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a continuidade das mudanças

passo meus dias andando pelo rio, olhando e absorvendo tudo, sedento e feliz, identificando com atenção cirúrgica cada coisinha que mudou, cada marca que sofreu redesign, cada linha de ônibus com novo número.

é um alívio delicioso, sabe?

se nada tivesse mudado, teria sido apavorante e assustador. como se a cidade não tivesse existência longe da minha ó-tão-luminosa presença.

se tudo tivesse mudado, teria sido assustador e apavorante. como se a cidade tivesse somente me esperado virar de costas para se refazer sem mim.

então, nada pode ser mais acolhedor do que pequenas mudanças dentro de uma enorme continuidade. o novo metrô de ipanema, a futura ponte do fundão, a ausência do moinho marilu. o rio se faz meu até nas mudanças que realizou na minha ausência.

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gelosias e grades

A arquitetura mourisca de Alhambra e a arquitetura norte-americana da Barra da Tijuca têm mais em comum do que se pode imaginar: as gelosias proibidas de ontem são as grades disseminadas de hoje.

* * *

Um dos primeiros editais do Intendente Geral da (recém-criada) Polícia do Rio de Janeiro foi proibir as rótulas e gelosias nos sobrados da cidade (11 de junho de 1809). Para Joaquim Manoel de Macedo, escrevendo suas “Memórias da Rua do Ouvidor” em 1878, gelosias e rótulas eram costume “quase bárbaro, de raiz mourisca”, e ele lamenta que muitas casas tenham “resistido à reforma decretada pela civilização”.

gelosia

Herança da arquitetura árabe que se popularizou na Península Ibérica, gelosias e rótulas eram painéis formados por treliças de madeira para vedar vãos de janelas, muitas vezes convertendo-se em verdadeiras gaiolas, fechadas de madeira por todos os lados, cujo objetivo confesso era aprisionar ou proteger (depende de quem conta) as mulheres da casa. Além de permitirem a passagem de ar fresco, também possibilitavam que as pobres mulheres encarceradas (mas honradas) observassem a rua sem serem observadas pelos de fora.

Com o tempo, as gelosias popularizaram-se tanto na cultura e na língua que passaram a designar o próprio ciúmes: “gelosia”, em italiano, “jalousie” em francês e “jealousy” em inglês, entre outras. Uma novela como “El Celoso Extremeño”, de Cervantes, sobre um homem ciumento obcecado em impedir sua mulher de traí-lo a todo custo, é excelente retrato da cultura que popularizou as gelosias. Enquanto isso, no Brasil Colônia, era comum visitantes estrangeiros se queixarem de nunca ver mulheres brancas, eternamente escondidas atrás de suas rótulas e gelosias, saindo apenas para as missas dominicais, e mesmo assim protegidas por véus e mantilhas.

 

Por isso, para os cariocas de 1809, empolgados com o sopro europeizante e modernizador trazido pela corte de D.João VI, gelosias e rótulas eram um símbolo concreto de tudo o que havia de mais retrógrado e bárbaro na cultura ibérica. O decreto de 1809, ao suprimir um elemento arquitetônico que fazia de cada casa uma fortaleza e uma prisão, era uma tentativa estatal de promover o espaço público em detrimento do privado. Macedo, setenta anos depois mas ainda herdeiro dessa mesma tradição, comemora:

“As rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas, mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas. A higiene, a arquitetura, o embelezamento da cidade exigiam a destruição das malignas e feias gaiolas. E a Rua do Ouvidor devia ser pronta, como foi, em dar cumprimento ao edital de Paulo Fernandes, porque rótulas e gelosias destinadas a esconder à força o belo sexo deviam ser imediatamente banidas da rua que não tarde tinha de tornar-se por excelência de exposição diária de elegantes e honestíssimas senhoras.”

gelosias 2

Duzentos anos depois, a cidade parece caminhar na direção oposta. Casas e condomínios se cercam de grades, essas modernas gelosias, buscando tornar-se como as antigas fortalezas auto-suficientes.

Teoricamente, um condomínio pode escolher designar suas ruas internas de públicas ou privativas: no segundo caso, abre-se mão de uma série de serviços públicos (entrega de correios, coleta de lixo, transporte coletivo, etc) em troca do direito de só permitir a entrada ou passagem de quem se quer. Caso decida que suas ruas internas são públicas, o condomínio pode desfrutar desses serviços também públicos mas, em contrapartida, não podem negar entrada ou passagem a ninguém. Afinal, a rua é pública.

Entretanto, cada vez mais condomínios tentam malandramente conseguir o melhor dos dois mundos: apesar de suas ruas internas serem públicas, ainda assim colocam uma cancela e seguranças armados na porta. Abaixo, o Condomínio Península, onde mora meu pai.

cancela barra rio de janeiro
(Foto de Arthur Jacob, publicada na Coluna do Ancelmo Góis, O Globo, 11 de dezembro de 2007)

A menos de cinco minutos dali, na Cidade de Deus, no dia 19 de junho de 2006, moradores revoltados bloquearam a Estrada do Gabinal, colocando fogo em pneus, madeiras e até mesmo em um ônibus para protestar mais um inocente morto sumariamente pela polícia, em uma operação que também deixou baleada uma criança de oito anos. Foram violentamente reprimidos (felizmente, sem perda de vidas) e logo aprenderam a lição: os ricos da Barra podem bloquear uma via pública na maior cara-de-pau; eles, não. Eu, que morava na mesma Estrada do Gabinal, tive que dormir em casa de amigos nessa noite.

Os últimos anos viram cada vez mais prédios, praças e espaços públicos de modo geral sendo cercados e gradeados no Rio de Janeiro. O espaço público tendo se tornado cada vez mais assustador, é necessário proteger o espaço privado a todo custo. No final da mesma Rua do Ouvidor historiada por Joaquim Manoel de Macedo, essa rua de sobrados coloniais de gelosias mouriscas e rótulas bárbaras, mais um prédio foi cercado e gradeado, protegido do assustador espaço público.

ifcs_plenaria do Fórum de Lutas Contra o Aumento da Passagem 25 de junho de 2013 ifcs 1940 ifcs 1922 ifcs 1850
Quatro momentos de um prédio: 2013, durante as jornadas de junho; cerca de 1940; 1922, sediando a Exposição Nacional; e cerca de 1850.

O prédio do atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS), no Largo de São Francisco, começou a ser construído em 1811 (dois anos depois do decreto que extinguiu as gelosias), para servir de sede à Academia Real Militar. É considerado como o primeiro prédio no Brasil a ser construído especificamente para uma instituição de ensino. Ao longo dos séculos seguintes, foi o principal centro brasileiro de formação de engenheiros, abrigando, entre outros, a famosa Escola Politécnica e a Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil. Em 1965, com a criação da UFRJ, a Engenharia foi relocada para o Fundão e os cursos mais comunistas e criadores de caso foram colocados ali, para evitar que contaminassem o resto da universidade: História, Filosofia, Ciências Sociais. (fonte)

Finalmente, em 2008, quase 200 anos depois do edital do Intendente de Polícia proibindo gelosias e rótulas, o pêndulo já encontra-se no outro extremo. O prédio do IFCS, público há 200 anos, agora encontra-se protegido por grades: os alunos lá dentro, nossos futuros sociólogos e cientistas políticas, podem olhar a realidade carioca, inclusive os mendigos do Largo de São Francisco, através de confortáveis e seguras grades. Se fossem gelosias, talvez fosse ainda mais prático: os mendigos nem teriam como enxergá-los de volta.

Duas reportagens para o site G1, de Alba Valéria Mendonça e Vivianne Banharo, narram o conturbado processo de gradeamento do IFCS:

Segundo a direção administrativa do IFCS, o projeto de instalação das grades de proteção é da prefeitura da UFRJ. O objetivo, como informou a direção, é garantir a segurança dos alunos – principalmente, dos cursos noturnos – e do patrimônio. Segundo a direção, não há informações sobre alunos assaltados, mas carros que estacionam na frente do prédio já foram arrombados.

