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textos

o cão

hoje de manhã, oito horas, copacabana. duas senhorinhas com cara de crente me abordam na porta do metrô.

o senhor sabia que vai haver uma mudança de governo na terra?

respondo com meu tom de voz mais polido, educado, agradável:

oi. bom dia. infelizmente, não estou interessado. eu sou adorador de satanás e vou pro inferno.

a senhorinha olha pra baixo, o oliver ali mais lindo do que nunca, feliz e sedutor com suas botinhas pretas de andar na rua, e tenta articular sua surpresa, algo tipo “como pode um satanista ter um cachorro tão lindo”, mas antes que ela  possa falar, eu completo:

e foi ele que me converteu. esse cão.

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entrevistas

minha maior qualidade

encontrei aqui nas minhas notas. entrevista para jornal universitário. não anotei o nome, não sei se saiu.

mas eis a última pergunta, e a minha resposta:

E, para finalizar, qual característica pessoal sua você destacaria como a que te ajuda a seguir em frente?

Como todo ser humano, eu tenho uma capacidade ilimitada de denegação e auto-ilusão. Então, contra todas as evidências, mesmo sabendo que não consegui nada na vida, mesmo sabendo que o futuro é provavelmente uma morte dolorosa e então o desaparecimento, mesmo viajando pelo universo sem deus a bordo de uma bola de pedra, ainda assim, eu continuo acreditando em mim, continuo achando que vai tudo dar certo. Ser humano é isso.

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zen

se você está em busca da felicidade, já está fazendo errado.

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rio de janeiro

diálogos insondáveis da ponte aérea

Disse o paulista:

– Orra, véi, puta filme fodido, tá ligado?

Responde o carioca:

– Caraca, brother, muito sinistro mesmo, valeu?

E a grande dúvida: gostaram ou não do filme?

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textos

o que é literatura

em minha não-ficção (inclui meus livros de crônicas radical rebelde revolucionário e liberal libertário libertino), a linguagem é somente uma ferramenta para o enredo ou para o argumento. ela é trabalhada cuidadosamente, mas apenas para melhor transmitir o conteúdo sendo expresso. a linguagem, em si, não é uma atração. o texto não-ficcional não chama atenção para o fato de ser texto: idealmente, ele é invisível.

em minha ficção (inclui meu romance mulher de um homem só e meu livro de contos onde perdemos tudo), a linguagem é parte integrante do espetáculo. o texto literário é aquele que não quer ser transparente: ele lembra ao leitor, o tempo todo, de que a linguagem é uma convenção humana, uma criação traiçoeira. a literatura é complexa e sempre se apresenta em forma de enigma: quanto mais parece simples, menos o é. se for, ou não é literatura ou você perdeu alguma coisa.

enquanto a historinha acontece na superfície (o príncipe dinarmarquês que vê um fantasma, o homem que vira inseto, o defunto que narra do pós-tumulo), muito mais coisa acontece abaixo, em camadas mais e mais profundas, no espaço vazio entre as letras, nas entrelinhas: o texto literário é justamente aquele que não se limita a contar uma historinha.

todo texto literário também tem algo de poesia: as palavras não transmitem apenas um conteúdo, elas são o conteúdo. o som, o ritmo, a voz, as lacunas, as aliterações, as metáforas, tudo é proposital. em um texto literário, até os hífens são deliberados: cada palavra conta, principalmente as não ditas.

o sentido do texto de não-ficção é o argumento exposto ou a história narrada. já o texto literário é aquele que borbulha de sentido em cada vírgula.

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textos

Dicionário

FaronzadoAdjetivo e substantivo masculino. Aquele que foi ou sofreu faronzamento.

FaronzadorAdjetivo e substantivo masculino. Aquele que pratica o faronzamento, de forma amadora ou profissional.

FaronzamentoSubstantivo. Ato ou ação de faronzar.

FaronzarVerbo intransitivo. Realizar o faronzamento.

FaronzívelAdjetivo de dois gêneros. Que pode ser faronzado.

FaronzoSubstantivo masculino. Brincadeira na qual dicionaristas competem para ver quantos verbetes conseguem compor, todos remetendo uns aos outros, sem nunca revelar o significado da palavra sendo dicionarizada. Ganha quem causar mais suicídios em revisores, tradutores, escritores.

