a means of redemption. [f(tgp)]
If, in the twentieth century, psychoanalysis rapidly attained the status and power of an orthodoxy, it was for no other reason than that it was a form of orthodoxy itself – a subtle reformulation of Judaeo-Christian doctrine in secular form, safe from the attacks of science precisely because it was presented as science. [f(tgp)]
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Como matar o grande pai que te ensinou que o seu grande desejo é matar o seu grande pai?
Freud, however, has proved more difficult to vanquish than many of his opponents have calculated. As Walter Kendrick has written, ‘How can you simply kill the Father who taught you that his death must be your desire?’ [wfww]
Os vendedores de colchão não precisam nem mentir: o jaleco de médico já basta para enganar os desavisados.

O handle @outrofobia ficou disponível e aproveitei pra recuperar.
Vou postar links interessantes e novos textos.
Escritor”, “jornalista”, “dramaturgo”, etc, são todas palavras bonitas e prestigiosas para descrever uma mesma coisa: a categoria das fofoqueiras profissionais.
Eu, por exemplo, adoro a evasão de privacidade do mundo atual. Já adorava antes, quando as pessoas falavam em altos brados no celular em lugares públicos, e continuo amando agora, quando fazem o mesmo por áudio de Whatsapp.
Quem precisa de livros e iTralhas quando tenho à minha disposição um ônibus inteiro de dramas humanos? (Quase sempre escolho meu lugar pensando quem parece ter fofocas mais interessantes.)
Mas sabe qual é a parte mais estranha desse fenômeno?

É quando eu demonstro visivelmente que parei de ler meu livro para acompanhar a conversa que está acontecendo a 30 cm do meu ouvido…
…e a pessoa, até então bradando suas intimidades a plenos pulmões, fica incomodada de ver que estou prestando atenção àqueles sons que não tenho como fisicamente não ouvir.
Amiga, vamos combinar: se não reclamo de você descrever sua cirurgia de bócio enquanto tento comer, você não reclama de eu ouvir tudo e tomar notas.
* * *
Me ocorreu agora que muitas leitoras provavelmente pensarão que estou sendo irônico.
Não apenas não estou (enfaticamente não estou!), como não entendo como as pessoas podem não gostar de ouvir conversas alheias em lugares públicos. Só Deus sabe quantas vezes já passei do ponto pra continuar ouvindo uma fofoca da boa. Esse mês, estou lendo Guerra e Paz, de Tolstoi: são 2.500 páginas e 600 personagens. O que é isso senão fofoca num nível mega-uber-hard?
Para mim, certamente por ser um fofoqueiro profissional por toda a minha vida, nada pode ser mais fascinante do que essas sete bilhões de personagens únicas e fascinantes que dividem conosco essa pedra. Meu interesse por saber mais de suas vidas, dramas, dores, alegrias, é simplesmente insaciável.
Nada, nada, nada pode ser mais interessante que isso.
Eram umas três e quinze quando liguei para Gláucia. Ela atendeu meio grogue, alô?, hã?, quem é? Respondi: sou eu, Alex, te acordei? Sim, tava tirando um cochilo, o remédio me derrubou. Bem, são três e quinze, eu liguei mesmo só pra saber se você tinha melhorado, se estava bem. Estou, estou sim, já melhorei, só estou com soooono!, e bocejou. Achei melhor deixá-la dormir e disse: então tá, era só isso que eu queria saber, vai cochilar, a gente se fala direito mais tarde.
Na verdade, só de ouvi-la bocejar também peguei sono e decidi me deitar um pouquinho. Quando acordei, já noite alta, tinha uma mensagem piscando na minha secretária eletrônica. Oi Alex, aqui é a Gláucia, são oito da noite. Você me ligou hoje à tarde? Lá pelas três e quinze? Eu tava tão sonada que nem me lembro. Acho que sonhei que você tinha me ligado. Foi você mesmo ou foi delírio da febre? De qualquer modo, estou ok. Depois me liga.

E eu pensei que aquilo, de algum modo, poderia dar um bom argumento de história de terror. Imagina se ela acorda assim, sem saber se falou comigo ou não, deixa esse recado na secretária eletrônica, e depois descobre: sinto muito, Gláucia, ninguém te contou?, o Alex faleceu, ninguém entendeu nada, tudo tão súbito, teve um piripaque e caiu com a cara na sopa. Às três e quinze, nunca vou esquecer, meu filhinho! Oh, mas eu falei com ele hoje às três e quinze. Será que foi mesmo sonho? Ou será que há mais coisas entre o céu e a terra do que desconfia nossa vã filosofia?
Ri comigo mesmo e liguei pra ela pra contar a historinha. Gláucia era tão mórbida quanto eu, iria achar a maior graça. Ninguém atendeu em sua casa, caiu direto na sua secretária eletrônica, uma gravação estranha, com a voz do seu irmão: a família deseja agradecer a todos pelas manifestações de apoio. Desculpem não atendermos o telefone, ainda estamos em choque. A Gláucia teve uma piora súbita da febre, foi internada e acabou falecendo de infecção generalizada hoje à tarde, às três e quinze. O velório será etc. Por favor, não mandem flores.
Coloquei o telefone no gancho horrorizado, ainda tentando digerir aquilo tudo, poderia ser verdade? Gláucia, morta? E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o telefone voltou a tocar, dei mais dois passos para trás, não queria falar com ninguém, mas minha mãe entrou no quarto e atendeu:
Alô, é a mãe dele. Obrigada. Sim, hoje à tarde. Às três e quinze. Não sabemos. Os médicos não conseguiram explicar o que houve. Só sei que perdi meu filho! Meu pobre Alex!
Etc ad eternum ad nauseum para sempre.
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Peço opiniões sobre meus textos e as pessoas respondem com opiniões sobre minha vida.
Acontece com tanta frequência que parece que são fáceis de confundir. Entretanto, não poderiam ser mais diferentes:
Um texto (ou qualquer obra de arte) é um ato de vontade criador cuja razão de ser é seu encontro com um público que vai consumi-lo e julgá-lo.
(Daí eu querer opiniões sobre meus textos.)
Já uma vida somente é. Ela se basta por si e não precisa de justificativa nem objetivo, especialmente não ser consumida ou julgada por ninguém.
(Daí eu não querer opiniões sobre minha vida.)