Aparentemente, o grande problema seria a grande população de moradores de rua do Largo de São Francisco, que estaria deixando as escadarias do prédio imundas:

Aluna do 7º período de filosofia, Helena Ribeiro, de 37 anos, conta que todos os dias pela manhã o funcionário da limpeza do IFCS é obrigado a lavar a escadaria com desinfetante. Às vezes os moradores de rua ainda estão dormindo na frente do prédio. “Eles sempre deixam muita sujeira por aqui e fica um fedor insuportável.” … “Sinceramente, sou a favor. Isso aqui fica uma imundície. Não resolve o problema maior que é a mendicância. Mas tem dias que é difícil entrar na faculdade. Ficam umas 15 pessoas deitadas por aqui”, disse Gabriel … “As escadarias dos prédios viraram residência da mendicância”, comentou o prefeito, relacionando a presença de moradores de rua com banhos, despejo de lixo e necessidades fisiológicas.

Fui aluno do curso noturno de História do IFCS entre 1996 e 1999. Quando chegava para as aulas, por volta de seis da tarde, os mendigos já estavam se recolhendo. Durante o inverno, quando escurecia cedo, colocavam um agasalho na estátua de José Bonifácio, no centro da praça. Quando acabavam as aulas, às dez da noite, era raro haver mendigos acordados: já dormiam profundamente.

Naturalmente, vários alunos se manifestaram contra as grades:

“Isso aqui é um espaço público e a colocação de grades é uma questão pública. A faculdade em vez de se abrir está se fechando para o povo e não deveria ser essa a nossa filosofia. Não é cercando com grades que vamos resolver o problema do apartheid social que vivemos. As grandes não vão nos impedir de ver o que está aí, do outro lado da calçada”, disse Filipe, afirmando que vai ficar constrangido de ter de atravessar todos os dias um portão com o símbolo da UFRJ, como se quisesse deixar a realidade para trás. … “Vai causar um clima diferente, com mais privacidade. O IFCS vai ficar num clima de campus, não mais tão integrado à cidade. As grades me incomodam mais pelo fato de não sobrar espaço na calçada para as pessoas circularem.”

Se o prédio do Largo de São Francisco fosse ainda Escola de Engenharia, a situação não seria tão irônica. Um centro de excelência criado explicitamente para segregar os cursos mais politicamente subversivos e socialmente incômodos da primeira universidade do nosso país, dirigido por algumas das melhores mentes acadêmicas nos campos de história, política, antropologia, sociologia, filosofia, e a melhor solução que encontrou-se para o excesso de mendigos no centro do Rio de Janeiro foi… construir grades!

Em menos de duzentos anos, o Rio de Janeiro que buscava estimular o espaço público ao proibir gelosias e construir passeios públicos transformou-se no Rio de Janeiro que bloqueia ruas públicas com cancelas e erige grades de metal para proteger prédios públicos da população de rua.

* * *

Termino de escrever um texto como esse e percebo cada vez mais a relação concreta que tenho com minha cidade. Uma discussão por alto sobre espaço público e privado acaba passando pelo condomínio onde mora meu pai ou pela favela da estrada onde moro, e também pela Rua do Ouvidor, por onde tanto andei, que desemboca no prédio onde estudei tantos anos. Essa cidade é minha porque é impossível falar sobre ela e sua história sem também falar de mim e da minha história: sou herdeiro das pedras portuguesas de Copacabana e do bondinho de Santa Teresa, das lagoas da Barra da Tijuca e das cotias do Campo de Santana, assim como também sou herdeiro da porcaria pelo chão e dos engarrafamentos pelas ruas, das chacinas e do caos. O bom e o mau, o lindo e o podre, é tudo meu. Os mesmos antepassados que me legaram a Floresta da Tijuca e o largo do Boticário também deixaram outras tantas bombas pra explodir na minha mão. Como cidadão carioca, aceito tudo.

Daqui a pouco, nos comentários, vai me aparecer um idiota criticando meu pretenso “orgulho pelo Rio” e dizendo que o Rio é uma cidade suja e violenta, e um outro idiota vai responder que não, que o Rio é a cidade mais linda do mundo, mas não estou falando nem de orgulho, nem de vergonha: meu sentimento é muito mais primal e concreto. Certo ou errado, bonito ou feio, esse chão é meu.

O mundo é cheio de problemas: assisto Juno e fico comovido com toda a questão da gravidez infantil, aborto e adoção, mas assisto Tropa de Elite e o filme ME aponta um dedo direto na cara: esse é o problema da minha época, da minha terra, da minha geração. Na loteria da História, foi essa batata quente que me coube. O bônus é meu, o ônus também.

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bem-vindo ao mundo

o mundo dá boas vindas ao oliver

na casa do leonardo, meu amigo e anfitrião, o capacho de boas vindas é voltado para dentro e não para fora.

todo dia, quando saio, recém-chegado de volta ao meu país, é como se o mundo estivesse me desejando boas vindas. como se fosse justamente o espaço público aquele lugar acolhedor e receptivo onde entro ao sair do meu pequeno e mesquinho espaço privado.

meu amigo insiste que foi apenas uma coincidência, mas não mexeu mais no capacho.

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a falta das chaves

amanhã, volto em definitivo ao brasil.

uma por uma, fui devolvendo todas as minhas chaves. do escritório, do elevador, do departamento, da lavanderia. finalmente, a chave de casa. agora, sou oficialmente uma pessoa sem-chaves.

meus chaveiros sem chave

meus dois chaveiros estão nus. já não existe nenhuma porta trancada que eu possa abrir. nenhuma fechadura me pertence.

não sei qual será minha próxima casa, minha próxima porta, minha próxima fechadura.

a liberdade é não ter chaves.

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voltando aos seus braços

Nesses seis anos, nunca perdemos o contato: passei sempre cinco meses por ano com você, trabalhando, namorando, alugando apartamento, vivendo a vida cotidiana ao seu lado, justamente pra não perder o seu cheiro e o seu ritmo, as gírias e as modas, pra não virar haole – deus me livre! Ninguém pode me acusar de te idealizar: conheço cada estria, cada arrastão; amo cada celulite, cada chacina.

Muita coisa mudou. Você passou no teste do Pan – confesso que eu estava cético! Foi retratada em dois Tropas de Elite – belíssimas obras que elevaram ao nível da arte todos os nossos maiores dilemas e apreensões. Depois, descobriram uma quantidade enorme de petróleo na sua costa – que querem lhe tomar no tapetão! Agora, esse ano, vai sediar os jogos militares (quarto maior evento esportivo do mundo) e, daqui a pouco, uma copa (incluindo a final!) e uma olimpíada.

Hoje, aqui de longe, você me parece revitalizada, linda, cheia de esperanças – potencializando seu duplo caráter turístico e petroquímico. Será que, em 2005, fui pessimista demais e não lhe dei o devido valor? Será que você está ressurgindo? Desculpa se não confiei em você, meu amor! Você me perdoa?

Pra mim, nesse momento, a pergunta é a seguinte: onde quero estar nos próximos vinte anos? De onde quero observar o futuro acontecer? De qual processo histórico quero ser testemunha? Nada me prende. Posso ir pra qualquer lugar. Acabei de viver os seis anos imediatamente pós-Katrina em Nova Orleans – um período único que nunca mais vai se repetir.

Confesso que Havana é uma forte finalista: assim que morrerem os irmãos Castro, a batalha dupla pela democracia em Cuba e pela manutenção do legado revolucionário vai ser feroz, linda, necessária. Gostaria de fazer parte dessa aventura, de me meter nessa briga, mas quem estou enganando, não é? Havana é uma amante querida, uma jineteira sem-vergonha, mas você é minha esposa. É o seu futuro que quero ver, é da sua História que quero participar, é nos seus braços que quero morrer.