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textos

a sensação do trabalho

um colega e eu tínhamos que ler o mesmo romance para uma aula. ele pegou o livro, sentou numa mesa, espalhou cuidadosamente seus marcadores, cadernos, post-its. eu me larguei num sofá, fumando um cachimbo.

perguntei: “não vai querer sentar?”

ele: “não. se fico num sofá e não numa mesa, eu não sinto como se estivesse realmente trabalhando.”

eu: “curioso. é exatamente por isso que eu fico no sofá.”

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textos

quem eu era e quem eu sou

há dez anos, em julho de 2002, quando ainda assinava outro nome, criei um site de escritor. seu objetivo era divulgar meu romance mulher de um homem só e meu livro de contos onde perdemos tudo, ambos oferecidos para download gratuito. para falar um pouco de mim, escrevi um “quem sou eu”.

em uma enorme ironia, esse texto sobre arte e originalidade foi copiado e plagiado justamente pelas pessoas que mais gostaram dele e que menos entenderam sua mensagem.

a busca por algumas frases esparsas revela milhares de resultados: “aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho” (9.840), “assunto tende a brochar por aí” (1.870), “não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou” (61.800), “Ser artista independe de fazer arte” (2.430), “Quando me dei conta disso, chutei o balde” (1.230), “Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo” (1.100), “Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida” (3.460), etc. (escrevi sobre isso aqui e aqui.)

o texto foi se modificando ligeiramente ao longo dos dez anos de uso. abaixo, algumas versões:

Quem eu era em 2003

Meu nome é Alexandre Cruz Almeida e tenho 29 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alexandre. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa, à qual me dedicara exclusivamente por três anos, e fui dar aulinhas de inglês em cursinhos vagabundos. Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Leio, escrevo e passeio, exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Recomendo a todos ler meu romance, Mulher de um Homem Só, disponível pra download abaixo. Ele é curtinho, tem 50 páginas, e eu adoraria saber sua opinião. Se tiver tempo e gostar muito do romance, leia também os contos de Onde Perdemos Tudo, mas comece pelo romance.

Esse blog é sobre liberdade e literatura e sobre o processo de libertação pelo qual venho passando desde que chutei meu balde e abracei um estilo de vida diferente. Tudo regado a muito humor e literatura.

Espero que esteja gostando da visita, e que volte ainda muitas outras vezes.

Um grande abraço,

Alexandre Cruz Almeida

Quem eu era em 2006

Meu nome é Alex Castro e tenho 32 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alex. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa e fui dar aulinhas de inglês. Casei e separei. Escrevi e rasguei. Chupei e lambi.

Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Faço pão e fumo cachimbo. Beijo pezinhos e brinco com o cachorro. Leio, escrevo e passeio. Exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Hoje, tenho uma bolsa de estudos no exterior e morro de saudades dos amores que deixei no Brasil. Sou feliz.

O meu blog, Liberal, Libertário e Libertino, é sobre o processo de libertação pelo qual venho passando desde que chutei meu balde e abracei um estilo de vida diferente. Atualizado todo dia, com muito humor e literatura.

O site onde você está agora funciona como o arquivo dos meus melhores textos, sobre diversos assuntos. A maioria dos leitores prefere as prisões. Dê uma passeada e veja o que acha. Depois, me conte.

Por fim, se quiser ler mais, considere comprar meu livro de contos Onde Perdemos Tudo. É baratinho e você vai estar retribuindo um autor batalhador por todas as suas horas prazeirosas (espero!) de leitura aqui no site.

Um grande abraço,

Alex Castro
Nova Orleans, Novembro de 2006

Quem eu era em 2011

Meu nome é Alex Castro e tenho 37 anos.

Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.

Hoje, sou só Alex. E olhe lá. E quando me perguntam o que eu faço, adoro quando perguntam o que eu faço, eu respondo que como, durmo e transo. O assunto tende a brochar por aí.