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Dona Albertina anda sempre maquiada, penteado bem armado, cabelos tingidos de louro, brincos balançantes. Nos pés, sandálias abertas revelam dedos entrevados mas com a pedicure perfeita.
Anda devagar. Corpo muito ereto. Cada passo é um esforço. No mínimo, uma decisão. Ela decide dar um passo. Depois, decide dar o seguinte. Um de cada vez. Devagar. Com fraqueza mas com segurança. Devagar e sempre.
Em casa, investe toda uma manhã em se arrumar, dizendo para o espelho: até parece que vou sair descabelada que nem essas velhas loucas!, jamais!, logo eu! Quem ganhou a maratona de dança do Copacabana Palace em 1947 não vai sem rouge até o Posto Seis, não, senhora!
Dona Albertina já não consegue mais se arrumar na mesma velocidade de antigamente. Mas seu marido morreu e seus filhos cresceram: ela tem tempo.
A ida à padaria é a parte mais importante do seu dia.
Para encontrar os vizinhos. Para sentir o cheiro de maresia. Para conversar com os cachorros do quarteirão. Para ver e ser vista. Para mostrar que ainda não está morta. Para celebrar que está viva. Para afirmar que é linda! Linda!
E assim, entrevada e vagarosa, a eterna Miss Tomate 1953 (aclamada por unanimidade pelo júri do festival do tomate de Paty do Alferes!) vai até a padaria comprar duas cavacas com recheio de goiabada. Que o seu Manuel já se ofereceu diversas vezes para entregar em casa, de graça, para a senhora não ter esse trabalhão, Dona Albertina!
Mas seu Manuel não entende nada.
Quem um escritor de ficção “realmente é” se não a soma de todas as histórias mentirosas que contou ao longo de toda uma vida de trabalho?
Hoje, no metrô lotado. Em pé, ao meu lado, um casal. Conversam se olhando nos olhos, sorrindo, se abraçando. Ela conserta sua gola, a gola entorta, ela conserta de novo.
Na muvuca do desembarque, todo mundo empurrando todo mundo, se separam.
De repente, já na plataforma, ela olha para o lado, esperando vê-lo.
Não foi um super olhar. Não foi um olhar mega romântico. Não foi nada de mais.
Foi apenas um olhar rápido de quem olha para o lado esperando ver a pessoa amada, a pessoa com quem escolheu passar a vida, a pessoa que estava colada no seu corpo até dez segundos antes.
Mas quem estava ao seu lado era eu.
Não foi um olhar de horror. Não foi um olhar de desprezo. Não foi nada de mais.
Foi apenas um rosto humano, transicionando rapidamente entre o olhar que damos para a pessoa que amamos e o olhar que damos para pessoas aleatórias com quem cruzamos os olhos na plataforma do metrô.
Ainda assim, que privilégio ser olhado com tanto amor, nem que apenas por uma estranha, por um engano, por um segundo.
O problema de quem não nos ama mais é que, sem esse olhar nos olhos, mal conseguimos reconhecê-las: parecem mesmo outras pessoas.
A filha de uma de minhas melhores amigas iria fazer aniversário e, por isso, perguntei a outra amiga:
“Eu não entendo nada de criança. Tem problema se eu der um vale-presente?”
E a amiga colocou uma mão carinhosa em meu ombro e respondeu:
“Imagina. Vindo de você, não tem problema nenhum!”
Mas esqueci de dar o vale-presente.

* * *
Ser artista é sofrer em público para o benefício das outras pessoas e se abrir ao seu julgamento — às vezes impiedoso, muitas vezes surpreendentemente generoso.
Se perguntamos a uma turma de jardim de infância, quem é artista, todos os braços se levantam. Ao longo dos anos, os braços vão minguando. Lá pela sexta série, as autodeclaradas artistas são apenas uma ou duas, levantando o braço de maneira bem hesitante, olhando em volta, temendo o julgamento de seus pares, não querendo nunca se tornar as esquisitas da turma.
Mas ocupar esse lugar da pessoa excêntrica e fora-do-padrão, pode ser salvador: ele nos permite transgredir as regras com uma liberdade que teria custado socialmente muito caro às outras pessoas.

* * *
Cultivar uma reputação de excentricidade foi uma das melhores coisas que fiz por mim mesmo.
Na adolescência, o peso das regras de conformidade social da minha escola teria me esmagado. Ser excêntrico, ser artista, ser esquisitão, salvou minha vida e minha sanidade.
Continua salvando até hoje.
Menino de dezesseis anos, namorando menina de dezessete, relacionamento super complicado, brigas com pai dela, maior drama, e eu ouvindo aquilo tudo, e ele me pede um conselho:
“Alex, me diz, o que eu faço?”
E eu, Deus que me perdoe, mas, sinceramente, a única coisa que pude dizer foi:
“Dezoito.”
Ter dezesseis anos é uma merda. O único consolo é que, se você resistir firme e conseguir não morrer, o problema se resolve sozinho.