Crescendo ao seu lado, havia sempre algum gringo maluco com a mesma história: estava de passagem, esbarrou em você, ficou para sempre. E eu os invejava, sabe? Por um lado, eu nasci dentro de você – o que, pra mim, não é fonte de orgulho mas mero acidente histórico. Já eles, caramba!, eles te escolheram! Nasceram em Tucson, Estocolmo, Florença mas bastou te conhecerem para saberem na hora: é aqui que vou ficar!

E você, hospitaleira e sem-vergonha, é dessas que só dizem sim: mesmo sem renda e sem prenda, você nos faz as vontades, nos diz meias-verdades e nos faz acreditar (vaidosos!) que somos o povo mais privilegiado do mundo. (Gueixa indiscriminada, você aceita igualmente todos os que te amam – carioca é quem se sente carioca.) Na manhã seguinte, naturalmente, antes de contarmos até vinte, podemos ter sido atingidos por uma bala perdida ou soterrados pela lama que desce o morro, mas é o risco que corremos. Existem muitas outras mais seguras, mais pacatas, mais civilizadas, mais respeitadoras: quem quiser, que fique com elas. (Curitiba é linda nessa época do ano!)

Nós, os que te escolhemos, aceitamos o positivo junto com o negativo, o risco com o dividendo, o ônus com o bônus. Na verdade, não é nem que aceitamos o ônus em si: aceitamos o ônus de positivar o negativo, de minizar o risco para para podermos melhor usufruir dos dividendos. Quem te escolhe também escolhe o ônus histórico de te amar, te preservar, te salvar de si mesma. Ninguém que assistiu Tropa de Elite pode alegar que não sabia onde estava se metendo.

E essa é a questão, não é? Passar seis anos longe me permitiu fazer algo que sempre desejei: te escolher. Estar ao seu lado não por um feliz acaso do destino, mas por decisão consciente, pensada, fatídica.

Te escolho.

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lei dos conselhos, ou acho que você deve mandar seu chefe tomar no cú

A contundência de um conselho é inversamente proporcional às consequências práticas que recairão sobre o aconselhador.

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fetiche de entendimento

Depois de Mulher de Um Homem Só, algumas leitoras gostam de dizer que eu “entendo muito de mulher”. Meu ego ronrona, as namoradas riem (“quem não te conhece que te compre, Alex”) e fica tudo por isso mesmo, mas o elogio desmascara um pouco do nosso fetiche de entendimento.

Elogiar alguém por “entender de mulher”, por exemplo, significa sugerir que existe uma “essência intrínseca de mulheritude” que está disponível para ser observada, apreendida, compreendida, definida, nomeada e passada adiante. Mas temos mais de três bilhões de mulheres no mundo, de todas as cores e tamanhos, profissões e temperamentos, culturas e idiomas. O que podem ter em comum?

Já seria temerário tentar entender grupos pequenos e limitados, como alguém poderia entender “as mulheres”? Meia humanidade? Como alguém poderia achar isso possível? Como alguém poderia achar isso desejável? Será mesmo que entender alguém é o melhor que podemos fazer por essa pessoa?

Não, eu não entendo nada de mulher. Até porque eu não entendo ninguém. Não entendo nem a mim mesmo. Mais importante, não acho que entender seja desejável. Para que desejamos tanto entender? O que fazemos de bom com tanto entendimento?

Essa nossa ânsia por entender tem o mesmo ímpeto autoritário de outras ânsias, como definir, nomear, buscar a verdade.

Entender X nada mais é do que uma tentativa de simplificar X ao seu mais básico denominador comum, de modo a poder defini-lo e nomeá-lo e, assim, chegar à verdade sobre X. Mas esse processo de simplificação é, por definição, redutor e autoritário: você lança o seu olhar sobre X, ignora inúmeros aspectos relevantes (praticamente qualquer objeto é mais complexo do que sua explicação), constrói uma narrativa explicativa baseada somente nos aspectos específicos sobre os quais você decidiu se concentrar, e, por fim, crava-lhe um rótulo autoritativo, dizendo “A verdade sobre X é isso!”

Entender, definir, nomear e buscar ou articular uma verdade são todas operações autoritárias demais pra minha cabeça. Entender é reduzir, definir é matar, nomear é controlar.

Eu não tento entender ninguém. Eu observo, eu escuto, eu aceito. Tento me colocar na posição da outra pessoa e ver o mundo como ela vê.

Entender é um gesto de dominação e redução. Aceitar é um gesto de amor e generosidade.

* * *

De vez em quando, em conversa com namoradas, elas dizem, exasperadas:

“Ai, Alex, você não me entende!”

E minha resposta é sempre mais exasperante ainda:

“É, não entendo mesmo. Não entendo a mim. Não entendo o mundo. Não entendo as prioridades dos meus amigos, que fazem sacrifícios que eu jamais faria pra poder comprar coisas que eu jamais compraria. Não entendo nada. Vou entender logo você? Você teve outra vida. Tem outro temperamento. Outro corpo. Outros desejos. Você é um outro universo. Mas eu te aceito, eu te amo e estou aqui do seu lado.”

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a vida sem rastros

as cortinas azuis

As cortinas azuis do meu quarto foram instaladas pelo meu colega de casa Roberto em meados de 2007. Uma moça chamada Athena, de São Francisco, estava sublocando meu quarto durante aquele verão. Os verões em Nova Orleans são quentes e bate muito sol no meu quarto de manhã. Athena estava vulnerável, recém-saída de um mau relacionamento, e se apaixonou forte por Roberto. Ele não se apaixonou de volta, mas gostava dela e tentou não feri-la – óbvio que não deu certo. Foram amantes de verão. Transaram na minha cama e na dele. Em algum ponto, talvez em um gesto másculo de carinho protetor, talvez em um gesto egoísta para salvaguardar seu sono, Roberto instalou as cortinas azuis. (Nunca tive cortinas, pois gosto de dormir quando escurece e acordar quando fica claro. Não há despertador melhor do que o sol no rosto.)

Quando voltei para casa em agosto, depois de meses maravilhosos nos braços de Liloló, com anel no dedo e mais apaixonado do que nunca, Roberto já tinha se mudado e Athena (que nunca conheci) voltara para São Francisco. Roberto continuou meu amigo, foi pro Texas, morreu em julho de 2009 e faz muita falta na minha vida. Enquanto isso, nas minhas manhãs mais preguiçosas, as cortinas azuis continuaram sempre me protegendo do sol de Nova Orleans. Nunca conversei sobre Roberto sobre elas: agora me ocorreu que podem também ter sido um presente pra mim.

um grill

O George Foreman Grill na minha cozinha foi presente da Liloló. Pra eu comer mais proteínas e grelhados, e menos carboidratos. Um gesto de amor e cuidado para com seu homem. Não deu muito certo. Prefiro fazer os grelhados na frigideira. O grill é muito difícil de limpar: uso apenas para tostar bagels – ou seja, o inverso do objetivo. Também são presentes da Liloló um acendedor de fogão decorado com maçãs que parou de funcionar faz tempo, mas não joguei fora, e um avental verde e amarelo da Copa de 2006, cuja corda se rompeu, mas não joguei fora.

Liloló e eu nos separamos em janeiro de 2010, sem brigas, mas ela não fala mais comigo: é daquelas pessoas que acham que é melhor assim. Dói um pouco sempre. Dói muito de vez em quando. Os objetos que ela me deu ainda estão aqui, ainda úteis: a cada nova bagel tostada, é como se o amor dela ainda existisse e ainda me desse esse pequeno presente.

a vida sem rastros

Morei na minha casa atual por seis anos, entre 2006 e 2011. Foi sempre uma coisa provisória, só enquanto eu fazia meus estudos, roommates encontrados na Craigslist, sublocando o quarto para passar férias no Brasil. Na minha percepção emocional, sinto como se tivesse sido pouquíssimo tempo. (Em compensação, entre 2002 e 2004, os 22 meses que passei no apartamento onde vivi casado, onde fui delirantemente feliz, onde achei que seria para sempre, ainda me parecem tão vivos que quase posso fechar os olhos e voltar para lá.)