Na verdade, também sou artista, escritor. Ser artista independe de fazer arte, assim como ser romancista independe de escrever romances. Ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação à contemplação. Artista não é menos artista se nunca tiver composto uma canção ou escrito um ensaio. A primeira obra de arte do artista é a sua vida. Eu costumava escrever pra ser feliz, mas se já sou feliz sem precisar escrever, vou escrever pra quê?

Quando me dei conta disso, chutei o balde. Larguei minha empresa e fui dar aulinhas de inglês. Casei e separei. Escrevi e rasguei. Chupei e lambi.

Antes não tinha tempo pra nada, agora tenho tempo pra tudo. Faço pão e fumo cachimbo. Beijo pezinhos e brinco com o cachorro. Leio, escrevo e passeio. Exploro, transo e experimento.

Dia a dia, componho minha obra-prima: minha vida. Quando sobra tempo, escrevo. E escrevo melhor do que jamais escrevi.

Sou feliz.

Aqui, você pode comprar os livros, ler algumas das resenhas que receberam, conferir as entrevistas que dei e até ler uma palhinha dos contos. Qualquer dúvida, grite.

Um grande abraço,

Alex Castro

Nova Orleans, junho de 2011

* * *

hoje, esse texto já não me não serve. discordo de seus pontos mais fundamentais.

por isso, faço a doação em vida: que passe a pertencer a quem dele se apropriar e que viva eternamente em perfis de sites de namoro e em quem-sou-eus de blogs teens.

abaixo, minha nova biografia. talvez não poética, mas madura.

Quem sou eu em 2012

sou alex castro. por enquanto. em breve, nem isso.

estudei em boas universidades que não menciono para não ser pedante. vivi coisas lindas que não conto pois não vêm ao caso. passei por aventuras perigosas que não revelo para proteger os envolvidos. amei mulheres incríveis que não nomeio pois seria deselegante.

cheguei aos 38 e descobri que minha vida, apesar de vivida em público há tantos anos, tem mais entrelinhas que linhas.

e com razão. proteger quem dividiu comigo sua intimidade é mais importante do que toda a literatura do mundo. que diferença podem fazer meus diplomas? esse site é para divulgar a minha obra, mas pouco importa quem a escreveu.

escrevo. e esses são meus livros.

alex castro

copacabana, março de 2012

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textos

deixados pelo caminho

ontem, recebi uma amiga que não me visitava desde 2002.

nessa época, eu ainda não tinha conhecido o oliver, era casado e morava com a esposa em um quarto e sala em jacarepaguá. uma casa montadinha. cozinha completa. lavadora e secadora. armários. arquivo suspenso. quadros na parede. presentes de casamento.

hoje, os livros na estante e um sobretudo na arara são os únicos objetos remanescentes dessa minha outra vida.

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textos

a vida, pesada

aos 38, finalmente entendo quem desiste do amor.

para muitas pessoas, essa decisão pode ser o ponto ótimo de equilíbrio entre uma libido cada vez mais enfraquecida e um acúmulo de más experiências cada vez mais paralisante.

não estou lá ainda — mas agora entendo.

hoje, minha capacidade de amar me parece um velho número de telefone que costumava saber de cor. você não sente a existência dele no seu dia-a-dia, mas quando puxa, ele vem — até o dia em que descobre, muito para sua surpresa, que aquela gaveta mental está vazia. 345 ou 355? já não sabemos mais.

algo com que sempre contei não está mais comigo. algo que pode voltar em dois meses, ou dois dias, ou nunca, me deixando pra sempre um velho tio solteirudo.

e, pior, feliz e satisfeito em sua decisão de desistir do amor.

* * *

“Ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma. E para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa, pois tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros nos vários rebanhos. (…) Há no mundo ódio a exceção e ser si mesmo é ser exceção.” (Roberto Freire, em sua Autobiografia)

* * *

minha vida, que sempre foi tão leve, ficou pesada pela primeira vez — e estou tentando recuperar o homem que sempre fui, um dia de cada vez.

mas ser você-mesmo, ser o você-mesmo-que-você-quer-ser, é um exercício diário, constante, sisifeano. é um contínuo perguntar:

o que o alex-que-eu-quero-ser faria agora?

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textos

metas para 2012

falar mais baixo.

não brigar com a mãe.