No dia primeiro de julho de 2011, me mudo de Nova Orleans para o Rio de Janeiro: saio dessa casa para não mais voltar, e deixo esses e muitos outros objetos para trás. A caneca da Tabasco que eu não queria que o Nate usasse. O pendurador de bananas enviado, decorado e desenhado pela minha mãe – pois nessa terra não se tem como amadurecer bananas direito. O wok e o liquidificador da Camila.

(Camila chegou em 2008, foi minha melhor amiga por dois anos e foi embora em 2010. Todo sábado, cozinhávamos juntos e víamos Seinfeld. Em 2009, meu presente de aniversário foi um wok. Essa cozinha ainda vibra com o eco das nossas vozes – mas é só porque falamos muito alto. Antes de sair do país, ela me legou seu liquidificador, que mais tarde meu roommate chef, o Nate, rachou tentando bater uma sopa quente. Continuamos usando o liquidificador rachado: em casa de pobre, se usa tudo até o limite. Camila hoje mora em São Paulo e, mês que vem, julho de 2011, eu vou ter a felicidade de estar no seu casamento.)

Nate também vai embora, depois de dois anos em Nova Orleans, tentar a sorte nas cozinhas de Nova Iorque.

A terceira colega de casa, Rebecca, que veio em janeiro de 2010, foi a última que escolhi pessoalmente: quando for embora, talvez daqui a alguns meses, talvez daqui a alguns anos, “Alexandre” vai passar a ser apenas um nome exótico em correspondências que não deveriam mais estar chegando.

Em poucos dias, vão haver duas novas pessoas nessa casa. Que vão comer e cozinhar, dormir e decorar, brincar e brigar. As cortinas azuis – penduradas com amizade, tesão ou egoísmo – vão protegê-las igualmente do sol. O grill da Liloló e o wok da Camila – dados ao amigo com quem se iria cozinhar ou ao homem que se queria cuidar – continuarão sendo usados, pra preparar pratos que eu talvez nunca tenha ouvido falar, por pessoas que nem conheço, conversando e rindo em línguas que eu talvez nem entenda.

Essas pessoas não vão saber a história desses objetos. Não vão saber qual foi dado com amor, com amizade, com tesão. Não vão saber que o Roberto um dia viveu, que a Liloló um dia me amou.

Meu lado historiador não gosta disso. Fico com raivinha dessas pessoas futuras e hipotéticas por ignorarem fatos tão importantes. Penso indignado que é assim que se perde a memória da humanidade. Tenho ganas de colar um post-it dizendo “Cortina pendurada por Roberto Rivera (1976-2009) no verão de 2007”.

Como se a vida só pudesse valer a pena se deixasse rastros, se produzisse memória.

Para essas novas pessoas, os objetos serão apenas objetos. Objetos velhos e já usados de uma casa que estão alugando por pouco tempo, dividindo com estranhos, enquanto terminam um curso, fazem um estágio, escrevem uma tese. Objetos pelos quais não se apegarão. Objetos que não terão problema algum em jogar fora quando pararem de cumprir seus objetivos.

Como tem que ser.

Pois que façam o que não tive coragem. Que usem sem apego. Que joguem fora. Que vivam o momento. E que sejam felizes. Menos quando não forem. E aí, então, depois de um tempo, que sejam felizes de novo.

Como tem que ser.

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se você se auto-proclama gênio…

… você provavelmente não é.

mas se você não se auto-proclama gênio, você provavelmente não é também.

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não é o seu cachorro que é racista

hoje, andando pela rua com o oliver, cruzamos por uma bela moça num carrinho de bebê e o oliver, pro meu imenso orgulho, fez festinha e tudo, cachorro charmoso que ele é. logo depois, cruzamos por um negão mal-encarado e o oliver, pra minha imensa vergonha, só faltou querer estraçalhar o moço, cachorro protetor que ele é. pedi desculpas e saí de fininho.

será verdade que cães podem ser racistas?

* * *

criamos os cães à nossa imagem e semelhança. passamos milênios selecionando geneticamente cães com base em um único critério: sua compatibilidade conosco. sua capacidade de nos ler, nos entender, nos servir, se adaptar a nós.

quando seu cão late para o moço da geladeira, não é porque ele é um bom juiz de caráter, ou sabe quando “tem alguma coisa errada”, ou possui poderes sobrenaturais, ou tem capacidade de “ler almas”. provavelmente, ele não está nem mesmo latindo em reação ao moço da geladeira em si. o seu cachorro não sabe negociar com técnicos, ele não conhece as dicas sutis de que um prestador de serviços está enrolando ou superfaturando um trabalho. quem sabe essas coisas é você.

o seu cão está reagindo à única coisa no mundo na qual ele é expert absoluto: você.  ele está reagindo a mudanças no seu corpo que são tão sutis que você nem mesmo percebe mas que ele consegue captar. batimentos acelerados, suor, diferença na voz, algum tique físico que reconhece como uma típica reação sua ao estresse súbito. seu cheiro, seus hormônios, seus humores, sua voz, seus gestos.

seu cachorro não tem poderes sobrenaturais, nem sabe nada que você não saiba melhor – com uma única exceção. seu cão sabe confiar em seus próprios instintos caninos e, inclusive, confia mais nos SEUS instintos primatas do que você mesmo, que provavelmente os racionaliza. você, ao mesmo tempo em que dá um inconsciente passo atrás em resposta a algo suspeito que fez o moço da geladeira, também pensa: “que besteira, estou sendo paranóico”.

seu cachorro, por outro lado, leva essas coisas a sério. e faz bem.

(esse trechinho parafraseia o livro as virtudes do medo, de gavin debecker.)

* * *

então, voltando ao exemplo inicial, não é o oliver que é racista, coitadinho.

sou eu que, mesmo sendo tão liberal e avançadinho, mesmo dando bom dia ao moço e não trocando de calçada (olha eu falando isso como se fosse grande vantagem!), ainda assim meu corpo deve tensionar, ainda assim eu devo me colocar em posição de alerta, ainda assim eu devo reagir ao homem como se ele fosse uma ameaça maior do que a mulher com o bebê.

e o oliver, que não é bobo, repara. e faz bem.

* * *

releia o primeiro parágrafo. o oliver nem precisaria estar presente: ele poderia ter latido para o “negão” só pela minha escolha de palavras.  é assim que falamos. nosso racismo exala pelos poros, pelas entrelinhas.

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seus emails sempre com você

Barra da Tijuca, bem ao lado da réplica da estátua da liberdade. Um outdoor. Jovem descolado, de sorriso perfeito e abotoaduras douradas, mostra seu modernoso celular e diz:

Seus emails, sempre com você.

Aquele outdoor me dava calafrios. Era uma ameaça:

Se você não se comportar, se não for um bom menino… seus emails vão estar sempre com você! Sempre! Entendeu? Você não vai poder desanuviar, desligar, desconectar… NUNCA MAIS! Onde você for, seus emails vão atrás, sempre piscando, sempre chegando, sempre acumulando, sempre exigindo respostas, sem parar, sem trégua, sem descanso, SEMPRE! SEUS EMAILS! SEMPRE COM VOCÊ!

Ao fundo, uma gargalhada demoníaca.

O apavorante é imaginar que, para o público-alvo da campanha, estar sempre com seus emails, longe de ser apavorante, é… desejável!

* * *

Ponto: o vídeo da música Eduardo e Mônica. Contraponto: A escravidão moderna é uma maravilha!, de Mouzar Benedito.

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o efeito encolhedor da arte

Enquanto Zé Celso dava uma palestra sobre sua trajetória, eu chorava baixinho na platéia.