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entrevistas

Entrevista de Alex Castro à Rachel Glickhouse

Entrevista concedida a Rachel Glickhouse, do blog RioGringa, a 21 de fevereiro de 2012.

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textos

16 anos

menino de 16 anos, namorando menina de 14, relacionamento super complicado, brigas com pai dela, maior drama, e eu ouvindo aquilo tudo, e ele me pede um conselho, “alex, o que eu faço? me diz!” e eu, deus que me perdoe, mas, sinceramente, a única coisa que conseguir dizer foi, “não tenha 16 anos. ter 16 anos é uma merda“.

* * *
hoje faço 38. recomendo.

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entropia

sou ateu porque preciso

confesso: acredito viver no melhor universo possível.

não suportaria existir em um universo regido por uma força divina misteriosa e caprichosa.

não suportaria saber que minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou eterno sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos, de acordo critérios inescrutáveis definidos por um ser para o qual sou menos que uma ameba.

se existe deus, então todos os esforços da humanidade para se entender e se auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada valem. se existe deus, então não existe ética ou moralidade: somente adequação ou não às regras impostas por essa divindade.

se existe deus e temos o livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e pode ser tirada tão facilmente quanto.

se existe deus, então a vida não tem nenhum sentido. quem tem sentido é deus e o nosso sentido provém dele. não somos mais do que suas cobaias, manipuladas daqui pra lá, correndo como hamsters em rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros propósitos. ao seu bel-prazer, somos mortas, escravizadas, santificadas, até mesmo afogadas em massa, quando falha o experimento.

se deus não existe e o universo é aleatório e sem sentido, a humanidade está livre para criar, através de suas ações e de seus pensamentos, de suas obras e de suas vontades, dia a dia, século a século, o seu próprio sentido.

por outro lado, se deus existe, o universo já tem sentido, um único sentido, o sentido que vem de deus, o sentido que está dado, e só cabe a nós descobrir esse sentido e viver de acordo com ele.

se deus existe, não há criação de sentido possível. não temos como ressignificar o mundo, a humanidade, o cosmos. não temos como dar sentido nem a um botão de rosa.

para mim, esse sim é um universo no qual não valeria a pena nem sair da cama.

* * *

talvez deus realmente exista. talvez sejamos todas somente marionetes em seu projeto cósmico.

mas, ainda assim, prefiro inverter a aposta de pascal. se não tenho a liberdade de dar sentido à minha vida, melhor então a ilusão da liberdade do que nada.

* * *

sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das evidências empíricas, que não existe base factual para sustentar a existência de deus.

sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser humano em um universo sem deus.

sou ateu porque preciso.

a gente não acredita no que quer, a gente acredita no que pode.

* * *

algumas pessoas às vezes me perguntam:

“então, você está vivo para quê?”

“para nada,” eu respondo. “para absolutamente nada. só estou vivo. não basta?”

a pessoa insiste:

“qual é o sentido da sua vida, então?”

“nenhum”, eu respondo. “absolutamente nenhum. só estou vivo. não basta?”

algumas vezes, a pessoa desafia:

“então, por que não se mata?”

além de ser uma pergunta agressiva e mal-educada, confesso que nunca entendi bem essa provocação. é como se eu estivesse gostosamente me balançando em uma rede e alguém perguntasse:

“se você sabe que vai ter que levantar daí inevitavelmente, por que não se levanta agora?”

mas a resposta me parece simples e auto-evidente:

“eu não me levanto agora porque agora estou muito bem aqui me balançando na rede.”

então, não me mato agora porque agora estou muito bem aqui vivo, comendo pipoca e me masturbando, indo à praia e lendo freud, essas coisas que uma pessoa faz quando está viva. não me mato porque quero ler o próximo romance do lobo antunes e ver o próximo filme do almodovar. não me mato porque tenho pelo menos umas quatro peças de teatro e uns cinco romances na cabeça que ainda quero escrever.

mesmo em um universo aleatório e sem deus, por que essas prosaicas razões não deveriam ser suficientes para uma pessoa não se matar?

quando chegar a hora de levantar, eu levanto. quando chegar a hora de morrer, eu morro.

até lá, aproveito.