Pela primeira vez na vida, chorei de vergonha. Não vergonha pelo que não conquistei, porque a gente não controla o que conquista. Chorei de vergonha por tudo o que não fiz e poderia ter feito. Por todas as vezes em que priorizei o meu conforto e minha segurança pessoal em detrimento da literatura e da arte. Por cada vez que aceitei dar mais uma aulinha, pegar mais um frilazinho, fazer mais uma traduçãozinha, tudo pra poder ter mais um dinheirinho e poder dar mais uma consumidinha, e por cada capítulo do meu romance que não escrevi porque estava ocupado me vendendo. Por todos os meus amigos e leitores que acham que eu sou ó tão aberto e ó tão artista, ó tão verdadeiro e ó tão inconsequente, e não sabem, tolinhos, que perto de alguém como o Zé, eu me sinto o burguesinho da Barra da Tijuca que nasci pra ser e que lutei tanto pra des-ser, reprimido e bem comportado, careta e consciencioso, sempre preocupado com seu próprio futuro e com seu conforto pessoal, arre!

A simples presença de alguém como o Zé me diminui e me envergonha. Sua própria existência é a prova de que é possível ser como ele e, se você não é, é porque não quis, é porque em algum momento do caminho você pegou o caminho errado, virou à esquerda em direção ao MBA ou à direita em direção ao leasing do Audi.

Agora, de repente, aqui em frente ao computador, eu começo a rir, porque percebo que estou parafraseando os meus próprios leitores, plagiando o email semanal que eu recebo falando mais ou menos a mesma coisa em relação a mim, e que me fazem acreditar minimamente que meus esforços ainda valem a pena, que ainda posso fazer diferença na vida de alguém. E agora entendo também aquelas pessoas que, basta eu falar como eu vivo a minha vida, me atacam com cinco pedras na mão, como se eu tivesse falado de suas vidas, como se tivesse falado com elas, como se as tivesse criticado, como se minhas escolhas invalidassem as delas. Será que eu as diminuo assim como o Zé me diminui? Será que minha vida também lhes dá a sensação de terem feito tudo errado?

A diferença é que eu amo o Zé por isso. Perto dele, eu me sinto pequeno porque sou pequeno mesmo. E um artista como o Zé, que se entregou à sua arte com uma loucura dionisíaca, faz muito mais do que somente me encolher: ele também me levanta. Ele me mostra que é possível viver uma outra vida, que existem outras alternativas, que a arte pode mais.

Andando por Nova Orleans com Zé Celso, ele roubando mexilhões do meu prato e me apalpando sem vergonha alguma, mostrando a bunda em restaurantes e abordando estranhos na rua, subitamente me dei conta que eu, sempre tão cool e imperturbável, eu que nunca tive ídolos nem heróis, estava pela primeira vez na em presença de alguém que eu sinceramente, profundamente admirava.

E é assim que eu fico. Meio atordoado. Meio bobo. Minúsculo.

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entrevistas

pra quê escrever ficção?

Meu irmão Biajoni fez a pergunta a vários escritores. Minha resposta:

Eu escrevo ficção porque sim. Porque não consigo não escrever. Se conseguisse, não escrevia. Mas sou fraco.

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Sempre que começo a chorar por um motivo, termino chorando por outro.

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aconchego no vazio

Em minha nova casa, não quero ter móveis, nem mesas, nem camas, nem objetos pessoais, nada. Minha vontade é deixar tudo para trás.

“Mas por quê?”, perguntou um amigo.

“Bem, acho que o acúmulo de bens e objetos nos impede de ver o essencial e de se focar no que é realmente importante.”

E ele me fez uma pergunta óbvia e provocadora:

“Ah, é? Mas então o que é realmente importante?”

E aquilo realmente me fez parar, sabe?, porque eu de fato não tinha uma resposta. Gosto desses momentos em que sou interpelado sem uma resposta pronta. É a hora de parar e pensar, reconsiderar e repriorizar. E respondi:

“Olha, também não sei o que é realmente importante, mas uma sala com sofá, carpete e TV tela plana com certeza não é.”

Dizem que minha casa é vazia, espartana, pouco aconchegante (“como é que você vai trazer mulherzinha pra uma casa que não tem nem cama nem água quente?!”), mas vejo aconchego no vazio.

O mundo lá fora já é tão atulhado, voluminoso, lotado: quero abrir minha porta de casa e ver uma sala ampla, deserta, silenciosa, com espaço para os meus pensamentos.

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fetichizar a vida

Todos guardamos objetos relacionados a momentos felizes do nosso passado.

Mas o objeto é só um objeto.

O momento feliz existe (ou não) em nossas memórias. Se o momento feliz está vivo dentro de nós, então o objeto é redundante. Se não está, então o objeto é inútil.

De um modo ou de outro, não há motivo para fetichizar nossas próprias vidas, projetando-a em objetos inanimados.

O momento feliz não está no objeto. Se jogarmos fora o objeto, o momento feliz não vai junto.

Podem experimentar.

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textos zen

você é o que você faz

Em resposta ao texto do roommate e da caneca, muitos amigos me disseram:

“Alex, não adianta nada você ficar se estressando com isso, essa coisa ficar te remoendo por dentro, e você não falar nada com seu roommate! O que importa de verdade é que isso te incomoda, te faz mal. O que importa é o que você SENTE!”

Eu amo meus amigos, mas deixa eu discordar: o que importa é o que eu FAÇO.

* * *

A Lei Não Tem Espírito: A Lei É a Lei

Outro dia, eu estava conversando com um amigo judeu ortodoxo sobre os truques para burlar o shabat. Para quem não sabe, no shabat (que vai do pôr-do-sol de sexta ao pôr-do-sol de sábado), os judeus não podem exercer nenhuma atividade produtiva ou criadora: o dia deve ser dedicado ao lazer com a família, ao estudo da Lei, à renovação das forças. Em princípio, a regra é essa, mas como a lei foi escrita há milhares de anos, os exemplos específicos incluem acender fogo, raspar couro, agrupar feixes, etc. (Lista completa.) Mais tarde, ao longo dos séculos, painéis de rabinos e sábios foram atualizando as regras. Por exemplo, como “cortar” é proibido, entende-se que é proibido cortar papel higiênico de um rolo ou separar lenço de papel quando um está preso ao outro! Não é à toa que, no sábado de manhã, em São Paulo, se veem tanto judeus ortodoxos por todos os lados: eles estão caminhando para a sinagoga, pois não podem dirigir automóveis. Também não podem fazer coisas como acender a luz ou apertar o botão de um elevador. Para burlar essas regras, surgiram uma série de truques: elevadores que funcionam continuamente, parando em todos os andares, e luzes acionadas por timers ou sensores de movimento. Esse texto, muito completo, comenta todas as 39 proibições e suas aplicações contemporâneas.

(Exemplo de um debate rolando no Parlamento Israelense hoje: grupos ortodoxos de direita querem proibir os computadores do governo de aceitarem pagamento de contas públicas durante o Shabat; grupos seculares de esquerda argumentam que é um absurdo impedir os cidadãos cristãos e muçulmanos de pagar sua luz pela internet no sábado! E por aí vai. Leia matéria completa na The Economist: That Wobbly Balance: Another Row Between the Religious and the Secular in Israel)

Para mim, do alto de minha imensa sabedoria e borbulhante conhecimento da tradição judaica, tudo aquilo era muito estranho e um pouco cínico. Pra começar, os sábios tinham se preocupado mais com a letra da lei do que com o seu espírito. Ok, quando a lei foi escrita, atividades como acender um fogo e escrever (pensem plumas, tintas, pergaminhos, vela) eram muito trabalhosas, etc. Para um judeu de hoje, acender uma luz elétrica, escrever um bilhete ou dirigir não é trabalho nenhum. Mais importante, se você pode dirigir e acender a luz, é provável que possa se divertir muito mais com sua família no Shabat – e não é essa a idéia? Qual é o sentido de continuar proibindo coisas que, hoje, já não dão mais trabalho algum? E, por outro lado, com seus truques sabáticos, me parecia que os judeus estavam tentando ser mais espertos que deus. Mas como se pode burlar a lei de um ser onipotente e onipresente, que tudo sabe e tudo vê, inclusive dentro do seu próprio coração?