* * *

uma amiga me perguntou:

“como alguém, um ser humano, consegue suportar a ideia de que, a qualquer sopro malfadado do destino, pode morrer e simplesmente sumir? nunca mais sentir, amar, sorrir, brigar, pensar, existir? … para a minha pobre consciência simplesmente e inadmissível deixar de existir.”

mas… se tudo acaba, se até mesmo o sol vai acabar, por que seria justamente eu a não acabar nunca? por que eu seria tão importante assim? aliás, por que a questão da minha existência seria minimamente importante? por que eu deixar de existir é mais ou menos dramático do que um coelho deixar de existir?

passei a existir no momento no tempo que convencionamos chamar de 1974 mas, antes disso, eu não-existi por um período literalmente infinito. e não foi ruim. não doeu. não foi desagradável.

muito em breve, voltarei a não-existir por um período infinito de tempo. se não era ruim antes, por que seria ruim depois? por que ter medo de voltar a um estado que já experimentei e que não foi ruim?

na verdade, considerando o tempo que passamos existindo e o tempo que passamos não-existindo, nosso estado natural é a não-existência.

existir seria apenas um breve soluço, um glitch, um bug, dentro de uma perfeita, plena e eterna condição de não-existir.

somos todos seres inexistentes que, por um acaso, existem.

mas não por muito tempo.

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textos

o lado cômico do edifício master

Aprendi muito sobre natureza humana durante o documentário Edifício Master.

Os entrevistados contaram coisas sérias e profundas, expuseram suas vidas frente às câmeras. E a platéia riu.

Quando não eram gargalhadas, era aquele silêncio de tsc tsc, aquele silêncio de coitadinha, aquele silêncio de que moça iludida. A empatia (sic?) do público oscilava entre escárnio e pena, sem meios-termos.

Edificio MasterFace ao estranho e ao novo, face às idiossincrasias de pessoas comuns, seus erros de gramática, suas ilusões e seus medos, o público ria de se descabelar, como se diante de um novo personagem do Casseta & Planeta: primeiro o Massaranduba, depois o Seu Creysson, agora a moça agorafóbica, com problemas mentais aparentemente sérios, que fala de modo muito estranho, nunca olha pra câmera e faz poemas em inglês aliás perfeito. A platéia parecia uma claque, de tanto que ria: ficaram faltando só os aplausos quando o personagem entra em cena e, claro, um bordão. Mais um novo personagem pro imaginário popular, tão engraçado quanto o Capitão Gay ou o Professor Raimundo.

A medida que a moça falava, entretanto, o riso foi se abafando, como se baixasse a convicção incômoda de que ih não, ela é de verdade, agora que lembrei, não posso rir, não tem graça. Uma das pessoas que estava comigo até comentou que só se sentiu mal mesmo de ter rido dessa moça. Mas riu. E não riu sozinha.

O humor se baseia em surpresa, inversão de expectativas e, principalmente, crueldade. Um dos axiomas do humor é que, pro público gargalhar, alguém tem que se estar dando mal. Não existe gargalhada do bem.

A grande diferença é que essa moça não é um quadro da Praça É Nossa. Ela é real, e não estava contando algo pra fazer rir, estava falando do seu namorado, de seus poemas, de Nova Orleans, de sua vida e do seu futuro.

Os artistas se expõem, por dever de ofício, ao escárnio público. Ou à glória pública. Ou ao mais absoluto descaso público. O artista é aquele pobre coitado da quermesse, que coloca sua cara no buraco e se expõe às tortas dos visitantes atiram. E quem lhe acertar bem no nariz, ainda ganha um ursinho. O artista que surtar quando seu trabalho for ridicularizado deveria ter estudado odontologia, como seu avô queria.

O artista sabe o quanto está se expondo.

Os entrevistados do Edifício Master sabiam?

Acho que não. Falaram com uma simplicidade e uma sinceridade que não dedicamos nem aos nossos psicanalistas. Falaram de coisas sérias e profundas e, com certeza, nunca lhes ocorreu que aquelas coisas sérias e profundas, ditas com seriedade e profundidade, seriam ouvidas com algo que não fosse seriedade e profundidade. Falaram sério e esperaram ser levados a sério. Será que ouviram as gargalhadas?