Meu amigo riu e disse que eu estava com uma mentalidade muito greco-romana-cristã. Quem se interessa pela intenção do criminoso, ou pelo que passa no coração dos homens, é o sistema jurídico romano baseado em uma moralidade cristã. No judaísmo, o que importa é o que você faz. Deus não está interessado em minúcias. Ele disse que não pode acender fogo nesse período, mas nunca disse que eu não podia acender o fogo antes e deixá-lo aceso. Ponto. O que não foi proibido está potencialmente permitido. Se eu consegui acender o fogo e ainda assim obedecer à lei, melhor pra mim. Não existe “intenção” ou “espírito” da lei. A lei não tem espírito. A lei é a lei. Somos o povo do livro justamente porque, pela primeira vez na história, valia o ESCRITO.

* * *

A Existência Precede a Essência

Sartre ensina que nossa existência precede nossa essência. A frase é difícil de entender a princípio, e é muito mal citada, mas quer dizer somente o seguinte: ao contrário do que dizem as religiões (que temos uma essência, a alma, que é eterna e existe antes e vai existir depois da nossa existência terrena), Sartre diz que nós primeiro começamos a existir e, então, através de nossas escolhas, de nossos gestos, de nosso comportamento, lentamente construímos nossa essência. Ou seja, nossa essência não nos é dada, não é pré-determinada: ela é uma construção DIÁRIA nossa:

“… se Deus não existe, há pelo menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si próprio se fizer.”

A frase consta da palestra “O Existencialismo é um Humanismo“, dada por Sartre em Paris, em 1946 – logo após a guerra, após a ocupação, após tanta tragédia. É um dos textos mais lindos, mais inspiradores, mais otimistas, mais humanos que o nosso triste século XX produziu. No meu mundo ideal, seria leitura obrigatória pra todas as pessoas. Clique aqui e baixe o texto em um PDF gratuito: é curtinho e muito mais acessível do que os textos filosóficos mais rigorosos de Sartre.

* * *

Homem É Quem se Comporta como Homem

Judith Butler também afirma que não existe essência masculina ou essência feminina. Não existe “ser mulher” ou “ser homem”: nós construímos nossa identidade sexual diariamente, através de nossos atos. Desse modo, “ser homem” nada mais é do que simplesmente se comportar como a sociedade espera (ou determina) que homens se comportem. Não é à toa que muitos pais surtam quando veem seus filhos homens brincando com boneca: de um modo bem real e concreto, não é nem que brincar com bonecas pode fazer com que ele desenvolva tendências homossexuais no futuro, mas sim que brincar com bonecas faz dele, na prática, uma menina hoje, agora! “Ser menina” é exatamente isso.

Em “Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade” (1990), Butler ensina que atributos de gênero não são expressivos mas sim performativos e, portanto, esses atributos constituiriam de fato a identidade que pretendem expressar ou revelar. Em outras palavras, para Butler, ser homem ou ser mulher, ser heterossexual ou homossexual, não são categorias imanentes, pois não existiria uma essência, digamos, masculina que precederia a existência do indivíduo do gênero masculino: masculino seria quem se comporta de acordo com os padrões de comportamento culturalmente definidos como masculinos. Mais ainda, se não existe uma natureza pré-existente das identidades de gênero, então não existem atos sexuais verdadeiros ou distorcidos, e a própria noção de “gênero verdadeiro” revela-se uma manobra destinada a impor a dominação masculina e a heterossexualidade compulsória.

Mais uma vez, pouco importa essa sua tal “essência verdadeira” que ninguém nunca viu. O que determina quem você é são os seus ATOS.

* * *

Slave Is As Slave Does

No século XIX, a Constituição e o Código Civil brasileiros não definiam com clareza o que era um escravo – na verdade, nem o mencionavam, nem reconheciam sua existência. Sem isso, como poderia funcionar uma sociedade complexa e sofisticada como o Brasil oitocentista, uma cultura completamente bacharelista, uma economia totalmente dependente do escravo?

Se não existia definição de escravo, então também não existia essência de escravo. Ou seja, a escravidão não era um SER, era um FAZER. Não existia teoria, somente a prática. Escravo é quem agia como escravo, escravo é quem era escravizado. Consequentemente, quem não agia como escravo, quem não se deixava escravizar… não era escravo! Pois, afinal, tirando o agir como escravo, de que outra maneira saberíamos quem era escravo e quem não era?

Em outras palavras, ecoando Judith Butler, ser escravo era “uma performance”. Como diz Maria Helena Machado, em O Plano e o Pânico:

“a única prova cabal do ser escravo restringia-se ao fato básico de sua condição”.(27)

Ou, como diríamos em inglês, slave is as slave does.

Todas essas contradições vieram à baila em 1882, durante um processo judicial acontecido na Comarca de Caçapava, interior de São Paulo, onde os 80 escravos do falecido Major Francisco Alves Moreira entraram na justiça alegando não ser escravos… porque o dono não os tratava como escravos!

Leiam a história completa no texto: Definindo a Escravidão: Afinal, O Que É um Escravo?

* * *

O Tratamento Não É pra Você, É para os Outros

Por fim, narcisismo e ego são dois dos temas principais de um dos meus blogs favoritos, The Last Psychiatrist. No final de mais um texto sobre o assunto (“The Other Ego Epidemic“), ele responde ao pedido desesperado de um leitor:

“Help me, please, I think I’m a narcissist. What do I do?”

There are a hundred correct answers, yet all of them useless, all of them will fail precisely because you want to hear them.

There’s only one that’s universally effective, I’ve said it before and no one liked it. This is step 1: fake it.

You’ll say: but this isn’t a treatment, this doesn’t make a real change in me, this isn’t going to make me less of a narcissist if I’m faking!

All of those answers are the narcissism talking. All of those answers miss the point: your treatment isn’t for you, it’s for everyone else.

If you do not understand this, repeat step 1.”

Talvez seja simplesmente o melhor conselho que já ouvi na vida.

* * *

Luto diariamente contra duas forças: por um lado, narcisismo, vaidade, ego e, por outro, preguiça, omissão, inércia, apatia. Quase tudo o que faço na vida, eu faço por vaidade. Quase tudo o que eu não faço, não faço por preguiça. Antes de fazer qualquer coisa, eu me pergunto: estou fazendo isso só pra satisfazer meu ego? Antes de recusar qualquer coisa, eu me pergunto: estou deixando passar essa chance por pura preguiça? Gosto de pensar que tenho melhorado com a idade mas, é claro, só estou falando isso pra massagear meu próprio ego. A luta é inglória e não tem cura. “Bom dia, meu nome é Alex Castro e eu não faço nada por pura vaidade há doze horas” – e ninguém aplaude, senão estraga tudo.

Havendo ou não havendo deus, tanto os sábios do judaísmo quanto os ateus existencialistas, tanto as feministas pós-modernas quanto os abolicionistas militantes, parecem concordar em um ponto fundamental. Você será julgado pelos seus atos. Sua essência, sua personalidade, sua sexualidade, vão ser construídos pelas suas ações. Você é o que você faz, pois é através dos seus atos que você interage com o mundo.

E, como no sábio conselho do Last Psychiatrist, ninguém está muito interessado no que você pensa, no que você sente, em toda essa linda complexitude borbulhando dentro de você. Pouco importa se você odeia seu vizinho ou se sonha em comer o cú da própria filha. O que importa é o que você FAZ.