O diretor Eduardo Coutinho disse ter feito o possível, durante a edição, para minimizar o patético, pra não expor ao ridículo aquelas pessoas que, com ingenuidade até, haviam se aberto tanto pra ele. Eu acredito. O filme, hora alguma, estimula o patético ou enfatiza o risível. Mas, mesmo assim, no lugar dele, eu teria ficado desesperado.

Eu teria levantado no meio da sessão, parado tudo, mandado acender as luzes. E ficaria gritando, pregando no deserto, desesperado, dizendo não, gente, não é assim, não é isso que eu quis mostrar, isso não tem graça, essa velhinha é uma pessoa maravilhosa, o que ela falou é sério, muito sério, vocês não vêem?

Iriam rir dele também.

(Originalmente publicado em 2002.)

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raça rio de janeiro textos

a nódoa da escravidão

Um dia, enquanto passeava com o Oliver aqui pelo meu bairrinho universitário classe média em Nova Orleans, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:

The South Will Rise Again (“O Sul se Erguerá de Novo”)

Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.

E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.

Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo “O Brasil Crescerá” despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.

Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas… por que não? A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul dos EUA teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.

Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.

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diálogo nas escadas

Descendo as escadas do meu prédio, encontro uma senhora sentada nos degraus, fumando.

“Boa noite!”, eu digo.

Empolgada, ela responde automaticamente:

“Boa noite!”

Mas logo depois pensa um pouco e se corrige:

“Boa tarde, na verdade!”

Ao ouvir aquilo, me dou conta que são onze da manhã e falo:

“Na verdade verdadeira, bom dia! Mas tudo bem, domingo é mesmo o dia de esquecer da rotina, dos dias, das horas.”

E ela:

“Hoje é sábado.”

“Então realmente não sei mais porra nenhuma.”

E desci.

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cada coisa na sua hora

Existem fases na vida em que as experiências se acumulam com tanta velocidade e intesidade que é impossível conseguir tempo e paz para escrever sobre elas.

Existe fases na vida onde o tédio é tão absoluto que não há outro modo de tornar a vida tolerável a não ser escrevendo.

Se na primeira fase você se forçar a parar de viver para sentar e escrever, você não terá experiências sobre as quais escrever.

Se na segunda fase você se forçar a tirar o pijama e ir ver o sol brilhar lá fora, você nunca conseguirá escrever sobre as experiências que viveu.

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amor silencioso

Na última parada antes da ponte Rio-Niterói, entra um casal no ônibus.

A menina vem se sentar no mesmo banco que eu. Baixa, branca, bonita. Pintinha nos lábios e flor nas sandálias.

O menino fica em pé ao seu lado. Negro, alto, bonito. Camiseta branca e boné vermelho.

Ambos surdos-mudos, ambos claramente apaixonados. Eles se beijam, se tocam, se gesticulam, totalmente absortos um no outro.

Junto com eles, entra também um mendigo de muletas, absolutamente imundo, incrivelmente fedido, definitivamente bêbado.

Senta-se do outro lado do corredor, em frente à menina, e começa a gritar impropérios sem dono. A zoeira é tanta que não consigo nem mesmo ler. À minha volta, todos estão visivelmente contrariados e incomodados. Rangem os dentes, tapam os narizes.

Enquanto o ônibus atravessa a belíssima baía de Guabanara, o mendigo gritando e os passageiros sofrendo, o casal se beija completamente impermeável ao mundo lá fora. Fechados em uma bolha de silêncio e amor.

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multidão de boa-vontade

hoje, na marquês de abrantes, em frente ao senac.

uma senhora está falando ao telefone e, de repente, seus joelhos fraquejam e ela cai bem devagar. todos a volta correm até ela.

segundo me disseram, era uma funcionária do próprio senac e tinha acabado de ser informada. o menino de camisa branca, andando pela calçada na hora errada no local errado, morto pela explosão da manhã, era seu sobrinho.

fiz menção de ajudar, mas não foi necessário. ela foi lentamente levada de volta ao senac, amparada por uma verdadeira multidão de boa vontade.