Então, voltando à pergunta inicial, com licença, mas eu posso até ser uma pessoa que se incomoda do roommate usar sua caneca preferida, mas eu não vou ser a pessoa que reclama com o roommate de ele estar usando sua caneca preferida. The treatment isn’t for you, it’s for everyone else. Amém.

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“alex, como faço para ser uma pessoa melhor?”

Muitos leitores admiram o meu “jeito de ser” – ou o jeito que digo que sou. Me escrevem dizendo que tentam ser menos mesquinhos, ciumentos, invejosos, e que é uma luta muito difícil. E me perguntam onde melhorar, o que fazer, como agir!

Eis algumas perguntas que me fazem:

eu quero passar por cima de toda a inveja que sinto de pessoas que conseguem o que eu não consigo. eu sempre acho que tou pra baixo, que sou menos… a partir de agora, vou aprender a sonhar meus próprios sonhos… obrigada.

Não consigo me desapegar da opinião dos outros com leveza. Se eu ficar nervoso consigo me desligar, mas aí não adianta. Só piora. Isso está me deixando louco. Fico com dor de cabeça. Alguma ideia de como fazer isso numa boa?

O que mais me irrita hoje é minha dificuldade de viver o momento, de vive-lo com leveza, bom humor, e de cagar pra opinião dos outros. Isso me deixa fisicamente doente, as vezes. Alguma idéia de como resolver isso?

O que fazer com os preconceitos que tenho e detesto, mas não consigo evitar?

E eu, que não escrevo livro de auto-ajuda, não sou guru e não tenho nenhuma resposta, conto a seguinte historinha.

* * *

Moro com dois roommates. Faz algum tempo, comprei uma caneca térmica transparente na loja da Tabasco – pra quem não sabe, Tabasco é uma marca aqui da Louisiana. Adoro minha caneca da Tabasco. Só bebo café nela.

De uns tempos pra cá, começou a sumir. Fui procurar e descobri que um dos roommates estava usando.

Me irrita bastante querer usar minha caneca e não poder. Afinal, não foi pra isso que eu a comprei? Para poder utilizá-la?

Toda vez que procuro minha caneca e não encontro, fico puto. Fico puto de verdade. Faço diálogos mentais de marchar quarto adentro do meu roommate e dizer coisas como:

“Olha só, vamos fazer um trato? Sim, todo mundo pode usar tudo de todo mundo, mas vamos combinar que cada um tenta usar prioritariamente as SUAS coisas e, se não estiverem disponíveis, as dos outros, ok?”

Com certeza, grande parte dos leitores concorda com minha irritação.

* * *

Pena que ela está errada. É babaca, pequena, mesquinha, egoísta.

O roommate não sabe que a caneca é minha, que eu me irrito que ele a use, que eu só bebo café nela: ele só sabe que não foi ele que comprou mas que ela está no armário junto com outras dez canecas que ele também não comprou. Como ela só some de vez em quando, ele não a usa sempre: deve simplesmente pegar a primeira que aparece e pronto.

Não, eu não uso nada dele. Teoricamente, os objetos de cozinha são de uso comum (facas, panelas, tupperware, canecas, etc), mas eu já tenho as minhas próprias coisas, não preciso usar as de ninguém.

Meu roommate é uma pessoa ótima, linda, aberta, carinhosa, generosa. Um cara realmente desapegado. Trabalhava em uma financeira, num emprego pacato e seguro, largou tudo pra ir fazer escola de culinária, e depois, veio pra Nova Orleans trabalhar no melhor restaurante da cidade, trazendo apenas a bagagem que cabia no seu carro. Ele usa minha caneca porque nem tem a dele.

Imagino que não haveria nenhum problema em falar sobre isso. Tenho certeza absoluta de que ele não teria nenhuma reclamação. Ele é americano, respeita a propriedade privada!

“Olha, sabe como é, eu gosto dessa caneca, só tomo café nela, de vez em quando eu procuro e não encontro, você poderia tentar usar as outras antes de usar essa? Na boa?”

Mas eu não vou falar nada. Porque o problema sou eu.

O problema não é meu roommate (gente boa pra caralho, que outro dia quase deu 50 dólares pra uma velha trambiqueira numa cadeira de rodas) abrir o armário e pegar a primeira caneca que vê pela frente. O problema sou eu ter qualquer tipo de apego a um objeto de plástico vagabundo, que custou 6,99 dólares mais taxes, sem qualquer valor intrínseco ou sentimental.

Eu não quero ser a pessoa que regula uma caneca. Eu não quero chegar pro meu roommate, com a mão das cadeiras e voz irritada, e pedir pra ele por favor não usar a MINHA caneca! Eu não quero aparecer no Passive-Agressive Notes, com um bilhetinho “vamos cada um usar suas próprias canecas?”

Eu não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque eu não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque 99,99% de tudo o que acontece no universo (provavelmente mais) está fora do meu controle, mas eu pelo menos ainda tenho controle sobre algumas coisas: eu é que decido se eu vou ser a pessoa babaca e cri-cri que vai reclamar de estarem usando sua caneca.

Poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. A maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio. Mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. Todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. Ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. É uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

Quer ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta? Então, seja.

Ser quem você quer ser é o mínimo que deve a si mesmo. Se você não é nem isso, então você não é nada.

* * *

O texto continua em Você É o que Você Faz

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As Prisões

As prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem-sentido:

(Para os encontros, clique aqui.)

Verdade
Dinheiro
Trabalho
Privilégio
Monogamia
Religião
Patriotismo
Obediência
Sucesso
Felicidade
Autossuficiência
Conhecimento
Eu

* * *

A fonte de todas as prisões é o nosso próprio autocentramento e a única solução é mais atenção e mais cuidado. Por isso, proponho alguns Exercícios de Atenção:

1. Praticar um olhar generoso
2. Dar-se conta das pessoas
3. Ver na sua totalidade
4. Ouvir com atenção plena
5. Cultivar o não-conhecimento
6. Exercer a não-opinião
7. Não ser a constante
8. Colocar-se em outra pessoa
9. Escolher agir com cuidado
10. Visualizar o privilégio

* * *

As Prisões (trechos)

* * *

Prisão Verdade

A Verdade não é um valor inquestionável, mas sim uma ferramenta: útil em algumas ocasiões, inútil em outras.

As verdades que carrego dentro de mim foram ensinadas por pessoas que erravam e mentiam. Quando verbalizo uma dessas verdades, estou canalizando suas opiniões e seus preconceitos.

Por isso, hoje, em vez de tentar aprender novas verdades, busco me livrar das antigas.

Quando encontro uma Verdade em meu cérebro que não sei de onde veio, eu pergunto: “tenho certeza disso?”

(Leia a Prisão Verdade.)

* * *

Prisão Religião

Religião é ideologia, ideologia é religião.

Não é que a religião seja um tipo de ideologia. Não é que a ideologia funcione como se fosse uma religião.

É que religião e ideologia são a mesma coisa: teorias abrangentes que utilizamos para fazer sentido da realidade, sejam elas o cristianismo ou o candomblé, o neoliberalismo ou o marxismo, o método científico ou a psicanálise freudiana.

Todas as pessoas, inclusive eu e você, enxergamos o mundo através de uma ou mais ideologias, e não há nada de errado nisso. (Pelo contrário, é impossível ser a-ideológico.)

É só quando não conseguimos enxergar além das barras de nossa ideologia que ela pode se
tornar uma prisão.

Infelizmente, quase ninguém consegue: a gente não acredita no que quer, mas no que PODE.

Um telescópio pode ser usado para enxergar galáxias a milhares de anos-luz de distância, mas nunca poderá ser usado para enxergar a si mesmo. Toda ideologia/religião dá conta de explicar o universo, mas não dá conta de explicar a si mesma.

(Leia a Prisão Religião.)

* * *

Prisão Monogamia

A monogamia é uma prisão quando não é vista como uma escolha.

Afirmar que a monogamia é uma prisão não é uma crítica às pessoas que escolheram viver relacionamentos monogâmicos.

É uma crítica à monogamia enquanto sistema institucional hegemônico quasecompulsório, vendido por nossa sociedade, pelas religiões, pelas famílias e pelas comédias românticas como a única opção possível e concebível para se relacionar e constituir família, tachando de imorais, doentes e antiéticos todo e qualquer arranjo amoroso-sexual não-monogâmico.

Esse sistema nos convence de uma série de “verdades”. Entre elas, que só se pode amar uma pessoa de cada vez; que se amarmos realmente a-pessoa-que-está-conosco, nunca sentiremos tesão por outra; que as pessoas em um casal precisam suprir todas as necessidades afetivas, sexuais, emocionais, etc, uma da outra.

Mas nem todas as pessoas são assim.

Existem pessoas que, de fato, só amam uma pessoa de cada vez (e elas estão muito felizes em seus relacionamentos monogâmicos) mas também existem muitas que amam mais de uma pessoa de cada vez (e essas estarão mais felizes em relacionamentos nãomonogâmicos).

Quando as pessoas entram em um relacionamento monogâmico não porque escolheram a monogamia entre um sem-número de possíveis arranjos não-monogâmicos que poderiam ter escolhido, mas simplesmente porque nunca se deram conta de que havia opções possíveis fora da monogamia, então, sim, nesses casos a monogamia pode ser uma prisão.

(Leia a Prisão Monogamia.)

* * *

Prisão Trabalho

O trabalho não é, por definição, aprisionante e terrível.

Somos seres construtores, produtivos. Idealmente, o trabalho nos permite dar vazão ao nosso afã criador e, ao mesmo tempo, ganhar o dinheiro que precisamos para viver nossa vida e realizar nossos projetos pessoais.

Muitas vezes, entretanto, o trabalho custa caro: ele suga quase toda nossa energia vital e nos dá somente uns míseros tostões em troca.

Nesses casos, sim, o trabalho é uma prisão.

(Leia a Prisão Trabalho.)

* * *

Prisão Dinheiro

O dinheiro não é o vilão.

Ele nos permite viver, realizar nossos sonhos, e até salva nossa vida quando precisamos.
Ter dinheiro é uma das formas mais concretas de ser livre.

Entretanto, se o colocamos no centro de nosso universo, ele pode sim se tornar uma prisão.

(Leia a Prisão Dinheiro.)

* * *

Prisão Privilégio

Estamos algemadas à Prisão Privilégio quando simplesmente nos recusamos a encarar e reconhecer nossos privilégios, mesmo quando eles estão em nossa cara, gritando e bufando.

Quando pergunto se as pessoas são ricas, elas ou dão respostas abstratas (“sou rico em oportunidades”) ou negam (“olha, eu até ganho bem, mas não me considero rica porque não consigo comprar tudo o que eu quero.”).

Ninguém acha que é rica, ou que é privilegiada, pois isso acarretaria obrigações sociais que queremos evitar, uma autoimagem da qual fugimos.

O privilegiado é sempre um outro.

(Leia a Prisão Privilégio.)

* * *

Prisão Patriotismo

É deliciosa a sensação de irmandade que nos acolhe quando estamos em nossa terra, cercadas de iguais, praticando nossos costumes, ouvindo nossa língua, nosso sotaque.

É reconfortante fazermos parte de um estado-nação que nos reconhece como pessoas cidadãs, que garante nossos direitos humanos fundamentais, que nos fornece um passaporte aceito por outras nações.

Infelizmente, essa nossa sensação de comunidade, que não é menos real, concreta e verdadeira por ter sido imaginada, fabricada, construída, muitas vezes nos leva a odiar ou desprezar as outras pessoas que não nasceram no nosso chão, que tem outros costumes, outras línguas, outros sotaques.

Então, se amamos exaltadamente essas abstrações políticas imaginárias, com seus simbolozinhos e musiquinhas; se nos dispomos a matar e morrer por elas; se engolimos acriticamente o discurso nacionalista-excludente do “ame-o ou deixe-o”, então, sim, o patriotismo pode ser uma prisão.

(Leia a Prisão Patriotismo.)

* * *

Prisão Obediência

Existem muitas ilusões às quais nos apegamos para poder funcionar como pessoas humanas.

Uma das maiores delas é a de que existe algo que possamos fazer para não encherem mais o nosso saco, para a família parar de se meter em nossa vida, para o mundo finalmente ficar satisfeito com nossas escolhas.

Mas não existe.

O mundo é como um namorado ciumento. Se usarmos uma saia mais longa, ele não vai ficar satisfeito com sua namorada obediente e pudica: vai querer mandar no nosso decote.

A obediência, além de ser uma prisão, simplesmente não funciona.

(Leia a Prisão Obediência.)

* * *

Prisão Sucesso

Muitas pessoas buscam fugir da mediocridade e ambicionam o sucesso.

Mas… fugir de qual mediocridade? Ambicionar qual sucesso?

Quando nossa definição de mediocridade é externa, quando nossos critérios de sucesso não foram escolhidos por nós, então até mesmo ser bem sucedida pode ser uma prisão.

Talvez as pessoas mais bem-sucedidas sejam justamente as mais medíocres.

Talvez a resposta seja transcender essa dicotomia cartesiana entre sucesso e mediocridade.

(Leia a Prisão Sucesso.)

* * *

Prisão Felicidade

Nossa própria felicidade individual é vendida de forma quase unânime por nossos pais, por nossa cultura, por nossa publicidade, até por grande parte de nossas filosofias e religiões, como sendo o mais importante objetivo último da vida de qualquer pessoa.

Por isso, para muitas de nós, é extremamente difícil perceber que essa felicidade compulsória pode ser uma prisão, e ainda mais difícil conceber que podem existir outros objetivos de vida igualmente válidos.

Uma amiga explicou que, para ela, sua felicidade individual era o critério que utilizava para saber se uma coisa era boa ou não. Por exemplo:

“Ajudo ou não a minha amiga? Qual é a opção que me fará uma pessoa mais feliz? Acho que serei mais feliz se ajudá-la, logo ajudá-la é bom.”

Do ponto de vista de minha amiga, se excluísse a felicidade como fim último, não teria como saber se uma ação possível a se tomar era boa ou não, ou se as consequências dessa ação eram desejáveis ou não.

A Prisão Felicidade é justamente isso: não é escolhermos a felicidade como o objetivo último de nossas vidas (afinal, todas temos o direito de vivermos em função do que quisermos) mas sim não conseguimos enxergar nenhum outro objetivo último possível para nossas vidas que não seja a nossa própria felicidade individual.

Se não existe opção à felicidade, então a felicidade, automaticamente, por definição, é uma prisão.

(Leia a Prisão Felicidade.)

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Os Exercícios de Atenção

Poucos conselhos são mais canalhas do que “seja você mesma”. A maioria dos problemas do mundo veio de pessoas que estavam simplesmente “sendo elas mesmas”.

Mais importante do que sermos nós mesmas é sermos quem queremos ser.

Todas as forças do universo nos impelem a nos conformar, a aceitar as regras do mundo, a ceder, nos moldar. Ser a pessoa que queremos ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. É uma luta diária, surda, interna, contra nossos próprios preconceitos, nossas mesquinharias, nossos egoísmos.

Ser quem queremos ser é o mínimo que devemos a nós mesmas. Se não somos nem isso, então não somos nada.

Decidir ser uma pessoa mais empática, entretanto, é fácil.

Ser de fato uma pessoa mais empática, todos os dias, sistematicamente, é muito mais difícil.

Daí os exercícios de empatia. Afinal, já exercitamos tanta coisa, da memória ao abdômen, por que não a empatia?

(Leia os Exercícios de Atenção.)

* * *

Para vir aos encontros “As Prisões”, clique aqui.

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Os Favoritos de Alex Castro

Entrevista concedida a Simone Magno, para o Tempo de Letras, da Rábio CBN, em 28 de junho de 2010.